OS PENSADORES

HI

PLATÃO

DIALOGOS

O BANQUETE - FÉDON- SOFISTA - POLÍTICO

E Traduções de: JOsE CAVALCANTE DE SOUZA (O Banquete) JORGE PALEIKAT E JOÃO CRUZ COSTA (Fédon, Sofista, Político)

. EDITOR: VICTOR CIVITA

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Títulos originais: Suurootov (O Banquete) Paidwv (Fédon) Doytorns (Sofista) Ioirikós (Político)

1.º edição Novembro 1972

o - Copyright desta edição, 1972 Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo Traduções publicadas sob licença de: Difusão Européia do Livro, São Paulo (O Banquete) Editora Globo S.A., Porto Alegre (Fédon, Sofista, Político)

SUMARIO

OL BANQUETE uns oia E AGO ea mg in q E Ra Ra 7 RERON O no e Made aa ab o RO RO DR RD ca OR A DR PR 61 SORISTTAS are a A Ee Ra o aca sn ERR 135 POLITICO ricas lie ie Cabo ca DR OR ND CEARA CN RE CPE A RAE ARS 205

O BANQUETE

Texto, tradução e notas

Para a presente tradução servi-me dos textos de J. Bumet, da Bibliotheca Oxo- niensis (Oxford) e de L. Robin, da coleção “Les Belles Lettres”. Como comecei a trabalhar com o primeiro, serviu-me ele naturalmente de primeiro fundamento, ao qual apliquei algumas lições do segundo, que é mais recente! e que oferece um aparato crítico bem mais rico. O confronto dessas duas excelentes edições possi- bilitou-me mesmo a apresentação de um terceiro texto, que representa uma tenta- tiva de aproveitamento do que elas têm de melhor, e que espero poderá ser um dia aproveitado numa edição bilingue. Na impossibilidade de o fazer agora, julgo todavia que não será de todo fora de interesse, sobretudo para a apreciação da tradução, prestar algum esclarecimento sobre a maneira como se preparam as edições modernas dos textos gregos.

O estabelecimento de um texto grego antigo é um trabalho a primeira vista altamente maçante, sem dúvida alguma árduo, mas afinal capaz de suscitar pro- fundo interesse e mesmo empolgar o espírito de quem se disponha a abordá-lo. Um editor moderno encontra-se em face de várias edições anteriores, de uma profusão de manuscritos medievais, de alguns papiros e uma quantidade de cita- ções de autores antigos. Tudo isso perfaz a tradição do texto que ele se dispõe a reapresentar. Numa extensão de dois mil e tantos anos, as vicissitudes da história

fizeram-na seccionar-se em etapas com desenvolvimento próprio, sob o qual se dissimulam os sinais de sua continuidade. Assim, ele tem que levar em conta uma tradição antiga, uma tradição medieval e mesmo, podemos acrescentar, uma tradição moderna. Cada uma delas reclama um tratamento especial, a se efetuar todavia sempre em correlação com as demais.

Os documentos que lhe vao servir de base são os da tradição medieval, os: manuscritos. 4 quantidade destes é considerável para uma boa parte dos autores gregos, mas seu valor é naturalmente desigual. Impõe-se um trabalho de seleção e classificação em que se procure o liame perdido da tradição antiga, e em que portanto o testemunho dos papiros e das citações dos autores antigos podem muitas vezes ser de grande préstimo. Além desse cotejo precioso com os restos 1 De 1929, enquanto que a de Burnet é de 1901. (N. do T.)

10. PLATÃO

da tradição antiga, muitas vezes é a ciência da iradição moderna, iniciada com as primeiras edições do Renascimento, que corrige as insuficiências das duas tra- dições precedentes. Através dos dados e instrumentos de interpretação dessas três tradições é que se exerce o esforço para reconstituir o texto que possa repre- sentar o mais possível o próprio texto de um autor dos séculos V ou IV, por exemplo, esforço capaz, como foi dito acima, de estimular poderosamente a curiosidade intelectual.

No que se refere a Platão?, contam-se atualmente 150 manuscritos de suas obras. Sem dúvida, sua seleção e classificação se encontra em estabelecimento mais ou menos definitivo, depois do trabalho sucessivo de vários editores e críti- cos, a partir do Renascimento. À medida que se foram sucedendo as edições, foi- se elevando o número dos manuscritos consultados e colacionados, o que eviden- temente complicava cada vez mais o trabalho crítico. Essa dificuldade culminou com a atividade extraordinária de Immanuel Bekker, que no começo do século XIX colacionou 77 manuscritos, sobre os quais baseou sua edição, provida de dois volumes de Commentaria Critica, aparecidos em 1923º..

Os críticos e editores seguintes sentiram então a necessidade de simplificar o aparato crítico resultante de um tão grande acervo de documentos, que pode- - ria estorvar, em lugar de facilitar o seu uso proveitoso. Foi então que surgiu a idéia de remontar à origem dos manuscritos medievais e de, em função dessa ori- gem, proceder à sua classificação. Tal projeto tomou logo a forma de uma procu- ra do arquétipo, isto é, do manuscrito da tradição antiga do qual proviriam todos os manuscritos medievais. Em função do arquétipo foram os manuscritos agru- pados em famílias, cujas características procurou-se explicar pelas várias lições que ele apresentava, em notas abaixo ou à margem do texto. As variantes do arquétipo denotariam, assim, que se tratava de uma edição erudita, e portanto representante das melhores correntes da tradição antiga do texto platônico. Tais correntes estariam, desse modo, representadas pelas várias famílias de manus- critos medievais, e assim, por conseguinte, teríamos garantida a continuidade entre a tradição antiga e a moderna, aparentemente quebrada.

À luz dessa teoria foi possível a utilização metódica dos manuscritos. Agrupa- dos em famílias, apenas os melhores, os mais representativos de cada uma delas

“foram tomados para colação e referência. De uma primeira destaca-se o Bodleia- nus 39, da Biblioteca de Oxford, também chamado Clarkianus, do nome do mineralogista inglês, Edw. D. Clarke, que o adquiriu juntamente com outros do mosteiro de Patmos, em começos do século XIX. Esse manuscrito data do fim

“do século IX ou do começo do seguinte, e contém apenas o primeiro dos dois volumes que geralmente perfazem, nos manuscritos, as obras completas de Pla- tão. Os aparatos críticos desde Schanz, um.dos grandes estudiosos do texto platônico, assinalam-no com a sigla B. Uma segunda família tem dois principais representantes, que se complementam; o Parisinus gr. 1807 (sigla A), da mesma época que o Bodleianus, e que ao contrário deste tem apenas o segundo volume;

2 Todas as informações sobre o texto de Platão foram tiradas do belo livro de Alline, Histoire dis Texte de Platon, Edouard Champion, 1915. (N. do T.) 3 Essa edição é a vulgata dos aparatos críticos. V. Alline, op. cit., p. 317. (N. do T.)

O BANQUETE 7

eo Venetus, append. class. 4, n.º 1 (sigla T), da Biblioteca de S. Marcos de Vene- za, que parece derivar-se do primeiro e data do fim do século XI ou começo do seguinte. Enfim, uma terceira família é representada pelo Vindobonensis 54, sup- plem. philo. gr. 7 (sigla W), que data provavelmente do século XII.

Qualquer outro manuscrito porventura utilizado no estabelecimento de um texto será sempre a título suplementar e como representante de uma tradição especial dentro de uma das três famílias acima referidas. Por exemplo, no caso do Banquete, enquanto Burnet utiliza apenas os manuscritos B, Te W, Robin serve-se, além desses, do Vindobonensis 21 (sigla Y), cujas lições em parte se aproximam da tradição AT, em parte da de B. Ao lado desses manuscritos*, os nossos dois editores conferem também o Papyrus Oxyrhynchus n.º 843, que con- tém um texto integral do Banquete, a partir de 201 a 1. A esses textos de base acrescentam-se as citações dos autores antigos (que com o Papyrus Oxyrhyn- chus representam a tradição antiga, designada também de indireta pela crítica) e as correções dos críticos e editores modernos. É esse o material que figura num aparato crítico, condensado em algumas linhas abaixo do texto.

As edições de Burnet e de Robin apresentam em seu texto muitas concordân- cias. Ambas se efetuaram ao termo de uma longa evolução da crítica de texto, e em consequência trazem ambas um traço comum que as diferencia da maioria das edições do século XIX, e que é uma acentuada prudência na adoção das cor- reções modernas, abundantes entre os editores do século anterior. O aparato crí- tico de ambas, particularmente o de Robin, bem mais rico a esse respeito, bem uma idéia disso. O texto de Robin, quanto a escolha das lições, parece-mais conservador ainda que o de Bumnet, mais respeitador da tradição dos manuscri- tos, o mesmo não ocorrendo porém quanto à pontuação do texto e à disposição dos parágrafos, que ele procura apresentar a moda dos livros modernos. Tal procedimento, justificável aliás diante da irregularidade que os manuscritos apre- sentam a este respeito como aliás a tradição antiga ——, se tem a vantagem da clareza, muitas vezes afeta o estilo ou mesmo o sentido de certas passagens do texto. A dissimulação do estilo é particularmente sensível aqui no Banquete, nos discursos de Pausânias e de Alcibíades, em que uma pontuação moderna reduz os longos períodos do primeiro e disciplina as frases naturalmente desordenadas do segundo. Esse motivo levou-me afinal a conservar o texto de Burnet como base, embora adotando um maior número de lições de Robin.

Em algumas dificuldades da tradução vali-me das traduções francesas de L. Robin (“Les Belles Lettres”) e de Emile Chambry (Edições Garnier), assim como em uns poucos casos da tradução latina de B. B. Hirschig, da coleção Didot. Todavia, cumpre-me declarar, com o risco embora de parecer incorrer em peca- do de fatuidade, o prazer especial que me deu a versão direta do texto grego ao vernáculo, cujas genuínas possibilidades de expressão me parecem ofuscadas e ameaçadas no tradutor brasileiro de textos gregos e latinos pelo prestígio das grandes línguas modernas da cultura ocidental. É bem provável que a presente

4 As correções que esses manuscritos apresentam são indicadas por Burnet com a letra minúscula (b, t, w) e por Robin com as mesmas maiúsculas. mas com o expoente 2 (B2, T2, W2). (N. do T.)

a E A de. à mam Sa

12 PLATÃO

tradução nada tenha de excepcional, e que o seu autor, em muitos torneios de fra- ses e em muita escolha de palavra, tenha sido vítima da falta de disciplina e de tradição que está porventura alegando nesse setor da nossa atividade intelectual. No entanto, em alguma passagem ele terá talvez acertado, e esse parco resultado poderá dar uma idéia do que seria uma reação especial nossa a um texto helêni- co, que conhecemos geralmente através da sensibilidade e da elucubração do francês, do inglês, do alemão, etc. Nossa língua tem necessariamente uma malea- bilidade especial, uma peculiar distribuição do vocabulário, uma maneira pró- pria de utilizar as imagens e de proceder as abstrações, e todos esses aspectos da sua capacidade expressiva podem ser poderosamente estimulados pelo verda- deiro desafio que as qualidades de um texto grego muitas vezes representam para uma tradução. A linguagem filosófica sobretudo, e em particular a linguagem de Platão, oferece sob esse aspecto um vastíssimo campo para experiências dessa natureza. Alguns exemplos do Banquete ilustram muito bem esse tipo especial de dificuldades que o tradutor pode encontrar e para as quais ele acaba muitas vezes recorrendo às notas explicativas. No entanto, se estas são inevitáveis numa tra- dução moderna, não é absolutamente inevitável que sejam as mesmas em todas as línguas modernas. Fazer com que se manifestasse nesta tradução justamente a diferença que acusa a reação própria e o caráter de nossa língua, eis o objetivo sempre presente do tradutor.

Quanto às pequenas notas explicativas, dão elas naturalmente um rápido esclarecimento sobre nomes e fatos da civilização helênica aparecidos no con- texto do Banquete, mas o que elas almejam sobretudo é ajudar à compreensão desta obra platônica, ao mesmo tempo em seus trechos característicos e em seu conjunto. Alguns anos de ensino de literatura grega levaram-me à curiosa cons- tatação da impaciência e desatenção com que uma inteligência moderna um diálogo platônico. Quem quiser por si mesmo tirar a prova disso, procure a uma primeira leitura resumir qualquer um desses diálogos, mesmo dos menores, e de- pois confira o seu resumo com uma segunda leitura. Foi a vontade de ajudar o leitor moderno nesse ponto que inspirou a maioria das notas.

Finalmente devo assinalar que, não obstante a modéstia de conteúdo e de proporções deste trabalho, eu não teria sido capaz de efetuá-lo sem a constante orientação do Prof. Aubreton, cujas observações levaram-me a sucessivos reto- ques, particularmente na tradução e na confecção das notas. A ele, por conse- guinte, quero deixar expressos, com a minha admiração, os mais sinceros agradecimentos.

J. C. de Souza

172 a

Apolodoro! e um Companheiro

APOLODORO

Creio que a respeito do que que- reis saber não estou sem preparo. Com efeito, subia eu pouco à cidade, vindo de minha casa em Falero?, quando um conhecido atrás de mim avistou-me e de longe me chamou, exclamando em tom de brincadeira?: “Falerino! Eh, tu, Apolodoro! Não me esperas?” Parei e esperei. E ele dis- se-me: “Apolodoro, pouco mesmo eu te procurava, desejando informar- me do encontro de Agatão, Sócrates,

Alcibiades, e dos demais que então assistiram ao banquete*, e saber dos seus discursos sobre o amor, como foram eles. Contou-mos uma outra pessoa que os tinha ouvido de Fênix, o filho de Filipe, e que disse que também tu sabias. Ele porém nada tinha de claro a dizer. Conta-me então, pois és o mais apontado a relatar as palavras do teu companheiro. E antes de tudo,

1O interlocutor de Sócrates não está só. (N. do T.)

2 Porto de Atenas, ao sul do Pireu, a menos de 6 km da cidade. (N. do T.)

3 A brincadeira consiste no tom solene da inter- pelação, dado pelo patronímico e pelo emprego do demonstrativo em vez do. pronome pessoal. (N. do T.)

4 Literalmente, jantar coletivo. Depois da refei- ção propriamente dita é que havia o simpósio, i.e., “bebida em conjunto”, acompanhado das mais variadas diversões, entre as quais as com-

petições literárias. (N. do T.)

continuou, dize-me se tu mesmo esti- veste presente aquele encontro ou não.” E eu respondi-lhe: “É muitíssimo provável que nada de claro te contou o teu narrador, se presumes que foi pouco que se realizou esse encontro de que me falas, de modo a também eu estar presente. Presumo, sim, disse ele. De onde, ó Glauco?, tornei-lhe. Não sabes que muitos-anos Agatão não estã na terra, e desde que eu frequento Sócrates e tenho o cuidado de cada dia saber o que ele diz ou faz, ainda não se passaram três anosº? Anteriormente, rodando ao acaso e pensando que fazia alguma coisa, eu era mais miserável que qualquer outro, e não menos que tu agora, se crês que tudo se deve fazer de preferência à filosofia” 8. “Não fi- ques zombando, tornou ele, mas antes dize-me quando se deu esse encontro”. “Quando éramos crianças ainda, res- pondi-lhe, e com sua primeira tragédia

5 Entre a data da realização do banquete (v. infra 1732) e a da sua narração por Apolodoro medeiam portanto muitos anos. Tanto quanto um indício cronológico, essa notícia vale como uma curiosa ilustração da importância da me- mória na cultura da época. V. infra 173 b e cf. Fédon, 57 a-b (N. do T.)

6 O entusiasmo de Apolodoro, raiando o ridí- culo, constitui sem dúvida o primeiro traço do retrato que o Banquete nos de um Sócrates capaz de suscitar desencontradas adesões, e nes- se sentido é uma hábil antecipação da atitude de Alcibíades, também ridícula, mas noutra perspectiva. Cf. infra 222 c-d (N. do T.)

173 a

14 PLATÃO

Agatão vencera o concurso”, um dia depois de ter sacrificado peia vitória, ele e os coristas?. Faz muito tempo então, ao que parece, disse ele. Mas quem te contou? O próprio Sócrates? Não, por Zeus, respondi-lhe, mas o que justamente contou a Fênix. Foi um certo Aristodemo, de Cidateneão, pe- queno, sempre descalço”; ele assistira à reunião, amante de Sócrates que era, dos mais fervorosos a meu ver. Não deixei todavia de interrogar o próprio Sócrates sobre a narração que lhe ouvi, e este me confirmou o que o outro me contara. Por que então não me contas-

te? tornou-me ele; perfeitamente apro-

priado é o caminho da cidade a que falem e ouçam os que nele transitam.”

E assim é que, enquanto caminhá- vamos, faziamos nossa conversa girar sobre isso, de modo que, como disse ao início, não me encontro sem preparo. Se portanto é preciso que também a vós vos conte, devo fazê-lo. Eu, aliás, quando sobre filosofia digo eu mesmo algumas palavras ou as ouço de outro, afora o proveito que creio tirar, ale- gro-me ao extremo; quando, porém, se trata de outros assuntos, sobretudo dos vossos, de homens ricos e negociantes, à mim mesmo me irrito e de vós me apiedo, os meus companheiros, que pensais fazer algo quando nada fazeis. Talvez também vós me considereis infeliz, e creio que é verdade o que pre- sumis; eu, todavia, quanto a vós, não presumo, mas bem sei.

COMPANHEIRO -— Es sempre o mesmo, Apolodo-

7 Em 416, no arcontado de Eufemo. V. supra nota 5. (N. do T.)

8 Os que formavam o coro de sua tragédia. (N. do T.) EG

9 Tal como o próprio Sócrates (v. infra 174a). Sem dúvida, outra indicação do fascínio que Sócrates exercia sobre os amigos. (N do T.)

|

ro! Sempre te estás maldizendo, assim como aos outros; e me pareces que assim sem mais consideras a todos os outros infelizes, salvo Sócrates. e a começar por ti mesmo. Donde é que pegaste este apelido de mole, não sei eu; pois em tuas conversas és sempre assim, contigo e com os outros esbra- vejas, exceto com Sócrates.

APOLODORO

Caríssimo, e é assim tão evi- dente que, pensando desse modo tanto de mim como de ti, estou eu delirando e desatinando?

COMPANHEIRO Não vale a pena, Apolodoro,

brigar por isso agora; ao contrário, o que eu te pedia, não deixes de fazê-lo; conta quais foram os discursos.

APOLODORO Fcram eles em verdade mais ou

menos assim... Mas antes é do come- ço, conforme me ia contando Aristo- demo, que também eu tentarei contar- vos.

Disse ele que o encontrara Sócrates, banhado e calçado com as sandálias, o que poucas vezes fazia; perguntou-lhe então onde ia assim tão bonito.

Respondeu-lhe Sócrates: Ao jan- tar em casa de Agatão. Ontem eu o evitei, nas cerimônias da vitória, por medo da multidão; mas concordei em comparecer hoje. E eis por que me embelezei assim, a fim de ir belo à casa

-de um belo. E tu disse ele que tal

te dispores a ir sem convite ao jantar?

Como quiseres tormnou-lhe o outro.

Segue-me, então continuou Sócrates -— e estraguemos o provér-

bio, alterando-o assim: “A festins de

174 a

O BANQUETE | 15

bravos"º, bravos vão livremente.” Ora, Homero parece não estragar mas até desrespeitar este provérbio; pois tendo feito de Agamenão um homem excepcionalmente bravo na

guerra, e de Menelau um “mole lancei- ro”, no momento em que Agamenão fazia um sacrifício e se banqueteava, ele imaginou Menelau chegado sem convite, um mais fraco ao festim de um

mais bravo!?.

Ao ouvir isso o outro disse: É provável, todavia, ó Sócrates, que não como tu dizes, mas como Homero, eu esteja para ir como um vulgar ao fes- tim de um sábio, sem convite. então, se me levas, o que deves dizer por mim, pois não concordarei em che- gar sem convite, mas sim convidado por ti. |

Pondo-nos os dois a caminho!2 disse Sócrates decidiremos o que dizer. Avante!

Após se entreterem em tais conver- sas, dizia Aristodemo, eles partem. Só- crates então, como que ocupando o seu espírito consigo mesmo, caminhava atrasado, e como o outro se detivesse para aguardá-lo, ele lhe pede que avan-

10 Ilíada, XVII, 587, “de bravos” (êyaswv) coin- cide com o nome do poeta Agatão ('Ayadcv') , O provérbio homérico fica estragado, primeira- mente por se subentender de Agatão, e também pelo fato de o próprio Sócrates se qualificar de bravo, contra o hábito de sua irônica modéstia. (N. do T.)

11 A “mais fraco” e “matís bravo” correspondem no texto grego simplesmente os comparativos de “ruim” e “bom”. Tal relação deixa-nos ver assim, sob a capa de uma crítica ao grande poe- ta, o aspecto fundamental do pensamento de Sócrates, i.e., sua constante referência à idéia do bem. Outra indicação dramática, sem dúvida, que preludia a doutrina da atração universal do bom e do belo. V. infra 205d-e. (N. do'T.)

12 Outra alteração de um verso homérico tam- bém tornado proverbial (Ilíada, X, 224), em que apbo roi (= um pelo outro) é substi- tuído por mpo 6600 (= a caminho). (N. do T.)

ce. Chegado à casa de Agatão, encon- tra a porta aberta e lhe ocorre, dizia ele, um incidente cômico. Pois logo vem-lhe ao encontro, de dentro, um dos servos, que o leva onde se recli- navam'* os outros, e assim ele os encontra no momento de se servirem; logo que o viu, Agatão exclamou: Aristodemo ! Em boa hora chegas para

- Jantares conosco! Se vieste por algum

outro motivo, deixa-o para depois, pois ontem eu te procurava para te convi- dar e não fui capaz de te ver. Mas... e Sócrates, como é que não no-lo trazes?

Voltando-me então prosse- guiu ele em parte alguma vejo Só- crates a me seguir; disse-lhe eu então que vinha com Sócrates, por ele convi- dado ao jantar.

Muito bem fizeste disse Aga- tão; mas onde está esse homem?

pouco ele vinha atrás de mim; eu próprio pergunto espantado onde estaria ele.

Não vais procurar Sócrates e trazê-lo aqui, menino! 4? exclamou Agatão. E tu, Aristodemo, reclina- te ao lado de Eriximaco.

Enquanto o servo lhe faz ablução para que se ponha à mesa, vem um outro anunciar: Esse Sócrates reti- rou-se em frente dos vizinhos e parou; por mais que eu o chame não quer entrar.

E estranho o que dizes excla- mou Agatão; vai chamá-lo! E não

“mo largues!

Disse então Aristodemo: Mas não !

13 Em longos divãs, que geralmente comporta- vam dois convivas, às vezes três. (N. do T.)

14 Agatão está falando a um servo, tal como muitas vezes um patrão entre nós fala com em- pregado. (N. do T.)

175 a

16 " PLATÃO

Deixai-o! É um hábito seu esse! 5: às vezes retira-se onde quer que se encon- tre, e fica parado. Virá logo porém, segundo creio. Não o incomodeis por- tanto, mas deixai-o.

Pois bem, que assim se faça, se é teu parecer tornou Agatão. E vocês, meninos, atendam aos convivas. Vocês bem servem o que lhes apraz, quando ninguém os vigia, O que jamais fiz; agora portanto, como se também eu fosse por vocês convidado ao jan- tar, como estes outros, sirvam-nos a fim de que os louvemos.

Depois disso continuou Aris- todemo puseram-se a jantar, sem que Sócrates entrasse. Agatão muitas vezes manda chamá-lo, mas o.amigo não o deixa. Enfim ele chega, sem ter demorado muito como era seu costu- me, mas exatamente quando estavam no meio da refeição. Agatão, que se encontrava reclinado sozinho no últi- mo leito! º, exclama: Aqui, Sócra- tes! Reclina-te ao meu lado, a fim de que ao teu contato desfrute eu da sábia idéia que te ocorreu em frente de casa. Pois é evidente que a encontraste, e que a tens, pois não terias desistido antes.

