OS PENSADORES

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CARTAS INGLESAS TRATADO DE METAFÍSICA DICIONÁRIO FILOSÓFICO O FILÓSOFO IGNORANTE

DIDEROT

O SOBRINHO DE RAMEAU DIÁLOGO ENTRE D'ALEMBERT E DIDEROT O SONHO DE D'ALEMBERT CONTINUAÇÃO DO DIÁLOGO SUPLEMENTO A VIAGEM DE BOUGAINVILLE PARADOXO SOBRE O COMEDIANTE DOS AUTORES E DOS CRÍTICOS

EDITOR: VICTOR CIVITA

Títulos originais: Lettres Anglaises Traité de Metaphysique Dictionnaire Philosophique Le Philosophe Ignorant Le Neveu de Rameau Entretien entre D'Alembert et Diderot Rêve de D'Alembert Suite de "Entretien Supplément au Voyage de Bougainville Paradoxe sur le Comédien Des Auteurs et des Critiques

1.º edição abril 1973

é Copyright desta edição, 1973, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Traduções publicadas sob licença de: Editorial Presença, Ltda., Lisboa, Portugal (Dicionário Filosófico); Editora Cultrix, São Paulo (Diálogo entre D'Alembert e Diderot, O Sonho de D'Alembert, Continuação do Diálogo, Suplemento à Viagem de Bougainville, Paradoxo sobre o Comediante, Dos Autores e dos Críticos). Direitos exclusivos da Abril S.A. Cultural e Industrial sobre as traduções: Dicionário Filosófico (verbetes assinalados com asterisco), Cartas Inglesas, Tratado de Metafísica, O Filósofo Ignorante e O Sobrinho de Rameau.

SUMÁRIO

CARTAS INGLESAS: staind mic vE do doi de Ng a RR q a 7 TRATADO DEIMETAFISIGAS don e E ee AR E 65 DICIONARIO!PILOSÓRICO su me ana to dl 8d pra DO RR SEU gd Da q 91 OPFILÓOSO FO IGNORANTE a nro e ted GEE Es Rm Pcad de a aa a ME 303 (SOBRINHO DE: RAMEAU, asa ice Ceotto Dono ERES E E de fes Se SD AE e ço E DARE DIÁLOGO ENTRE D'ALEMBERT E DIDEROT ........ccccccc 381 O SONHO DE D'ALEMBERT.. Sissi aa E E E ES RE RATO 391 CONTINUAÇÃO DO DIÁLOGO sm En pt Aa E ERES Em A Asa 421 SUPLEMENTO À VIAGEM DE BOUGAINVILLE .....cccccccc 429 PARADOXO SOBRE O COMEDIANTE .......cccccccccc 457 Dos AUTORES E DOS CRÍTICOS ......ccccc 491

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CARTAS INGLESAS OU CARTAS FILOSÓFICAS

PRIMEIRA CARTA

Sobre os Quacres

Acreditei que a doutrina e a história de um povo tão extraordinário mereciam a curiosidade de um homem sensato. Para informar-me a esse respeito procurei um dos mais célebres quacres da Inglaterra, que, após trinta anos de comércio, soubera impor limites à sua fortuna e aos seus desejos, retirando-se para um campo próximo de Londres. Fui procurá-lo em seu retiro casa pequena, mas bem construída, muito limpa e sem enfeites. O quacre era um velhote viçoso que nunca ficara doente porque jamais conhecera paixões e intemperança. Em toda minha vida nunca vi um ar mais nobre nem mais acolhedor do que o seu. Estava vestido, como todos os de sua reli- gião, com uma roupa sem pregas nos lados, sem botões nos bolsos e nas mangas, trazendo um chapelão de abas caídas, como o de nossos eclesiásticos. Recebeu-me de chapéu, adiantou-se até mim sem inclinar o corpo, e, no entanto, havia mais delicadeza no ar franco e humano de seu rosto do que aquela presente no hábito de puxar uma perna para trás da outra e de carregar na mão aquilo que foi feito para cobrir a cabeça. “Amigo”, disse-me. “Vejo que és estrangeiro. Se te posso ser útil, basta que o digas.” “Senhor”, respondi-lhe, curvando o corpo e deslizando um em sua direção, segundo nosso costume, “estou certo de que minha justa curiosidade não vos desagradará, e que gostareis de instruir-me a respeito de vossa religião.” “A gente de teu país”, respondeu-me, “faz muitos cumprimentos e reverências, mas nunca vi alguém com a mesma porque ninguém se desfaz de seus hábitos duma vez. Após uma refeição sadia e frugal. iniciada e terminada com uma prece a Deus, comecei a interrogar meu homem. Iniciei pela questão que os bons católicos puseram mais de uma vez aos huguenotes: “Meu caro senhor, sois batizado?” “Não”, respondeu-me o quacre, “nem meus confrades o são.” “Como? Raios !”, retorqui. “Então não sois cristãos?” “Meu filho”, retomou ele docemente, “não pragueje. Somos cristãos e tenta- mos ser bons cristãos, mas não pensamos que o cristianismo consista em jogar água fria com um pouco de sal sobre a cabeça.” “Ei, diabos !”, retruquei, indignado com tal impiedade. “Esque- cestes que Jesus Cristo foi batizado por João?” “Amigo, nada de pragas”, disse o benigno quacre. “O Cristo recebeu o batismo de João, mas nunca batizou alguém; não somos discípulos de João. mas do Cristo.” “Ai, como seríeis queimado em pais de Inquisição, pobre homem”, respondi-lhe. “Que eu vos batize e vos faça cristão !” “Se precisássemos condescender com a tua fraqueza, nós o fariamos de bom grado”. disse-me gravemente; “não condenamos quem pratica a cerimônia do batismo, mas cremos que aqueles que professam uma religião saudável e espiritual devem abster- se, na medida do possivel, das cerimônias judaicas.” “Ora, vejam só! Cerimônias judaicas!” “Sim, meu filho”, continuou, “tão judaicas que muitos judeus ainda hoje realizam o batismo de João. Consulta a Antiguidade. Ensinar-te-á que João apenas renovou essa prática, em uso desde havia muito entre os hebreus, como a peregrinação a Meca entre os ismaelitas. Jesus aceitou rece- ber o batismo de João, assim como se submeteu à circuncisão, mas essas duas práticas devem ser abolidas pelo batismo de Cristo. Batismo do espírito, ablução da alma, que salva os homens. O precursor João dizia: “Em verdade, vos batizo com água, mas um outro virá depois de mim, mais potente do que eu e cujas sandálias sou indigno de usar; esse batizará com fogo e com o Santo Espírito”. Da mesma maneira, o grande apóstolo dos gentios, Paulo, escreve aos Coríntios: “O

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Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o Evangelho”. E este mesmo Paulo batizou com água duas pessoas e, ainda assim, contra sua própria vontade. Circuncidou seu discípulo Timóteo, e os demais apóstolos também circuncidaram todos os que o quiseram. És circunciso?”, acrescentou. Respondi-lhe que não tinha essa honra. “Pois bem, amigo”, concluiu, “és cristão sem seres circunciso e eu, sem ser batizado.”

Eis como meu santo homem abusava especiosamente de três ou quatro passagens das Santas Escrituras que pareciam favorecer sua seita, mas com a melhor boa do mundo esquecia uma centena de passagens que a esmagavam. Cuidei para não contestá-lo em nada. Com um entusiasta nada se tem a ganhar. Não se deve ter a lembrança de mostrar a um homem os defeitos de sua amante, nem a um defensor, a fraqueza de sua causa, nem razões a um iluminado. Assim, passei a outras questões. “Com respeito à comunhão, como estais habituados?” “Não estamos habitua- dos”, respondeu. “Como”? Nada de comunhão?” “Não. Nenhuma, senão a dos corações.” E citou-me, então, ainda uma vez, as Escrituras. Fez-me um belíssimo sermão contra a comunhão e falou-me, num tom inspirado, para provar-me que todos os sacramentos não se encontravam uma única vez nos Evangelhos. “Perdoa minha ignorância”, disse-me, “não te forneci a centésima parte das provas de minha religião, mas podes vê-las na exposição de nossa por Robert Bar- clay. É um dos melhores livros que saíram das mãos de um homem. Nossos inimigos concor- dam em que é muito perigoso, o que prova como é razoável.” Prometi-lhe ler o livro e meu quacre acreditou-me convertido.

Em seguida, explicou-me em poucas palavras algumas singularidades que expõem sua seita ao desprezo das outras. “Confessa que tiveste dificuldade para impedir o riso quando respondi a todas as tuas cortesias com meu chapéu sobre a cabeça e te tuteando. No entanto, pareces bas- tante instruído e não podes ignorar que no tempo do Cristo nenhuma nação caía no ridículo por substituir o plural pelo singular. Dizia-se a César Augusto: amo-te, peço-te, agradeço-te. Aliás, não suportava que o chamassem de Senhor, Dominus. muito depois dele os homens resolve- ram fazer-se chamar por 'vós” em vez de “tu”, como se fossem duplos, e usurpar os títulos imperti- nentes de Grandeza, Eminência, Santidade, dados pelos vermes da terra a outros vermes da terra, assegurando-lhes, com profundo respeito e infame falsidade, que são seus servidores muito humil- des e obedientes. Como nos precavemos contra esse indigno comércio de mentiras e adulações, tuteamos igualmente os reis e os sapateiros, não saudamos ninguém. Temos pelos homens apenas a caridade, e o respeito apenas pelas leis.”

“Nossa roupa, um pouco diferente da dos outros homens, é um aviso contínuo para que não nos assemelhemos a eles. Os outros trazem as marcas de suas dignidades; nós, as da humildade cristã. Fugimos das assembléias de prazer, dos espetáculos, do jogo, porque seríamos lastimáveis se enchêssemos com tais bagatelas corações que Deus deve habitar. Nunca fazemos juramento, mesmo em justiça. Pensamos que o nome do Altíssimo não deve ser prostituído nos debates mise- ráveis dos homens. Quando é preciso que compareçamos diante dos magistrados pelos negócios dos outros (pois nunca temos processos), afirmamos a verdade por “sim” e por “não”, e os juízes nos acreditam sob simples palavra, enquanto tantos cristãos perjuram sobre o Evangelho. Nunca vamos à guerra, não porque temamos a morte; ao contrário, bendizemos o momento que nos une ao Ser dos Seres, mas porque não somos lobos, tigres ou cães e sim homens, cristãos. Nosso

Deus, que ordenou o amor aos inimigos e o sofrimento sem lamúrias, não de querer, sem dúvi- da, que atravessemos o mar para ir degolar nossos irmãos, porque assassinos vestidos de ver- melho, com um gorro de dois pés de altura, recrutam cidadãos, fazendo ruído com dois bastões sobre uma pele de asno bem esticada. Quando, após as batalhas ganhas, Londres inteira brilha iluminada, o céu incendiado de fogos, o ar ressoando com o barulho das ações de graças, dos sinos, dos órgãos, dos canhões, gememos em silêncio sobre os assassínios que causam a alegria pública.”

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SEGUNDA CARTA

Sobre os Quacres

Foi essa, aproximadamente, a conversa que tive com esse homem singular, e para minha sur- presa, no domingo seguinte, levou-me à igreja dos quacres. Possuem várias capelas em Londres. Aquela aonde fui está próxima do famoso pilar denominado “Monumento”.