Sócrates então senta-se e diz: Seria bom, Agatão, se de tal natureza fosse a sabedoria que do mais cheio escorresse ao mais vazio, quando um ao outro nos tocâssemos, como a água 15 É curiosa essa explicação de um hábito so- crático a amigos de Sócrates, tanto mais que, um pouco abaixo (dl-2), Agatão revela estar familiarizado com ele. Isso denuncia a ficção platônica, e em particular a intenção de sugerir desde a. capacidade socrática para as longas concentrações de espírito, como a que Alcibia- des contará em seu discurso (220c-d). (N. do T.) 16 Os divãs do banquete se dispunham em for- ma de uma ferradura. No extremo esquerdo fi- cava o anfitrião, que punha à sua direita o hós-

pede de honra. É o lugar que Agatão oferece a Sócrates. (N. do T.)

dos copos que pelo fio de escorre! ? do mais cheio ao mais vazio. Se é assim também a sabedoria, muito aprecio reclinar-me ao teu lado, pois creio que de ti serei cummulado com uma vasta e bela sabedoria. A minha seria um tanto ordinária, ou mesmo duvidosa como um sonho, enquanto que a tua é brilhante e muito desenvol- vida, ela que de tua mocidade tão intensamente brilhou, tornando-se an- teontem manifesta a mais de trinta mil gregos que a testemunharam..

És um insolente, ó Sócrates disse Agatão. Quanto a isso, logo mais decidiremos eu e tu da nossa sabedoria, tomando Dioniso por Juiz! º; agora porém, primeiro apron- ta-te para o jantar.

Depois disso continuou Aris- todemo reclinou-se Sócrates e jan- tou como os outros; fizeram então libações e, depois dos hinos ao deus e dos ritos de costume, voltam-se à bebi- da. Pausânias então começa a falar mais ou menos assim: Bem, senho- res, qual o modo mais cômodo de bebermos? Eu por mim digo-vos que estou muito indisposto com a bebe- deira de ontem, e preciso tomar fôlego e creio que também a maioria dos senhores, pois estáveis lá; vêde então de que modo poderiamos beber o mais comodamente possível.

Aristófanes disse então: É bom o que dizes, Pausânias, que de qualquer modo arranjemos um meio de facilitar

17 Sem dúvida um processo de purificação da água. Aristófanes (Vespas, 701-702) refere-se ao mesmo processo, mas com relação ao óleo. (N. do T.)

18 Patrono dos concursos teatrais e deus do vi- nho, Dioniso é apropriadamente mencionado por Agatão como o árbitro natural da próxima competição entre os convivas, no simpósio pro- priamente dito. (N. do T.)

e

176 a

O BANQUETE 17

a bebida, pois também eu sou dos que ontem nela se afogaram.

Ouviu-os Eriximaco, o filho de Acú- meno, e lhes disse: Tendes razão! Mas de um de vós ainda preciso ouvir como se sente para resistir à bebida; não é, Agatão?

Absolutamente disse este também eu não me sinto capaz.

Uma bela ocasião seria para nós, ao que parece continuou Erixí- maco para mim, para Aristodemo, Fedro e os outros, se vós os mais capa-

zes de beber desistis agora; nós, com

efeito, somos sempre incapazes; quan- to a Sócrates, eu o excetuo do que digo, que é ele capaz de ambas as coi- sas e se contentará com o que quer que fizermos!º. Ora, como nenhum dos presentes parece disposto a beber muito vinho, talvez, se a respeito do que é a embriaguez eu dissesse o que ela é, seria menos desagradável. Pois para mim eis uma evidência que me veio da prática da medicina: é esse um mal terrível para os homens, a embria- guez; e nem eu próprio desejaria beber muito nem a outro eu o aconselharia, sobretudo a quem está com ressaca da véspera.

Na verdade exclamou a se- guir Fedro de Mirrinote?º eu costu- mo dar-te atenção, principalmente em tudo que dizes de medicina; e agora, se bem decidirem, também estes o farão. Ouvindo isso, concordam todos em não passar a reunião embriagados,

19 À ocuypoolvn socrática, i.e. o domínio dos apetites e sentidos do corpo, resiste tanto à fa- diga e à dor como ao prazer (v. infra 220a), tal como Platão queria que fossem os guardiães da sua cidade ideal. V. República III, 413d-e. (N. do 'T.)

20 Um dos numerosos demos (no tempo de Heródoto 100), i.e., distritos em que se subdi- vidia a população de Ática. (N. do T.)

mas bebendo cada um a seu bel-pra- Zer:

Como então continuou Erixí- maco é isso que se decide, beber cada um quanto quiser, sem que nada seja forçado, o que sugiro então é que mandemos embora a flautista que aca- bou de chegar, que ela flautear para si mesma, se quiser, ou para as mulhe- res dentro; quanto a nós, com dis- cursos devemos fazer nossa reunião hoje; e que discursos eis o que, se vos apraz, desejo propor-vos.

Todos então declaram que lhes apraz e o convidam a fazer a proposi- ção. Disse então Erixímaco: O exórdio de meu discurso é como a Melanipa?? de Eurípides; pois não é minha, mas aqui de Fedro a história que vou dizer. Fedro, com efeito, frequentemente me diz irritado: Não é estranho, Erixímaco, que para outros deuses haja hinos e peãs, feitos pelos poetas, enquanto que ao Amor todavia, um deus tão venerável e tão grande, jamais um dos poetas que tanto se engrandeceram fez sequer um encômio??? Se queres, observa tam- bém os bons sofistas: a Hércules e a

outros eles compõem louvores em

prosa, como o excelente Pródico? *

21 Geralmente o cuumooiáoxns , ie, o chefe do simpósio, eleito pelos convivas, determinava o programa da bebida, fixando inclusive o grau de mistura do vinho a ser obrigatoriamente ihgerido. V. infra 213e, 9-10. (N. do T.)

22 Melanipa, a-Sábia, tragédia perdida de Eurí- pedes, que também escreveu Melanipa, a Prisio-

“neira. Erixímaco refere-se ao verso oUk éuoc O

uDyos, Eus unTpOS mápa (frag. 487 Wag- ner): não é minha a história, mas de minha mãe. (N. do-T.)

23 Isto é, uma composição poética, consagrada exclusivamente ao louvor de um deus ou de um herói. Um elogio poético belíssimo, embora no espírito da tragédia, encontra-se no famoso estásimo da Antígona de Sófocles, 783-800. (N. do T.)

177 a

18 PLATÃO

e isso é menos de admirar, que eu me deparei com o livro de um sábio? * em que o sal recebe um admirável elo- gio, por sua utilidade; e outras coisas desse tipo em grande número poderiam

ser elogiadas; assim portanto, en- quanto em tais ninharias despendem tanto esforço, ao Amor nenhum homem até o dia de hoje teve a cora-

gem de celebrá-lo condignamente, a tal ponto é negligenciado um tão grande deus! Ora, tais palavras parece que Fedro as diz com razão. Assim, não eu desejo apresentar-lhe a minha quota? º e satisfazê-lo como ao mesmo tempo, parece-me que nos convém, aqui presentes, venerar o deus. Se

então também a vós vos parece assim, poderíamos muito bem entreter nosso tempo em discursos; acho que cada um de nós, da esquerda para a direita, deve fazer um discurso de louvor ao Amor, o mais belo que puder, e que Fedro deve começar primeiro, que está na ponta e é o pai da idéia.

Ninguém contra ti votará, ó Eri- ximaco disse Sócrates. Pois nem certamente me recusaria eu, que afir- mo em nada mais ser entendido senão nas questões de amor, nem sem dúvida Agatão e Pausânias, nem tampouco Aristófanes, cuja ocupação é toda em

24 Natural de Ceos, nasceu por volta de 465. Preocupou-se especialmente com o estudo do vocabulário. No Protágoras (315d) Sócrates chama-o de Tântalo, aludindo ao seu tormento na procura da expressão exata. (N. do T.) 250 sábio em questão é talvez Polícrates, o mesmo autor do panfleto que justificava a con- denação de Sócrates e que também escrevera peças retóricas de elogio à panela, aos ratos, aos seixos. (N. do T.)

26 Erixiímaco vai atender à queixa de Fedro com a proposta. de um concurso de “discursos, ao qual ele logo se prontifica a dar sua parte ( Epavov ) como se faz num piquenique, em que cada um traz uma parte da refeição coletiva. (N. do T.)

!

torno de Dioniso e de Afrodite, nem qualquer outro destes que estou vendo aqui. Contudo, não é igual a situação dos que ficamos nos últimos lugares; todavia, se os que estão antes falarem de modo suficiente e belo, bastará. Vamos pois, que em boa sorte comece Fedro e faça o seu elogio do Amor. “Estas palavras tiveram a aprovação de todos os outros, que também aderi- ram às exortações de Sócrates. Sem dúvida, de tudo que cada um deles disse, nem Aristodemo se lembrava bem, nem por minha vez eu me lembro de tudo o que ele disse; mas o mais importante, e daqueles que me pareceu que valia a pena lembrar, de cada um deles eu vos direi o seu discurso. Primeiramente, tal . como agora estou dizendo, disse ele que Fedro começou a falar mais ou menos desse ponto, “que era um grande deus o Amor, e admirado entre homens e deu- ses, por muitos outros títulos e sobre- tudo por sua origem. Pois o ser entre os deuses o mais antigo é honroso, dizia ele, e a prova disso é que genito- res do Amor não os há, e Hesíodo afir- ma que primeiro nasceu o Caos

«. . e depois Terra de largos seios, de tudo assento sempre certo, e Amor... .??

Diz ele então? º que, depois do Caos foram estes dois que nasceram, Terra e

27 Hesíodo, Teogonia, 116 ss. (N. do T.)

28 Alguns editores, entre os quais Burnet, acham que esse comentário de Fedro é ocioso, razão por que transferem para aqui a primeira frase de c (E com Hesíodo também concorda Acusi- lau...). Como pondera Robin, de fato ele está “dando uma lição”, atitude perfeitamente con- forme com a seriedade do seu espírito medio- cre (N. do T.)

178 a

areia s

O BANQUETE 19

Amor. E Parmênides diz da sua ori- gem

bem antes de-todos os deuses pensou? * em Amor.

E com Hesiodo também concorda Acusilau?º. Assim, de muitos lados se reconhece que Amor é entre os deuses o mais antigo. E sendo o mais antigo é para nós a causa dos maiores bens.

Não sei eu, com efeito, dizer que haja maior bem para quem entra na moci- dade do que um bom amante, e para um amante, do que o seu bem-amado. Aquilo que, com efeito, deve dirigir toda a vida dos homens, dos que estão prontos a vivê-la nobremente, eis o que nem a estirpe pode incutir tão bem, nem as honras, nem a riqueza, nem nada mais, como o amor. A que é então que me refiro? À vergonha do que é feio e ao apreço do que é belo.

Não é com efeito possível, sem isso, nem cidade nem indivíduo produzir. grandes e belas obras. Afirmo eu então que todo homem que ama, se fosse des- coberto a fazer um ato vergonhoso, ou a sofrê-lo de outrem sem se defender por covardia, visto pelo pai não se envergonharia tanto, nem pelos amigos nem por ninguém mais, como fosse visto pelo bem-amado. E isso mesmo é o que também no amado nós notamos, que é sobretudo diante dos amantes que ele se envergonha, quando sur- preendido em algum ato vergonhoso. Se por conseguinte algum meio ocor-

29 Isto é, a deusa Justiça (Simpl. Fis. 39, 18 Diels). (N. do T.)

30 Natúral de Argos (século VIa.C.), Acusilau escreveu várias genealogias de deuses e homens. (N. do T.)

resse de se fazer uma cidade ou uma expedição de amantes e de amados, não haveria melhor manéira de a cons- tituírem senão afastando-se eles de tudo que é feio e porfiando entre si no apreço à honra; e quando lutassem um ao lado do outro, tais soldados vence- riam, por poucos que fossem, por assim dizer todos os homens*!. Pois um homem que está amando, se deixou seu posto ou largou suas armas, aceita- ria menos sem dúvida a idéia de ter sido visto pelo amado do que por todos os outros, e a isso preferiria muitas vezes morrer. E quanto a abandonar o amado ou não socorrê-lo em perigo, ninguém tão ruim que o próprio Amor não o torne inspirado para a vir- tude, a ponto de ficar ele semelhante

ao mais generoso de natureza; e sem:

mais rodeios, o que disse Homero “do ardor que a alguns heróis inspira O deus”*2, eis o que o Amor aos amantes, como um dom emanado de si mesmo.

E quanto a morrer por outro, o consentem os que amam, não apenas os homens, mas também as mulheres. E a esse respeito a filha de Pélias, Alceste'*, aos gregos uma prova

31 Se não é isso uma alusão ao batalhão sagra- do dos tebanos, que se notabilizou em Leutras (371), uns dez anos depois da provável publi- cação do Banquete, é pelo menos um indício de que essa idéia corria o mundo grego, origi- nária de cidades dóricas. (N. do T.),

32 Homero, Ilíada, X, 182 10 6 eunvevoe uévoç YyAouxome Adnvn = inspirou-lhe ardor (a Diomedes) Atena de olhos brilhantes; e XV, 262: dg eimwv Eumvevoe quévoç unéya momévi Aaéyv assim tendo dito, inspirou um grande ardor no pastor de povos. (N. do T.)

33 Casada com Admeto, rei de Feres, na Tessá- lia, Alceste aceita morrer em lugar do esposo, quando os próprios pais deste se tinham recusa- do ao sacrifício. Mas pouco depois de sua mor- te, Hércules, hospedado por Admeto e informa- do do ocorrido, desce ao Hades e traz Alceste de volta. É o tema da bela tragédia de Eurípe- des, que traz o nome da heroína. (N. do T.)

179 a

20 PLATÃO:

cabal em favor dessa afirmativa, ela que foi a única a consentir em morrer pelo marido, embora tivesse este pai mãe, os quais ela tanto excedeu na afeição do seu amor que os fez apare-

cer como estranhos ao filho, e parentes apenas de nome; depois de praticar ela esse ato, tão belo pareceu ele não aos homens mas até aos deuses que, embora muitos tenham feito muitas ações belas, foi a um bem'reduzido nú- mero que os deuses concederam esta

honra de fazer do Hades subir nova- mente sua alma, ao passo que a dela eles fizeram subir, admirados do seu gesto; é assim que até os deuses hon- ram ao máximo o zelo e a virtude no amor. A Orfeu, o filho de Fagro, eles o fizeram voltar sem o seu objetivo, pois foi um espectro o que eles lhe mostra- ram da mulher a que vinha, e não lha deram, por lhes parecer que ele se acovardava, citaredo que era, e não ousava por seu amor morrer como Alceste, mas maquinava um meio de penetrar vivo no Hades“ *. Foi real- mente por isso que lhe fizeram justiça, e determinaram que sua morte ocor- resse pelas mulheres; não o honraram como a Aquiles, o filho de Tétis, nem o enviaram as ilhas dos bem-aventu- rados; que aquele, informado pela mãe de que morreria se matasse Heitor, enquanto que se o não matasse voltaria à pátria onde morreria velho, teve a 34 Não é essa evidentemente a versão comum da lenda. Descendo ao Hades para trazer de volta sua querida Eurídice, Orfeu consegue convencer a própria Perséfone, rainha daquele reino, gra-

ças aos doces acentos de sua música. Mas esta lhe impõe uma condição: Orfeu não deve olhár para trás, enquanto não subir à região da luz. quase ao fim da jornada, porém, o músico duvida da sinceridade de Perséfone e olha para trás: logo sua amada desaparece, e para sem- pre. A lembrança constante de Eurídice faz-lhe esquecer as outras mulheres que, enciumadas,

matam-no. (N. do T.)

coragem de preferir, ao socorrer seu amante Pátroclo e vingá-lo, não ape- nas morrer por ele mas sucumbir à sua morte; assim é que, admirados a mais não poder, os deuses excepcionalmente o honraram, porque em tanta conta ele tinha o amante. Que Ésquilo sem dúvi- da fala à toa, quando afirma que Aqui- les era amante de Pátroclo, ele que era mais belo não somente do que este como evidentemente do que todos os heróis, e ainda imberbe, e além disso muito mais novo, como diz Homero. Mas com efeito, o que realmente mais admiram e honram os deuses é essa virtude que se forma em torno do amor, porém mais ainda admiram-na e apreciam e recompensam quando é o amado que gosta do amante do que quando é este daquele. Eis por que a Aquiles eles honraram mais do que a Alceste, enviando-o às ilhas dos bem- aventurados.

Assim, pois, eu afirmo que o Amor é dos deuses o mais antigo, o mais hon- rado e o mais poderoso para a aquisi- ção da virtude e da felicidade entre os homens? ?, tanto em sua vida como após sua morte.”

De Fedro foi mais ou menos este o discurso que pronunciou, no dizer de Aristodemo; depois de Fedro houve al- guns outros de que ele não se lembrava bem, os quais deixou de lado, pas- sando a contar o de Pausânias. Disse este: “Não me parece bela, ó Fedro, a maneira como nos foi proposto o dis- curso, essa simples prescrição de um elogio ao Amor. Se, com efeito, um fosse o Amor, muito bem estaria; na realidade porém, não é ele um só; e

35 Confrontar essa peroração com o final do discurso de Sócrates, particularmente 212a-b. O poder do amor, a virtude e a felicidade têm conteúdo diferente nos dois discursos. (N, do T.)

180 a

d

181 a

O BANQUETE 21

não sendo um só, é mais acertado pri- meiro dizer qual o que se deve elogiar. Tentarei eu portanto corrigir este senão, e primeiro dizer qual o Amor que se deve elogiar, depois fazer um elogio digno do deus. Todos, com efei- to, sabemos que sem Amor não: Afrodite. Se portanto uma fosse esta, um seria o Amor; como porém são duas, é forçoso que dois. sejam também os Amores. E como não são duas deusas? Uma, a mais velha sem dúvida, não tem mae e é filha de Urano? º*, e a ela é que chamamos de Urânia, a Celestial; a mais nova, filha de Zeus e de Dione, chamamo-la de Pandêmia, a Popular. É forçoso então que também o Amor, coadjuvante de uma, se chame corretamente Pandê- mio, o Popular, e o outro Urânio, o Celestial. Por conseguinte, é sem dúvi- da preciso louvar todos os deuses, mas o dom que a um e a outro coube deve- se procurar dizer. Toda ação, com efei- to, é assim que se apresenta: em si

mesma, enquanto simplesmente prati- cada, nem é bela nem feia. Por exem-

plo, o que agora nós fazemos, beber, cantar, conversar, nada disso em si é belo, mas é na ação, na maneira como é feito, que resulta tal; o que é bela e corretamente feito fica belo, o que não o é fica feio. Assim é que o amar O Amor não é todo ele belo e digno de ser louvado, mas apenas o que leva a amar belamente.

Ora pois, o Amor de Afrodite Pan- dêmia é realmente popular e faz o que lhe ocorre; é a ele que os homens vul- gares amam. E amam tais pessoas, primeiramente não menos as mulhe-

36 Hesíodo, Teogonia, 188-206. Urano foi mu- tilado por seu filho Zeus, e o esperma do seu membro viril, atirado ao mar, espumou sobre as águas, donde se formou Afrodite. Em Ho- mero, no entanto, essa deusa é filha de Zeus, e de Dione (Ilíada, V, 370). (N. do T.)

res*” que os jovens, e depois o que neles amam é mais o corpo que a alma, e ainda dos mais desprovidos de inteli-

gência, tendo em mira apenas o efetuar O ato, sem se preocupar se é decente-

mente ou não; daí resulta então que eles fazem o que lhes ocorre, tanto o

que é bom como o seu contrário. Tra- ta-se com efeito do amor proveniente

da deusa que é mais jovem que a outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho. O outro porém é o da Urania, que primeiramente não par- ticipa da fêmea mas do macho e é este o amor aos jovens?8 e depois é a mais velha?º, isenta de violência; daí então é que se voltam ao que é

másculo os inspirados. deste amor, afeiçoando-se ao que é de natureza

mais forte e que tem mais inteligência. E ainda, no próprio amor aos jovens

poder-se-iam reconhecer os que estão movidos exclusivamente por esse tipo

de amor *º: não amam eles, com efeito b) 2

os meninos, mas os que começam a ter juízo, o que se quando lhes vêm

chegando as barbas. Estão dispostos, penso eu, os que começam desse

ponto, a amar para acompanhar toda a vida e viver em: comum, e não a enga-

nar e, depois de tomar o jovem em sua inocência e ludibriá-lo, partir à procu-

ra de outro. Seria preciso haver uma lei proibindo que se amassem os meninos,

a fim de que não se perdesse na incer- teza tanto esforço; pois é na verdade

incerto o destino dos meninos, a que ponto do vício ou da virtude eles che-

37 Confrontar com 208 e, onde Sócrates encon- tra o grande sentido do amor normal à mulher, aqui especiosamente confundido como o tipo inferior do amor. (N. do T.)

38 Muitos editores consideram esta fráse uma glosa. (N. do T.)

39 Na velhice domina a razão. Daí é que os amantes desse amor procuram os que come- çam a ter juízo... (N.doT.)

40 Confrontar com 210a-b. A progressão do amor, segundo Diotima, exige que o amante largue o amor violento de um só. (N. do T.)

182 a

o) PLATÃO

gam em seu corpo e sua alma. Ora, se os bons amantes a si mesmos se impõem voluntariamente esta lei, de- via-se também a estes amantes popula- res obrigá-los a lei semelhante, assim como, com as mulheres de condição livre*!, obrigamo-las na medida do possível a não manter relações amoro- sas. São estes, com efeito, os que justa- mente criaram o descrédito, a ponto de alguns ousarem dizer que é vergonhoso o aquiescer aos amantes; e assim O dizem porque são estes os que eles consideram, vendo o seu despropósito e desregramento, pois não é sem dúvi- da quando feito com moderação e norma que um ato, seja qual for, incor- reria em justa censura.

Aliás, a lei do amor nas demais cidades é fácil-de entender, pois é sim- ples a sua determinação; aqui“? porém ela é complexa. Em Élida, com efeito, na Lacedemônia, na Beócia, e onde não se saiba falar, simplesmente se estabeleceu que é belo aquiescer aos amantes, e ninguém, jovem ou velho, diria que é feio, a fim de não terem difi- culdades, creio eu, em tentativas de persuadir os jovens com a palavra, incapazes que são de falar; na Jônia, porém, e em muitas outras partes é tido como feio, por quantos habitam sob a influência dos bárbaros. Entre os bárbaros, com efeito, por causa das tiranias, é uma coisa feia esse amor, justamente como o da sabedoria e da ginástica**; é que, imagino, não apro- 41 Isto é, não escravas. (N. do T.)

42 Os manuscritos trazem a expressão “e na Lacedemônia” depois de “aqui”, o que não con- corda com a notória tendência dos lacedemô- nios ao homossexualismo. (N. do T.)

43 Observar a' expressão grega correspondente ( qrhogopia Kai n prhoyuuvagia ) e lembrar que os ginásios eram dos locais prediletos de

Sócrates (cf. a introd. do Cármides, Lísis, La- ques, etc.). (N. do T.)

veita aos seus governantes que nasçam grandes idéias entre os governados, nem amizades e associações inabalá- veis, O que justamente, mais do que qualquer outra coisa, costuma o amor inspirar. Por experiência aprenderam isto os tiranos * * desta cidade; pois foi o amor de Aristogitão é a amizade de Harmódio que, afirmando-se, destruí- ram-lhes o poder. Assim, onde se esta- beleceu que é feio o aquiescer aos amantes, é por defeito dos que o esta- beleceram que assim fica, graças à ambição dos governantes e à covardia dos governados; e onde simplesmente se determinou que é belo, foi em conse- quência da inércia dos que assim estabeleceram. Aqui porém, muito

“mais bela que estas é a norma que se

instituiu e, como eu disse, não é fácil de entender. A quem, com efeito, tenha considerado * * que se diz ser mais belo amar claramente que 'às ocultas, e sobretudo os mais nobres e os melho- res, embora mais feios que outros; que por outro lado o encorajamento dado por todos aos amantes é extraordinário e não como se estivesse a fazer algum. ato feio, e se fez ele uma conquista pa- rece belo o seu ato, se não, parece feio; e ainda, que em sua tentativa de con- quista deu a lei ao amante a possibili- dade de ser louvado na prática de atos ) : ;

44 Hípias e Hiparco, filhos de Pisístrato. Numa primeira conspiração em 514, ao que parece por -motivos pessoais, Hiparco foi assassinado, enquanto Armódio morria na luta e seu com- panheiro Aristogitão era condenado à morte. Quatro anos depois Hípias perdia ó poder, víti- ma de uma nova conspiração (V. Tucídides, VL, 54). (N. do T.)