Ao entrar com meu guia, os demais se encontravam reunidos. Havia mais ou menos quatrocentos homens e trezentas mulheres; estas escondiam o rosto sob os leques, e aqueles permaneciam cobertos com seus chapelões. Estavam todos sentados, num profundo silêncio. Pas- sei por eles sem que um erguesse os olhos para mim. O silêncio durou por volta de um quarto de hora. Por fim, um deles levantou-se, tirou o chapéu e, depois de algumas caretas e de alguns suspiros, despejou, em parte pela boca, em parte pelo nariz, um galimatias tirado do Evangelho, segundo acreditava, e incompreensível tanto para ele como para os outros. Quando o contorcio- nista terminou seu belo monólogo e a assembléia se separou, muito edificada e estúpida, perguntei ao meu homem por que os mais sábios dentre eles suportavam tais bobagens. “Somos obrigados a tolerá-las”, disse-me, “porque não podemos saber se um homem que se levanta para falar será inspirado pelo espírito ou pela loucura. Na dúvida, escutamos pacientemente. Permitimos até mesmo que as mulheres falem. Muitas vezes, dois ou três de nossos devotos sentem-se inspirados ao mesmo tempo e, então, faz-se um bonito barulho na casa do Senhor.”

Não tendes padres? perguntei.

Não, meu amigo disse o quacre. E estamos muito bem. Praza a Deus que não ousemos ordenar a alguém que receba o Espirito Santo aos domingos, com exclusão de todos os outros. Graças aos céus, somos os únicos sobre a terra a não ter padres. Quererias arrancar-nos uma distinção tão feliz? Por que abandonaríamos nosso filho nas mãos de amas mercenárias quando temos leite para lhe dar? As mercenárias logo dominariam a casa, oprimindo a mãe e a criança. Deus disse: recebeste grátis, dai grátis. Iremos, depois dessa palavra, comerciar o Evan- gelho, vender o Espirito Santo e fazer de uma assembléia de cristãos uma loja de comerciantes? Não damos dinheiro algum a homens vestidos de negro para que assistam nossos pobres, enter- rem nossos mortos, preguem aos nossos fiéis. Estas santas tarefas nos são muito caras para que as descarreguemos sobre outros.

Mas insisti —, como podeis discernir se é o Espírito de Deus que vos anima em vos- sos discursos?

Quem orar a Deus para que o esclareça e quem anunciar as verdades evangélicas que sinta estará seguro de que Deus o inspira.

E, então, cumulou-me com citações das Escrituras que, em sua opinião, demonstravam haver cristianismo com revelação imediata, acrescentando estas palavras notáveis: “Quando moves um de teus membros, é tua própria força que o mexe? Não, sem dúvida, pois tal membro frequentemente possui movimentos involuntários. É, portanto, aquele que criou teu corpo de terra que o faz mover-se. E as idéias que tens na alma? Por acaso serias tu o seu formador? Menos ainda, pois surgem mesmo contra tua vontade. É, portanto, o criador de tua alma que te idéias. No entanto, como deixou a liberdade para teu coração, a teu espírito as idéias que teu coração merece. Vives em Deus, ages e pensas em Deus. Tens apenas que abrir os olhos para a luz que ilu- mina todos os homens. Então, veras a verdade e farás com que seja vista”.

Ei! está o mais genuíno Padre Malebranche gritei.

* A coluna elevada para comemorar o incêndio de Londres em 1666. (N. do A.)

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Conheço teu Malebranche disse-me. Era um tanto quacre, mas não o suficiente. Essas foram as coisas mais importantes que aprendi no tocante à doutrina dos quacres. Na primeira carta lereis sua história, que achareis ainda mais extraordinária do que sua doutrina.

TERCEIRA CARTA

Sobre os Quacres

percebestes que os quacres existem desde Jesus Cristo, primeiro quacre, segundo eles. Logo após sua morte, a religião teria sido corrompida, assim permanecendo durante quase dezes- seis séculos. No entanto, houve sempre alguns quacres escondidos pelo mundo, cuidando da conservação do fogo sagrado, extinto em todos os outros lugares, até que, finalmente, sua luz propagou-se pela Inglaterra no ano de 1642.

Nessa época, três ou quatro seitas dilaceravam a Grã-Bretanha com guerras civis, empreen- didas em nome de Deus. Foi então que um tal de George Fox, do condado de Leicester, filho de um operário da seda, resolveu pregar como um verdadeiro apóstolo, isto é. sem saber ler nem escrever. Era um jovem de vinte e cinco anos e santamente louco. Vestia-se de couro da cabeça aos pés, indo de aldeia em aldeia a clamar contra a guerra e contra o clero. Se tivesse pregado apenas contra os guerreiros, nada teria a temer, mas atacava a gente da Igreja: foi logo jogado na prisão. Levaram-no diante do juiz de paz, em Derby. Fox apresentou-se ao juiz mantendo seu gorro de couro sobre a cabeça. Um sargento deu-lhe uma grande bofetada, dizendo: “Patife, não sabes que é preciso descobrir-se diante do senhor juiz?” Fox apresentou a outra face e pediu ao sargento que lhe desse mais uma bofetada, pelo amor de Deus. O juiz de Derby quis que prestasse juramento antes de ser interrogado. “Sabe, meu amigo”, disse ao juiz, “que nunca tomo em vão o nome de Deus.”

O juiz, vendo que o homem o tuteava, enviou-o às Pequenas-Casas de Derby para ser chico- teado. Louvando a Deus, George Fox foi ao Hospital dos Loucos, onde a sentença do juiz foi rigorosamente executada. Aqueles que lhe infligiram a penitência do chicote surpreenderam-se ao vê-lo pedir que lhe dessem ainda mais algumas chicotadas, para o bem de sua alma. Os bons senhores não se fizeram de rogados: Fox teve dose dupla, agradecendo-lhes cordialmente. Pôs-se a pregar. Começaram rindo e acabaram escutando. E como o entusiasmo é uma doença conta- giosa, muitos foram persuadidos e os carrascos tornaram-se discípulos.

Liberto da prisão, correu os campos com uma dúzia de prosélitos, pregando sempre contra o clero, chicoteado de tempos em tempos. Um dia, estando no pelourinho, arengou ao povo com tamanha força que converteu uns cinquenta ouvintes e pós o restante a seu favor, sendo arrancado com tumulto do buraco onde se encontrava. Procurou-se o cura anglicano que condenara Fox ao suplício, e foi supliciado em seu lugar.

Ousou converter alguns soldados de Cromwell: abandonaram o oficio das armas e recusa- ram-se a prestar juramento. Cromwell não queria saber de seita que não combatesse, como Sisto Y agourava uma seita “dove non si chiavava”. Serviu-se de seu poder para perseguir os recém- chegados, lotando as prisões com eles. Mas as perseguições servem para fazer prosélitos: saíam das prisões fortalecidos em sua crença e seguidos pelos carcereiros que haviam convertido. Eis, porém, o que mais contribuiu para ampliar a seita: Fox acreditava-se inspirado. Conseqguente- mente, achou que deveria falar de um modo diferente do dos outros homens. Pós-se a tremer, a contorcer-se, a caretear, a reter o fôlego e soltá-lo com violência nem a pitonisa de Delfos faria melhor. Em pouco tempo habituou-se muito à inspiração e logo não sabia mais falar de outra maneira. Foi o primeiro dom que comunicou a seus discípulos. De boa imitaram as caretas do mestre: tremiam com todas as suas forças no momento da inspiração. Daí o nome quacres: treme-

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dores?. O povinho divertia-se a arremedá-los. Tremia-se. falava-se pelo nariz. tinha-se convulsão. acreditava-se ter o Espírito Santo. Careciam de alguns milagres e os fizeram.

O Patriarca Fox disse publicamente a um juiz de paz. na presença de uma grande assem bléia: Amigo. cuida-te. Deus logo te punirá por perseguires santos”. O juiz era um bebado que tomava diariamente cerveja c aguardente. Morreu de apoplexia dois dias depois. justamente ao acabar de assinar uma ordem de prisão contra alguns quacres. A morte súbita não foi atri buida à intemperança do juiz: foi encarada por todo mundo como um efeito das predições do santo homem.

Essa morte fez mais quacres do que mil sermões e convulsões poderiam fazer. Cromwell. vendo-os crescer em número diariamente. quis atraí-los ao seu partido. Ofereceu-lhes dinheiro. mas foram incorruptiveis. c admitiu. um dia, que essa religião fora a única contra a qual seus gui néus não prevaleceram.

Sob o reinado de Carlos Il foram perseguidos algumas vezes, mas não por motivos religio s0s. sim porque se recusavam a pagar o dizimo ao clero e a prestar os juramentos prescritos pela lei, e porque tuteavam os magistrados.

Enfim. Robert Barclay, escocês. em 1675 apresentou ao rei sua “Apologia dos Quacres”. obra tão boa quanto poderia ser. A epistola dedicatória a Carlos I não contém baixas adulações. mas verdades ousadas e conselhos justos.

“Fruiste”. diz a Carlos II no final da epistola. “a doçura e a amargura da prosperidade e das grandes infelicidades: foste expulso dos países onde reinas, sentiste o peso da opressão e deves saber quão detestável é o opressor diante de Deus e diante dos homens. Se. depois de tantas pro- vações e bênçãos. teu coração sc endurecesse e esquecesse o Deus que se lembrou de ti em tuas desgraças, teu crime seria maior e tua condenação mais terrível. Em vez de escutares os adulado- res de tua corte. escuta a voz de tua consciência. que nunca te adulará. Sou teu amigo fiel e teu súdito. Barclay.”

O mais surpreendente é que essa carta. escrita a um rei por um particular obscuro, teve seus efeitos e a perseguição cessou. ,

QUARTA CARTA

Sobre os Quacres

Por essa ocasião surgiu o ilustre Guilherme Penn. que estabeleceu a potência dos quacres na América e que poderia tê-los tornado respeitáveis na Europa. se os homens pudessem respeitar a virtude sob aparências ridiculas. Era filho único do Cavalheiro Penn. vice-almirante da Ingla- terra, favorito do duque de York desde Jaime II.

Guilherme Penn, aos quinze anos, encontrou um quacre em Oxford. onde estudava. O quacre persuadiu-o O jovem. vivo. naturalmente eloquente. fisionomia e maneiras nobres. logo ganhou alguns companheiros. Insensivelmente estabeleceu uma Sociedade dos Jovens Quacres. que se reuniam em sua casa, tornando-se chefe de seita aos dezesseis anos.

Saindo do colégio e regressando à casa do vice-almirante. seu pai. em vez de ajoelhar-se diante dele para pedir-lhe a bênção, segundo o costume inglês. abordou-o de chapéu na cabeça. dizendo-lhe: “Fico muito contente. amigo, por ver-te de boa saúde”. O vice-almirante julgou que o filho tivesse enlouquecido. mas logo percebeu que se tornara quacre. Usando todos os recursos fomnecidos pela prudência. procurou convencê-lo a viver como os outros. O rapaz respondia exor- tando o pai a tornar-se quacre também.

Por fim o pai afrouxou. pedindo-lhe apenas que fosse ver o rei c o duque de York de chaptu

? Porque um dos membros da seita. quando visitado pelo Espírito Santo, era sacudido pelos tremores da inspiração. Tomava. então, à palavra e seus irmãos o ouviam num silêncio cheio de recolhimento. (N. do A.)