45 Essa subordinada, iniciando um longo perío- do, não tem sequência lógica com a sua princi- pal, formulada em 183c (Poder-se-ia pensar que ...). Mesmo à custa da clareza, preferimos conservar a mesma articulação ampla e irregu- lar, a fim de permitir uma melhor apreciação

do estilo do discurso, peralmente apontado como uma paródia de Isócrates. (N. do T.)

183 a

O BANQUETE 23

extravagantes, os quais se alguém ousasse cometer em vista de qualquer outro objetivo e procurando fazer qualquer outra coisa fora isso, colheria as maiores censuras da filosofia? * pois se, querendo de uma pessoa ou obter dinheiro ou assumir um coman- do ou conseguir qualquer outro poder, consentisse alguém em fazer justa- mente o que fazem os amantes para com os amados, fazendo em seus pedi- dos súplicas e prosternações, e em suas juras protestando deitar-se às portas, e dispondo-se a subserviências a que se não sujeitaria nenhum servo, seria impedido de agir desse modo, tanto pelos amigos como pelos inimigos, uns incriminando-o de adulação e indigni- dade, outros admoestando-o e envergo- nhando-se de tais atos ao amante

porém que faça tudo isso acresce-lhe a graça, e lhe é dado pela lei que ele o faça sem descrédito, como se estivesse praticando uma ação belíssima; e o mais estranho é que, como diz o povo, quando ele jura, ele tem o perdão dos deuses se perjurar, pois juramento de amor dizem que não é juramento, e assim tanto os deuses como os homens deram toda liberdade ao amante, como diz a lei daqui por esse lado então poder-se-ia pensar que se considera inteiramente belo nesta cidade não o fato de ser amante como também o serem os amados amigos dos amantes. Quando porém, impondo-lhes um pe- dagogo*”, os pais não permitem aos 46 Por que da filosofia? Vários críticos tenta- ram corrigir essa lição dos mss. Burnet apôs-lhe o óbelo da suspeita. No entanto, não se deve entender a palavra no seu conceito platônico, mas antes na acepção menos específica de cul- tura superior, tal comô, por exemplo, a enten- dia Isócrates, um saber prático que incluta entre. outras coisas o conhecimento das beas normas do cidadão. (N. do T.)

47 É o escravo encarregado de acompanhar os jovens à palestra e à escola. (N. do T.)

amados que conversem com os aman- tes, e ao pedagogo é prescrita essa

“ordem, e ainda os camaradas e amigos

injuriam se vêem que tal coisa está ocorrendo, sem que a esses injuria- dores detenham os mais velhos ou os censurem por estarem falando sem acerto, depois de por sua vez atentar a tudo isso, poderia alguém julgar ao contrário que se considera muito feio aqui esse modo de agir. O que porém é, a meu ver, o seguinte: não é isso uma coisa simples, o que justa- mente se disse desde o começo, que não é em si e por si nem belo nem feio, mas se decentemente praticado é belo, se indecentemente, feio. Ora, é inde- centemente quando é a um. mau e de modo mau que se aquiesce, e decente- mente quando é a um bom e de um modo bom. E é mau aquele amante popular, que ama o corpo mais que a

“alma; pois não é ele constante, por

amar um objeto que também não é constante*8. Com efeito, ao mesmo tempo que cessa O viço do corpo, que era o que ele amava, “alça ele o seu vôo” *º, sem respeito a muitas palavras e promessas feitas. Ao contrário, o amante do caráter, que é bom, é cons- tante por toda a vida, porque se fundiu com o que é constante. Ora, são esses dois tipos de amantes que pretende a nossa lei provar bem e devidamente, e que a uns se aquiesça e dos outros se fuja. Por isso ê que uns ela exorta a perseguir e outros a evitar, arbitrando e aferindo qual é porventura o tipo do amante e qual o do amado. Assim é que, por esse motivo, primeiramente o se deixar conquistar é tido como feio, a

48 Uma longínqua antecipação da idéia desen- volvida plenamente em 207d-208b. (N. do T.)

49 Expressão homérica (Ilíada, II, 71), aplicada .

a Oneiros, o sonho personificado, que veio -a Agamenão. (N. do T.)

184 a

PLATÃO

24

fim de que possa haver tempo, que bem parece o mais das vezes ser uma exce- lente prova; e depois o deixar-se con- quistar pelo dinheiro e pelo prestígio político é tido como feio, quer a um mau trato nos assustemos sem reagir, quer beneficiados em dinheiro ou em sucesso político não os desprezemos; nenhuma dessas vantagens, com efeito, parece firme ou constante, afora o fato de que delas nem mesmo se pode deri- var uma amizade nobre. Um cami- nho então resta à nossa norma, se deve o bem-amado decentemente aquiescer ao amante. É com efeito norma entre nós que, assim como para os amantes, quando um deles se presta a qualquer servidão ao amado, não é isso adula- ção nem um ato censurável, do mesmo modo também outra única servidão voluntária resta, não sujeita a tensura: a que se aceita pela virtude. Na verda- de, estabeleceu-se entre nós que, se alguém quer servir a um outro por jul- gar que por ele se tornará melhor, ou em sabedoria ou em qualquer outra espécie de virtude, também esta volun- tária servidão não é feia nem é uma adulação *º. É preciso então congraçar num mesmo objetivo essas duas nor- mas, a do amor aos jovens e a do amor ao saber e às demais virtudes, se deve dar-se o caso de ser belo o aquiescer o amado ao amante. Quando com efeito ao mesmo ponto chegam amante e amado, cada um com a sua norma, um servindo ao amado que lhe aquiesce, em tudo que for justo servir, e o outro ajudando ao que o está tornando sábio e bom, em tudo que for justo ajudar, o primeiro em condições de contribuir para a sabedoria e demais virtudes, o

2

50 Todo esse detalhe dos casos feios do amor é ao mesmo tempo caraterístico do realismo prá- tico de Pausânias e revela o que para ele é tam- bém conteúdo da filosofia. (N. do T.)

segundo em precisão de adquirir para a sua educação e demais competência, então, quando ao mesmo objetivo convergem essas duas normas, então é que coincide ser belo o aquies- cer o amado ao amante e em mais nenhuma outra ocasião. Nesse caso, mesmo o ser enganado não é nada feio; em todos os outros casos porém é vergonhoso, quer se seja enganado, quer não. Se alguém com efeito, depois de aquiescer a um amante, na suposi- ção de ser este rico e em vista de sua riqueza, fosse a seguir enganado e não obtivesse vantagens pecuniárias, por se ter revelado pobre o amante, nem por isso seria menos vergonhoso; pois pa- rece tal tipo revelar justamente o que tem de seu, que pelo dinheiro ele servi- ria em qualquer negócio a qualquer um, e isso não é belo. Pela mesma razão, também se alguém, tendo aquiescido a um amante considerado bom, e para se tornar ele próprio me- lhor através da amizade do amante, fosse a seguir enganado, revelada a maldade daquele e sua carência de vir- tude, mesmo assim beloº" seria o engano; pois também nesse caso pare- ce este ter deixado presente sua própria tendência: pela virtude e por se tornar melhor, a tudo ele se disporia em favor de qualquer um, e isso é ao contrário o mais belo de tudo; assim, em tudo por tudo é belo aquiescer em vista da virtu- de. Este é o amor da deusa celeste, ele mesmo celeste e de muito valor para a

cidade e os cidadãos, porque muito esforço ele obriga a fazer pela virtude

tanto ao próprio amante como ao amado; os outros porém são todos da

51 Paradoxo tipicamente retórico, bem encaixa- do na argumentação, e aparentemente resultan- do em louvor da virtude a virtude enganada. Para Sócrates porém o engano, uma falta de sabedoria, é, portanto, uma falta de virtude e como tal não é belo. (N. do T.)

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b

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O BANQUETE

outra deusa, da popular. É essa, 6 Fedro, concluiu ele, a contribuição que, como de improviso º*2, eu te apre- sento sobre o Amor”.

Na pausa*? de Pausânias pois assim me ensinam os sábios a falar, em termos iguais disse Aristodemo que devia falar Aristófanes, mas tendo-lhe ocorrido, por empanturramento ou por algum outro motivo, um acesso de soluço, não podia ele falar; mas disse ele ao médico Eriximaco, que se recli- nava logo abaixo dele: Ó Erixi- maco, és indicado para ou fazer parar o meu soluço ou falar em meu lugar, até que eu possa parar com ele. E Eri- xímaco respondeu-lhe:

Farei as duas coisas: falarei em teu lugar e tu, quando acabares com isso, no meu. E enquanto eu estiver falando, vejamos se, retendo tu o fôle- go por muito tempo, quer parar o teu soluço; senão, gargareja com água. Se então ele é muito forte, toma algo com que possas coçar O nariz espirra; se fizeres isso duas ou três vezes, por mais forte que seja, ele cessará. Não começarás primeiro o teu discur- so, disse Aristófanes; que eu por mim é o que farei.

Disse então Eriximaco: “Parece-me em verdade ser necessário, uma vez que Pausânias, apesar de se ter lança- da bem ao seu discurso, não o rematou convenientemente, que eu deva tentar pór-lhe um remate. Com efeito, quanto a ser duplo o Amor, parece-me que foi uma bela distinção; que porém não 52 Num concurso improvisado essa indicação inútil seria estranha se não fosse entendida como uma alusão irônica ao repertório de luga- res-comuns fornecido pelo ensino formal da retórica. (N. do T.)

53 A expressão grega é [ovoaviov mavoauévor |, que na boca de Apolodoro é como um eco dos desenvolvimentos simétricos e dos paralelismos

( tva Neyógeva ) do discurso de Pausânias. (N. do T.)

25 está ele apenas nas almas dos homens, e para com os belos jovens, mas tam- bém nas outras partes, e para com muitos outros objetos, nos corpos de todos os outros animais, nas plantas da terra e por assim dizer em todos os seres é o que creio ter constatado pela prática da medicina, a nossa arte; grande e admirável é o deus, e a tudo se estende ele, tanto na ordem das coi- sas humanas como entre as divinas. Ora, eu começarei pela medicina a minha fala, a fim de que também homenageemos a arteê*. A natureza dos corpos, com efeito, comporta esse duplo Amor; O sadio e o mórbido são cada um reconhecidamente um estado diverso e dessemelhante, e o desseme- lhante deseja e ama 6 dessemelhan- te? *. Um portanto é o amor no que é sadio, e outro no que é mórbido. E então, assim como pouco Páusânias dizia que aos homens bons é belo aquiescer, e aos intemperantes é feio, também nos próprios corpos, aos ele- mentos bons de cada corpo e sadios é belo o aquiescer e se deve, e a isso é que se o nome de medicina, enquanto que aos maus e mórbidos é feio e se deve contrariar, se se vai ser um técnico. É com efeito a medicina, para falar em resumo, a ciência dos fenômenos de amor, próprios ao corpo, no que se refere à repleção e à evacua-

54 A arte por excelência para esse médico, isto é, a medicina. À palavra réxim indica geral- mente uma determinada atividade disciplinada e orientada por um corpo de preceitos e princí- pios. Assim, a medicina era também uma arte. (N. do T.)

55 O contexto manda interpretar a frase de Eri- xímaco assim: o mórbido (dessemelhante do sadio) ama o mórbido (dessemelhante do sadio) e vice-versa. No entanto, em d 4 infra, uma transição, que não fica muito clara, para a idéia de atração (identificada ao amor por Erixíma- co) dos contrários no organismo. Tal idéia é atribuída ao médico Alemeão de Crotona (fr. 4 Diels), do começo do século V. (N. do T.)

187 a

26 PLATÃO

ção, e o que nestes fenômenos reco-

nhece o belo amor e o feio é o melhor

médico; igualmente, aquele que faz com que eles se transformem, de modo a que se adquira um em vez do outro, e que sabe tanto suscitar amor onde não mas deve haver, como eliminar quando há, seria um bom profissional. É de fato preciso ser capaz de fazer com que os elementos mais hostis no corpo fiquem amigos e se amem mutuamente. Ora, os mais hostis são

'os mais opostos, como o frio ao quen-

te, o amargo ao doce, o seco ao úmido, e todas as coisas desse tipo; foi por ter entre elas suscitado amor e concórdia que o nosso ancestral Asclépio, como dizem estes poetas aqui” º e eu acredi- to, constituiu a nossa arte. A medicina portanto, como estou dizendo, é toda ela dirigida nos traços deste deus, assim como também a ginástica e a agricultura; e quanto à música, é a todos evidente, por pouco que se lhe preste atenção, que ela se comporta segundo esses mesmos princípios, como provavelmente parece querer dizer Heráclito, que aliás em sua expressão não é feliz. O um, diz ele com efeito, “discordando em si mesmo, consigo mesmo concorda, como numa harmonia de arco e lira? 87. Ora, é grande absurdo dizer que uma harmonia está discordando ou resulta do que ainda está discordan- do *8. Mas talvez o que ele queria dizer era o seguinte, que do agudo e do

56 Erixiímaco refere-se a Aristófanes e Agatão. Asclépio, filho de Apolo e da mortal Coronis, da Tessália, é o herói patrono da medicina. (N. do T.) i

57 Fr.51, Diels. (N. do T.)

58 No entanto, é bem isso o que Heráclito quer dizer, e não realmente uma expressão infe- liz da sua parte. Convém lembrar que a riqueza de particípios na língua grega, e em particular a nítida distinção entre o particípio aoristo (pretérito) e o particípio presente, não lhe, per- mitiriam perpetrar a confusão -que Eriximaco lhe atribui. (N. do T.)

grave, antes discordantes e posterior- mente combinados, ela resultou, gra- ças à arte musical. Pois não é sem dú- vida do agudo e do grave ainda em discordância que pode resultar a har- monia; a harmonia é consonância, consonância é uma certa combinação e cômbinação de discordantes, enquanto discordam, é impossível, e inversamente o que discorda e não combina é impossível harmonizar assim como também o ritmo, que resulta do rápido e do lento, antes dissociados e depois combinados. A combinação em todos esses casos, assim como foi a medicina, aqui é a música que estabelece, suscitando amor e concórdia entre uns e outros; e assim, também a música, no tocante à harmonia e ao ritmo, é ciência dos fenômenos amorosos. Aliás, na pró- pria constituição de uma harmonia e de um ritmo não é nada dificil reconhe- cer os sinais do amor, nem de algum modo ºº então o duplo amor; quan- do porém for preciso utilizar para O homem uma harmonia ou um ritmo, ou fazendo-os, o que chamam compo- sição, ou usando corretamente da melodia e dos metros constituídos, o que se chamou educação, então é que é dificil e que se requer um bom profis- 59 E assim a arte acaba sendo criadora do amor, e este um mero produto. Eriximaco pa- rece não perceber as dificuldades que ençerra a relação desses dois elementos, cuja conceitua- ção rigorosa não lhe importa muito, e conti- nua a fazer com as outras artes o que fez com a medicina e a música. (N. do T.)

60 Essa expressão trai a habilidade retórica do cientista orador: depois de afirmar que dois tipos de amor no organismo (v. nota 55), Eri- xímaco passa a falar da saúde como o equilí- brio (isto é, concórdia, amor) dos contrários, e do mesmo modo da harmonia dos sons, sem evidentemente referir-se ao que seria, por exem- plo, o resultado do amor de contrários mórbi- dos. Aqui, porém, no momento de referir-se à utilização humana da harmonia, reaparece-lhe a idéia do bom e do mau amor que é preciso

discernir e que justifica ou não o aquiescimento do bem-amado ao amante... (N.doT.)

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sional. Pois de novo revém a mesma idéia, que aos homens moderados, e para que mais moderados se tornem os que ainda não sejam, deve-se aquiescer e conservar O seu amor, que é o belo, o celestial, o Amor da musa Urânia; o outro, o de Polímnia*!, é o popular, que com precaução se deve trazer aqueles a quem se traz, a fim de que se colha o seu prazer sem que nenhuma intemperança ele suscite, tal como em nossa arte é uma importante tarefa o servir-se convenientemente dos apetites da arte culinária, de modo a que sem doença se colha o seu prazer. Tanto na música então, como na medicina e em todas as outras artes, humanas e divi- nas, na medida do possível, deve-se conservar um e outro amor; ambos com efeito nelas se encontram. De fato, até a constituição das estações do ano está repleta desses dois amores, e quando se tomam de um moderado amor um pelo outro os contrários de que pouco eu falava, o quente e o frio, o seco e o úmido, e adquirem uma harmonia e uma mistura razoável, che- gam trazendo bonança e saúde aos homens, aos outros animais e às plan- tas, e nenhuma ofensa fazem; quando porém é o Amor casado com a violên- cia que se torna mais forte nas estações do ano, muitos estragos ele faz, e ofen- sas. Tanto as pestes, com efeito, costu- mam resultar de tais causas, como também muitas e várias doenças nos animais como nas plantas; geadas, granizos e alforras resultam, com efei- to, do excesso e da intemperança mútua de tais manifestações do amor,

61 Padroeira da poesia lírica. Ao contrário de Pausânias, Erixímaco associou o amor às Mu- sas e não a Afrodite, o que está de acordo com o caráter que seu discurso lhe empresta: o de uma força de aglutinação universal, suscetível de ser tratada pela arte. Em lugar de Afrodite Pandêmia, ele imaginou a Musa da poesia líri- ca, a poesia dos sentimentos pessoais e das pai-

“xões. (N. do T.)

cujo conhecimento nas translações dos astros e nas estações do ano chama-se astronomia. E ainda mais, não todos os sacrifícios, como também os casos a que preside a arte divinatória e estes são os que constituem o comércio recíproco dos deuses e dos homens sobre nada mais versam senão sobre a conservação e a cura *? do. Amor. Toda impiedade, com efeito, costuma advir, se ao Amor moderado não se aquiesce nem se lhe tributa honra e respeito em toda ação, e sim ao outro, tanto no tocante aos pais, vivos e mortos, quanto aos deuses; foi nisso que se assinou à arte divina- tória o exame dos amores sua cura, assim é que por sua vez é a arte divina- tória produtoraº** de amizade entre deuses e homens, graças ao conheci- mento de todas as manifestações de amor que, entre os homens, se orien- tam para a justiça divina e a piedade.

Assim, múltiplo e grande, ou me- lhor, universal é o poder que em geral tem todo o Amor, mas aquele que em torno do que é bom se consuma com sabedoria e justiça, entre nós como entre os deuses, é o que tem o máximo poder e toda felicidade nos prepara, pondo-nos em condições de não entre nós mantermos convívio e amiza- de, como também com os que são mais poderosos que nós, os deuses. Em conclusão, talvez também eu, lou” vando o Amor, muita coisa estou dei- xando de lado, não todavia por minha vontade. Mas se algo omiti, é tua tare- fa, é Aristófanes, completar; ou se um outro modo tens em mente de elogiar o deus, elogia-o, uma vez que o teu solu- ço o fizeste cessar.”

62 A assimilação das outras artes à medicina tornou-se tão completa que o Amor é conside- rado como uma afecção como as outras doen- ças. (N. do T.)

63 V. supra p. 26, nota 59.

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Tendo então tomado a palavra, con- tinuou Aristodemo, disse Aristófanes: Bem que cessou! Não todavia, é verdade, antes de lhe ter eu aplicado o espirro, a ponto de me admirar que a boa ordem do corpo requeira tais ruí- dos e comichões como é o espirro; pois logo o soluço parou, quando lhe apli- quei O espirro.

E Eriximaco lhe disse: Meu bom Aristófanes, o que fazes. Estás a fazer graça, quando vais falar, e me forças a vigiar O teu discurso, se por- ventura vais dizer algo risível, quando é permitido falar em paz.

Aristófanes riu e retomou: Tens razão, Eriximaco! Fique-me o dito pelo não dito. Mas não me vigies, que eu receio, a respeito do que vai ser dito, que seja não engraçado o que vou dizer pois isso seria proveitoso e próprio da nossa musa mas ridícu-, eg

Pois sim! disse o outro lançada a tua seta, Aristófanes, pensas em fugir; mas toma cuidado e fala como se fosses prestar contas. Talvez todavia, se bem me parecer, eu te largarei.

“Na verdade, Eriximaco, disse Aris- tófanes, é de outro modo que tenho a intenção de falar, diferente do teu e do de Pausânias. Com efeito, parece-me os homens absolutamente não terem percebido o poder do amor, que se o percebessem, os maiores templos e altares lhe preparariam, e os maiores

64 De fato seu discurso é engraçadíssimo. A pre- caução de Aristófanes faz lembrar o tom e a função de uma parábase, na comédia antiga, onde o poeta, pela voz do coro, explica-se a respeito de sua peça. V. Os Cavaleiros, 515- 516, e 541-545, onde se sente a mesma nota de prudência que aqui. Além desse traço de veros- similhança dramática, Platão estaria insinuan- do uma alusão à insuficiência da arte de Aris- tófanes, que não tem domínio de seus próprios recursos, dependente que é de uma inspiração. (N. do T.)

PLATÃO

sacrifícios lhe fariam, não como agora que nada disso em sua honra, quan- do mais que tudo deve haver. É ele com efeito o deus mais amigo do homem, protetor e médico desses males, de cuja cura dependeria sem dú- vida a maior felicidade para o gênero humano. Tentarei eu portanto iniciar- vos º * em seu poder, e vós o ensinareis aos outros. Mas é preciso primeiro aprenderdes a natureza humana e as suas vicissitudes. Com efeito, nossa natureza outrora não era a mesma que a de agora, mas diferente. Em primeiro lugar, três eram os gêneros da humani- dade, não dois como agora, o mascu- lino e o feminino, mas também havia a mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desapa-

recida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao mascu- lino e ao feminino, enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra. Depois, inteiriça*º era a forma de cada homem, com o dorso redondo, os flancos em círculo; quatro mãos ele tinha, e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um

pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois ros- tos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo o mais como desses exemplos se poderia supor. E quanto ao seu andar,:era tam- bém ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida cor-

65 A palavra é própria da linguagem dos Misté- rios. Aristófanes não vai explicar as virtudes do Amor, como os dois oradores precedentes, mas tentará o acesso direto à sua natureza, como numa iniciação. (N. do T.)

66 Cf. Empédocles, fr. 62, vs. 4 (Diels).ovhopveis

uev mplTA TÓMOL XDovOç eFavéreNhov |: primeiro, tipos inteiriços surgiram da terra. (N.do T.)

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rida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoian- do-se nos seus oito membros de então, rapidamente eles se locomoviam em círculo. Eis por que eram três os gêne- ros, e tal a sua constituição, porque o masculino de início era descendente do sol, o feminino da terra, e o que tinha de ambos era da lua, pois também a lua tem de ambos; e eram assim circu- lares, tanto eles próprios como a sua locomoção, por terem semelhantes ge- nitores. Eram por conseguinte de uma força e de um vigor terríveis, e uma grande presunção eles tinham; mas voltaram-se contra os deuses, e o que diz Homero de Efialtes e de Otes* 7 é a eles que se refere, a tentativa de fazer uma escalada ao céu, para investir contra os deuses. Zeus então e os de- mais deuses puseram-se a deliberar sobre o que se devia fazer com eles, e “embaraçavam-se; não podiam nem matá-los e, após fulminá-los como aos gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça pois as honras e os templos que lhes vinham dos homens desapareceriam

nem permitir-lhes que conti- nuassem na impiedade. Depois de laboriosa reflexão, diz Zeus: “Acho

que tenho um meio de fazer com que os homens possam existir, mas parem com a intemperança, tornados mais fracos. Agora com efeito, continuou, eu os cortarei a cada um em dois, e ao mesmo tempo eles serão mais fracos e

também mais úteis para nós, pelo fato de se terem tornado mais numerosos; e andarão eretos, sobre duas pernas. Se anda pensarem em arrogância e não quiserem acomodar-se, de novo, disse

67 Os dois gigantes que tentaram pôr sobre o Olimpo o monte Ossa e sobre este o Pelião, a fim de atingirem o céu e destronarem Zeus. V. Odisséia, XI, 307-320. (N. do T.)

ele, eu os cortarei em dois, e assim sobre uma perna eles andarão, salti- tando.” Logo que o disse pôs-se a cor- tar os homens em dois, como os que cortam as: sorvasºº para a conserva, ou como os que cortam ovos com cabelo; a cada um que cortava manda- va Apolo voltar-lhe o rosto e a banda do pescoço para o lado do córte, a fim de que, contemplando a própria muti- lação, fosse mais moderado o homem, e quanto ao mais ele também mandava curar. Apolo torcia-lhes o rosto, e repuxando a pele de todos os lados para o que agora se chama o ventre, como as bolsas que se entrouxam, ele fazia uma abertura e ligava-a firme- mente no meio do ventre, que é o que chamam umbigo. As outras pregas, numerosas, ele se pôs a polir, e a arti- cular os peitos, com um instrumento semelhante ao dos sapateiros quando estão polindo na forma as pregas dos sapatos; umas poucas ele deixou, as que estão à volta do próprio ventre é do umbigo, para lembrança da antiga condição. Por conseguinte, desde que a nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria meta- dee aela se unia, envolvendo-se com as mãos enlaçando- se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia em geral, por nada quererem fazer longe um do outro. E sempre que morria uma das metades e a outra ficava, a que ficava procurava outra e com ela se enlaçava, quer se encontrasse com a metade do todo que era mulher o que agora chamamos mulher quer com a de um homem; e assim iam-se destruindo. Tomado de 68 Emile Chambry (Platon, Oeuvres complêtes, HI, p. 577, Garnier) cita o seguinte texto de Varrão: “Putant manere sorba quidam dissecta et in sole macerata, ut pira, et sorba per se ubi-

cumque sint posita, in arido facile durare” (De re rustica, L, 60). (N. do T.)

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compaixão, Zeus consegue outro expe- diente, e lhes muda o sexo para a frente pois até então eles o tinham para fora, e geravam e reproduziam não um no outro, mas na terra*º, como as cigarras; pondo assim o sexo na frente deles fez com que através dele se

processasse a geração um no outro, O macho na fêmea, pelo seguinte, para que no enlace, se fosse um homem a

encontrar uma mulher, que ao mesmo tempo gerassem e se fosse constituindo a raça, mas se fosse um homem com um homem, que pelo menos houvesse saciedade em seu convívio pudessem

repousar, voltar ao trabalho e ocupar- se do resto da vida. É então de tanto tempo que o amor de um pelo outro

está implantado nos homens, restau- rador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um de dois e de

curar a natureza humana. Cada um de nós portanto é uma téssera comple- mentar de um homem, porque corta- do como os linguados, de um em dois; e procura então cada um o seu próprio complemento. Por conse- guinte, todos os homens que são um corte do tipo comum, o que então se chamava andrógino, gostam de mulhe- res, e a maioria dos adultérios provém

deste tipo, assim como também todas as. mulheres que gostam de homens e são adúlteras, é deste tipo que provêm. Todas as mulheres que são o corte de

69 No mito do Político (271a), Platão refere-se a essa geração da terra, e Aristófanes nas Nu- vens (vs. 853) alude sem dúvida a essa. idéia. (N. do T.) 70 No grego cúuborov (de ovubániew , juntar, fazer conjunto). Era um cubo. ou-um osso que se repartia entre dois hóspedes, como sinal de um compromisso. Transmitindo-se aos descen- dentes de ambos, podiam estes conferir os seus “símbolos” e ter assim a prova de antigos lia- mes de hospitalidade. (N. do T.)

uma mulher não dirigem muito sua

atenção aos homens, mas antes estão voltadas para as mulheres e as amigui- nhas provêm deste tipo. E todos os que são corte de um macho perseguem o macho, e enquanto são crianças, como cortículos do macho, gostam dos ho- mens e se comprazem em deitar-se

com os homens e a eles se enlaçar, e são estes os melhores meninos e adolescentes, os de natural mais cora- Joso. Dizem algurs, é verdade, que eles são despudorados, mas estão mentin- do; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante. Uma prova disso é que, uma vez amadurecidos, são os únicos que chegam a ser homens para a política ”!, os que são desse tipo. E quando se tornam homens, são os jo- vens que eles amam, e a casamentos e procriação naturalmente eles não lhes dao atenção, embora por lei a isso sejam forçados, mas se contentam em passar a vida um com o outro, soltei- ros. Assim é que, em geral, tal tipo tor- na-se amante e amigo do amante, por- que está sempre acolhendo o que lhe é aparentado. Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como qualquer outro, então extraordi- nárias são as emoções que sentem, de

amizade, intimidade e amor, a ponto

de não quererem por assim dizer sepa- rar-se um do outro nem por um peque- no momento. E os que continuam um com o outro pela vida afora são estes,

7. A sátira mordaz aos homossexuais comple ta-se habilmente com a sua identificação com os políticos. Comparar essa passagem com 184 a-7. (N. do T.)

E Ep

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os quais nem saberiam dizer o que que- rem que lhes venha da parte de um ao outro. A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual 72, e que é porventura em vista disso que um gosta da companhia do outro assim com tanto interesse; ao contrário, que uma coisa quer a alma de cada um, é evidente, a qual coisa ela não pode dizer, mas adivinha o que quer e o in- dica por enigmas. Se diante deles, dei- tados no mesmo leito, surgisse Hefes- to”? e com seus instrumentos lhes perguntasse: Que é que quereis, ó homens, ter um do outro”, e se, diante do seu embaraço, de novo lhes pergun- tasse: Porventura é isso que desejais, ficardes no mesmo lugar o mais possi- vel um para o outro, de modo que nem de no;te nem de dia vos separeis um do outro? Pois se é isso que desejais, quero fundir-vos e forjar-vos numa mesma pessoa, de modo que de dois

vos torneis um e, enquanto viverdes, como uma pessoa, possais viver

ambos em comum, e depois que mor- rerdes, no Hades, em vez de dois ser um só, mortos os dois numa morte comum; mas vede se é isso O vosso amor, e se vos -contentais se conse- guirdes isso. Depois de ouvir essas palavras, sabemos que nem um diria que não, ou demonstraria querer outra

coisa, mas simplesmente pensaria ter ouvido o que muito estava desejan-

do, sim, unir-se e confundir-se com o amado e de dois ficarem um só. O mo- tivo disso é que nossa antiga natureza era assim e nós éramos um todo; e por-

72 Observar a facilidade com que o discurso muda de tom, atingindo aqui um lirismo saudá- vel que permite a eclosão de uma idéia impor- tante nessa sucessão dialética dos discursos: a de que o sentimento amoroso não é exclusiva- mente sexual. (N. do T.)

73 O deus do fogo e da metalurgia, o Vulcano dos latinos. (N. do T.)

tanto ao desejo e procura do todo que se o nome de amor. Anteriormente, como estou dizendo, nós éramos um só, e agora é que, por causa da nossa injustiça, fomos separados pelo deus, e como o foram os árcades pelos lacede- mônios ? *; é de temer então, se não for- mos moderados para com os deuses, que de novo sejamos fendidos em dois, e perambulemos tais quais os que nas estelas estão talhados de perfil, serra- dos na linha do nariz, como os ossos que se fendem”? 8. Pois bem, em vista dessas eventualidades todo homem deve a todos exortar à piedade para com os deuses, a fim de que evitemos uma €e alcancemos a outra, na medida em que o Amor nos dirige e comanda. Que ninguém em sua ação se lhe opo- nha e se opõe todo aquele que aos deuses se torna odioso pois amigos do deus e com ele reconciliados desco- briremos e conseguiremos o nosso pró- prio amado, o que agora poucos fazem. E que não me suspeite Erixi- maco, fazendo comédia de meu discur- so, que é a Pausânias e Agatão que me estou referindo talvez também estes se encontrem no número desses e são ambos de natureza máscula mas eu no entanto estou dizendo a respeito de todos, homens e mulheres, que é assim que nossa raça se tornaria feliz, se ple- namente realizássemos o amor, e o seu próprio amado cada um encontrasse, tornado à sua primitiva natureza. E se isso é o melhor, é forçoso que dos

74 Em 385 os lacedemônios destruíram a cida- de de Mantinéia, na Arcádia, e dispersaram seus habitantes por várias povoações (Xenofon- te, V, 2, 1). É o que os gregos chamavam de Broteiunos » O contrário de uma colonização. Isto é um ouroxiogós .Notar que o diálogo se passa em 416 (v. supra p. 14 nota 7). O ana- cronismo é gritante. (N. do T.)

75 Justamente um dos tipos ( Mora ) dos “sim- bolos”, referidos acima, p.30,n .70. (N. do T.)

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>>> QNTO

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casos atuais o que mais se lhe avizinha é o melhor, e é este o conseguir um bem-amado de natureza conforme ao seu gosto; e se disso fôssemos glorifi- car o deus responsável, merecidamente glorificariamos o Amor, que agora nos é de máxima utilidade, levando-nos ao que nos é familiar, e que para o futuro nos às maiores esperanças, se for- mos piedosos para com os deuses, de restabelecer-nos em nossá primitiva natureza e, depois de nos curar, fazer- nos bem-aventurados e felizes.

Eis, Eriximaco, disse ele, o meu dis- curso sobre o Amor, diferente do teu. Conforme eu te pedi, não faças comé- dia dele, a fim de que possamos ouvir também os restantes, que dirá cada um deles, ou antes cada um dos dois; pois restam Agatão e Sócrates.”

Bem, eu te obedecerei tor- nou-lhe Eriximaco; e com efeito teu discurso foi para mim de um agradável teor. B Se por mim mesmo eu não sou- besse' qui Sócrates e Agatão são terri- veis nas questões do amor, muito teme- ria que sentissem falta de argumentos, pelo muito e variado” que se disse; de fato porém eu confió neles.

Sócrates então disse: É que foi bela, ó Eriximaco ' º, tua competição ! Se porém ficasses na situação em: que agora estou; ou melhor, em que estarei, depois que Agatão tiver falado, bem grande seria o teu temor, e em tudo por tudo estarias como eu agora.

Enfeitiçar é o que me queres, Ó Sócrates, disse- lhe. Agatão, a fim de

76 A observação de Ser é fina. Comentan- do o discurso de Aristófanes, Erixímaco expres- sava seu receio de que os dois últimos concor- rentes tivessem dificuldades “pelo muito e va- riado que se disse” (Isto é, não apenas Aristó- fanes). Sócrates o ajuda então nesse pequeno detalhe e insiste na sua contribuição. Ao mes- mo tempo ele tem uma ótima deixa para diri- gir-se à competência de Agatão. (N. do T.)

que eu me alvoroce com a idéia de que o público está em grande expectativa de que eu falar bem.

-— Desmemoriado eu seria, Agatão tornou-lhe Sócrates se depois de ver tua coragem e sobranceria, quando subias ao estrado com os atores e encaraste de frente uma tão numerosa platéia, no momento em que ias apre- sentar uma peça tua, sem de modo algum te teres abalado, fosse eu agora imaginar que tu te alvoroçarias por causa de Mós, tão poucos.

O quê, Sócrates! exclamou Agatão; não me julgas sem dúvida tão cheio de teatro que ignore que, a quem tem juízo, poucos sensatos são mais temíveis que uma multidão insen- sata !

Realmente eu não faria bem, Agatão tornou-lhe Sócrates se a teu respeito pensasse eu em alguma deselegância; ao contrário, bem sei que, se te encontrasses com pessoas que considerasses sábias, mais te preo- cuparias com elas do que com a multi- dão. No entanto, é de temer que estas não sejamos nós pois nós estáva- mos e éramos da multidão mas se fosse com outros que te encontras- ses, com sábios, sem dúvida tu te envergonharias deles, se pensasses estar talvez cometendo algum ato que fosse vergonhoso; senão, que dizes?

É verdade o que dizes res-

. pondeu-lhe. |

E da multidão não te envergo- nharias, se pensasses estar fazendo algo vergonhoso 7 792

7 Esse breve diálogo, aqui interrompido, tem um duplo efeito dramático: serve de intervalo entre os discursos de dois poetas, tão diferentes de método e de espírito, e constitui como um prelúdio ao discurso especial de Sócrates, que vai começar, ao contrário dos outros, por um diálogo. (N. do T.)

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O BANQUETE E

E eis que Fedro, disse Aristodemô,

interrompeu e exclamou: Meu caro Agatão, se responderes a Sócrates, nada mais lhe importará do programa, como quer que ande e o que quer que resulte, contanto que ele tenha com quem dialogue, sobretudo se é com um belo. Eu por mim é sem dúvida com prazer que ouço Sócrates a conversar, mas é-me forçoso cuidar do elogio ao Amor e recolher de cada um de vós o seu discurso; pague então cada um o que deve ao deus e assim pode conversar. |

Muito bem, Fedro! excla- mou Agatão nada me impede de falar, pois com Sócrates depois eu poderei ainda conversar muitas vezes.

“Eu então quero primeiro dizer como devo falar, e depois falar. Pare- ce-me com efeito que todos os que antes falaram, não era o deus que elo- giavam, mas os homens que felici- tavam pelos bens de que o deus lhes é causador; qual porém é a sua natureza, em virtude da qual ele fez tais dons, ninguém o disse. Ora, a única maneira correta de qualquer elogio a qualquer um é, no discurso, explicar em virtude de que natureza vem a ser causa de tais efeitos aquele de quem se estiver falan- do'º. Assim então com o Amor, é Justo que também nós primeiro o lou- vemos em sua natureza, tal qual ele é, e depois os seus dons. Digo eu então que de todos os deuses, que são felizes, é o

78 Como um bom “simposiarca”, Fedro zela pelo bom andamento do programa estabelecido. V. supra p.17,n. 21. (N.do T.)

79 Sócrates louvará mais adiante a excelência desse princípio, que representa uma etapa deci- siva na progressão dos discursos. Com efeito, embora não acertar na definição da natu- reza do Amor, Agatão traz à baila o problema, possibilitando assim a refutação socrática (189 d-204c) e a definição platônica (201c-204a). (N. do T.)

Amor, se é lícito dizê-lo sem incorrer em vingança*º, o mais feliz, porque é o mais belo deles e o melhor. Ora, ele é o mais belb por ser tal como se segue. Primeiramente; é o mais jovem dos deuses, ó Fedro. E uma grande prova do que digo ele próprio fornece, quan- do em fuga foge da velhice, que é rápi- da evidentemente, e que em todo caso; mais rápida do que devia, pará nós se encaminha. De sua natureza Amor a odeia e nem de longe se lhe apróxima. Com os jovens ele está sempre em seu convívio e ao seu lado; está certo, com éfeito, o antigo ditado, que o seme- lhante sempre do semelhante se aproxi- ma. Ora, eu, embora com Fedro con- corde em muitos outros pontos, nisso não concordo, em que Amor seja mais antigo que Crono é Jápeto, mas ao contrário afirmio ser ele o mais novo dos deuses e sempre jovem, e que as questões entre os deuses, de que falam Hestodo*! e Parmênides, foi por Ne- cessidade?2 e não por Amor que ocorc reram, se é verdade o que aqueles diziam; não haveria, com efeito, muti- lações nem prisões de uns pelos outros; e muitas outras violências, se Amor estivesse entre eles, mas amizade e paz, como agora, desde que Amor entre os deuses reina. Por conseguinte, jovem ele é, mas além de jovem ele é delica- do; falta-lhe porém um poeta como era Homero para mostrar sua delicadeza de deus. Homero afirma, com efeito,

80 Cf. 180e-3. As palavras e os atos humanos podem suscitar a justiça vingativa (nemesis) dos deuses. (N. do T.)

81 Cf, Teogonia, passim. (N. do T.)

82 É talvez idéia de Parmênides. O que este escreveu sobre os deuses devia estar na parte do seu poema referente às * o dos mor- tais. Segundo Aécio II, 7, 1 (Diels 28, A, 37), ele punha Justiça e Necessidade ho meip de yá- iás esferas concêntricas, comb tausa de movi- ento e geração. (N. do T.)

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que Ate é uma deusa, e delicada que os seus pés em todo caso são deli- cados quando diz: seus pés são delicados; pois não [sobre o sólo se move, mas sobre as cabeças dos [homens ela anda**. Assim, bela me parece a prova com que Homero revela a delicadeza da deusa: não anda eia sobre o que é duro, mas sobre o que é mole. Pois a mesma prova também nós utilizaremos a respeito do Amor, de que ele é delica- do. Não é com efeito sobre a terra que ele anda, nem sobre cabeças, que nãc são tão moles, mas no que de mais brando entre os seres é onde ele anda e reside. Nos costumes, nas almas de deuses e de homens ele fez sua morada, e ainda, não indistinta- mente em todas as almas, mas da que encontre com um costume rude ele se afasta, e na que o tenha delicado ele habita. Estando assim sempre em con- tato, nos pés como em tudo, com os que, entre os seres mais brandos, são os mais brandos, necessariamente é ele o que de mais delicado. É então o mais jovem, o mais delicado, e além dessas qualidades, sua constituição é úmida. Pois não seria ele capaz de se amoldar de todo jeito, nem de por toda alma primeiramente entrar, desperce- bido, e depois sair, se fosse ele seco? *. De sua constituição acomodada e úmida é uma grande prova sua bela compleição, o que excepcionalmente todos reconhecem ter o Amor; é que entre deformidade e amor sempre de 83 Ilíada, XIX, 92. Ate é a personificação da fatalidade. (N. do T.) 84 Sendo úmido, mole, Amor cede à pressão, adapta-se, modela-se; ao contrário, sendo seco, não se adapta e não adquire forma convenien- te. O argumento é de uma fantasia extrava-

gante, de acordo com o caráter requintado de Agatão. (N. do T.)

parte a parte guerra. Quanto à bele- za da sua tez, O seu viver entre flores bem o atesta; pois no que não floresce, como no que floresceu, corpo, alma ou O que quer que seja, não se assenta o Amor, mas onde houver lugar bem florido e bem perfumado, ele se assenta efica.

Sobre a beleza do deus é isso bas- tante, e no entanto ainda muita coisa resta; sobre a virtude de Amor devo depois disso falar, principalmente que Amor não comete nem sofre injustiça, nem de um deus ou contra um deus, nem de um homem ou contra um homem? 8. À força, com efeito, nem ele cede, se algo cede pois violência não toca em Amor nem, quando age, age, pois todc homem de bom grado serve em tudo ao Amor, e o que de bom grado reconhece uma parte a outra, dizem “as leis, rainhas da cida- de”8 8 é justo. Além da justiça, da má- xima temperança ele compartilha. É com efeito a temperança, reconhecida- mente, o domínio sobre prazeres e desejos; ora, o Amor, nenhum prazer: lhe é predominante; e se inferiores, se- riam dominados por Amor, e ele os dominaria, e dominando prazeres e desejos seria o Amor. excepcional- mente temperante. E também quanto à coragem, ao Amor “nem Ares se lhe opõe”8 7. Com efeito, a Amor não pega Ares, mas Amor a Ares o de Afro- dite, segundo a lenda e é mais forte o que pega do que é pegado: domi- nando assim o mais corajoso de todos, 85 Como a seguinte, essa frase, com seus para- lelismos exagerados, é típica do maneirismo do estilo retórico de Agatão. (N. do T.)

86 Expressão do retórico Alcidamas, aluno de Górgias, citado por Aristóteles, Ret., 1406a. (N. do T.)

87 Frag. de um Tiestes de Sófocles:

"Aváyknv ovo” “Apns dviorarar (fr. ck2). (N. do T.)

Npoç nv 235 Nau-

) | y

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O BANQUETE 35

seria então ele o mais corajoso. Da jus- tiça portanto, da temperança e da coragem do deus, está dito; da sua sabedoria porém resta dizer; o quanto possível então deve-se procurar não ser omisso. E em primeiro lugar, para que também eu por minha vez honre a minha arte como Eriximaco a dele, é um poeta o deus, e sábio, tanto que

também a outro ele o faz; qualquer um '

em todo caso torna-se poeta, “mesmo que antes seja estranho as Musas”*º, desde que lhe toque o Amor. É o que nos cabe utilizar como testemunho de

que é um bom poeta o Amor, em geral.

em toda criação artística*º; pois o que não se tem ou o que não se sabe, tam- bém a outro não se poderia dar ou ensinar. E em verdade, a criação*º dos animais todos, quem contestará que não é sabedoria do Amor, pela qual nascem e crescem todos os animais? Mas, no exercício das artes, não sabe- mos que aquele de quem este deus se torna mestre acaba célebre e ilustre, enquanto aquele em quem Amor não toque, acaba obscuro? E quanto à arte do arqueiro, à medicina, à adivinha- ção, inventou-as Apolo guiado pelo de- sejo e pelo amor, de modo que também Apolo seria discipulo do Amor. Assim como também as Musas rias belas-ar- tes, Hefesto na metalurgia, Atena na tecelagem, e Zeus na arte “de governar os deuses e os homens”*?. E daí é que até as questões dos deuses foram regra-

das, quando entre eles surgiu Amor,

“Epwç Eur., Stenobeia (fr. 663

88 Movokôv 5" ape ôguouoos 7) TO mpi Nauck2). (N. do T.) 89 O grego tem moinoç , correspondente a monrns |, ação e agente respectivamente de notei» fazer, produzir. O sentido lato de moinos presta-se assim muito bem às analo- gias que a seguir faz Agatão. Cf. infra 205b-7 ess. (N.doT.):

90 Também moinoiç . V. nota anterior.(N. do T.) 91 Fragmento de alguma tragédia, não identifi- cada. (N. do T.)

E OLbaokKEL KGV

evidentemente da beleza pois no feio não se firma Amorº? —, en- quanto que antes, como a. princípio disse, muitos casos terríveis se davam enire os deuses, ao que se diz, porque entre eles a Necessidade reinava; desde porém que este deus existiu, de se ama- rem as belas coisas toda espécie de bem surgiu para deuses e homens.

Assim é que me parece, ó Fedro, que o Amor, primeiramente por ser em si mesmo o mais belo e o melhor, depois é que é para os outros a causa de ou- tros tantos bens. Mas ocorre-me agora também em verso dizer alguma coisa, que é ele o que produz

paz entre os homens, e no mar bonança,

repouso trangúilo de

sono na dor.

ventos e

É ele que nos tira o sentimento de estranheza e nos enche de familiari- dade, promovendo todas as reuniões deste tipo, para mutuamente nos en- contrarmos, tornando-se nosso guia nas festas, nos coros, nos sacrifícios; incutindo brandura e excluindo rude- za; pródigo de bem-querer e incapaz de mal-querer; propício e bom; contem- plado pelos sábios e admirado pelos deuses; invejado pelos desafortunados e conquistado pelos afortunados; do luxo, do requinte, do brilho, das gra- ças, do ardor e da paixão, pai; dili- gente com o que é bom e negligente

-com o que é mau; no labor, no temor,

no ardor da paixão, no teor da expres- são, piloto e combatente, protetor e salvador supremo, adorno de todos os deuses e hcmens, guia belíssimo e excelente, que todo homem deve se- 92 É dessa pequena afirmação que Sócrates par-

tirá não para a refutação do poeta como para a sua própria definição do Amor.(N. do T.)

198 a

36 PLATÃO

guir, celebrando-o em belos hinos, e

compartilhando do canto com ele encanta o pensamento de todos os deu-

ses e homens. Este, ó Fedro, rematou ele, o dis-

curso que de minha parte quero que seja ao deus oferecido, em parte joco- s0º3, em parte, tanto quanto posso, discretamente sério.”

Depois que falou Agatão, continuou Aristodemo, todos os presentes aplau- diram, por ter o jovein falado à altura

do seu talento e da dignidade do deus. Sócrates então olhou para Eriximaco &

lhe disse: Porventura, Ó filho de Acúmeno, parece-te que não têm nada

de temível o temorº * que de muito sinto, e que não foi profético O que pouco eu dizia, que Agatão falaria maravilhosâmente, enquanto que eu

me havia embaraçar? a | Em parte respondeu- lhe Eri-

disseste, que Agatão falaria bem; mas

quanto. a te embaraçares, não creio. E como, ditoso amigo disse

Sócrates não vou embaraçar-me, eu

e qualquer outro, quando devo falar depois de proferido um tão belo e colo-

rido discurso? Não é que as suas de- mais partes não sejam igualmente admiráveis; mas o que está no fim, pela beleza dos termos e das frasesº é

93 Essa advertência de Agatão atenua, em favor do mérito do seu discurso, o significado que comumente se atribui à extravagância dos seus argumentos, tais como o que vimos à página 34, n. 84. Ele tem consciência do caráter leve e fantasioso dos argumentos com que preencheu 0. esquema sério do seu discurso. (N. do T.)