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na mão e sem tuteá-los. Guilherme respondeu que sua consciência não lho permitia, e o pai, indig- nado e desesperado, expulsou-o de casa. O jovem Penn agradeceu a Deus porque sofria por Sua causa. Foi pregar na cidade e fez muitos prosélitos.

As prédicas dos ministros esclareciam todos os dias seus ouvintes, e como Penn era jovem, belo e bem feito, as mulheres da corte e da cidade acorriam devotamente para ouvi-lo. O Patriarca George Fox veio dos confins da Inglaterra para vê-lo em Londres, tal era sua reputação. Ambos resolveram realizar missões nos países estrangeiros. Embarcaram para a Holanda, depois de dei- xarem um bom número de operários para cuidar da vinha londrina. Seus trabalhos obtiveram êxito feliz em Amsterdam, mas sua maior honra e o maior perigo para sua humildade foi a recep- ção que lhes fez a princesa palatina Elisabeth, tia de Jorge I, rei da Inglaterra, mulher ilustre por seu espírito e por seu saber, a quem Descartes dedicara seu Romance de Filosofia.

Vivia retirada em Haia, onde viu seus “amigos”, pois na Holanda os quacres passaram a ser chamados assim. Conferenciou com eles várias vezes; frequentemente pregaram em casa dela e se não a tornaram uma perfeita quacre, pelo menos admitiram que não estava longe do reino dos céus.

Os amigos também semearam na Alemanha, mas colheram pouco. Não se pode apreciar muito a moda do tuteamento num país onde a boca sempre está cheia dos termos Alteza e Exce- lência. A notícia da doença do pai levou Penn a regressar logo à Inglaterra, para vê-lo morrer. O vice-almirante reconciliou-se com o filho, apesar da diferença religiosa. Em vão Guilherme exor- tou-o a não receber o sacramento e a morrer como quacre. Inutilmente o ingênuo velhinho reco- mendou a Guilherme que pusesse botões nas mangas e alamares no chapéu.

Guilherme herdou muitos bens, entre os quais dívidas da Coroa por adiantados que o vice- almirante fizera para expedições marítimas. Nessa época nada era menos seguro do que dinheiro devido pelo rei. Penn foi obrigado mais de uma vez a ir tutear Carlos II e seus ministros para obter o pagamento. Em 1680, o governo deu-lhe em lugar do dinheiro a propriedade e a soberania de uma província da América, ao sul de Maryland. Eis um quacre transformado em soberano. Partiu para seus novos estados com dois navios, carregados de quacres que o seguiram. Chamou- se o país de “Pennsylvania”, por causa do nome de Penn. Fundou a cidade de “Philadelphia”, hoje muito florescente. Começou fazendo uma liga com os americanos, seus vizinhos. Foi este o único tratado entre americanos e cristãos que não foi jurado nem rompido. O novo soberano foi também o legislador da Pensilvânia. Fez leis sábias, nunca mudadas depois dele. A primeira é a de não maltratar alguém por questão de religião e encarar como irmãos todos os que acreditarem em Deus.

Mal o governo se estabeleceu, alguns comerciantes da América vieram instalar-se na coló- nia. Os nativos, em vez de fugirem para as florestas, acostumaram-se insensivelmente com os pacíficos quacres. O ódio que votavam aos outros cristãos, conquistadores e destruidores da América, era proporcional ao amor que tinham pelos recém-vindos. Em pouco tempo, um grande número desses pretensos selvagens, encantados com a doçura de seus vizinhos, vieram em massa pedir a Guilherme Penn que os recebesse entre seus vassalos. Era um espetáculo bastante novo ver um soberano tuteado por todo mundo, a quem se falava de chapéu na cabeça, um governo sem padres, um povo sem armas, cidadãos iguais e vizinhos sem ciúme.

Guilherme Penn poderia vangloriar-se de ter trazido à terra a tão falada idade de ouro, que parece ter existido apenas na Pensilvânia. Os negócios de seu novo país levaram-no de volta à Inglaterra, após a morte de Carlos II. O Rei Jaime, que amara o pai, teve a mesma afeição pelo filho, não o considerando mais como a um sectário obscuro, mas como a um grande homem. A política do rei era conforme ao seu gosto: queria adular os quacres abolindo as leis feitas contra os não-conformistas, para poder introduzir a religião católica a favor dessa liberdade. Todas as seitas inglesas perceberam a armadilha e não caíram nela. Reuniram-se contra o catolicismo, seu inimigo comum. Mas Penn não acreditou que devesse renunciar aos seus princípios para favore- cer os protestantes que o odiavam, contra um rei que o amava. Havia estabelecido a liberdade de consciência na América; não desejava destruí-la na Europa. Permaneceu, pois, fiel a Jaime II, a ponto de ser acusado de jesuíta. A calúnia afligiu-o sensivelmente. Foi obrigado a justificar-se com escritos públicos. Entretanto, o infeliz Jaime II, misto de grandeza e de fraqueza, como todos

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os Stuarts, fez pouco e fez muito, como todos eles, e acabou perdendo o reino sem que soubesse como.

Todas as seitas inglesas receberam de Guilherme III e de seu parlamento aquela liberdade que haviam recusado das mãos de Jaime II. Foi então que os quacres começaram a gozar, pela força das leis, todos os privilégios que possuem hoje. Penn, depois de ter visto sua seita estabele- cida sem contradição em seu país de origem, regressou à Pensilvânia. Os seus e os americanos o receberam com lágrimas de alegria, como a um pai que voltasse para ver seus filhos. Todas as suas leis haviam sido observadas religiosamente durante sua ausência, coisa jamais sucedida a um legislador antes dele. Permaneceu alguns anos em Filadélfia e partiu, enfim, malgrado seu, para solicitar em Londres novas vantagens em favor do comércio da Pensilvânia. Desde então viveu em Londres até a extrema velhice, considerado como chefe de um povo e de uma religião. Morreu em 1718.

A propriedade e o governo da Pensilvânia continuaram para seus descendentes, que os ven- deram ao rei pela quantia de doze mil peças de ouro. Os negócios do rei lhe permitiram pagar mil. O leitor francês julgará que foram pagos com promessas pelo ministério, que se apoderou do governo. De jeito nenhum. Como a Coroa não póde saldar sua dívida no tempo previsto, o con- trato foi declarado nulo e a família Penn recuperou todos os seus direitos.

Não posso adivinhar qual a sorte da religião dos quacres na América, mas vejo que perece dia a dia em Londres. Por todo o país, a religião dominante, se não persegue, engole todas as ou- tras a longo prazo. Os quacres não podem ser membros do Parlamento nem ocupar um posto pú- blico porque precisariam prestar juramento e não querem jurar. Estão reduzidos à necessidade de ganhar dinheiro pelo comércio. Seus filhos, enriquecidos pela engenhosidade de seus pais, querem gozar, querem ter honras, botões e punhos. Envergonham-se de serem chamados quacres e fazem-se protestantes para andar na moda.

QUINTA CARTA

Sobre a Religião Anglicana

Aqui é o país das seitas. Um inglês, como homem livre, vai para o céu pelo caminho que lhe agradar.

Entretanto, embora cada um possa servir a Deus à sua moda, sua verdadeira religião, onde faz fortuna, é a seita dos episcopais, chamada Igreja Anglicana ou Igreja por excelência. Não se pode ter um emprego, tanto na Inglaterra como na Irlanda, sem se estar no númmero dos fiéis anglicanos. Esta razão, excelente prova, converteu tantos não-conformistas, que hoje em dia a vigésima parte da nação está fora do regaço da igreja dominante.

O clero anglicano manteve muitas cerimônias católicas, sobretudo a de receber os dízimos com uma atenção bem escrupulosa. Também têm a piedosa ambição de serem senhores.

Ademais, tanto quanto podem, fomentam em suas ovelhas um santo zelo contra os não-con- formistas. Zelo muito vivo sob o governo dos tóris, nos últimos anos da Rainha Ana, mas não indo além da quebra das vidraças das capelas dos hereges, porquanto a raiva das seitas terminou na Inglaterra com as guerras civis, sob a Rainha Ana reduzia-se a ruidos surdos de um mar ainda bastante agitado muito tempo depois da tempestade. Quando os Whigs e os tóris dilaceraram seu país, como outrora os guelfos e os gibelinos, foi preciso que a religião entrasse nos partidos. Os tóris eram pelo episcopado; os Whigs queriam aboli-lo, mas contentaram-se em rebaixá-lo quan- do foram os senhores.

No tempo em que o Conde Harley de Oxford e Lorde Bolingbroke bebiam à saúde dos tóris, a Igreja Anglicana encarava-os como defensores dos santos privilégios. A assembléia do baixo clero, espécie de Câmara dos Comuns composta de eclesiásticos, tinha então algum crédito.

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Gozava, pelo menos, da liberdade de reunir-se. de raciocinar sobre controvérsias e de fazer quei- mar, de tempos em tempos, alguns livros ímpios, isto é, escritos contra ela. O Ministério. hoje Whig, não permite que tais senhores mantenham sequer sua assembléia. Na obscuridade de suas paróquias, estão reduzidos ao triste emprego de rogar a Deus pelo governo que não se envergo- nhariam de perturbar. Quanto aos bispos, vinte e seis ao todo, reúnem-se na Câmara Alta, apesar dos Whigs, porque subsiste ainda o velho preconceito de tomá-los como barões. Entretanto, têm tanto poder na Câmara quanto os duques e pares no Parlamento de Paris. uma cláusula no Juramento prestado ao Estado que exercita bastante a paciência cristã desses senhores.

Nela, promete-se pertencer à Igreja tal como é estabelecida pela lei. Não bispo, deão ou arcediago que não se julgue de direito divino. Ora, é uma grande mortificação para eles serem obrigados a admitir que devem tudo a uma lei miserável, feita por leigos profanos. Um religioso (o Padre Courayer) escreveu pouco um livro para provar a validade e a sucessão das ordens anglicanas. Essa obra foi proscrita na França, mas acreditais que tenha agradado ao ministério da Inglaterra? De modo algum. Os malditos Whigs pouco ligam se a sucessão episcopal foi ou não interrompida em seu país, ou se o Bispo Parker foi consagrado num botequim (como se diz) ou numa igreja. Preferem que os bispos tenham autoridade outorgada pelo Parlamento a que a te- nham herdada dos apóstolos. Lorde B.? considera que a idéia do direito divino serve para fazer tiranos de camal e sobrepeliz, enquanto a lei faz cidadãos.

Com relação aos costumes, o clero anglicano é mais regrado do que o da França. Causa: todos os eclesiásticos são educados na Universidade de Oxford ou na de Cambridge, longe da cor- rupção da capital. São chamados às dignidades da Igreja muito tarde e numa idade em que as paixões humanas se reduzem à avareza, quando falta alimento para sua ambição. Os empregos aqui são recompensa por longos serviços na Igreja ou no exército, de modo que não se vêem rapa- zes saindo do colégio como bispos ou coronéis. Além disso, quase todos os padres são casados. Os maus modos contraídos na universidade e o pouco contato com as mulheres obrigam ordina- riamente um bispo a contentar-se com a sua. Algumas vezes os padres vão aos botequins, porque o uso lhes permite. Embebedam-se com seriedade e sem escândalo.