No grego twôeêç déog um medo que não é medo. Como que contagiado pela retórica de Agatão, Sócrates imita suas aliterações e para- doxos. (N. do T.)

95 Na segunda parte (197c-e) do discurso de Agatão, a preciosidade do seu estilo atinge O máximo com aquela longa litania de epítetos. Alguns críticos querem ver na palavra Pmuara (que está traduzida por “frases”, mas que em Platão significa às vezes “verbos”, em oposição a “nomes”), uma ambigiidade de sentido que esconde assim uma irônica alusão à ausência de verbos nesse trecho. (N. do T.)

quem não se teria perturbado ao ouvi- lo? Eu por mim, considerando que eu

. mesmo não seria capaz de nem de

perto proferir algo tão belo, de vergo- nha “quase me retirava e partia, se tivesse algum meio. Com efeito, vi- nha-me à mente o discurso de Górgias, a ponto de realmente eu sentir o que disse Homeroº º: temia que, con- cluindo, Agatão em seu discurso en- viasse ao meu a cabeça de Górgias, terrível orador, e de mim mesmo me fizesse uma pedra, sem voz. Refleti então que estava evidentemente sendo ridículo, quando convosco concordava em fazer na minha vez, depois de vós, o elogio ao Amor, dizendo ser terrível nas questões de amor, quando na ver- dade nada sabia do que se tratava, de como se devia fazer qualquer elogio. Pois eu achava, por ingenuidade, que se devia dizer a verdade sobre tudo que está sendo elogiado, e que isso era fundamental, da própria verdade se escolhendo as mais belas manifesta- ções para dispó-las o mais decente- mente possível; e muito me orgulhava então, como se eu fosse falar bem, como se soubesse a verdade em qual- quer elogio. No entanto, está aí, não era esse o belo elogio ao que quer que seja, mas o acrescentar o máximo à coisa, e o mais belamente possível, quer ela seja assim quer não; quanto a ser falso, não tinha nenhuma impor- tancia. Foi com efeito combinado como cada um de nós entenderia elo- giar o Amor, não como cada um o elo- giaria. Eis por que, pondo em ação

96 Odisséia, XI, 633-635:. npes / um uor Topyeinv segu Sewoio mENCpoU / É "Ato xéumyerev Oryavr) Iepoepóvera , um medo esverdeante me tomava, não me enviasse do Hades a augusta Perséfone a cabeça de Górgona, “o monstro terrível”. O adjetivo TFopyeinv (= Górgona) é homófono de Topyiarv (= Górgias). (N. do T.) |

EUE 66 yAwpov déos

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O BANQUETE 37

todo argumento, vós o aplicais ao Amor, e dizeis que ele é tal e causa de tantos bens, a fim de aparecer” ele como o mais belo e o melhor possível, evidentemente aos que o não conhecem pois não é aos que o conhecem e eis que fica belo, sim, e nobre o elogio. Mas é que eu não sabia então o modo de elogiar, e sem saber concordei, tam- bém eu, em elogiá-lo na minha vez: “a língua jurou, mas o meu peito não?º*: que ela se então. Não vou mais elo- giar desse modo, que não o poderia, é certo, mas a verdade sim, se vos apraz, quero dizer à minha maneira, e não em competição com os vossos discursos, para não me prestar ao riso. então, Fedro, se por acaso ainda precisão de um tal discurso, de ouvir sobre o Amor dizer a verdade, mas com nomes e com a disposição de frases que por acaso me tiver ocorrido.

Fedro então, disse Aristodemo, e os demais presentes pediram-lhe que, como ele próprio entendesse que devia falar, assim o fizesse.

Permite-me ainda, Fedro re- tornou Sócrates fazer umas pergun- tinhas a Agatão, a fim de que tendo obtido o seu acordo, eu possa assim falar.

Mas sim, permito disse Fedro. Pergunta! E então, disse Aristodemo, Sócrates começou mais ou menos por esse ponto:

Realmente, caro Agatão, bem me pareceste iniciar teu discurso, quando dizias que primeiro se devia

97 Sócrates critica nos elogios anteriores a preo- cupação exclusiva da aparência, em detrimento da realidade. Como concorrentes, os oradores agiram como se a máxima beleza dos seus dis- cursos fosse uma consegiiência da máxima be- leza atribuída ao Amor. Sócrates evita essa fa- lha fundamental. (N. do T.)

98 Eurípedes, Hipólito, 612. m yAbooa duwuox" n 6€ ypjv avwpnoros. (N. do T.)

mostrar o próprio Amor, qual a sua natureza, e depois as suas obras. Esse começo, muito o admiro. Vamos então, a respeito do Amor, que em geral explicaste bem e magnificamente qual é a sua natureza, dize-me também o seguinte: é de tal natureza o Amor

que é amor de algo ou de nada? Estou perguntando, não se é de uma mãe ou

de um pai pois ridícula seria essa pergunta, se Amor é amor de um pai ou de uma mãe mas é como se, a respeito disso mesmo, de “pai”, eu perguntasse: “Porventura o pai é pai de algo ou não? Ter-me-ias sem dúvida respondido, se me quisesses dar uma bela resposta, que é de um filho ou de uma filha que o pai é pai??; ou não?”

-— Exatamente disse Agatão.

E também a mãe não é assim?

Também admitiu ele.

-— Responde-me ainda, continuou Sócrates, mais um pouco, a fim de me- lhor compreenderes o que quero. Se eu te perguntasse: “E irmão!ºº, enquanto é justamente isso mesmo que é, é irmão de algo ou não?”

É, sim, disse ele.

De um irmão ou de uma irmã, não é? Concordou.

Tenta então, continuou Sócra- tes, também a respeito do Amor dizer- me: o Amor é amor de nada ou de algo?

De algo, sim.

Isso então, continuou ele, guar- da contigo!º?, lembrando-te de que é que ele é amor; agora dize-me apenas o

99 Entender: Assim como pai é pai com rela- ção a filho, amor é amor com relação a algu- ma coisa. É por esse objeto específico do amor que Sócrates pergunta. (N. do T.) 100 A repetição dos exemplos numa argumenta- ção, que muitas vezes nos parece ociosa e ge- ralmente nos impacienta é típica dos diálogos, que parecem nesse ponto refletir um hábito da época. (N. do T,)

101 Para dizêlo em 201 a 206. (N. do T.)

38 |, PLATÃO

seguinte: Será que o Amor, aquilo de

que é amor, ele o deseja ou não?

Perfeitamente respondeu o outro.

-— E é quando tem isso mesmo que deseja e ama que ele então deseja e ama, ou quando não tem?

Quando não tem, como é bem provável disse Agatão.

Observa bem, continuou Sócra- tes, se em vez de uma probabilidade não é uma necessidade que seja assim, o que deseja deseja aquilo de que é carente, sem o que não deseja, se não for carente. É espantoso como me parece, Agatão, ser uma necessidade; e ati?

Também a mim disse ele.

Tens razão. Pois porventura de- sejaria quem é grande ser grande, cu quem é forte ser forte?

Impossível, pelo que foi admiti- do.

Com efeito, não seria carente disso o que justamente é isso.

É verdade o que dizes.

Se, com efeito, mesmo o forte quisesse ser forte, continuou Sócrates, e o rápido ser rápido, e o sadio ser sadio pois talvez alguém pensasse que nesses e em todos os casos seme- lhantes os que são tais e têm essas qua- lidades desejam o que justamente têm, e é para não nos enganarmos que estou dizendo isso ora, para estes, Aga- tao, se atinas bem, é forçoso que te- nham no momento tudo aquilo que têm, quer queiram, quer não, e isso mesmo, sim, quem é que poderia dese- já-lo? Mas quando alguém diz: “Eu, mesmo sadio, desejo ser sadio, e mesmo rico, ser rico, e desejo isso mesmo que tenho”, poderiamos dizer- lhe: “Ô homem, tu que possuis rique-

za, saúde e fortaleza, o que queres é também no futuro possuir esses bens, pois no momento, quer queiras quer não, tu Os tens; observa então se, quan- do dizes “desejo o que tenho comigo”, queres dizer outra coisa senao isso: “quero que o que tenho agora comigo, também no futuro eu o tenha.” Deixa- ria ele de admitir?

Agatão, dizia Aristodemo, estava de acordo.

Disse então Sócrates: Não é isso então amar o que ainda nãc está à mão nem se tem, o querer que, para o futu- ro, seja isso que se tem conservado consigo e presente?

Perfeitamente disse Agatão.

Esse então, como qualquer outro que deseja, deseja o que não está à mão nem consigo, o que não tem, o que não é ele próprio e o de que é carente; tais são mais ou menos as coi- sas de que desejo e amor, não é?

Perfeitamente -— disse Agatão.

-—— Vamos entao, continuou Sócra- tes, recapitulemos o que foi dito. Não é certo que é o Amor, primeiro de certas coisas, e depois, daquelas de que ele tem precisão?

Sim disse o outro.

Depois disso então; lembra-te de que é que em teu discurso disseste ser o Amor; se preferes, eu te lembrarei. Creio, com efeito, que foi mais ou menos assim que disseste, que aos deu- ses foram arranjadas suas questões através do amor do que é belo, pois do que é feio não havia amor'"º2. Não era mais ou meros assim que dizias?

Sim, com efeito disse Aga- tão.

E acertadamente o dizes; amigo, declarou Sócrates; e se é assim, não é

102 V. supra p.35, n. 92. (N. do T.)

O BANQUETE

certo que o Amor seria da beleza, mas não da feiúra? Concordou.

Não está então admitido que aquilo de que é carente e que não tem é o que ele ama?

Sim disse ele.

Carece então de beleza o Amor, e não a tem?

É forçoso.

E então? O que carece de beleza e de modo algum a possui, porventura dizes tu que é belo?

Não, sem dúvida.

Ainda admites por conseguinte que o Amor é belo, se isso é assim?

E Agatão: É bem provável, ó Só- crates, que nada sei do que então disse!939

E no entanto, prosseguiu Sócra- tes, bem que foi belo o que disseste, Agatão. Mas dize-me ainda uma 'pe- quena coisa: o que é bom não te parece que também é belo?

-— Parece-me, sim.

Se portanto o Amor é carente do que é belo, e o que é bom é belo, tam- bém do que é bom seria ele carente! º *

Eu não poderia, ó Sócrates, disse Agatão, contradizer-te; mas seja assim como tu dizes.

É à verdade!º 8, querido Aga- tão, que não podes contradizer, pois a Sócrates não é nada difícil.

Eatieu te deixarei agora; mas o

103 Agatão reage como um discípulo ou um amigo de Sócrates, isto é, confessando franca- mente a ignorância que acaba de descobrir em si, (N. do T.)

- 104 Essa associação do bom e do belo, bem fa- miliar ao grego (ob. o epíteto corrente: Kaos xáyxdos ), e insistentemente defendida na argu- mentação socrática (v. por exemplo, Górgias, 474d-e), será de muita utilidade em 204e. (N. do T.)

105 Não se trata aqui de refutar a A ou a B, é o que quer dizer Sócrates; uma vez estabeleci- da a veracidade de um argumento, não é mais possível, ou melhor, não é mais questão de contestá-lo. (N. do T.)

39

discurso que sobre o Amor eu ouvi um

dia, de uma mulher de Mantinéia, Dio- tima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros foi ela que uma vez, porque os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos!º º recuar a doença, e era

ela que me instruía nas questões de amor o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir-vos, a partir do que foi admitido por mim e por Agatão, com meus próprios recur-

-sos e como eu puder. É de fato preciso,

Agatão, como tu indicaste, primeiro discorrer sobre o próprio Amor, quem é ele e qual a sua natureza e depois sobre as suas obras. Parece-me então que o mais fácil é proceder como outrora a estrangeira, que discorria interrogando-me"º?, pois também eu quase que lhe dizia outras tantas coi- sas tais quais agora me diz Agatão, que era o Amor um grande deus, e era

do que é belo; e ela me refutava, exata- mente com estas palavras, com que eu

estou refutando a este, que nem era belo segundo minha palavra, nem bom.

E eu então: Que dizes, ó Dioti- ma? É feio então o Amor, e mau?

E ela: Não vais te calar? Acaso pensas que o que não for belo, é forço- so ser feio?

Exatamente.

E também se não for sábio é ignorante? Ou não percebeste que exis- te algo entre sabedoria e ignorância?

Que é?

106 Se se trata da peste que assolou Atenas no começo da guerra do Peloponeso, Diotima te- ria feito o sacrifício em 440, quando Sócrates entrava na casa dos trinta. (N. do T.)

107 É estranho que uma sacerdotisa use o mé- todo de explicação dos sofistas do século V, através de perguntas forjadas por ela mesma. Esse parece um dos mais fortes indícios de que o fato contado por Sócrates é fictício. sobretu- do se se considera a exata correspondência dos diálogos Sócrates-Agatão, Diotima-Sócrates. (N. do T.)

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40 PLATÃO

O opinar certo, mesmo sem poder dar razão, não sabes, dizia-me ela, que nem é saber pois o que é sem razão, como seria ciência? nem é ignorância!º? pois o que atinge o ser, como seria ignorância? e que é sem dúvida alguma coisa desse tipo a opinião certa, um intermediário entre entendimento e ignorância.

É verdade o que dizes, tornei- lhe.

Não fiques, portanto, forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não é bom a ser mau. Assim também o Amor, porque tu mesmo admites!ºº que não é bom nem belo, nem por isso vás imaginar que ele deve ser feio e mau, mas sim algo que está, dizia ela, entre esses dois extremos.

E todavia é por todos reconhe- cido que ele é am grande deus!

Todos os que não sabem, é o que estás dizendo, ou também os que sabem?

“Todos eles, sem dúvida.

E ela sorriu e disse: E como, 6 Sócrates, admitiriam ser um grande deus aqueles que afirmam que nem deus ele é?

Quem são estes? perguntei-lhe.

Um és tu respondeu-me e eu, outra.

E eu: Que queres dizer com isso?

108 Cf, Menão, 97b-e. (N. do T.)

109 No Lísis (216d - 221e) Sócrates faz uma proposição semelhante amigo do belo e do bom o que não é nem bom nem mau), que ele encaminha para a seguinte aporia: À presença do mal no que não é bom nem é mau é o que faz este desejar o belo e o bom, e assim, ausente o mal, o belo e o bom não seriam capazes de suscitar o amor. Como se trata-se de puras idéias, cuja relação é dificultada na razão di- reta da sua exata conceituação. (N. do T.)

10 Essa observação de Sócrates vai determinar a passagem do método dialético para a exposi- ção alegórica. Demonstrada a natureza inter- mediária do Amor, Diotima chama-o de gênio, conta sua origem e traça seu retrato.(N. do T.)

E ela: É simples. Dize-me, com efeito, todos os deuses não os afirmas felizes e belos? Ou terias a audácia de dizer que algum deles não é belo e feliz?

Por Zeus, não eu retornei- lhe.

E os felizes então, não dizes que são os que possuem o que é bom e o que é belo?

—— Perfeitamente.

Mas no entanto, o Amor, tu reconheceste que, por carência do que é bom e do que é belo, deseja isso mesmo de que é carente.

Reconheci, com efeito.

Como então seria deus o que Justamente é desprovido do que é belo e bom?

De modo algum, pelo menos ao que parece.

Estás vendo então disse que também tu não julgas o Amor um deus?

-— Que seria então o Amor? perguntei-lhe. Um mortal?

Absolutamente.

Mas o quê, ao certo, ó Diotima?

Como nos casos anteriores disse-me ela algo entre mortal e imortal.

O quê, então, ó Diotima?

Um grande gênio, ó Sócrates; e

z

.com efeito, tudo o que é gênio está

entre um deus e um mortal.

-—— E com que poder? pergunteí-lhe.

O de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as súplicas e Os sacrifícios, e dos ou- tros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. Por seu intermédio é que procede não

203 a

O BANQUETE 41

toda arte divinatória, como também a dos sacerdotes que se ocupam dos sacrifícios, das iniciações e dos encan- tamentos, e enfim de toda adivinhação e magia. Um deus com um homem não se mistura, mas é através desse ser que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo; e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio!!?, enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou ofício, é um artesão. E esses gênios, é certo, sao muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor.

E quem é seu pai perguntei- lhe e sua mãe?

É um tanto longo de explicar, disse ela; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, em- briagado com o néctar pois vinho ainda não havia penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recur- so engendrar um filho de Recurso, dei- ta-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque tam- bém Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeira- mente ele é sempre pobre, e longe estã de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e 111 A expressão grega é Gauóvioç mp , isto é, homem marcado pelo gênio, pela divindade ( Seiuwv ). Nossos correspondentes “genial” ou

“de gênio” derivam para a idéia de talento. (N. do T.)

sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mae, sempre convivendo com a pre- cisão. Segundo o pai, porém, ele é insi-

- dioso com o que é belo e bom, e cora-

jJoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista!!'?: e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece!'3: ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe esca- pa, de modo que nem empobrece!!* o Amor nem enriquece, assim como tam- bém está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá. Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio pois é —!18 assim como

4

se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam

ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar, quem não é um homem dis- tinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não deseja portanto quem não imagina ser deficiente naqui- lo que não pensa lhe ser preciso.

112 O epíteto de sofista vem sem dúvida por associação com os dois anteriores. V. Protágo- ras, 328d. (N. do T.)

113 No grego evropnon (derivado de mópos = recurso). A transposição dessa temporal para depois de “ressuscita”, feita por Wilamo- vits e adotada por Robin, não nos parece sufi- cientemente justificada por razões estilísticas. Ao contrário do que alegam os seus defenso- res, tal como está o texto dos mss., o período mostra-se bem articulado, pela correspondên- cia dessa temporal com a expressão “graças à natureza do pai” no seguinte esquema: vive quando enriquece/ morre/ ressuscita graças à natureza do pai (N. do T.)

114 No grego acmopei (também derivado de moópos ). (N. do T.)

115 Cf. no Lísis um argumento semelhante: o bom, bastando-se a si mesmo, não é amigo (isto é, não ama e não deseja) do bom.(N. do T.)

204 a

42 PLATÃO

Quais então, Diotima per-

guntei-lhe os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes?

É o que é evidente desde respondeu-me até a uma criança: são os que estão entre esses dois extre- mos, e um deles seria o Amor. Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filó- sofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico"! º e de uma mãe que não é sábia, e pobre. É essa então, ó Sócrates, a natureza desse gênio; quanto ao que pensaste ser o Amor, não é nada de espantar o que tiveste. Pois pensaste, ao que me parece a tirar pelo que dizes, que Amor era o amado e não o amante; eis por que, segundo penso, parecia-te todo belo o Amor. E de fato o que é amável é que é realmente belo, delicado, per- feito e bem-aventurado"" ”7: o amante, porém é outro o seu caráter, tal qual eu expliquei.

E eu lhe disse: Muito bem, estrangeira! É belo o que dizes! Sendo porém tal a natureza do Amor, que proveito ele tem para os homens?

Eis o que depois disso res- pondeu-me tentarei ensinar-te. Tal é de fato a sua natureza €e tal a sua ori- gem; e é do que é belo, como dizes. Ora, se alguém nos perguntasse: Em que é que é amor do que é belo o Amor, ó Sócrates e Diotima? ou mais claramente: Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?

Tê-lo consigo respondi-lhe.

116 No grego elmopoç , assim como infra áropos = pobre, ambos derivados de mópos (N. do T.) 117 Cf, supra 18024. (N. do T.)

Mas essa resposta dizia-me ela ainda requer!!º uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com o que é belo?

Absolutamente expliquei-lhe eu não podia mais responder-lhe de pronto a essa pergunta.

Mas é, disse ela, como se al- guém tivesse mudado a questão e,

usando: o bom'!º em vez do belo,.

perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; que é que ele ama?

Tê-lo consigo respondi-lhe.

E que terá aquele que ficar com o que é bom?

Isso eu posso disse-lhe mais facilmente responder: ele será feliz.

É com efeito pela aquisição do que é bom, disse ela, que os felizes são felizes, e não mais é preciso ainda per- guntar: E para que quer ser feliz aquele que o quer? Ao contrário, completa parece a resposta.

É verdade o que dizes tor- nei-lhe.

E essa vontade então e esse amor, achas que é comum a todos os homens, e que todos querem ter sempre consigo o que é bom, ou que dizes?

Isso comum a todos.

E por que então, ó Sócrates, não são todos que dizemos que amam, se é que todos desejam a mesma coisa!2º e sempre, mas sim que uns amam e ou- tros não?

Também eu respondi-lhe admiro-me.

EA

respondi-lhe é

18 A expressão no grego é pitoresca ( mover , isto é, deseja), por sua relação com a idéia discutida no contexto. (N. do T.)

119V. supra p. 39, mn. 104. (N. do T.)

120 Isto é, o que é bom ou, mais literalmente, as coisas boas. (N. do T.)

205 a

O BANQUETE | 43

—Mas não! Não te admires! retrucou ela; pois é porque destaca- mos amor um certo aspecto e, apli- cando-lhe o nome do todo, chamamo- lo de amor, enquanto para os outros aspectos servimo-nos de outros nomes.

Como, por exemplo? pergun-.

tei-lhe. ;

Como o seguinte. Sabes que “poesia”'21 é algo de múltiplo; pois toda causa de qualquer coisa passar do não-ser ao ser é “poesia”, de modo que as confecções de todas as artes são “poesias”, e todos os seus artesãos poetas.

É verdade o que dizes.

Todavia continuou ela tu sabes que estes não são denominados poetas, mas têm outros nomes, en- quanto que de toda a “poesia” uma única parcela foi destacada, a que se refere à música e aos versos, e com o nome do todo é denominada. Poesia é com efeito isso que se chama, e os que têm essa parte da poesia, poetas.

É verdade disse-lhe.

Pois assim também é com o amor. Em geral, todo esse desejo do que é bom e de ser feliz, eis o que é “o supremo e insidioso amor, para todo homem?”?!22, no entanto, enquanto uns, porque se voltam para ele por vários outros caminhos, ou pela riqueza ou pelo amor à ginástica ou à sabedoria, nem se diz que amam nem que são amantes, outros ao contrário, proce- dendo e empenhando-se numa forma, detêm o nome do todo, de amor, de amar e de amantes.

121 Momo é no grego ação de moreiv = fa- zer, isto é, confecção, produção e num sentido mais limitado, poesia. (N. do T.)

122 Provavelmente uma citação do verso não identificado (N. do T.)

É bem provável que estejas dizendo a verdade disse-lhe eu.

E de fato corre um dito! 23, con- tinuou ela, segundo o qual são os que procuram a sua própria metade os que amam; o que eu digo porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo; pelo menos, meu amigo, se não se encontra este em bom estado, pois até os seus próprios pés e mãos querem os

homens cortar, se lhes parece que o que é seu está ruim. Não é com efeito o que é seu, penso, que cada um estima, a não ser que se chame o bem de pró- prio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais que amem os homens senão q bem; ou te parece que amam?

Não, por Zeus respondi-lhe.

Será então continuou que é tão simples!2* assim, dizer que os homens amam o bem?

Sim disse-lhe.

E então? Não se deve acres- centar que é ter consigo o bem que eles amam?

Deve-se.

E sem dúvida continuou não apenas ter, mas sempre ter?

Também isso se deve acrescen- tar.

Em resumo então disse ela é o amor amor de consigo ter sem- pre o bem.

Certísssimo afirmei-lhe o que dizes. j

123 Essa alusão ao discurso de Aristófanes é, como nota Robin em sua introdução ao Ban- quete, um indício habilmente dissimulado na verossimilhança da narração do caráter fictício de Diotima. (N. do T.)

124 O que segue até b deve ser relacionado com 200b-e. O desejo de ter para o futuro é o de- sejo de ter sempre. Daí associar-se a idéia do bem à de continuidade, a qual, logo mais refe- rida ao homem, ser mortal, assume a feição de imortalidade. (N. do T.)

206 a

44

Quando então continuou ela é sempre isso o amor, de que modo, nos que o perseguem, e em que ação, O seu zelo e esforço se chamaria amor'2 87 Que vem a ser essa ativida- de? Podes dizer-me?

Eu não te admiraria então, ó Diotima, por tua sabedoria, nem te

frequentaria para aprender isso mesmo. Mas eu te direi tornou-me.

É isso, com efeito, um parto em beleza, tanto no corpo como na alma.

É um adivinho disse-lhe eu que requer o que estás dizendo: não entendo.

Pois eu te falarei mais clara- mente, Sócrates, disse-me ela. Com efeito, todos os homens concebem, não no corpo como também na alma, e quando chegam a certa idade, é dar à luz que deseja a nossa natureza. Mas ocorrer isso no que é inadequado é impossível. E o feio é inadequado a tudo o que é divino, enquanto o belo é adequado. Moira então e Ilitia!2 º do nascimento é a Beleza. Por isso, quan- do do belo se aproxima o que está em concepção, acalma-se, e de Júbilo transborda, e à luz e gera; quando porém é do feio que se aproxima, som- brio e aflito contrai-se, afasta-se, reco- lhe-se e não gera, mas, retendo o que concebeu, penosamente o carrega. Daí é que ao que está prenhe e intumes- cido é grande o alvoroço que lhe vem à 125 Nova mudança no método de exposição, que agora passa a ser dircursivo. Assimilando abruptamente, à maneira dos profetas, a ativi- dade amorosa ao processo da geracão, Diotima discorre então sobre o sentido desta, revelan- do-a como uma maneira de participarem os

seres deste mundo da perene estabilidade do mundo ideal. (N. do T.) 126 Divindade que preside aos nascimentos,

assim como uma das três Moiras ou Parcas. (N. do T,)

PLATÃO

vista do belo, que de uma grande dor liberta o que está prenhe. É com efeito, Sócrates, dizia-me ela, não do belo o amor, como pensas.

Mas de que é enfim?

Da geração e da parturição no belo.

Seja disse-lhe eu.

Perfeitamente continuou. E por que assim da geração? Porque é algo de perpétuo e imortal para um mortal, a geração. E é a imortalidade que, com o bem, necessariamente se deseja, pelo que foi admitido, se é que o amor é amor de sempre ter consigo o bem'27. É de fato forçoso por esse argumento que também da imortali- dade seja o amor.

Tudo isso ela me ensinava, quando sobre as questões de amor discorria, e uma vez ela me perguntou: Que pensas, ó Sócrates, ser o motivo!?28 desse amor e desse desejo? Porventura não percebes como é estranho o com- portamento de todos os animais quan- do desejam gerar, tanto dos que andam quanto dos que voam, adoecendo todos em sua disposição amorosa, pri- meiro no que concerne à união de um com o outro, depois no que diz respeito a criação do que nasceu? E como em vista disso estão prontos para lutar os mais fracos contra os mais fortes, e mesmo morrer, não se torturando pela fome a fim de alimentá-los como tudo o mais fazendo? Ora, os homens, continuou ela, poder-se-ia pensar que é pelo raciocínio que eles agem assim;

127 206a. V. nota respectiva. (N. do T.)

128 Diotima e Sócrates se entenderam sobre o motivo do amor (206-207a, 207c-8-d). Por conseguinte, sua pergunta agora é apenas para iniciar uma verificação desse motivo, conside- rando-o a partir do amor físico, a forma mais sensível do amor. V. supra 205b-d. (N. do T.)

207 a

208 a

O BANQUETE 45

mas os animais, qual a causa desse seu comportamento amoroso? Podes di- zer-me?

De novo eu lhe disse que não sabia; e ela me tornou: Imaginas então algum dia te tornares temível nas ques- tões do amor, se não refletires. nesses

fatos?

Mas é por isso mesmo, Diotima como pouco eu te dizia que vim a ti, porque reconheci que. preci- sava de mestres. Dize-me então não a causa disso, como de tudo o mais

que concerne ao amor. | Se de fato continuou crês

que o amor é por natureza amor daqui- lo que muitas vezes admitimos, não fi- ques admirado., Pois aqui, segundo o mesmo argumento que lá, a natureza

mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal. E ela

pode assim, através da geração, porque sempre deixa um outro ser novo em lugar do velho!?2º: pois é nisso que se diz que cada espécie animal vive e é a mesma assim como de criança o homem se diz o mesmo até se:tornar velho; este na verdade, apesar de ja- mais ter em si as mesmas coisas, diz-se todavia que é o mesmo, embora sem- pre se renovando e perdendo alguma coisa, nos cabelos, nas carnes, nos ossos, no sangue e em todo o corpo. E não é que é no corpo, mas também na alma os modos, os costumes, as opiniões, desejos, prazeres, aflições, temores, cada um desses afetos jamais permanece o mesmo em cada um de nós, mas uns nascem, outros morrem. Mas ainda mais estranho do que isso é que até as ciências não é que umas 129 Segue até 208b um quadro muito vivo da visão heraclitiana da realidade. Mas, sob o fluxo desesperador das coisas, Diotima em sua geração, a sua maneira de continuar, o seu

modo de participar do ser perene das idéias. (N. do T.)

nascem e outras morrem para nós, e ja- mais somos os mesmos nas ciências, mas ainda cada uma delas sofre a mesma contingência. O que, com efei- to, se chama exercitar é como se de nós estivesse saindo a ciência; esqueci- mento é escape de ciência, e o exerci- cio, introduzindo uma nova lembrança em lugar da que está saindo, salva a ciência, de modo a parecer ela ser a mesma. É desse modo que tudo o que é mortal se conserva, e não pelo fato de absolutamente ser sempre o mesmo, como o que é divino, mas pelo fato de deixar o que parte e envelhece um outro ser novo, tal qual ele mesmo era. É por esse meio, ó Sócrates, que o mortal participa da imortalidade, no corpo como em tudo mais!3º. o imor- tal porém é de outro modo. Não te admires portanto de que o seu próprio rebento, todo ser por natureza O apre- cie: é em virtude da imortalidade que a todo ser esse zelo e esse amor acompa- nham.

Depois de ouvir o seu discurso, admirado disse-lhe: Bem, ó doutís- sima Diotima, essas coisas é verdadei- ramente assim que se passam?

E ela, como os sofistas consumados, tornou-me: Podes estar certo, ó Só- crates; o caso é que, mesmo entre os homens, se queres atentar à sua ambi- ção, admirar-te-ias do seu desarrazoa- 130 Alguns críticos querem ver nessa passagem uma contradição com a doutrina da imortali- dade da alma, e consegiientemente um indício da anterioridade do Banquete ao Fédon, onde aquela doutrina é longamente exposta. Na ver- dade, ela não autoriza a inferência de que a alma é mortal. Diotima diz que seus afetos e conhecimentos são passageiros, como os ele- mentos do corpo, mas não afirma que a alma são esses afetos e conhecimentos. A idéia de vá- rias encarnações da alma e a do conhecimento- reminiscência, exposta também no Fédon, ilus-

tra muito a compatibilidade de uma alma imor- tal com acidentes transitórios. (N. do T.)

209 a

46

mento, a menos que, a respeito do que te falei, não reflitas, depois de conside- rares quão estranhamente eles se com- portam com o amor de se tornarem renomados e de “para sempre uma gló- ria imortal se preservarem”, e como por isso estão prontos a arrostar todos os perigos, ainda mais do que pelos filhos, a gastar fortuna, a sofrer priva- ções, quaisquer que elas sejam, e até a sacrificar-se. Pois pensas tu, continuou ela, que Alceste!'?! morreria por Ad- meto, que Aquiles morreria depois de Pátroclo, ou o vosso Codro'º2 morre- ria antes, em favor da realeza dos filhos, se não imaginassem que eterna seria a memória da sua própria virtu- de, que agora nós conservamos? Longe disso, disse ela; ao contrário, é, segun- do penso, por uma virtude imortal e por tal renome e glória que todos tudo fazem, e quanto melhores tanto mais; pois é o imortal que eles amam. Por conseguinte, continuou ela, aqueles que estão fecundados em seu corpo voltam-se de preferência para as mu- lheres, e é desse modo que são amoro- sos, pela procriação conseguindo para si imortalidade, memória e bem-aven- turança por todos os séculos seguintes, ao que pensam; aqueles porém que é em sua alma pois os que conce- bem na alma mais do que no corpo, o que convém à alma conceber e gerar; e o que é que lhes convém senão o pen- samento e o mais da virtude! **9 Entre 131 É uma referência ao discurso de Fedro, 179 ss. (N. do T.) ; 132 Rei legendário de Atenas. Informado de que um oráculo prometera vitória aos dórios, se estes não o matassem, disfarça-se em solda- do e como tal encontra a morte com que sal- vou sua pátria. (N. do T.)

133 Entender virtude no sentido amplo de exce- lência, tal como o grego aperm .-Notar a dis- tinção feita no Banquete entre «wpóvmois (de ypovéoual ) = disposição para a sabedoria,

pensamento e copia, isto é, sabedoria (v. 202) que os deuses possuem. (N. do T.)

PLATÃO

al ps . estes estão todos os poetas criadores e:

todos aqueles artesãos que se diz serem inventivos; mas a mais importante, disse ela, e-a mais bela forma de pensa- mento é a que trata da organização dos negócios da cidade e da família, e cujo nome é prudência e justiça!?* des- tes por sua vez quando alguém, desde cedo fecundado em sua alma, ser divi- no que é, e chegada a idade oportuna, está desejando dar à luz e gerar, pro- cura então .também este, penso eu, à sua volta o belo em que possa gerar; pois no que é feio ele jamais o fará. Assim é que os corpos belos mais que

os feios ele os acolhe, por estar em concepção; e se encontra uma alma

bela, nobre e bem dotada, é total o seu acolhimento a ambos, e para um homem desses logo ele se enriquece! 3 $ de discursos sobre a virtude, sobre o que deve ser o homem bom e o que deve tratar, e tenta educá-lo. Pois ao contato sem dúvida do que é belo e em sua companhia, o que de muito ele concebia ei-lo que à luz e gera, sem o esquecer tanto em sua presença

quanto ausente, e o que foi gerado, ele o alimenta justamente com esse belo,

de modo que uma comunidade muito maior que a dos filhos ficam tais indi-

viíduos mantendo entre si, e uma ami-.

zade mais firme, por serem mais belos e mais imortais os filhos que têm em comum. E qualquer um aceitaria obter tais filhos mais que os humanos, de- pois de corisiderar Homero e Hesíodo, e admirando com inveja os demais bons poetas, pelo tipo de descendentes que deixam de si, e que uma imortal glória e memória lhes garantem, sendo 134 Prudência ( owypocivn ) e justiça são aqui formas do pensamento ( wypóvnos ); como no Protágoras (361b ss.) elas são, como as de- mais virtudes, formas ou aspectos de uma ciência ( émormun ). (N. do T.)

135 No grego eúropet , V. supra p. 41, n. 113.

(N. do T.)

210 a-

O BANQUETE a

eles mesmos o que são; ou se prefe- res!'3 8, continuou ela, pelos filhos que Licurgo deixou 'na Lacedemônia, sal- vadores da Lacedemônia e por assim dizer da Grécia. E honrado entre vós é também Sólon!? 7 pelas leis que criou, e outros muitos em muitas outras par- tes, tanto entre os gregos como entre os bárbaros, por terem dado à luz muitas

obras belas e gerado toda espécie de virtudes; deles é que se fizeram mui- tos cultos por causa de tais filhos, enquanto que por causa dos humanos ainda não se fez nenhum.

São esses então os casos de amor em que talvez, ó Sócrates, também tu pudesses ser iniciado!?º. mas, quanto à sua perfeita contemplação, em vista da qual é que esses graus existem, quando se procede corretamente, não sei se serias capaz; em todo caso, eu te direi, continuou, e nenhum esforço pouparei; tenta então seguir-me se

fores capaz: deve com efeito, começou ela, o que corretamente se encaminha a esse fim, começar quando jovem por

dirigir-se aos belos corpos, e em pri- meiro lugar, se corretamente o dirige O

136 A ordem em que aparecem os exemplos da poesia e da legislação parece sugerir a preemi- nência da primeira sobre a segunda. Cf. toda- via República, X, 597 e ss., em que Platão, ao contrário, explica a superioridade da segunda. (N. do T.)

137 Em conferência na Associação dos Estudos Clássicos do Brasil (Seção de São Paulo), so- bre o autocriticismo em Atenas, o Prof. Aubre- ton observou com muito acerto os sentimentos de laconismo que revela essa maneira de um ateniense citar depois das leis de Licurgo salvadores da Grécia... as leis do seu con- terrâneo e também Sólon... (N.doT.)

138 Feito o exame das diversas formas da ativi- dade amorosa (proscrição, poesia, legislação), Diotima as considera como estágios prelimina- res do supremo ato do amor, que é a conquista da ciência do belo em si. Para dar no entanto a entender o caráter dessa ciência e de sua aquisição, ela recorre à alegoria da iniciação aos mistérios. Compará-la a esse respeito com o mito da Caverna na República. (N. do T.)

seu dirigente, deve ele amar um corpo e então gerar belos discur-

“sos!3º, depois deve ele compreender.

que a beleza em qualquer corpo é irmã

"da que está em qualquer outro, e que,

se se deve procurar o belo na forma, muita tolice seria não considerar uma e a mesma a beleza em todos os cor- pos; e depois de entender isso, deve ele fazer-se amante de todos os belos cor- pos e largar esse amor violento de um só, após desprezá-lo e considerá-lo mesquinho; depois disso a beleza que está nas almas deve ele considerar mais preciosa que a do corpo, de modo que, mesmo se alguém de uma alma gentil tenha todavia um escasso encan- to, contente-se ele, ame e se interesse, e produza e procure discursos tais que

tornem melhores os jovens; para que

então seja obrigado a contemplar o belo nos ofícios e nas leis, e a ver assim que todo ele tem um parentesco comum! *º, e julgue enfim de pouca monta o belo no corpo; depois dos ofi- cios é para as ciências que é preciso transportá-lo, a fim de que veja tam- bém a beleza das ciências, e olhando para O belo muito, sem mais amar como um doméstico a beleza indivi- dual de um criançola, de um homem ou de um costume, não seja ele, nessa escravidão, miserável e um mes- quinho discursador, mas voltado ao vasto oceano do belo e, contemplan- do-o, muitos discursos belos e magnií- 139 Evidentemente não se trata aqui do amor físico entre o homem e a mulher, que tem a justificação na procriação (208e), e sim de uma primeira etapa do amor entre o amante o bem-amado, que deve estar condicionado à produção dos belos discursos. Essa etapa ini- cial corresponde ao que Pausânias, numa pers- pectiva menos clara, afirma ser o nobre amor de Afrodite Urânia. (N. do T.)

140 Assim como, pouco antes, um belo corpo é irmão de um belo corpo, todos estes por sua

vez têm a mesma relação com os belos ofícios e as belas leis. (N. do T.)

2il a

48 PLATÃO

ficos ele produza, e reflexões, em ines- gotável amor à sabedoria, até que robustecido e crescido! *' contemple ele uma certa ciência, única, tal que o seu objeto é o belo seguinte. Tenta agora, disse-me ela, prestar-me a máxi- ma atenção possível. Aquele, pois, que até esse ponto tiver sido orientado para as coisas do amor, contemplando seguida e corretamente o que é belo, chegando ao ápice dos graus do amor, súbito perceberá algo de maravilhosa- mente belo em sua natureza, aquilo mesmo! “2, ó Sócrates, a que tendiam todas as penas anteriores, primeira- mente sempre sendo, sem nascer nem perecer, sem crescer nem decrescer, e depois, não de um jeito belo e de outro feio, nem ora sim ora não, nem quanto a isso belo e quanto aquilo feio, nem aqui belo ali feio, como se a uns fosse belo e a outros feio; nem por outro lado aparecer-lhe-ã o belo como um rosto ou mãos, nem como nada que o corpo tem consigo, nem como algum discurso ou alguma ciência, nem certa-

mente como a existir em algo mais, como, por exemplo, em animal da terra

ou do céu, ou em qualquer outra coisa; ao contrário, aparecer-lhe-ã ele

mesmo, por si mesmo, consigo mesmo, sendo sempre uniforme! *?, enquanto

141 A abundância é a grandeza dos discursos decorrentes da extensão do belo contempla- do ( mpos moAv 7ôn Kaxóv ) é condição para atingir a contemplação do próprio belo. (N. do T.)

142 Observar ro que precede até essa expressão uma extraordinária técnica de suspense para preparar o deslumbramento do que segue, isto é, a descrição do belo em si. Desencantados da magia desse trecho, podemos perceber que ele é uma resposta àquela litania final do discurso de Agatão (197d-e), mas quão superior em emoção e grandeza! (N. do T.)

143 Essas expressões, que aparecem freqiiente- mente no Fédon para caracterizar as idéias em sua pureza essencial, contrapõem-se a fórmulas usadas pouco acima (de um jeito... de ou- tro... ora... ora... quanto a isso... quanto àquilo... etc.) para qualificar as coisas deste mundo, e que representam por assim dizer os marcos da argumentação socrática. (N. do T.)

tudo mais que é belo dele participa, de um modo tal que, enquanto nasce e pe- rece tudo mais que é belo, em nada ele fica maior ou menor, nem nada sofre.

Quando então alguém, subindo a partir do que aqui é belo! 44, através do cor- reto amor aos jovens, começa a con- templar aquele belo, quase que estaria

a atingir o ponto final. Eis, com efeito, em que consiste o proceder correta- mente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar

do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre, como que servin- do-se de degraus, de um para dois e de dois para todos os belos corpos, e

dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciên-

cia, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo. Nesse ponto da vida, meu caro Sócrates, continuou a estrangeira

de Mantinéia, se é que em outro mais, poderia o homem viver, a contemplar o próprio belo. Se algum dia o vires, não é como ouro! ?* ou como roupa que ele te parecerá ser, ou como os belos Jovens adolescentes, a cuja vista ficas agora aturdido e disposto, tu como ou-

tros muitos, contanto que vejam seus amados e sempre estejam com eles, a nem comer nem beber, se de algum

modo fosse possível, mas a contem- plar e estar ao seu lado! 4 8. Que pensa- mos então que aconteceria, disse ela, se a alguém ocorresse contemplar o próprio belo, nítido, puro, simples, e

I44 O pronome rúvôe parece-me aqui refe- rir-se claramente à idéia do belo. Assim, tradu- zimo-lo especificando: “as coisas belas daqui”. A menção explícita r&óv kKakov, um pouco abaixo, explica-se pelo fato de que Diotima está resumindo sua lição. (N. do T.)

145 Como o sofista Hípias o define para Sócra- tes. V. Hípias Maior, 289e. (N. do T.)

146 Cf. supra 192d-e. (N. do T.)

212 a

O BANQUETE 49

não repleto de carnes, humanas, de cores e outras muitas ninharias mor- tais, mas o próprio divino belo pudesse ele em sua forma única contemplar? Porventura pensas, disse, que é vida a de um homem a olhar naquela dire- ção e aquele objeto, com aquilo! “7 com que deve, quando o contempla e com ele convive? Ou não consideras, disse ela, que somente então, quando vir o belo com aquilo com que este pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir não sombras! de virtude, porque não é em sombra que estará tocando, mas reais virtudes, porque é no real que estará tocando?

Eis o que me dizia Diotima, ó Fedro e demais presentes, e do que estou convencido; e porque estou conven-

cido, tento convencer também os ou- tros de que para essa aquisição, um colaborador da natureza humana me- lhor que o Amor não se encontraria facilmente. Eis por que eu afirmo que deve todo homem honrar o Amor, e que eu próprio prezo o que lhe con- cerne e particularmente o cultivo, e aos outros exorto, e agora e sempre elogio o poder e a virilidade do Amor na me- dida em que sou capaz. Este discurso, ó Fedro, se queres, considera-o profe- rido como um encômio!*º ao Amor; se não, O que quer que e como quer que te apraza chamá-lo, assim deves fazê- lo.

Depois que Sócrates assim falou, enquanto que uns se pôem a louvá-lo, Aristófanes tenta dizer alguma

147 Tsto é, com a inteligência, ou antes, com a própria alma, livre das suas relações com o

corpo. V. Fédon, 65b-e. (N. do T.)

148 São as virtudes praticadas pelo comum dos homens, tais como Platão as explica no Fédon, 68b-69b. (N. do T.)

149 Porque foi proferido à maneira socrática. V. supra 199b. (N. do T.)

coisa! *º, que era a ele que aludira Só- crates, quando falava de um certo dito; e súbito a porta do pátio, percutida, produz um grande barulho, como de foliões, e ouve-se a voz de uma flautis- ta. Agatão exclama: “Servos! Não 1reis ver? Se for algum conhecido, cha- mai-o; se não, dizei que não estamos bebendo, mas repousamos”.

Não muito depois ouve-se a voz de Alcibiades no pátio, bastante embria- gado, e a gritar alto, perguntando onde estava Agatão, pedindo que o levassem para junto de Agatão. Levam-no então até os convivas a flautista, que O tomou sobre si, e alguns outros acom- panhantes, e ele se detém à porta, cin- gido de uma espécie de coroa tufada de hera e violetas, coberta a cabeça de fitas em profusão, e exclama: “Senhores! Salve! Um homem em completa embriaguez vós o recebereis como companheiro de bebida, ou deve- mos partir, tendo apenas coroado Aga- tao, pelo qual viemos”? Pois eu, na ver- dade, continuou, ontem mesmo não fui capaz de vir; agora porém eis-me aqui, com estas fitas sobre a cabeça, a fim de passá-las da minha para a cabeça do mais sábio e do mais belo, se assim devo dizer. Porventura ireis zombar de mim, de minha embriaguez? Ora, eu, por mais que zombeis, bem sei por- tanto que estou dizendo a verdade. Mas dizei-me dai mesmo: com o que disse, devo entrar ou nao? Bebereis co- migo ou não?”

Todos então o aclamam e convidam a entrar e a recostar-se, e Agatão o chama. Vai ele conduzido pelos ho- mens, e como ao mesmo tempo colhia as fitas para coroar, tendo-as diante 150 Aristófanes não parece, como os demais convivas, empolgado com o que foi dito por Sócrates, o que bem revela sua pouca predis-

posição para captar o conteúdo do discurso de Alcibíades. (N. do T.)

213 a

50 dos olhos não viu Sócrates, e todavia senta-se ao de Agatão, entre este e Sócrates, que se afastara de modo a que ele se acomodasse. Sentando-se ao lado de Agatão ele o abraça e o coroa.

Disse então Agatão: Descalçai Alcibíades, servos, a fim de que seja O terceiro em nosso leito! 3?.

Perfeitamente tomou Alci- biades; mas quem é este nosso ter- ceiro companheiro de bebida? E en- quanto se volta avista Sócrates, e mal o viu recua em sobressalto e exclama: Por Hércules! Isso aqui que é? Tu, ó Sócrates? Espreitando-me de novo te deitaste, de súbito aparecendo assim como era teu costume, onde eu menos esperava que haverias de estar? E agora, a que vieste? E ainda por que foi que aqui te recostaste? Pois não foi junto de Aristófanes! 2, ou de qual- quer outro que seja ou pretenda ser engraçado, mas junto do mais belo dos que estão aqui dentro que maquinaste te deitar.

E Sócrates: Agatão, se me defendes! Que o amor deste homem se me tornou um não pequeno proble- ma! 3, Desde aquele tempo, com efei- to, em que o amei, não mais me é per-

151Y. supra p. 15, n, 13, e p. 16 (N. do T.)

152 Por que essa referência a Aristófanes? Não temos nenhuma outra notícia da predileção de Sócrates pelos cômicos, em particular por Áris- tófanes. Por outro lado é de supor que Alcibia- des de pronto percebesse a possibilidade de Sócrates ter sido convidado pelo próprio Aga- tão, como de fato aconteceu. Assim, suas pala- vras devem ser entendidas mais como um arti fício dramático para chamar a atenção sobre a incapacidade em Aristófanes de entender o ver- dadeiro aspecto cômico da atitude de Alcibía- des para com Sócrates. (N. do T.)