Aquele ser indefinido, nem eclesiástico nem secular, em suma, aquilo que se chama abade, é uma espécie desconhecida na Inglaterra. Aqui, todos os eclesiásticos são reservados e quase todos pretendem ser pedagogos eruditos. Agradecem a Deus por serem protestantes, quando ficam sabendo que na França os rapazes, conhecidos por seus deboches e educados para a prelazia por “intrigas femininas, fazem amor publicamente, divertem-se compondo ternas canções, oferecem diariamente ceias longas e delicadas, indo depois implorar as luzes do Santo Espírito, e ousada- mente nomeiam-se sucessores dos apóstolos. Mas um protestante é um vil herege, a ser queimado para o diabo, como diz mestre François Rabelais por isso não me meto em seus negócios.

SEXTA CARTA

Sobre os Presbiterianos

A religião anglicana cspalha-se apenas pela Inglaterra e pela Irlanda. Na Escócia, a religião dominante é a presbiteriana, calvinismo puro tal como instalado na França e subsistindo em Genebra. Como os padres desta seita vivem de pagas muito medíocres, não podendo gozar os mesmos luxos que os bispos, decidiram naturalmente clamar contra as honras que não podem alcançar. Imaginai Diógenes pisoteando o orgulho de Platão: os presbiterianos escoceses asseme- lham-se muito àquele raciocinador orgulhoso e velhaco. Trataram o Rei Carlos II com menos consideração do que Diógenes tratou Alexandre, pois quando tomaram armas por ele contra

* Bolingbroke, a despeito de suas idéias conservadoras. (N. do A.)

CARTAS INGLESAS 17

Cromwell, que os enganara, faziam o pobre rei agúentar quatro sermões por dia. Proibiam que jogasse; exigiam que penitenciasse, a tal ponto que Carlos II cansou-se de ser rei desses mestres enfatuados e fugiu de suas mãos como um estudante escapole do colégio.

Diante de um jovem e vivo bacharel (francês), de manhã a berrar nas escolas de teologia e de noite a cantar com as damas, um teólogo anglicano é um Catão. Mas quão galante ao lado de um presbiteriano da Escócia! Este simula afetadamente um andar grave, um ar zangado, traz um enorme chapéu, um longo manto sobre o casaco curto, prega pelo nariz e chama de prostituta da Babilônia toda igreja cujos eclesiásticos estão bem contentes por terem cinquenta mil libras de renda, e cujo povo é muito bom por suportá-los e ainda chamá-los de Monsenhor, Vossa Grande- za, Vossa Eminência.

Possuidores de algumas igrejas na Inglaterra, esses senhores introduziram na região a moda do ar grave e severo. Deve-se a eles a santificação do domingo nos três reinos: nesse dia é proi- bido trabalhar e divertir-se, portanto a severidade é dupla comparada a da Igreja Católica. Nada de ópera, nem de comédia, nem de concertos aos domingos em Londres. Até mesmo o baralho é expressamente proibido, e as pessoas de qualidade chamadas gente honesta jogam nesse dia. O resto da nação vai ao sermão, ao botequim e ao bordel.

Embora a seita episcopal e a presbiteriana sejam dominantes na Grã-Bretanha, todas as ou- tras também são bem-vindas e convivem muito bem, enquanto a maioria dos seus pregadores se

- detesta reciprocamente, quase com a mesma cordialidade com que um jansenista atormenta um jesuíta.

Entrai na Bolsa de Londres, praça mais respeitável do que muitas cortes. vereis reunidos. para a utilidade dos homens, deputados de todas as nações. O judeu. o maometano e o cristão negociam reciprocamente como se pertencessem todos à mesma religião. é infiel quem vai à bancarrota. O presbiteriano confia no anabatista, e o anglicano, na promessa do quacre. Ao sair dessas assembléias livres e pacíficas, uns vão à sinagoga, outros vão beber. Um vai ser batizado numa grande cuba de água, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Outro leva o filho para que lhe cortem o prepúcio e despejem sobre sua cabeça resmungos hebraicos incompreensíveis. Outros vão à sua igreja e, enchapelados, esperam a inspiração de Deus. E todos estão contentes.

Se houvesse uma única religião na Inglaterra, o despotismo seria temível; se houvesse duas, uma degolaria a outra; mas como trinta, vivem felizes e em paz.

SÉTIMA CARTA

Sobre os Socinianos ou Arianos ou Antitrinitários

aqui uma pequena seita, composta de alguns eclesiásticos e de alguns leigos muito sá- bios, que não tomam o nome dos arianos, nem o dos socinianos, mas que não têm a mesma opi- nião de Santo Atanásio, no capítulo referente à Trindade, dizendo-vos claramente que o Pai é maior do que o Filho.

Estais lembrados daquele bispo ortodoxo, que, para convencer um imperador da consubstan- ciação, resolveu pegar o filho do imperador pelo queixo, arrancando-lhe o nariz na presença de Sua Sagrada Majestade? O imperador ia zangar-se com o bispo quando o velhote pronunciou estas belas e convincentes palavras: “Senhor, se Vossa Majestade se encoleriza porque se faita com o respeito a vosso filho, como pensais que Deus Pai tratará aqueles que recusam a Jesus Cristo os títulos que lhe são devidos?” As pessoas de quem vos falo acham que o bispo estava mal informado, que seu argumento não era concludente e que o imperador deveria ter-lhe respondido: “Sabei que duas maneiras de faltar-me com o respeito: a primeira não honrando bastante meu filho; a segunda, honrando-o tanto quanto a mim”.

Seja como for, o partido de Ário começa a reviver na Inglaterra, e também na Holanda e na

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Polônia. O grande Sr. Newton honrava essa opinião favorecendo-a, pois julgava que os unitários raciocinam mais geometricamente do que nós. Mas, o patrono mais decidido da doutrina ariana foi o Dr. Clarke, homem de virtude austera e caráter doce, mais amante de suas opiniões do que empenhado em fazer prosélitos, ocupado apenas com cálculos e demonstrações. Uma verdadeira máquina de raciocinar.

Foi o autor de um livro sobre a existência de Deus, muito pouco compreendido, mas muito estimado. Compôs também um outro, sobre a verdade da religião cristã, mais inteligível, mas muito desprezado.

Não se empenhou nas belas disputas eclesiásticas, que nosso amigo. .. chama de patranhas veneráveis. Contentou-se em mandar imprimir um livro contendo todos os testemunhos dos pri- meiros séculos pró e contra os unitários, deixando a cargo do leitor o cuidado de contar os votos e julgar. Este livro do doutor deu-lhe muitos partidários, mas impediv-o de ser arcebispo de Cantuária. Creio que o doutor enganou-se nos cálculos e que valeria mais ser primaz da Ingla- .terra do que cura ariano. * k

Vede: ocorrem revoluções nas opiniões como nos impérios. O partido de Ário, após trezen- tos anos de triunfo e doze séculos de esquecimento, renasce, enfim, das cinzas. Mas perde tempo reaparecendo numa época em que o mundo está saciado de disputas e seitas. Ademais, é muito pequeno para obter a liberdade das assembléias públicas; consegui-lo-á tornando-se mais numero- so, mas tudo anda tão morno hoje em dia que não muita oportunidade para que surja uma reli- gião nova ou renovada. Não é engraçado que Lutero, Calvino, Zuínglio, e todos os escritores que não podemos ler, tenham fundado seitas que dividem a Europa; que o ignorante Maomé tenha dado uma religião à Ásia e à África, que os Srs. Newton, Clarke, Locke, Le Clerc, os maiores filósofos e as melhores penas de seu tempo, tenham conseguido com dificuldade estabelecer um pequeno rebanho que diminui dia a dia?

Isto, sim, é vir ao mundo no momento azado! Se o cardeal de Retz reaparecesse hoje, não amotinaria sequer dez mulheres em Paris.

Cromwell, que mandou decapitar seu rei e tornou-se soberano, se renascesse, seria um sim- ples comerciante de Londres.

OITAVA CARTA

Sobre o Parlamento

Sempre que podem. os membros do Parlamento da Inglaterra gostam muito de comparar-se aos antigos romanos.

Não faz muito tempo, o Sr. Shipping, na Câmara dos Comuns, começou seu discurso com as seguintes palavras: “A majestade do povo inglês seria ferida... etc.”. A singularidade da expressão provocou uma explosão de riso. Entretanto, sem desconcertar-se, repetiu as mesmas palavras com ar firme e ninguém riu mais. Confesso que nada vejo em comum entre a majestade do povo inglês e a do povo romano, e menos ainda entre seus governos. em Londres um sena- do e alguns de seus membros são suspeitados, embora erradamente, sem dúvida, de venderem ocasionalmente suas vozes, como se fazia em Roma: eis toda a semelhança. Ademais, as duas nações parecem me inteiramente diferentes, tanto no bem quanto no mal. Entre os romanos, a lou- cura das guerras de religião sempre foi desconhecida; essa abominação estava reservada a devo- tos, pregadores da humildade e da paciência. Mário e Sila, Pompeu e César, Antônio e Augusto nunca se bateram para saber se o flâmine deveria usar a camisa por cima do hábito, ou este por cima daquela, e se os frangos sagrados deveriam comer e beber, ou apenas comer, para que se tor-

* Teria perdido o posto porque alguém que o desejava teria dito à Rainha Ana: “O Sr. Clarke é o mais sábio e o mais honesto dos homens; lhe falta uma coisa: ser cristão”. (N. do A.)

CARTAS INGLESAS 19

nassem os augúrios. Outrora, os ingleses mandaram enforcar-se reciprocamente em tribunais e destruiram-se em batalhas planejadas por querelas dessa espécie. Durante muito tempo a seita dos episcopais e o presbiterianismo atordoaram cabeças sérias. Imagino que tolices como essas não acontecerão mais. Parece que se tornaram sábios a suas expensas e não os vejo mais com vontade de se estrangularem por silogismos.

Eis uma diferença mais essencial entre Roma e a Inglaterra, vantajosa para esta última: em Roma, o fruto das guerras civis foi a escravidão; na Inglaterra, a liberdade. A nação inglesa é a única da terra que chegou a regulamentar o poder dos reis resistindo-lhes, e que de esforço em esforço chegou, enfim, a estabelecer um governo sábio, onde o príncipe, todo-poderoso para fazer o bem, tem as mãos atadas para fazer o mal; onde os senhores são grandes sem insolência e sem vassalos, e onde o povo participa do governo sem confusão.

A Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns são os árbitros da nação. O rei, o super-ár- bitro. Faltou essa balança aos romanos: em Roma, os grandes e o povo estavam sempre dividi- dos, sem um poder intermediário que os pusesse de acordo. O Senado de Roma, cheio de um orgulho injusto e punível, nada querendo dividir com os plebeus, conhecia um segredo para afastá-los do governo: ocupá-los sempre nas guerras estrangeiras. Encarava o povo como a uma besta feroz que deveria ser atiçada contra os vizinhos, com medo de que devorasse seus senhores. Assim, o maior defeito do governo dos romanos tornou-os conquistadores. Por serem infelizes na pátria, tornaram-se senhores do mundo, até que suas divisões os escravizaram.

O governo da Inglaterra não foi feito para um brilho tão grande, nem para um fim tão funes- to. Sua finalidade não é a brilhante loucura das conquistas, mas impedir que sejam feitas por seus vizinhos. Seu povo zela não apenas por sua própria liberdade, mas também pela dos outros. Os ingleses encarniçaram-se contra Luis XIV unicamente por acreditá-lo muito ambicioso, comba- tendo-o com alegria de coração e seguramente sem interesse algum.