153 Essa observação de Sócrates, como a de Alcibíades logo a seguir, anuncia à maneira de um prelúdio as conclusões que vamos tirar do discurso de Alcibíades sobre a irresponsabilida- de de Sócrates no comportamento de Alcibía- des. (N. do T.)

, n. 16.

PLATÃO

mitido dirigir nem o olhar nem a palavra a nenhum belo jovem, senão este homem, enciumado e invejoso, faz coisas extraordinárias, insulta-me e mal retém suas mãos da violência. então se também agora não vai ele fazer alguma coisa, e reconcilia-nos; ou .se ele tentar a violência, defende- me, pois eu da sua fúria e da sua pai- xão amorosa muito me arreceio.

Não! disse Alcibiades entre mim e ti não reconciliação. Mas pelo que disseste depois eu te castigarei; agora porém, Agatão, ex- clamou ele, passa-me das tuas fitas, a fim de que eu cinja também esta aqui, a admirável cabeça deste homem, e não me censure ele de que a ti eu te coroei, mas a ele, que vence em argu- mentos todos os homens, não ontem como tu, mas sempre, nem por isso eu o coroei. E ao mesmo tempo ele toma das fitas, coroa Sócrates e recos-

ta-se.

Depois que se recostou, disse ele: Bem, senhores! Vós me pareceis em plena sobriedade. É o que não se deve permitir entre vós, mas beber; pois foi o que foi- combinado entre nós. Como chefe então da bebedeira, até que tiver- des suficientemente bebido, eu me .elejo a mim mesmo! *4. Eia, Agatão, que a tragam logo, se houver alguma gran- de taça. Melhor ainda, não nenhu- ma precisão: vamos, servo, traze-me

“aquele porta-gelo ! exclamou ele, quan-

do viu um com capacidade de mais de oito “cótilas”! * 8, Depois de enchê-lo, primeiro ele bebeu, depois mandou Só- crates entornar, ao mesmo tempo que

154 Alcibíades sente em sua embriaguez que o “simposiarca” (v. supra p.17,n. 21) não se houve bem em sua função e pretende reparar a falta... (N. do T.)

155 Uma “cótila” equivalia a pouco mais de um quarto de litro. (N. do T.)

214 a

d

O BANQUETE 51

dizia: Para Sócrates, senhores, meu ardil não é nada: quanto se lhe man- dar, tanto ele beberá, sem que por isso jamais se embriague! * 8,

Sócrates então, fenda he entornado o servo, pôs-se a beber; mas eis que Eriximaco exclama: Que é então que fazemos, Alcibiades? Assim nem dizemos nada nem cantamos de taça à mão, mas simplesmente iremos beber, como os que têm sede?

Alcibíades então exclamou: Ex- celente filho de um excelente e sapien- tíssimo pai, salve!

Também tu, salve! respon- deu-lhe Eriximaco; mas que deve- mos fazer?

:— O que ordenares! É preciso com efeito te obedecer:

pois um homem que é médico vale muitos outros! * ?;

ordena então o que queres.

Quve então disse Eriximaco. Entre nós, antes de chegares, deci- dimos que devia cada um à direita pro- ferir em seu turno um discurso sobre o Amor, o mais belo que pudesse, e lhe fazer o elogio. Ora, todos nós fala- mos; tu porém como não o fizeste e bebeste tudo, é justo que fales, e que depois do teu discurso ordenes a Só- crates o que quiseres, e este ao da direi- ta, e assim aos demais.

Mas, Eriximaco! tornou-lhe Alcibiades é sem dúvida bonito o que dizes, mas um homem embriagado proferir um discurso em confronto com os de quem está com sua razão, é de se esperar que não seja de igual para igual. E ao mesmo tempo, ditoso

156 V, infra 220a. (N. do T.) 157 Iltada, XI, 514. (N. do T.)

amigo, convence-te Sócrates em algo do que pouco disse? Ou sabes que é o contrário de tudo o que afirmou? É ele ao contrário que, se em sua pre- sença eu louvar alguém, ou um deus ou um oufro homem fora ele, não tirará suas mãos de mim.

Não vais te calar? disse Sócrates. Sim, por Posidão respon-

deu-lhe Alcibiades; nada digas quanto a ISSO, que eu nenhum outro mais lou- varia em tua presença.

Pois faze isso então disse-lhe Eriximaco se te apraz; louva Sócrates.

Que dizes? tornou-lhe Alci- biades; parece-te necessário, Erixí- maco? Devo: então atacar-me ao homem e castigá-lo" SSdiante de vós?

Eh! tu! disse-lhe Sócrates que tens em mente? Não é para carre- gar! no ridículo que vais elogiar- me? Ou que farás?

A verdade eu direi. se acei- tas!

Mas sem dúvida! respon- deu-lhe a verdade sim, eu aceito, e mesmo peço que a digas.

Imediatamente tornou-lhe Alcibtades. Todavia faze o seguin- te. Se eu disser algo inverídico, inter- rompe-me incontinenti, se quiseres, e dize que nisso eu estou falseando; pois de minha vontade eu nada falsearei. Se porém a lembrança de uma coisa me

158 Contando a decepção que lhe causou o outro como “amante”. O comportamento de Sócrates desfizera seus planos escabrosos, pon- do a nu suas verdadeiras intenções. Comparar essa confissão de Alcibíades com a apologia de Pausânias. (N. do T.)

159 Sócrates está falando em conhecimento de causa. A experiência de Alcibíades foi ridícula, e o elogio que este lhe promete fazer vai expô-lo, portanto, a mal-entendidos como os que sofreu por parte de Aristófanes. (N. do T.)

215 a

52 PLATÃO

faz dizer outra, não te admires; não é fácil, a quem está neste estado, da tua singularidade dar uma conta bem feita e seguida.

“Louvar Sócrates, senhores, é assim

que eu tentarei, através de imagens. Ele

certamente pensará talvez que é para carregar no ridículo, mas será a ima- gem em vista da verdade, não do ridi- culo. Afirmo eu então que é ele muito semelhante a esses silenos! coloca- dos nas oficinas dos estatuários, que os artistas representam com um pifre ou uma flauta, os quais, abertos ao meio, vê-se que têm em seu interior estatue- tas de deuses. Por outro lado, digo também que ele se assemelha ao sátiro Mársias!'º 1, Que na verdade, em teu aspecto pelo menos és semelhante a esses dois seres, ó Sócrates, nem mesmo. tu sem dúvida poderias contes- tar; que porém também no mais tu te assemelhas, é o que depois disso tens de ouvir. És insolente! º2! Não? Pois se não admitires, apresentarei testemu- nhas. Mas não és flautista? Sim! E muito mais maravilhoso que o sátiro. Este, pelo menos, era através de instru- mentos que, com o poder de sua boca, encantava os homens como ainda agora o que toca as suas melodias pois as que Olimpo! 83 tocava são de Mársias, digo eu, por este ensinadas as dele então, quer as toque um bom 160 Também chamados sátiros, os silenos eram divindades campestres que faziam parte do sé- quito de Dioniso. Eram figurados com cauda e cascos de boi ou de bode e rosto humano, sin- gularmente feio. (N. do T.)

161 Exímio flautista, Mársias desafiou Apolo com sua lira é, vencido, foi esfolado pelo deus. 162 A liberdade espiritual de Sócrates dá-lhe realmente, em muitas circunstâncias, essa apa- rência. V. Apol. 20e-23c, 30c e ss. e 36b-37. (N. do T.)

163 Em Minos Sócrates cita-o como bem-amado

de Mársias. Muitas canções antigas lhe eram atribuídas. (N. do T.)

flautista quer uma flautista ordinária, são as únicas que nos fazem possessos e revelam os que sentem falta dos deu- ses e das iniciações, porque são divi- nas. Tu porém dele diferes apenas nesse pequeno ponto, que sem instru- mentos, com simples palavras, fazes o mesmo. Nós pelo menos, quando algum outro ouvimos mesmo que seja um perfeito orador, a falar de outros assuntos, absolutamente por assim dizer ninguém se interéssa; quando porém é a ti que alguém ouve, ou pala- vras tuas referidas por outro, ainda que seja inteiramente vulgar o que estã falando, mulher, homem ou adoles- cente, ficamos aturdidos e somos em- polgados. Eu pelo menos, senhores, se não fosse de todo parecer que estou embriagado, eu vos contaria, sob jura- mento, o que é que eu sofri sob o efeito dos discursos deste homem, e sofro ainda agora. Quando com efeito os escuto, muito mais do que aos cori- bantes! º * em seus transportes bate-me o coração, e lágrimas me escorrem sob o efeito dos seus discursos, enquanto que outros muitíssimos eu vejo que experimentam o mesmo sentimento; ao ouvir Péricles porém, e outros bons oradores, eu achava que falavam bem sem dúvida, mas nada de semelhante eu sentia! 8º, nem minha alma ficava perturbada nem se irritava, como se se encontrasse em condição servil; mas com este Mársias aqui, muitas foram as vezes em que de tal modo me sentia que me parecia não ser possível viver em condições como as minhas. E isso, ó Sócrates, não irás dizer que não é 164 Sacerdotes de Cibele, da Frígia, que dança- vam freneticamente ao som de flautas, címba- les e tamborins. (N. do T.) 165 É que não eram estes oradores “homens de

gênio”, suscetíveis de uma inspiração divina (v. supra 2032). (N. do T.)

O BANQUETE 53

verdade. Ainda agora tenho certeza de que, se eu quisesse prestar: ouvidos, não resistiria, mas experimentaria os mesmos sentimentos. Pois me força ele a admitir que, embora sendo eu mesmo deficiente em muitos pontos ainda, de mim mesmo me descuido, mas trato dos negócios de Atenas! 8 8; A custo então, como se me afastasse das sereias, eu cerro os ouvidos e;me retiro em fuga, a fim de não ficar sentado e aos seus pés envelhecer. E senti diante deste homem, somente diante dele, o que ninguém imaginaria haver em mim, o envergonhar-me de quem quer que seja; ora, eu, é diante deste homem somente que me envergonho. Com efei- to, tenho certeza de que não posso contestar-lhe que não se deve fazer o que ele manda, mas quando me retiro sou vencido pelo apreço em: que me tem o público. Safo-me então de sua presença e fujo, e quando o vejo enver- gonho-me pelo que admiti. E muitas vezes sem dúvida com prazer o veria não existir entre os homens; mas se por outro lado tal coisa ocorresse, bem sei que muito maior seria a minha dor, de modo que não sei o que fazer;com esse

homem. De seus flauteios então, tais foram

as reações que eu e muitos outros tive- mos deste sátiro; mas ouvi-me como ele é semelhante aqueles a quem o comparei, que poder maravilhoso ele tem. Pois ficai sabendo que ninguém o conhece; mas eu o revelarei, que comecei. Estais vendo, com efeito, como Sócrates amorosamente se com- porta com os belos jovens, está sempre ao redor deles, fica aturdido e como também ignora tudo e nada sabe! 8”.

166 Cf. Alcibíades, 109d e 113b. (N. do T.) 1687 Como numa cilada para atrair os incautos. Cf. supra 203d. (N. do T.)

Que esta sua atitude não é conforme à dos silenos? E muito mesmo. Pois é

" aquela com que por fora ele se reveste,

como. o sileno esculpido; mas den- tro, uma vez aberto, de quanta sabedo- ria imaginais, companheiros de bebida, estar ele cheio? Sabei que nem a quem é belo tem ele a mínima consideração, antes despreza tanto quanto ninguém poderia imaginar, nem tampouco a quem é rico, nem a quem tenha qual- quer outro título de honra, dos que são enaltecidos pelo grande número; todos esses bens ele julga que nada valem, e que nós nada somos é o que vos digo e é ironizando e brincando com os homens que ele passa toda a vida. Uma vez porém que fica sério e se abre, não sei se alguém viu as estátuas dentro; eu por mim uma vez as vi, e tão divinas me pareceram

elas, com tanto ouro, com uma beleza tão completa e tão extraordinária que

eu tinha que fazer imediatamente o que me mandasse Sócrates. Julgando porém que ele estava interessado em minha beleza, considerei um achado e um maravilhoso lance da fortuna, como se me estivesse ao alcance, de- pois de aquiescer a Sócrates, ouvir tudo o que ele sabia; o que, com efeito, eu presumia da beleza de minha juven- tude era extraordinário! Com tais idéias em meu espírito! º8, eu que até então não costumava sem um acompa- nhante ficar com ele, dessa vez, despachando o acompanhante, encon- trei-me a sós é preciso, com efeito,

168 Alcibíades passa a contar os seus esforços para conquistar o amor de Sócrates. Tais esfor- ços constituem, como observa Robin em sua Introdução, uma verdadeira tentação, isto é, uma caricatura da iniciação amorosa tal como é caracterizada por Diotima. Através dessa

caricatura, Platão pretende ilustrar a qualidade

superior do cômico obtido com uma verdadeira arte. (N. do T.)

217 a

54 PLATÃO

dizer-vos toda a verdade; prestai atenção, e se eu estou mentindo, Sócra- tes, prova pois encontrei-me, senho- res, a sós com ele, e pensava que logo ele iria tratar comigo o que um amante em segredo trataria com o bem-amado, e me rejubilava. Mas não; nada disso absolutamente aconteceu; ao contrá- rio, como costumava, se por acaso co- migo conversasse e passasse O dia, ele retirou-se e foi-se embora. Depois disso convidei-o a fazer ginástica co- migo e entreguei-me aos exercícios, como se houvesse então de conseguir algo. Exercitou-se ele comigo e comigo lutou muitas vezes sem que ninguém nos presenciasse; e que devo dizer? Nada me adiantava. Como por ne- nhum desses caminhos eu tivesse resul- tado, decidi que devia atacar-me ao homem a força e não largá-lo, uma vez que eu estava com a mão na obra, mas logo saber de que é que se tratava. Convido-o então a jantar comigo, exa- tamente como um amante armando ci- lada ao bem-amado. E nem nisso tam- bém ele me atendeu logo, mas na verdade com o tempo deixou-se con- vencer. Quando porém veio à primeira vez, depois do jantar queria partir. Eu então, envergonhado, larguei-o; mas repeti a cilada, e depois que ele estava jantado eu me pus a conversar com ele noite .adentro, ininterruptamente, e quando quis partir, observando-lhe que era tarde, obriguei-o a ficar. Ele des- cansava então no leito vizinho ao meu, no mesmo em que jantara, e ninguém mais no compartimento ia dormir senão nós. Bem, até esse ponto do meu discurso ficaria bem fazê-lo a quem quer que seja; mas o que a partir daqui se segue, vós não me terieis ouvido

dizer se, primeiramente, como diz Oo ditado, no vinho, sem as crianças ou com elas, não estivesse a verdade! 8 % e depois, obscurecer um ato excepcional- mente brilhante de Sócrates, quando se saiu a elogiá-lo, parece-me injusto. E ainda mais, o estado do que foi mordi- do pela víbora é também o meu. Com efeito, dizem que quem sofreu tal aci- dente não quer dizer como foi senão aos que foram mordidos, por serem os únicos, dizem eles, que o com- preendem e desculpam de tudo que ousou fazer e dizer sob o efeito da dor. Eu então, mordido por algo mais dolo- roso, e no ponto mais doloroso em que se possa ser mordido pois foi no coração ou na alma, ou no que quer que se deva chamá-lo que fui golpeado e mordido pelos discursos filosóficos,

“que têm mais virulência que a víbora,

quando pegam de um jovem espirito, não sem dotes, e que tudo fazem come- ter e dizer tudo e vendo por outro lado os Fedros, Agatãos, Eriximacos, os Pausânias, os Aristodemos e os Aristófanes; e o próprio Sócrates, é preciso mencioná-lo? E quantos mais... Todos vós, com efeito, parti- cipastes em comum”? º, do delírio filo- sófico e dos seus transportes báquicos e por isso todos ireis ouvir-me; pois haveis de desculpar-me do que então fiz e do que agora digo. Os domésticos, e se mais alguém profano e inculto,

169 Alusão ao provérbio oivoç Kai maiões WAndEIs : o vinho e as crianças são verídicas. (N. do ES

170 Não deixa de ser estranha essa inclusão de Aristófanes no grupo dos amantes da filosofia. Como poeta cômico, este devia estar presente a todas as reuniões desse tipo, e daí poder Alcibíades confundi-lo naturalmente com os que ardorosamente a defendiam, em oposição aos indiferentes. (N. do TF.)

218 a

dai ita

O BANQUETE 55

que apliquem aos seus ouvidos portas bem espessas!” 1,

Como com efeito, senhores, a lâm- pada se apagara e os servos estavam fora, decidi que não devia fazer ne- nhum floreado com ele, mas franca- mente dizer-lhe o que eu pensava; e assim o interpelei, depois de sacudi-lo: Sócrates, estás dormindo?

Absolutamente respondeu-

me. | Sabes então qual é a-minha

decisão? Qual é exatamente? tornou-

me. ; Tu me pareces disse-lhe eu

ser um amante digno de mim,-o único, e te mostras hesitante em decla- rar-me. Eu porém é assim que me sinto: inteiramente estúpido eu acho não te aquiescer não nisso como também em algum caso em que preci- sasses ou de minha fortuna ou dos meus amigos. A mim, com efeito, nada me é mais digno de respeito do que o tornar-me eu o mélhor possível, e para isso creio que nenhum auxiliar me é mais importante do que tu. Assim é que eu, a um tal homem recusando meus favores!?72, muito mais me en- vergonharia diante da gente ajuizada

do que se os concedesse, diante da multidão irrefletida.

E este homem, depois de ouvir-me, com a perfeita ironia que é. bem sua

' do seu hábito, retrucou-me: Caro

Alcibíades, é bem provável que real-

. mente não sejas um vulgar, se chega a

171 Alusão a uma fórmula de iniciação órfica:

pyéyEouor ois Véuis éoriv JUpas 6 entdeode, Bépnho..

“Falarei àqueles a quem é permitido; aplicai portas (aos ouvidos), ó profanos.”' (N. do T.)

172 Alcibíades aplicou literalmente a doutrina de Pausânias. Cf. supra 184d-185b. (N. do T.)

ser verdade o que dizes a meu respeito, e se em mim algum poder pelo qual tu te poderias tornar melhor; sim, uma irresistível beleza verias em mim, e totalmente diferente da formosura que em ti. Se então, ao contemplá-la, tentas compartilhá-la comigo e trocar beleza por beleza, não é em pouco que pensas me levar vantagens, mas ao contrário, em lugar da aparência é a realidade do que é belo que tentas adquirir, e, realmente é “ouro por cobre” 173 que pensas trocar. No en- tanto, ditoso amigo, examina melhor; não te passe despercebido que nada sou. Em verdade, a visão do pensa- mento começa a enxergar com agude- za quando a dos olhos tende a perder sua força; tu porém estás ainda longe disso.

E eu, depois de ouvi-lo: Quanto

ao que é de minha parte, eis aí; nada -

do que está dito é diferente do que penso; tu porém decide de acordo com o que julgares ser o melhor para ti e para mim.

Bem, tornou ele, nisso sim, tens razão; daqui por diante, com efeito, decidiremos fazer, a respeito disso como do mais, o que a nós dois nos parecer melhor.

Eu, então, depois do que vi e disse, e que como flechas deixei escapar, ima- ginei-o ferido; e assim que eu me ergui sem ter-lhe permitido dizer-me nada mais, vesti esta minha túnica pois era inverno estendi-me por sob o manto deste homem, e abraçado com estas duas mãos a este ser verdadeira- mente divino e admirável fiquei deita-

173 Ilíada, VI, 236. Enganado por Zeus, Glauco troca suas armas de ouro pelas de bronze de Diomedes (N. do T.)

219 a

56 PLATÃO

do a noite toda. Nem também isso, 6 Sócrates, irás dizer que estou falsean- do. Ora, não obstante tais esforços meus, tanto mais este homem cresceu e desprezou minha juventude, ludibriou- a, insultou-a e justamente naquilo é que eu pensava ser alguma coisa, senhores juízes; sois com efeito juízes da sobranceria de Sócrates! 74 pois ficai sabendo, pelos deuses e pelas deu-

sas, quando me levantei com Sócrates, foi após um sono em nada mais extraordinário do que se eu tivesse dor- mido com meu pai ou um irmão mais

velho. Ora bem, depois disso, que disposi-

ção de espírito pensais que eu tinha, a Julgar-me vilipendiado, a admirar o caráter deste homem, sua temperança coragem, eu que tinha encontrado um homem tal como jamais julgava pode- ria encontrar em sabedoria e fortaleza? Assim, nem eu podia irritar-me e pri- var-me de sua companhia, nem sabia como atraí-lo. Bem sabia eu, com efei- to, que ao dinheiro era ele de qualquer modo muito mais invulnerável do que Ájax ao ferro, e na única coisa em que eu imaginava ele se deixaria prender, ei-lo que me havia escapado. Embara- çava-me então, e escravizado pelo homem como ninguém mais por ne- nhum outro, eu rodava à toa. Tudo isso tinha-se sucedido anteriormente; depois, ocorreu-nos fazer em comum uma expedição em Potidéia! ?º,e éra-

174 Em sua embriaguez, Alcibíades figura mo- mentaneamente um processo em que a acusa- ção de sobranceria dissimula justamente sua defesa no processo histórico: a recusa de Só- crates, um crime de orgulho nessa patuscada, significa de fato sua inocêntia. (N. do T.)

175 Em 432, Potidéia, na Calcídica, recusou-se a pagar. tributo a Atenas e foi pelos atenienses sitiada, capitulando em 430. Essa insurreição foi uma das causas imediatas da Guerra do Peloponeso. (N. do T.)

mos ali companheiros de mesa. Antes de tudo, nas fadigas, não a mim me superava mas a todos os outros quando isolados em algum ponto, como é comum numa expedição, éra- mos forçados a jejuar, nada eram os outros para resistir e por outro lado nas fartas refeições, era o único a ser capaz de aproveitá-las em tudo mais, sobretudo quando, embora se recusas- se, era forçado a beber, que a todos vencia! º:e o que é mais espantoso de tudo é que Sócrates embriagado ne- nhum homem que o tenha visto. E disso, parece-me, logo teremos .a prova. Também quanto à resistência ao inverno terríveis são os invernos ali entre outras façanhas extraordi- nárias que fazia, uma vez, durante uma geada das mais terríveis, quando todos ou evitavam sair ou, se alguém saía, era envolto em quanta roupagem estra- nha, e amarrados os pés em feltros e peles de cameiro, este homem, em tais circunstâncias, saía com um manto do mesmo tipo que antes costumava tra- zer, e descalço sobre o gelo marchava mais à vontade que os outros calçados, enquanto que os soldados o olhavam de soslaio, como se o suspeitassem de estar troçando deles. Quanto a estes fatos, ei-los aí:

mas também o seguinte, como o

fez

e suportou um bravo 177

na expedição, certa vez, merece ser ouvido. Concentrado numa reflexão, logo se detivera desde a madrugada a examinar uma idéia, e como esta não lhe vinha, sem se aborrecer ele se con- servara de pé, a procurá-la. era

176 V. supra p.17, n. 19.(N. do T.) 177 Odisséia, IV, 242 .(N. do T.)

220 a

221 a

O BANQUETE 57

meio-dia, os homens estavam obser- vando, e cheios de admiração diziam uns aos outros: Sócrates desde a madrugada estã de ocupado em suas reflexões! Por fim, alguns dos jônicos "7 8 quando era de tarde, de- pois de terem jantado pois era então o estio trouxeram para fora os seus leitos e ao mesmo tempo que iam dormir na fresca, observavam-no a ver se também a noite ele passaria de pé. E ele ficou de pé, até que véio a au- rora o sol se ergueu; a seguir foi embora, depois de fazer uma prece ao sol. Se quereis saber nos combates pois isto é bem justo que se lhe leve em conta quando se deu a batalha pela qual chegaram mesmo a me condeco- rar Os generais, nenhum outro homem me salvou senão este, que não quis abandonar-me ferido, e até minhas armas salvou comigo. Eu então, ó Só- crates, insisti com os generais"; º para que te conferissem essa honra, e isso não vais me censurar nem irás dizer que estou falseando; todavia, quando os generais consideravam. minha posição e desejavam conceder-me a insigne honra, tu mesmo foste mais solicito que os generais para que fosse eu e não tu que a recebesse. E também, ó senhores, valia a pena observar Só- crates, quando de Delião!' º º batia em retirada O exército; por acaso fiquei ao seu lado, a cavalo, enquanto elê ia com 178 Robin prefere aqui a lição de Schmidt ( tóov idóvrwr = dos que o viram) à lição dos mss. ( 76» "Iwvwv = dos jônicos), sob a alegação de que não havia tropas da Jônia, e de que a lição dos mss. se compreende dificil- mente como uma especificação da expressão “homens”, usada pouco acima. Essa última ra- zão absolutamente não convence. (N. do T.)

179 Essa batalha, travada em 432, precedeu imediatamente o cerco de Potidéia. (N. do T.) 180 Cidade da Beócia, na fronteira da Ática. Os

atenienses foram batidos pelos tebanos, co- mandados por Pagondas, em 424 a.C.(N. do T.)

suas armas de hoplita..Ora, ele se reti- rava, quando tinham debandado os nossos homens, ao lado de Laques: acerco-me deles e logo que os vejo exorto-os à coragem, dizendo-lhes que os não abandonaria. Foi que, me-

lhor que em Potidéia, eu observei Só- crates pois o meu perigo era menor, por estar eu a cavalo primeiramente quanto ele superava a Laques, em domínio de si; e depois, parecia-me, Ó Aristófanes, segundo aquela tua ex- pressão! * ?, que também como aqui ele se locomovia “impando-se e olhan-

do de través”, calmamente exami- nando de um lado e de outro os amigos e os inimigos, deixando bem claro a

todos, mesmo a distância, que se alguém tocasse nesse homem, bem vigorosamente ele se defenderia. Eis por que com segurança se retirava, ele

e o seu companheiro; pois quase que, nos que assim se comportam na guer- ra, nem se toca, mas é aos que fogem em desordem que se persegue.

Muitas outras virtudes certamente poderia alguém louvar em Sócrates, e admiráveis; todavia, das demais ativi- dades, talvez também a respeito de al-

guns outros se pudesse dizer outro tanto; o fato porém de a nenhum homem assemelhar-se ele, antigo ou moderno, eis o que é digno de toda

admiração. Com efeito, qual foi Aqui- les, tal poder-se-ia imaginar Brasi- das'º2e outros, e inversamente, qual foi Péricles, tal Nestor e Antenor!83

181 Nas Nuvens, 362: or Bpevover T' ev raiç óBoÇ Koi TWpdaUS mapaparkes (N. do T.)

182 Grande general espartano, vencedor dos ate- nienses em Anfípolis (422 a.C.), onde morreu. (N. do T.)

183 Dois grandes conselheiros, o primeiro dos gregos e o segundo dos troianos, durante a Guerra de Tróia. (N. do T.)

222 a

8 PLATÃO

sem falar de outros e todos os demais por esses exemplos se poderia comparar; O que porém é este homem aqui, o que de desconcertante em sua pessoa-e em suas palavras, nem de perto se poderia encontrar um seme- lhante, quer se procure entre os moder- nos, quer entre os antigos, a não ser que se lhe faça a comparação com os que eu estou dizendo, não com nenhum homem, mas com os silenos e os sáti- ros, é não de sua pessoa como de suas palavras.

Na verdade, foi este sem dúvida um ponto em que em minhas palavras eu deixei passar, que também os seus dis- cursos são muito semelhantes aos sile- nos que se entreabrem. À quem qui- sesse ouvir os discursos de Sócrates pareceriam eles inteiramente ridículos à primeira vez: tais são os nomes e fra- ses de que por fora se revestem eles, como de uma pele de sátiro insolente! Pois ele fala de bestas de-carga, de fer- reiros, de sapateiros, de correeiros, e sempre parece com as mesmas pala- vras dizer as mesmas coisas, a ponto de qualquer inexperiente ou imbecil zombar de seus discursos!** Quem porém os viu entreabrir-se e em seu interior penetra, primeiramente desco- brirá que, no fundo, são os únicos que têm inteligência, e depois, que são o quanto possível divinos, e os que o maior número contêm de imagens de virtude 188 e o mais possível se orien- tam, ou melhor, em tudo se orientam para o que convém ter em mira, quan- do se procura ser um distinto e honra- do cidadão.

184 Cf. Hípias Maior, 288c-d. (N. do T.)

185 Tal como os silenos esculpidos (215b) têm .

em seu interior estátuas divinas. Confrontar com essa a expressão análoga em 213a-5, mas num contexto diferente. (N. do T.)

Eis aí, senhores, o que em Sócrates eu louvo; quanto ao que, pelo contrá- rio, lhe recrimino, eu o pus de permeio

e disse os insultos que me fez. E na ver-

dade não foi comigo que ele os fez, mas com Cármides'88, o filho de Glauco, com Eutidemo, de Díocles, e com muitíssimos outros, os quais ele engana fazendo-se de amoroso, en- quanto é antes na posição de bem-

amado que ele mesmo fica, em vez de.

amante. E é nisso que te previno, ó Agatão, para não te deixares enganar por este homem e, por nossas experiên- cias ensinado, te preservares e não fazeres como o bobo do provérbio, que

“só depois de sofrer aprende”" 87. Depois destas palavras de Alci-

biades houve risos por sua franqueza, que parecia ele ainda estar amoroso de Sócrates. Sócrates então disse-lhe: Tu me pareces, ó Alcibíades, estar em teu domínio. Pois de outro modo não te porias, assim tão destramente fazen- do rodeios, a dissimular o motivo por que falaste; como que falando acesso- riamente tu o deixaste para o fim, como se tudo o que disseste não tivesse sido em vista disso, de me indispor com Agatão, na idéia de que eu devo amar-te e a nenhum outro, e que Aga- tão é por ti que deve ser amado, e por nenhum outro. Mas não me escapaste! Ao contrário, esse teu drama de sátiros e de silenos ficou transparente! 8 8, Pois

186 Tio materno de Platão, um dos membros do governo dos Trinta, seu nome intitula um dos diálogos menores do filósofo. Quanto a Eutidemo, não se trata evidentemente do so- fista ridicularizado no diálogo do mesmo no- me, mas sem dúvida do jovem que aparece nas Memoráveis de Xenofonte, IV, 2-6. (N. do T,) 187 Hesíodo, Trabalhos e Dias, 218: mavcw

TE unmoç eyvw : “depois de sofrer é que o tolo aprende”. (N. do T.)

188 No propósito de insistir na feiúra de Sócra-, tes e, consegientemente, afastá-lo de Agatão. (N. do T.)

223 a

O BANQUETE 59

bem, caro Agatão, que nada mais haja para ele, e faze com que comigo nin- guém te indisponha.

Agatão respondeu: De fato, ó Sócrates, é muito provável que estejas

dizendo a verdade. E a prova é a

maneira como justamente ele se recos- tou aqui no meio, entre mim e ti, para nos afastar um do outro. Nada mais ele terá então; eu virei para o teu lado e me recostarei.

Muito bem disse Sócrates reclina-te aqui, logo abaixo de mim.

6 Zeus, que tratamento recebo ainda desse homem! Acha ele que em tudo deve levar-me a melhor. Mas pelo menos, extraordinária criatura, permi- te que entre nós se acomode Agatão.

Impossível! tormou-lhe Só- crates. Pois se tu me elogiaste, devo eu por minha vez elogiar 6 que-está à minha direita. Ora, se abaixo de ti'ºº ficar Agatão, não irá ele por: acaso fazer-me um novo elogio, antes de, pelo contrário, ser por mim elogiado? Deixa, divino amigo, não invejes ao jovem o meu elogio, pois é grande o meu desejo de elogiá-lo.

Evoé! exclamou Agatão; Alcibiades, não meio de aqui eu

ficar; ao contrário, antes de tudo, eu

mudarei de lugar, a fim de ser por Só- crates elogiado...

Eis comentou Alcibiades a cena de costume: Sócrates presen- te, impossível a um outro conquistar os belos! Ainda agora, como ele soube facilmente encontrar uma palavra per- suasiva, com o que este belo se vai pôr ao seu lado.

Agatão levanta-se assim para ir dei-

189 Isto é, à sua direita, entre ele e Sócrates. Agatão passara para a direita .de Sócrates, ficando este no meio do divã. (N. do T.)

tar-se ao lado de Sócrates; súbito porém uns foliões, em numeroso grupo, chegam à porta e, tendo-a encontrado aberta com a saida de alguém, irrompem eles pela frente em direção dos convivas, tomando assento nos leitos; um tumulto enche todo o recinto e, sem mais nenhuma ordem, é-se forçado a beber vinho em demasia. Eriximaco, Fedro e alguns outros, disse Aristodemo, retiram-se e partem; a ele porém o sono o pegou, e dormiu muitíssimo, que estavam longas as noi- tes; acordou de dia, quando canta- vam os galos, e acordado viu que os outros ou dormiam ou estavam ausen- tes; Agatão porém, Aristófanes e Só- crates eram os únicos que ainda esta- vam despertos, e bebiam de uma grande taça que passavam da esquerda para a direita. Sócrates conversava com eles; dos pormenores da conversa disse Aristodemo que não se lembrava pois não assistira ao começo e ainda estava sonolento em resumo porém, disse ele, forçava-os Sócrates a admitir que é de um mesmo homem o saber fazer uma comédia e uma tragé- dia, e que aquele que com arte é um poeta trágico é também um poeta côó- mico. Forçados a isso e sem o seguir com muito rigor eles cochilavam, e pri- meiro adormeceu Aristófanes e, quan- do se fazia dia, Agatão. Sócrates então, depois de acomodá-los ao leito, levantou-se e partiu; Aristodemo, como costumava, acompanhou-o; che- gado ao Liceu!ºº ele asseou-se e, como em qualquer outra ocasião, pas- sou o dia inteiro, depois do que, à tarde, foi repousar em casa.

190 Ginásio dedicado a Apolo, às margens do Ilisso, mais tarde utilizado por Aristóteles para a sua escola, que ficou com esse nome. (N. do T.)

FÉDON

S7 a

58 a

Introdução

EQUÉCRATES

Estiveste, Fédon, ao lado de Só- crates, no dia em que ele bebeu o vene- no na prisão? Ou acaso sabes, por outrem, o que se passou?

FÉDON

estive em pessoa, Equécrates.

EQUÉCRATES

E então, de que coisas falou ele antes de morrer? Qual foi o seu fim? Isso eu gostaria de saber, pois atual- mente não nenhum de meus conci- dadãos de Flionte! que esteja em Ate- nas, e de lá, faz muito tempo, que não nos vem nenhum estrangeiro capaz de nos dar informações seguras, a não ser que Sócrates morreu após ter bebido o veneno. Mas, quanto ao mais, ninguém nada nos soube relatar.

FÉDON

Não -sabeis, tampouco, nada também a respeito das circunstâncias do seu julgamento?

EQUÉCRATES

Sim, dele tivemos alguma infor- mação. E uma das coisas, mesmo, que muito nos surpreendeu foi ter ocorrido sua morte muito tempo depois do Julgamento. Que houve, Fédon?. 1 Em Flionte “ou Flio, no Peloponeso, um dis- cípulo de Filolau, Eurito de Tarento, havia estabelecido um círculo de pitagóricos, em cuja

sede Fédon foi recebido por Equécrates e asso- ciados (58d, 102a). (N. do E.)

FÉDON Houve no seu caso, Equécrates,

uma coincidência fortuita: a do dia que precedeu ao julgamento com a coroa- ção da popa do navio que os atenienses mandam a Delos.

EQUÉCRATES E que navio é este?

FÉDON |

Segundo conta a tradição, é o navio nc qual Teseu transportou outro- ra Os sete moços e as sete moças que deviam ser levados para Creta?. Ele os

2 A peregrinação a Delos é um simples culto ao deus Apolo e à deusa Ártemis. A lenda é a seguinte: Androgeu, filho do afamado rei Mi- nos de Creta, visitara Atenas e tomara parte nos jogos ginásticos; fora superior a todos, des- pertando assim a inveja dos atenienses, que o mataram. Seu pai, então, para vingar a morte do filho, declarou guerra aos atenienses, ven- cendo-os, e estabelecendo como condição de paz que os vencidos enviassem periodicamente 7 moços e 7 moças a Creta. Estes jovens iriam servir de alimento ao monstro Minotauro que vivia no Labirinto de Creta, palácio fabuloso cuja saída ninguém conseguira encontrar. Por muito tempo os atenienses continuaram a enviar novas vítimas para Creta, até que o he- rói Teseu, herdeiro do trono, voluntariamente entrou.no número das vítimas sorteadas, a fim de pôr termo a esse sacrifício periódico. Teseu conquistou em Creta o amor da princesa Ariadne, que lhe deu um novelo de verme- lha e, assim, entrando no Labirinto, atou ele uma ponta do novelo numa pedra da entrada e, enquanto avançava, o desenrolava, ficando desta forma com o caminho de regresso asse- gurado. Conseguiu assim matar o Minotauro e retornar com seus companheiros salvos para a pátria. (N. do T.)

64 PLATÃO

salvou e salvou a si mesmo. E assim, como a Cidade houvesse feito a Apolo, segundo se diz, a promessa de enviar todos os anos uma peregrináção a Delos se daquela vez os jovens fossem salvos, desde aquele fato até o presente se continuou a fazer essa peregrinação ao templo do deus. Manda uma lei do país que, a partir do momento em que se começa a tratar da peregrinação e enquanto ela dura, a Cidade não seja maculada por nenhuma execução capi- tal em nome do povo, até a chegada do navio a Delos e sua volta ao porto. Às vezes, quando os ventos são contrá- rios, sucede ser longa a travessia. Além disso, a peregrinação começa no dia em que o sacerdote de Apolo coroa a popa do navio, e aconteceu, como vos disse, que tal fato se realizou no dia que precedeu o julgamento. Foi por esse motivo que Sócrates, entre o jul- gamento e a morte, teve de passar tanto tempo na prisão.

EQUÉCRATES

Mas quanto às circunstâncias da própria morte, Fédon? Que foi o que

se disse e fez então? Quais de seus discípulos se achavam a seu lado? Os magistrados não lhes permitiram assis- tir a seu fim, ou este foi, pelo contrário, privado de amizade?

FÉDON

Não, não. A verdade é que vá- rios O presenciaram, um bom número mesmo.

EQUÊÉCRATES

Apressa-te, pois, a contar-nos todas essas coisas com a maior exati- dão possível, a menos que algo to impeça.

FEDON

Não, realmente nada tenho que fazer no momento, e tratarei de vos dar uma descrição minuciosa. Aliás, nada para mim que seja tão agradável como recordar-me de Sócrates, seja que eu mesmo fale dele, seja que ouça alguém fazê-lo !

EQUÉCRATES

Pois, Fédon, encontras em idên- tica disposição a todos os que te vão escutar. Portanto, procura ser o mais exato possível e nada esquecer.

A Narrativa

FÉDON l Enquanto estive ao lado de Só- crates minhas impressões pessoais

foram, de fato, bem singulares. Na ver- dade, ao pensamento de que assistia à morte desse homem ao qual me achava ligado pela amizade, não era a compai- xão o que me tomava. O que eu tinha

sob os olhos, Equécrates, era um homem feliz: feliz, tanto na maneira de comportar-se como na de conversar, tal era a tranquila nobreza que havia no seu fim. E isso, de tal modo que ele me dava a impressão, ele que devia encaminhar-se para as regiões do Hades, de para se dirigir auxiliado

E"

59 a

FÉDON 65

por um concurso divino, e de ir encon- trar no além, uma vez chegado, uma felicidade tal como ninguém jamais conheceu! Por isso é que absoluta- mente nenhum sentimento de compai- xão havia em mim, como teria sido natural em quem era testemunha duma morte iminente. Mas o que eu sentia não era também o conhecido prazer de nossos instantes de filosofia, embora fosse essa, ainda uma vez, a natureza das nossas conversas. A verdade é que havia em minhas impressões qualquer coisa de desconcertante, uma mistura inaudita, feita ao mesmo tempo de pra- zer e de dor, de dor ao recordar-me que dentro em pouco sobreviria o momen- to de sua morte! E todos nós, ali pre- sentes, nos sentiamos mais ou menos com a mesma disposição, ora rindo, ora chorando; um de nós, até, mais do que qualquer outro: Apolodoro?. Deves saber, com efeito, que homem é ele e qual seja o seu feitio.

EQUÊÉCRATES Sim, bem o sei.

FÉDON

Nele, esse estado confuso de dor e prazer atingia o auge; mas eu mesmo me encontrava presa duma agitação semelhante, e, da mesma forma, os outros.

EQUÉCRATES

Mas os que então estiveram a seu lado, Fédon; quais foram?

FÉDON

Além do mencionado Apolo- doro estavam lá, de sua terra, Crito- bulo com seu pai, e também Hermóge- nes, Epigenes, Ésquines, e Antiístenes. se encontravam ainda Ctesipo de 3 Apolodoro é nosso conhecido do Banque- te: não era o mais inteligente, mas, por certo,

o mais entusiasta dos discípulos de Sócrates. (N. do T.)

Peânia, Menexeno e alguns outros da mesma região. Platão, creio, estava doente *.

EQUÉCRATES Havia estrangeiros presentes?

FÉDON Sim, havia, notadamente Simias

o Tebano, Cebes e Fedondes; e mais, de Mégara, Euclides e Terpsião.

EQUÉCRATES : Dize-me: Aristipo e Cleômbroto

não estavam presentes?

FÉDON" Não. Dizia-se que andavam por Egina.

EQUÉCRATES E quem mais estava?

FÉDON Creio que foram estes, mais ou

menos, todos os que então se encon- travam a seu lado.

EQUÉCRATES -— Bem; e agora, dize, sobre que

cousas falaram eles?

FÉDON Tomando as cousas desde o

começo, vou esforçar-me por contá-las todas minuciosamente. Sabe, pois, que em nenhum dos dias anteriores havia-

4 De todas estas pessoas, os únicos importan- tes são Antístenes, Euclides e Aristipo, funda- dores de escolas filosóficas. Antístenes, na época em que foi escrito o presente diálogo, é grande adversário da metafísica de Platão, mas.o autor o considera boa pessoa e lhe per- mite, no drama, assistir à morte de Sócrates, embora como personagem muda. Mas Aristi- po, o filósofo dos gozadores, é unicamente objeto de desprezo, e por isso Platão o afasta. (N. do T.)

5 Egina: ilha perto de Atenas. Platão quer sig- nificar que estes homens fizeram tal viagem para se recrearem, não se tratando de uma via- gem longa, necessária e intransferível; logo, é que ambos não sentiam interesse pela sorte de Sócrates nem por sua grandiosa filosofia. (N. do T.)

66 PLATÃO

mos deixado de encontrar-nos, eu e os outros, junto a Sócrates, segundo era nosso hábito. Nosso local de encontro, ao romper do dia, era o tribunal onde se realizava o julgamento, pois ficava próximo à prisão. E assim todos os dias, a conversar, esperávamos que a prisão fosse aberta. Ela não se abria muito cedo; logo, porém, que era fran- queada, dirigiamo-nos até onde estava Sócrates, e muitas vezes, passávamos o dia todo em sua companhia. Naquele dia, como deixáramos ajustado, encon- tramo-nos ainda mais cedo que de cos- tume, porque na véspera, ao sair da prisão pelo entardecer, havíamos sabi- do que o navio sagrado retornara de Delos. Por isso ficara assentado que nos reuniríamos o mais cedo possível no lugar habitual. Ao chegarmos, o porteiro, vindo ao nosso encontro (era ele quem sempre nos atendia), até pediu-nos que ficâssemos por ali e esperássemos, para entrar, que nos houvesse chamado. “É, disse ele, que

O Prazer

Quanto a Sócrates, sentara-se no leito e, tendo encolhido a perna, esfre- gava-a fortemente com a mão. E enquanto a esfregava dizia-nos: “Como parece aparentemente descon- certante, amigos, isso que os homens chamam de prazer! Que maravilhosa relação existe entre a sua natureza e O que se julga ser o seu contrário, a dor! Tanto um como a outra recusam ser

os Onze * estão a tirar as correntes de Sócrates e a comunicar-lhe que este será o seu dia derradeiro.” Depois disso quase não demorou a voltar, e convidou-nos para entrar.

Entramos, pois, e encontramos junto a Sócrates, que acabava de ser desagri- lhoado, Xantipa ? (tu a conheces !), que segurava o filho mais novo, sentada ao lado do marido. Assim que ela nos viu, choveram maldições e palavrórios como as mulheres sabem proferir: “vê, Sócrates, esta é a última vez que conversam contigo os teus amigos, e tu com eles!” Sócrates lançou um olhar na direção de Criíton: “Criton, disse, faze com que a conduzam para casa! E, enquanto era levada pela gente de Criton, ela se debatia e gritava.

6 Os Onze: um grupo de onze homens esco- lhidos por votação cuidava em Atenas do cár- cere e das execuções. Cf, Arist., Const. Aten,, Sd ENcdo E)

7 Xantipa deixou a fama de ser uma senhora algo violenta, que atormentou a vida do ma- rido. Segundo Xenofonte, era uma verdadeira megera, mas enterneceu-se por ocasião da mor- te de Sócrates. (N. do T.)

e a Dor

simultâneos no homem; mas procure- se um deles tenhamos preso um deles e estaremos sujeitos quase sempre a encontrar também o outro, como se fossem uma cabeça ligada a um corpo duplo ! Parece-me, mesmo, que Esopo, se nisso tivesse pensado, teria composto uma fábula a esse res- peito: A Divindade, desejosa de lhes pôr fim aos conflitos, como visse frus-

.

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60 a

FÉDON 67

trado o seu intento, amarrou juntas as duas cabeças; é é por isso que, onde se apresenta um deles, o outro vem logo. É, assim, que se lhe afiguram as coi- sas: devido ao grilhão, pouco sentia dor na minha perna, e agora sinto prazer !

Cebes interrompeu: -— Por Zeus, Sócrates, foi bom me haveres lem- brado isso ! De fato, a propósito dessas tuas composições, em que transpuseste para o metro cantado os contos de Esopo e o hino a Apolo, várias pessoas me têm perguntado e entre eias, pouco tempo, Eveno? com que intenção as compuseste depois de tua

chegada aqui, tu que até agora jamais:

fizeras coisas desse gênero. Se tens, pois, qualquer interesse em que eu possa responder a Eveno quando ele novamente me interrogar (porque bem sei que tornará a fazê-lo !), aja: que deverei dizer-lhe?

Dize-lhe a verdade, Esdes: não foi com a intenção de lhe fazer concor- rência, e muito menos às suas compo- sições, que fiz aqueles versos: sei que isso teria sido dificil! Eu os fiz em vir- tude de certos sonhos, cuja significa- ção pretendia assim descobrir, e tam- bém por escrúpulo religioso

prevendo, sobretudo, a eventualidade.

de que as repetidas prescrições que me foram feitas se relacionassem com o exercício dessa espécie de poesia. Eis como se passaram as cousas: Várias vezes, no curso de minha vida, fui visi- tado por um mesmo sonho; não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava, mas O que me dizia era invariável: “Sócrates”, diziame ele, “deves esforçar-te para compor músi- ca!” E, palavra! sempre entendi que o

8 Eveno: poeta grego (N. do T.)

sonho me exortava e me incitava a fazer o que justamente fiz em minha vida passada. Assim como se animam corredores, também, pensava eu, O sonho estã a incitar-me para que eu persevere na minha ação, que é com- por música: haverá, com efeito, mais alta música do que a filosofia, e não é justamente isso o que eu faço? Mas su- cede agora que, depois de meu julga- mento, a festa do Deus está retardando minha morte. O que é preciso então, pensei, no caso de que o sonho me tenha prescrito essa espécie comum de composição fnusical, é que eu não lhe desobedeça; é que eu componha ver- sos. E, de fato, é muito mais seguro não me ir sem antes ter satisteito esse escrúpulo religioso com a composição de tais poemas, nem antes de haver prestado obediência ao sonho. E, por isso, minha primeira composição foi dedicada ao Deus em cuja honra esta- va sendo realizado o sacrificio. Depois de haver prestado a minha homenagem