Sem dúvida, custou caro estabelecer a liberdade na Inglaterra. Nos mares o sangue afogou o ídolo do poder despótico, mas os ingleses não julgam ter pago um preço muito alto por boas leis. Outras nações não tiveram menos perturbações do que eles, nem verteram menos sangue: e. no entanto, o sangue que espalharam pela causa da liberdade apenas cimentou sua escravidão.

Uma revolução na Inglaterra equivale a uma simples sedição em outros países. Uma cidade toma armas para defender seus privilégios tanto na Espanha quanto na Barbaria ou na Turquia: imediatamente é subjugada por soldados mercenários, punida por carrascos, e o resto da nação beija suas correntes. Os franceses julgam que o governo dessa ilha é mais tempestuoso do que o mar que a cerca é verdade. Mas somente quando o rei começa a tempestade, querendo apode- rar-se do navio, onde é apenas o primeiro piloto. As guerras civis da França foram mais longas, mais cruéis, mais fecundas em crimes do que as da Inglaterra, e, no entanto, em nenhuma das guerras francesas o objetivo foi a sábia liberdade.

Nos tempos detestáveis de Carlos IX e de Henrique III, tratava-se somente de saber se sería- mos ou não escravos dos Guise. A última guerra de Paris merece vaias. Parece-me estar vendo estudantes amotinados contra um diretor de colégio e acabando chicoteados. O cardeal de Retz tinha muito espirito e muita coragem mal empregados. Rebelde sem motivo, faccioso sem propó- sito, chefe de partido sem exército, conchavando por conchavar, parecia fazer a guerra civil para seu prazer. O Parlamento não sabia o que o cardeal queria ou deixava de querer; suspendia tropas com um decreto, cassando-as; ameaçava, pedia perdão, punha a prêmio a cabeça do Car- deal Mazarino e depois vinha cumprimentá-lo numa cerimônia. Nossas guerras civis sob Carlos VIforam cruéis; as da Liga, abomináveis, e a da Fronda foi ridícula.

Na França, o que mais se reprova nos ingleses é o suplício de Carlos I, tratado por seus ven- cedores como ele próprio os teria tratado se tivesse sido bem sucedido.

Ao fim e ao cabo, olhai Carlos I, vencido numa batalha planejada, prisioneiro, julgado e condenado em Westminster, e de outro lado, Henrique VII, aprisionado por seu capelão durante a comunhão, Henrique III assassinado por um monge, ministro da cólera de um partido inteiro, trinta assassinatos premeditados contra Henrique IV, vários deles executados e o último privando, enfim, a França de um grande rei. Pesai esses atentados e julgai.

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NONA CARTA

Sobre o Governo

Nem sempre subsistiu essa feliz mistura no governo da Inglaterra, esse acordo entre a Câma- ra dos Comuns, a dos Lordes e o rei. Durante muito tempo a Inglaterra foi escrava: romanos, saxões, dinamarqueses, franceses a escravizaram. Guilherme, o Conquistador, governou-a com cetro de ferro, dispondo dos bens e da vida de seus novos súditos como um monarca do Oriente. Proibiu, sob pena de morte, que algum inglês ousasse ter um fogo ou uma luz em casa depois das oito horas da noite. Tentava impedir assim suas assembléias noturnas? Ou quis, com uma proibi- ção tão esquisita, experimentar até onde vai o poder de um homem sobre os outros? .

É verdade que antes de Guilherme, o Conquistador, os ingleses tiveram parlamentos. Vangloriam-se disso, como se essas assembléias, chamadas então parlamento, compostas de tira- nos eclesiásticos e de saqueadores chamados barões, tivessem sido guardiãs da liberdade e da feli- cidade públicas.

Os bárbaros, que. partindo das margens do mar Báltico, se estabeleciam no resto da Europa. trouxeram consigo o costume desses estados ou parlamentos, a cujo respeito tem sido feito muito estardalhaço e que são tão pouco conhecidos. Nessa época, os reis não eram déspotas, é verdade, mas os povos gemiam ainda mais numa servidão miserável. Os chefes desses selvagens, devasta- dores da França, da Itália, da Espanha e da Inglaterra, fizeram-se monarcas. Seus capitães parti- lharam entre si as terras dos vencidos, dando origem aos margraves, aos lordes, aos barões, subti- ranos que frequentemente disputam com seu rei os despojos dos povos. Eram aves de rapina, combatendo contra uma águia para sugar o sangue das pombas. Cada povo tinha cem tiranos no lugar de um senhor. Logo os padres entraram no jogo. Em todos os tempos, a sina dos gauleses, dos germanos, dos insulares da Inglaterra submeteu-os ao governo dos druidas e dos chefes de suas aldeias, antiga espécie de barões. mas menos tirânicos do que seus sucessores. Os druidas diziam-se mediadores entre a divindade e os homens; faziam leis, excomungavam e condenavam a morte. Os bispos os sucederam pouco a pouco na autoridade temporal do governo gótico e vân- dalo. Os papas os encabeçaram e com encíclicas, bulas e monges fizeram os reis tremer, depon- do-os, assassinando-os e roubando todo o dinheiro da Europa. O imbecil Inis, um dos tiranos da heptarquia da Inglaterra, numa peregrinação a Roma, foi o primeiro a submeter-se ao pagamento da “esmola de São Pedro” (mais ou menos equivalente a um escudo da moeda francesa) por cada casa de seu território. Logo toda a ilha seguiu esse exemplo. Pouco a pouco a Inglaterra tornou-se uma provincia do papa. O santo padre enviava periodicamente legados que recolhiam impostos exorbitantes. João sem Terra acabou fazendo uma cessão de seu reino à Sua Santidade, que o excomungara. Os barões. que nada receberam. expulsaram o miserável rei, colocando em seu lugar Luis VIII, pai de São Luis, rei da França. Mas desgostaram-se logo com o recém-chegado, fazendo-o cruzar novamente o mar.

Enquanto barões, bispos e papas dilaceravam a Inglaterra, todos querendo dirigir o povo, uma parte dos homens, mais numerosa, mais virtuosa e, consegientemente. mais respeitável, com- posta de homens estudiosos das ciências e das leis, de negociantes e artesãos, enfim, todos os que não eram tiranos. em suma, O povo, era encarada pelos primeiros como animais superiores ao homem. Foi preciso. portanto que os Comuns também tomassem parte do govemo. Eram vilões, cujo trabalho e cujo sangue pertenciam aos seus senhores. chamados nobres. A maioria dos ho- mens era na Europa aquilo que muitos ainda são em certos lugares do norte: servos de um senhor, espécie de gado que se compra e se vende com a terra. Foram precisos muitos séculos para prati- car-se justiça pela humanidade, para sentir-se como era horrível que a maioria semeasse e a mino-

CARTAS INGLESAS 21

ria colhesse. Não é uma felicidade para o gênero humano que a autoridade desses bandidos tenha sido extinta na França pela potência legitima do rei, e na Inglaterra, pela do rei e do povo?

Felizmente, as sacudidas que as querelas entre os reis e os grandes davam nos impérios afrouxaram os ferros das nações. Na Inglaterra, a liberdade nasceu das querelas entre os tiranos. Os barões forçaram João sem Terra e Henrique II a promulgar essa famosa carta. cujo fim prin- cipal era, na verdade, colocar os reis sob a dependência dos lordes. mas que favorecia boa parte da nação a fim de que esta se pusesse ao lado de seus pretensos protetores. Essa Magna Carta, vista como origem sagrada das liberdades inglesas. mostra bem quão pouco a liberdade era conhecida. o titulo ja prova que o rei acreditava-se absoluto de direito. e que os barões e o clero o forçaram a afrouxar esse direito porque eram mais fortes do que ele.

Eis o início da Magna Carta: “Por nossa livre vontade atribuímos os seguintes privilégios aos arcebispos, bispos, abades. priores e barões de nosso reino, etc.”.

Nos artigos da Carta não uma palavra referente à Câmara dos Comuns, prova de que ainda não existia. ou de que existia sem poder. São especificados os homens livres da Inglaterra: triste demonstração de que havia aqueles que não o eram. Vê-se pelo artigo 32 que esses supostos homens livres deviam serviços aos seus senhores. A liberdade conservava muito da escravidão.

Pelo artigo 21.0 rei ordena que seus oficiais não poderão dai em diante tomar à força cava- los e carroças dos homens livres, a menos que paguem. Para o povo. esse regulamento pareceu uma verdadeira liberdade porque afastava uma tirania maior.

Henrique VII, usurpador feliz e grande político, que fingia apreciar os barões. mas que os odiava e temia, lembrou-se de promover a alienação de suas terras. Com isto, os vilões. que em seguida adquiriram bens com seu trabalho, compraram os castelos dos ilustres pares, arruinados por suas loucuras. Pouco a pouco todas as terras mudaram de dono.

A Câmara dos Comuns foi-se tornando cada vez mais forte. As famílias dos antigos pares extinguiram-se com o tempo, e como na Inglaterra os pares são nobres, segundo o rigor da lei, não haveria mais nobreza no país se os reis não tivessem criado novos barões de vez em quando. e conservado a ordem dos pares, muito temidos antes, para opó-los à dos comuns, muito temíveis agora.

Todos os novos pares compõem a Câmara Alta, recebem seu título do rei, e mais nada. Quase nenhum possui a terra cujo nome carrega. Um é duque de Dorset, mas não tem um palmo de terra em Dorsetshire; outro é conde de uma aldeia que mal sabe onde está situada. Têm poder no Parlamento e não alhures.

Aqui não ouvireis falar em alta, média e baixa justiça, nem do direito de caçar nas terras de um cidadão, que não pode dar um tiro sequer em seu próprio campo.

Porque nobre ou padre. um homem não está isento de pagar certas taxas. Todos os impostos são regulamentados pela Câmara dos Comuns, segunda por seu grau, mas primeira por seu critério.

Os senhores e os bispos podem rejeitar o projeto de lei dos Comuns no tocante às taxas. mas não podem alterá-lo em nada devem aprová-lo ou rejeitá-lo sem restrição. Quando o projeto de lei é confirmado pelos lordes e aprovado pelo rei, então todo mundo paga. Cada um dá, não segundo sua qualidade (o que seria absurdo), mas segundo sua renda. Não tarifa ou imposto per capita, mas uma taxa real sobre as terras. Foram todas “avaliadas ' sob Guilherme II e pos- tas abaixo de seu preço.

A taxa permanece sempre a mesma. embora as rendas fundiárias tenham aumentado: desse modo ninguém é pisoteado nem se queixa. O camponês não tem os pés feridos pelos tamancos. come pão branco. veste-se bem. não teme aumentar sua criação nem cobrir seu teto com telhas com medo que lhe aumentem os impostos um ano depois. aqui muitos camponeses com dois mil francos em bens e que não desdenham continuar cultivando a terra que os enriqueceu e onde vivem livres.

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DÉCIMA CARTA

Sobre o Comércio

Enriquecendo os cidadãos ingleses, o comércio contribuiu para torná-los mais livres, e, por sua vez, a liberdade ampliou o comércio. A grandeza do Estado veio como conseguência. O comércio estabeleceu pouco a pouco as forças navais, tornando os ingleses senhores dos mares. Atualmente possuem duzentos navios de guerra. A posteridade saberá, talvez com surpresa, que uma ilhota, dotada apenas de um pouco de cobre, de estanho, de grosseira e de argila para desengordurar os tecidos a serem curtidos, tornou-se, graças ao comércio, tão potente que pôde em 1723. enviar simultaneamente três frotas às três extremidades do mundo uma a Gibraltar, conquistada e conservada por suas armas; outra a Porto Belo, arrancando do rei da Espanha o usufruto dos tesouros das Índias; e a terceira ao mar Báltico, para impedir a guerra entre as potências do norte.

Quando Luís XIV fazia a Itália tremer, suas armas senhoras da Sabóia e do Piemonte e prontas para tomar Turim, foi preciso que o Principe Eugênio marchasse dos confins da Alema- nha em socorro do duque de Sabóia, desprovido de dinheiro, sem o qual uma cidade não pode ser defendida. Recorreu, então, aos comerciantes ingleses. Em meia hora foram emprestados cin- quenta milhões com os quais libertou Turim, derrotou os franceses e escreveu aos que lhe empres- taram tal soma: “Senhores, recebi vosso dinheiro e gabo-me de tê-lo usado para vossa satisfação”.

Isto enche de orgulho um comerciante inglês, levando-o a comparar-se, ousadamente, mas não sem alguma razão, com um cidadão romano. O caçula de um par do reino não desdenha o negócio. Milorde Townshend, ministro de Estado, tem um irmão que se satisfaz como negociante no centro da cidade. Na época em que Milorde Oxford governa a Inglaterra, seu caçula era fabri- cante em Alep, donde não quis sair e onde morreu. Esse costume, que entretanto começa a expan- dir-se bastante, parece monstruoso aos alemães, obstinados com suas árvores genealógicas. Não poderiam conceber que o filho de um par da Inglaterra fosse um mero burguês rico e potente, uma vez que na Alemanha tudo é príncipe e se viram trinta altezas do mesmo nome cujos bens con- sistiam exclusivamente em armaduras e orgulho.

Na França é marquês quem quer e qualquer um que chegue a Paris vindo dos confins de uma província, com muito dinheiro para gastar e um nome em “ac” ou em “ille”, pode dizer “um homem como eu” ou “um homem de minha qualidade”, e desprezar soberanamente um nego- ciante. Este, de tanto ouvir falar com desprezo de sua profissão, acaba sendo bastante tolo para enrubescer-se. Contudo, não sei o que é mais útil a um Estado: um senhor empoado que sabe a que horas o rei se levanta e se deita, com ares de grandeza fazendo papel de escravo na antecá- mara de um ministro, ou um negociante que enriquece seu país, ordens a Surata e ao Cairo sem sair de seu gabinete, e contribui para a felicidade do mundo.

DÉCIMA PRIMEIRA CARTA

Sobre a Inoculação da Variola

Delicadamente, diz-se na Europa cristã que os ingleses são loucos e raivosos. Loucos, por- que dão varíola a seus filhos para impedi-los de contraí-la: raivosos, porque lhes transmitem alegremente uma doença certa e terrível, visando preveni-los contra um mal incerto. Os ingleses, de seu lado, dizem: “Os outros europeus são covardes e desnaturados. Covardes, porque temem

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fazer um pequeno mal a seus filhos; desnaturados, porque os expõem a morrer um dia de varíola”. Para julgar quem tem razão nessa disputa, eis a história dessa famosa inoculação, de que se fala com tamanho pavor fora da Inglaterra.

Desde tempos imemoriais, as mulheres da Circássia costumam dar varíola a seus filhos. fazendo-lhes uma incisão no braço e inserindo nela uma pústula retirada cuidadosamente do corpo de outra criança. O efeito dessa pústula assemelha-se ao lêvedo num pouco de massa: fer- menta e espalha no sangue as qualidades nela impressas. As brotoejas da criança que recebeu a varíola artificial também servem para passar a doença às outras. A inoculação é quase continua na Circássia, e quando não varíola no país a população sente-se embaraçada como num ano mau.

A ternura materna e o interesse, causas comuns em toda a terra, introduziram na Circássia esse costume que parece tão estranho aos outros povos.

Os circassianos são pobres, e suas filhas, belas e por isso o elemento que mais traficam. For- necem belezas para os haréns do Grande Senhor, para o sufi da Pérsia, e para todos aqueles bas- tante ricos para comprar e manter essa preciosa mercadoria. Educam as moças no bem e na honra para dançar com lascívia e langor, para inflamar com todos os artifícios mais voluptuosos o gosto dos senhores desdenhosos a quem são destinadas. Todos os dias, as pobres criaturas repe- tem a lição com as mães, como nossas meninas repetem o catecismo sem entender nada.

Ora, frequentemente sucedia que um pai ou uma mãe, depois de tanta dificuldade para bem educar suas crianças, viam-se frustrados em sua esperança: a varíola surgia na família. Uma filha morria, outra perdia um olho, uma terceira aparecia com um narigão. A pobre gente ficava arrui- nada e sem recursos. Muitas vezes, quando a varíola se tornava epidêmica, o comércio ficava interrompido por vários anos, causando grande diminuição nos serralhos da Pérsia e da Turquia.

Uma nação comerciante está sempre muito alerta aos seus interesses e nunca negligencia conhecimentos que possam ser úteis ao seu negócio. Os circassianos perceberam que para cada mil pessoas dificilmente se encontrava uma atacada duas vezes por uma varíola bem completa: que, na verdade, algumas vezes se pode ter três ou quatro varíolas leves, mas nunca duas decisivas e perigosas. Em suma, que nunca se tem verdadeiramente essa doença duas vezes na vida. Obser- varam ainda que quando as varíolas são benignas e sua erupção consegue atravessar uma pele delicada e fina, não deixam marcas sobre o rosto. Dessas observações naturais concluíram que se uma criança de seis meses ou de um ano tivesse uma varíola benigna, não morreria, não ficaria marcada e estaria livre da moléstia até o fim de seus dias.

Para conservar a vida e a beleza das crianças bastava, pois, dar-lhes a varíola bem cedo, o que foi feito. Inoculava-se no corpo da criança uma pústula de varíola completa e ao mesmo tempo a mais favorável que se pudesse encontrar. A experiência não poderia deixar de ser um sucesso. Os turcos, gente sensata, logo adotaram o costume e atualmente não paxá, em Constantinopla, que não varíola a seu filho e a sua filha ao cevá-los.

Muitos pretendem que os circassianos adquiriram esse costume com os árabes, mas deixo esse ponto de história para que um beneditino erudito o esclareça, compondo vários volumes in- folio e com provas. Tudo o que tenho a dizer sobre o assunto é que no início do reino de Jorge I. a senhora Wortley-Montagu, uma das mulheres inglesas de mais espírito e de mais força de espiri- to, estando com seu marido numa embaixada em Constantinopla, resolveu, sem maiores escrúpu- los, dar a varíola a uma criança que parira nesse país. Seu capelão cansou-se de dizer-lhe que tal experiência não era cristã, podendo ser bem sucedida nos infiéis o filho da senhora Wortley passou muito bem. A dama, de volta à Inglaterra, contou sua experiência à princesa de Gales, hoje rainha. É preciso admitir, títulos e coroas à parte, que esta princesa nasceu para encorajar todas as artes e para fazer o bem aos homens. É uma filósofa amável no trono. Nunca perdeu uma oportunidade para instruir-se nem para exercer sua generosidade. Tendo ouvido dizer que uma das filhas de Milton ainda vivia, e que vivia na miséria, enviou-lhe imediatamente um presente considerável. Protege o pobre Padre Courayer. Dignou-se ser mediadora entre o Dr. Clarke e o Sr. Leibniz. Desde que ouviu falar da inoculação ou inserção da varíola fez uma experiência em quatro criminosos condenados à morte, e cujas vidas salvou duplamente, pois não somente reti- rou-os da forca, como ainda, graças à varíola artificial, imunizou-os contra a natural, que prova- velmente teriam contraído e de que poderiam morrer numa idade mais avançada.

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A princesa, segura da utilidade dessa experiência, mandou inocular seus filhos. A Inglaterra seguiu seu exemplo e, desde então, dez mil crianças de família devem suas vidas à rainha e à Sra. Wortley-Montagu, e muitas moças lhes devem a beleza.

De cada cem pessoas no mundo, sessenta, pelo menos, contraem a varíola. Destas, vinte morrem em seus anos mais favoráveis e vinte conservam seus restos desagradáveis. Eis, pois, a quinta parte dos homens que essa moléstia mata ou enfeia seguramente. De todos os que são ino- culados na Turquia ou na Inglaterra, nenhum morre, se não estiver enfermo ou condenado à morte por um outro motivo. Nenhum fica marcado. Nenhum contrai a varíola pela segunda vez, se a inoculação foi perfeita. É certo, portanto, que se alguma embaixatriz francesa tivesse trazido esse segredo de Constantinopla para Paris, teria prestado um favor eterno à nação e o duque de Villeguier, pai do atual duque d'Aumont, o homem mais bem constituído e mais sadio da França, não teria morrido na flor da idade.

O príncipe de Soubise, de saúde brilhante, não teria sido levado aos vinte e cinco anos. Mon- senhor, avô de Luis XV, não teria sido enterrado aos cingienta. Vinte mil pessoas, mortas de variola em 1723 em Paris, ainda viveriam. Como?! Então os franceses não amam a vida”?! Suas mulheres não se preocupam com a beleza?! Na verdade, somos gente estranha! Talvez daqui a dez anos adotemos o método inglês, se os curas e os médicos permitirem. Ou então, daqui a três meses, por puro capricho, os franceses se servirão da inoculação, se por inconstância os ingleses estiverem enjoados dela.

Acabo de saber que os chineses a praticam mais de cem anos. É um grande preconceito o exemplo de uma nação considerada a mais sábia e a mais policiada do universo. É verdade que os chineses a praticam de modo diferente. Não fazem incisão, mas inoculam pelo nariz, como o fumo e o rapé. É um modo mais agradável, mas que no mesmo, e serve igualmente para confir- mar que, se tivesse sido praticada na França, a vida de milhões teria sido salva.

DÉCIMA SEGUNDA CARTA

Sobre o Chanceler Bacon

Não faz muito tempo, gente célebre punha esta questão gasta e frívola: quem foi o maior homem? César? Alexandre? Tamerlão? Cromwell? etc.

Alguém respondeu: Isaac Newton, indubitavelmente. Quem o disse tinha razão, pois, se a verdadeira grandeza consiste em receber do céu um gênio poderoso e em servir-se dele para se esclarecer e aos outros, um homem como o Sr. Newton, raro em cada dez séculos, é verdadeira- mente um grande homem. Os políticos e conquistadores, que todo século não deixa de possuir, ordinariamente são apenas ilustres malfeitores. Devemos nosso respeito àquele que domina sobre os espíritos pela força da verdade, e não àqueles que os escravizam pela violência; âquele que conhece o universo e não aqueles que o desfiguram.

Visto que exigis que vos fale dos homens ilustres produzidos pela Inglaterra, começarei pelos Bacon, pelos Locke, pelos Newton. Os generais e os ministros virão quando chegar a sua vez.

É preciso começar pelo famoso conde de Verulam, conhecido na Europa sob o nome de Bacon, seu nome de família. Era filho de um ministro da Justiça e foi chanceler no reinado de Jaime I. Entretanto, no meio das intrigas palacianas e das ocupações de seu cargo, que requeriam integralmente um homem, encontrou tempo para ser um grande filósofo, um bom historiador e um escritor elegante, coisa surpreendente, aliás, pois vivia num século em que não se conhecia muito a arte de bem escrever e, ainda menos, a boa filosofia. Foi, como é hábito entre os homens, mais estimado após a sua morte do que durante sua vida. Seus inimigos: gente da corte londrina. Seus admiradores: gente de toda a Europa.

Ao conduzir à Inglaterra a Princesa Maria, filha de Henrique, o Grande, para desposar o príncipe de Gales, o marquês d'Fffiat, ministro do rei, visitou Bacon, nessa ocasião doente no

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leito. Foi recebido com as cortinas fechadas. “Pareceis com os anjos”, disse-lhe Effiat. “Ouve-se falar deles, crê-se que são superiores aos homens, e nunca se tem o consolo de vê-los.”

Sabeis, senhores, que Bacon foi acusado de um crime que não é próprio de um filósofo: o de deixar-se corromper pelo dinheiro. Sabeis que a Câmara dos Lordes condenou-o a uma multa de aproximadamente quatrocentas libras (em nossa moeda) e a perder sua dignidade de chanceler c de par.

Hoje os ingleses reverenciam sua memória a ponto de não admitirem que fosse culpado. Se me perguntardes o que penso, usarei uma expressão de Milorde Bolingbroke. Falava-se, em sua presença, da acusação de avareza de que fora vítima o duque de Malborough, citando-se alguns traços para os quais se pedia o testemunho de Milorde Bolingbroke, seu inimigo declarado e capaz de dizer convenientemente o que o outro era. “Era um homem tão grande que esqueci seus vícios”, respondeu.

Limitar-me-ei, portanto, a falar-vos daquilo que fez o Chanceler Bacon merecer a estima da Europa.

Sua obra mais interessante e melhor é atualmente a menos lida e a mais inútil. Trata-se de seu Novunm Scientiarum Organum, andaime para a construção da nova filosofia, abandonado de- pois que parte do edifício se achava construído. O Chanceler Bacon ainda não conhecia a nature- za, mas conhecia e indicava todos os caminhos que conduziam a ela. Cedo desprezou aquilo que as universidades denominavam filosofia. Fazia o possível para que essas companhias, instituídas para a perfeição da razão humana, não continuassem a estragá-la com suas “quididades”, seu “horror ao vazio”, suas “formas substanciais”, e todos os termos impertinentes que apenas a igno- rância tornara respeitáveis e que a mistura ridícula com a religião quase sacralizava. |

É o pai da filosofia experimental. É bem verdade que antes dele segredos surpreendentes foram descobertos. Havia-se inventado a bússola, a imprensa, a gravura de estampas, a pintura a óleo, os espelhos, a arte de devolver de algum modo a vista aos velhos, por meio de lunetas cha- madas óculos, a pólvora, etc. Havia-se procurado e conquistado um novo mundo. Quem não acre- ditaria que tais descobertas sublimes teriam sido feitas por filósofos, em tempos mais esclarecidos do que os nossos? De jeito nenhum. Essas mudanças ocorreram na época da mais estúpida barbá- rie. O acaso produziu quase todas essas invenções e parece ter participado também na descoberta da América. Pelo menos, sempre se acreditou que Cristóvão Colombo empreendeu sua viagem pela crença num capitão cujo navio fora lançado por uma tempestade até a altura das ilhas Caraíbas.

Seja como for, os homens sabiam ir ao fim do mundo, destruir cidades com um trovão artifi- cial mais terrível do que o verdadeiro; mas não conheciam a circulação do sangue, o peso do ar, as leis do movimento, a luz, o número dos planetas, etc. E um homem que defendesse uma tese sobre as categorias de Aristóteles, sobre o universal “a parte rei”, ou qualquer outra bobagem, era encarado como um prodígio.

As invenções mais surpreendentes e mais úteis não são as que mais honram o espírito humano.

Não devemos todas as artes à sa filosofia, mas a um instinto mecânico, existente na maioria dos homens.

A descoberta do fogo, a arte de fazer o pão, de fundir e preparar os metais, de construir casas, a invenção da lançadeira, satisfazem necessidades diferentes daquelas satisfeitas pela imprensa ou pela bússola, e, no entanto, estas artes foram inventadas por homens ainda selvagens.

Mais tarde, como foi prodigioso o uso da mecânica por gregos e romanos! Contudo, acredi- tavam que havia céus de cristal, que as estrelas eram lampadazinhas por vezes caindo no mar. E um de seus maiores filósofos, após muitas investigações, concluiu que os astros eram cascalhos que se destacaram da Terra.

Em uma palavra: antes do Chanceler Bacon ninguém conhecera a filosofia experimental. Quase todas as experiências físicas feitas depois dele estão indicadas em seu livro. Ele próprio fizera algumas. Fabricou uma espécie de máquina pneumática com que adivinhou a elasticidade do ar; chegou perto da descoberta de seu peso, feita mais tarde por Torricelli. Logo depois a física experimental começou a ser cultivada simultaneamente em toda a Europa. Era um tesouro escon-

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dido, de cuja existência Bacon desconfiava e que todos os filósofos, encorajados por suas promes- sas, esforçaram-se para desenterrar.

Porém, o que mais me surpreendeu em seu livro foi encontrar em termos explícitos essa atra- ção cuja invenção costuma-se atribuir ao Sr. Newton.

Diz Bacon: “É preciso procurar se uma espécie de força magnética, operando entre a Terra e as coisas pesadas, entre a Lua e o oceano, entre os planetas, etc.”.

Num outro lugar, diz: “É preciso que os corpos graves sejam levados rumo ao centro da Terra, ou que sejam mutuamente atraídos, e neste caso é evidente que, ao cair, quanto mais os corpos se aproximarem da Terra, tanto mais fortemente atrair-se-ão. É preciso experimentar se um relógio de pêndulo vai mais depressa no alto de uma montanha ou no fundo de uma mina; se a força do pêndulo diminuir na montanha e aumentar na mina, tudo indicará que a Terra parece possuir uma verdadeira atração”.

Precursor da filosofia, Bacon foi também um escritor elegante, um historiador, um homem cultivado.

Seus Ensaios de Moral, embora muito estimados, são feitos para instruir e não para agradar. Entretanto, não sendo uma sátira da natureza humana, como as Máximas de La Rochefoucauld, nem escola cética, como Montaigne, são menos lidos do que os dois outros, mais engenhosos.

Sua História de Henrique VII foi considerada uma obra-prima. Mas eu me enganaria se a comparasse com a obra do nosso ilustre de Thou.

Falando do famoso impostor Parkins, judeu de nascença, que ousadamente atribuiu a si O nome de Ricardo IV, rei da Inglaterra, ce encorajado pela duquesa de Borgonha disputou a coroa com Henrique VII, eis como se exprime o Chanceler Bacon: “Mais ou menos nessa época, o Rei Henrique vivia obcecado com espiritos malignos por causa da magia da duquesa de Borgonha, que evocava a sombra infernal de Eduardo IV para que viesse atormentar o Rei Henrique. Depois de instruir Parkins, a duquesa começou a deliberar de que região do céu deveria fazer surgir o cometa, e decidiu que o faria eclodir inicialmente no horizonte da Irlanda”.

Parece-me que nosso sensato de Thou não cai nesse excesso, outrora tido por sublime e hoje, com razão, por galimatias. É

DÉCIMA TERCEIRA CARTA Sobre o Sr. Locke

Talvez nunca tenha havido espírito mais sensato, mais metódico, um lógico mais exato do que o Sr. Locke; não era, contudo, um grande matemático. Nunca pôde submeter-se à fadiga dos cálculos nem à secura das verdades matemáticas, que de início não apresentam algo sensível ao espirito. E ninguém provou melhor do que ele que se poderia ter o espírito geométrico sem o apoio da geometria. Antes dele, grandes filósofos haviam decidido positivamente o que é a alma do homem, mas como nada sabiam sobre ela, era muito justo que todos tivessem opiniões diferentes.

Na Grécia, berço das artes e dos erros, onde a grandeza e a tolice do espírito humano tanto se desenvolveram, raciocinava-se sobre a alma como nós o fazemos.

O divino Anaxágoras, a quem foi erguido um altar por ter ensinado aos homens que o Sol era maior do que o Peloponeso, que a neve era negra e os céus, de pedra, afirmou que a alma era um espírito aéreo, mas imortal. E

Diógenes (não aquele que se tornou cínico depois de ter sido falsário) assegurava que alma era uma porção da própria substância de Deus. Esta idéia era brilhante, pelo menos.

Epicuro compunha-a de partes, como o corpo. Aristóteles, explicado de mil modos, porque ininteligível. acreditava, a fiar-se em alguns de seus discípulos, que o entendimento de todos os ho- mens era uma e mesma substância.

O divino Platão, mestre do divino Aristóteles, e o divino Sócrates, mestre do divino Platão, diziam a alma corpórea e eterna. O demônio de Sócrates certamente lhe ensinava que assim era.

CARTAS INGLESAS 2

Na verdade, muita gente que acha que um homem que se gabava de ter um gênio familiar era indubitavelmente um louco ou um velhaco, mas essa gente é muito dificil.

Quanto aos nossos Padres da Igreja, nos primeiros seculos muitos acreditaram que a alma humana, os anjos e Deus, eram corpóreos.

O mundo sempre se refina. São Bernardo, segundo o Padre Mabillon, ensinou que após a morte a alma não Deus, mas conversa somente com a humanidade de Jesus Cristo. Dessa vez não foi acreditado sob palavra: a aventura das Cruzadas havia desacreditado um pouco seus orá- culos. Mil escolásticos vieram em seguida, como o Doutor irrefragável, o Doutor sutil, o Doutor angélico, o Doutor seráfico, o Doutor querúbico, todos bem seguros de conhecer a alma muito claramente, mas sem deixar de falar nela como se quisessem que ninguém entendesse coisa alguma.

Nosso Descartes, nascido para descobrir os erros da Antiguidade, a fim de substituí-los pelos seus próprios, e arrastado pelo espirito sistemático que cega os maiores homens. imaginou ter demonstrado que a alma era a mesma coisa que o pensamento, como, segundo ele. a matéria é a mesma coisa que a extensão. Assegurou que se pensa sempre e que a alma vem ao corpo provi- da de todas as noções metafisicas, conhecendo Deus, o espaço infinito, tendo todas as idéias abs- tratas, cheia de belos conhecimentos que, infelizmente, esquece ao sair do ventre da mãe.

O Sr. Malebranche, do Oratório, em suas sublimes ilusões não somente admitiu as idéias ina- tas, como também não duvidou de que víssemos tudo em Deus, e que este. por assim dizer. fosse nossa alma.

Tantos raciocinadores tendo escrito o romance da alma, veio enfim um sábio que modesta- mente escreveu sua história. Locke desenvolveu a razão humana para o homem. como um exce- lente anatomista explica as molas do corpo humano. Apóia-se no archote da física: algumas vezes ousa falar afirmativamente, mas também ousa duvidar. Em vez de definir dum golpe aquilo que não conhecemos, examina por graus aquilo que queremos conhecer. Toma uma criança no momento de seu nascimento; segue passo a passo Os progressos de seu entendimento: o que possui em comum com os animais e o que possui acima deles: consulta seu próprio testemunho. isto é, a consciência de seu pensamento.

Diz: “Deixo discutir aqueles que sabem mais do que eu se nossa alma existe antes ou depois da organização do nosso corpo. Mas confesso que, na partilha, calhou-me uma alma grosseira que não pensa sempre. e tenho até a infelicidade de não conceber que seja mais necessário à alma pensar sempre, do que ao corpo estar sempre em movimento”.

Quanto a mim, gabo-me de ser tão estúpido quanto Locke nesse ponto. Ninguém de me fazer crer que penso sempre. E não estou mais disposto do que ele a imaginar que algumas sema- nas após minha concepção fosse uma alma muito sapiente, sabendo mil coisas que esqueci ao nas- cer, tendo possuído muito inutilmente, no útero, conhecimentos que me escaparam assim que pre- cisei deles e que nunca pude reaprender direito depois.

Locke, após arruinar as idéias inatas. após renunciar à vaidade de crer que se pensa sempre. estabelece que todas as nossas idéias nos vêm pelos sentidos, examina nossas idéias simples e as compostas. acompanha o espírito humano em todas as suas operações, mostra como as línguas faladas são imperfeitas e como abusamos das palavras a todo momento.

Por fim, considera a extensão, ou melhor, o nada dos conhecimentos humanos. Nesse capi- tulo ousa proferir modestamente as seguintes palavras: “Talvez nunca sejamos capazes de conhe- cer se um ser puramente material pensa ou não”.

Esse discurso sensato soou para mais de um teólogo como uma declaração escandalosa de que a alma é material e mortal.

Alguns ingleses, devotos à sua maneira, deram o alarma. Numa sociedade. os supersticiosos são como os poltrões num exército: têm e provocam terrores pânicos. Gritou-se que Locke dese- java derrubar a religião, e não havia nada religioso no caso. Tratava-se de uma questão pura- mente filosófica, muito independente da e da revelação. Bastava examinar sem acrimônia se contradição em dizer: “a matéria pensa”, e se Deus pode comunicar o pensamento à matéria. Mas os teólogos começam frequentemente dizendo que Deus foi ultrajado, desde que não se tenha a

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mesma opinião que eles. Assemelhavam-se bastante aos maus poetas, acusando Despréaux de difamar o rei porque zombava deles.

O Dr. Stillingfleet adquiriu uma reputação de teólogo moderado por ter injuriado Locke. En- trou na liça. mas foi vencido porque raciocinava como doutor e Locke, como filósofo, cônscio da fraqueza e da força do espírito humano. batendo-se com armas cuja têmpera conhecia.

Se ousasse falar dum assunto tão delicado após o Sr. Locke, diria: os homens discutem de longa data sobre a natureza e sobre a imortalidade da alma. Quanto à sua mortalidade, a demons- tração é impossível visto que ainda se discute quanto à sua natureza, e seguramente é preciso conhecer a fundo um ser criado para saber se é ou não imortal. A razão humana é tão incapaz de demonstrar por si mesma a imortalidade da alma, que a religião viu-se forçada a revelà-la para nós. O bem comum de todos os homens pede que se creia a alma imortal; a o ordena. Não é preciso mais. A coisa está decidida. O mesmo não ocorre com sua natureza, pouco importando à religião qual seja a substância da alma; o importante é que seja virtuosa. É um relógio que nos foi dado para que o governemos, mas o obreiro não nos disse do que era composta sua corda.

Sou corpo e penso é tudo que sei. Irei atribuir a uma causa desconhecida aquilo que posso atribuir facilmente apenas à causa segunda que conheço”? Neste ponto todos os filósofos da Esco- la me interrompem, argumentando: “No corpo apenas a extensão e a solidez, pode ter movi- mento e figura. Nenhum destes elementos pode produzir um pensamento; portanto, a alma não pode ser matéria”. Esse grande raciocínio, tantas vezes repetido, reduz-se ao seguinte: “Não conheço a matéria; adivinho imperfeitamente algumas de suas propriedades; ora, ignoro total- mente se estas podem estar unidas ao pensamento; portanto, como nada sei, asseguro positiva- mente que a matéria não pode pensar”. Eis, posta claramente, a maneira da Escola raciocinar. Com simplicidade, Locke diria a tais senhores: “Confessai, pelo menos, que sois tão ignorantes quanto cu. Nem vossa imaginação nem a minha podem conceber como um corpo tem idéias; como. então. compreendeis melhor que uma substância. seja qual for. tenha idéias? Não conce- beis a matéria nem o espírito; como, então, ousais assegurar alguma coisa?

Por sua vez, o supersticioso também aparece dizendo que é preciso queimar, para o bem de suas almas, aqueles que suspeitam ser possivel pensar apenas com a ajuda do corpo. Mas que diria, se ele próprio fosse culpado de irreligião? Com efeito, que homem ousará assegurar, sem uma impiedade absurda, que seja impossível ao Criador dar sentimento e pensamento à matéria? Vede, peço-vos, em que embaraço vos meteis ao limitardes assim a potência do Criador! Os ani- mais possuem os mesmos órgãos que nós, os mesmos sentimentos, as mesmas percepções; são dotados de memória, combinam algumas idéias. Se Deus não pôde animar a matéria e dar-lhe sentimento. então, de duas. uma: ou os animais são puras máquinas, ou têm uma alma espiritual.

Parece-me quase demonstrado que os animais não podem ser simples máquinas. Aqui está minha prova: Deus fez exatamente os mesmos órgãos de sentimento neles e em nós. Portanto, se não sentem, Deus fez uma obra inútil. Ora, segundo vossa própria confissão, Deus nada faz em vão. Portanto. não fabricou tantos órgãos de sentimento para que não sentissem. Portanto, os ani- mais não são puras máquinas.

Segundo vossa opinião, os animais não podem ter uma alma espiritual. Assim sendo, sois obrigados, apesar de vós próprios, a dizer que Deus deu aos órgãos dos animais (que são matéria) a faculdade de sentir e de perceber, faculdade que neles chamais de instinto.

Ora, o que pode impedir Deus de comunicar aos nossos órgãos, mais penetrantes, essa facul- dade de sentir, de perceber e de pensar que chamamos razão humana? Para qualquer lado que vos volteis, sereis obrigados a admitir vossa ignorância e a potência imensa do Criador. Não vos revolteis, então, contra a sábia e modesta filosofia de Locke. Longe de contrariar a religião, servir-lhe-ia de prova. se precisasse. Pois, que filosofia poderia ser mais religiosa do que aquela que concebe e admite sua fraqueza dizendo ser preciso recorrer a Deus quando se examinam os primeiros princípios?

Ademais, nunca se deve temer que algum sentimento filosófico possa prejudicar a religião de um país. Por mais que nossos mistérios contrariem suas demonstrações, nunca deixam de ser reverenciados pelos filósofos cristãos, pois sabem que os objetos da religião e da filosofia são de

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natureza diferente. Nunca os filósofos farão uma seita religiosa. Por quê? Porque não escrevem para o povo e porque não são entusiastas.

Dividi o gênero humano em vinte partes: dezenove trabalham manualmente e nem sabem que Locke existe. Na vigésima, quão poucos os que lêem! E entre estes, vinte lêem os romances, enquanto apenas um estuda filosofia. O número dos que pensam é excessivamente pequeno e não têm a lembrança de perturbar o mundo.

Nem Montaigne, nem Locke, nem Bayle, nem Spinoza. nem Hobbes, nem Shaftesbury. nem Collins, nem Toland carregaram a tocha da discórdia em sua pátria. Foram os teólogos que a trouxeram, começando com a ambição de chefiar seitas e logo passando a ambicionar a chefia de partidos. Que digo! Todos os livros dos filósofos modernos, ajuntados, nunca farão tanto barulho como fez outrora a simples disputa dos franciscanos sobre o formato de sua manga e de seu capuz.

DÉCIMA QUARTA CARTA

Sobre Descartes e Newton

Ao chegar a Londres, um francês encontrará tudo muito mudado em filosofia, e também no resto. Deixou o mundo cheio, encontrou-o vazio. Em Paris, vê-se o universo composto de turbi- lhões de matéria sutil; em Londres, não se nada disso. Entre nós. a pressão da Lua causa o fluxo do mar; entre os ingleses, o mar gravita em direção à Lua. de sorte que quando acreditais que ela deveria provocar maré alta, esses senhores sentem-se no direito de ter maré baixa. Infeliz- mente isso não pode ser verificado. Para tal seria preciso examinar a Lua e as marés no primeiro instante da Criação.

Notareis ainda que o Sol, que na França nada tem a ver com o caso, aqui contribui para ele com uma quarta parte, no mínimo. Entre vossos cartesianos tudo ocorre graças a um impulso incompreensível. Para o Sr. Newton, graças a uma atração cuja causa não é melhor conhecida. Em Paris imaginais a Terra feita como um melão. Em Londres, achatada dos dois lados. Para um cartesiano a luz existe no ar. Para um newtoniano, vem do Sol em seis minutos e meio. Vossa qui- mica opera com ácidos, alcalóides e matéria sutil. A atração domina até a quimica inglesa.

A própria essência das coisas mudou totalmente. Não concordareis quanto à definição da alma, nem quanto à da matéria. Descartes assegura que a alma é a mesma coisa que o pensa- mento. Locke prova muito bem o contrário.

Descartes assegura que a matéria é constituída somente pela extensão. Newton acrescenta- lhe a solidez. Eis contradições furiosas.

“Non nostrum inter vos tantas componere lites.” *

O famoso Newton, destruidor do sistema cartesiano, morreu no mês de março do ano pas- sado (1727). Viveu honrado por seus compatriotas e foi enterrado como um rei que tivesse feito o bem para seus súditos.

Leu-se com sofreguidão e traduziu-se para o inglês o elogio do Sr. Newton que o Sr. de Fon- tenelle pronunciou na Academia das Ciências. Na Inglaterra, esperava-se que o Sr. de Fontenelle fizesse uma declaração solene da superioridade da filosofia inglesa, mas ao ver que comparava Descartes e Newton, toda a sociedade real de Londres sublevou-se. Em vez de concordar-se com O juízo, criticou-se o discurso. Muitos (os que não são bastante filósofos) chocaram-se com a comparação porque Descartes é francês.

E preciso admitir que esses dois grandes homens se diferenciaram bastante pela conduta. pela sina e pela filosofia.

Descartes nasceu com uma imaginação viva e forte, tornando-se um homem singular tanto

ERR a Punta PES and, EE aqua a Virgilio, Eneida, canto |: “Não é nosso encargo sustentar entre vós tão grandes causas”. (N. do A.)

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na vida privada quanto no modo de raciocinar. A imaginação não pôde ocultar-se nem mesmo em suas obras filosóficas, cheias de comparações engenhosas e brilhantes. A natureza o fez quase poeta, e, de fato, compôs para a rainha da Suécia uma serenata em versos que, para honra de sua memória, não se mandou imprimir.

Tentou durante algum tempo o ofício da guerra, e depois de tornar-se muito filósofo não acreditou que fosse indigno fazer amor. Sua amante deu-lhe uma filha, Francine, que morreu jovem e foi muito pranteada por ele. Assim, experimentou tudo que é próprio da humanidade.

Por muito tempo acreditou que para filosofar em liberdade precisaria fugir dos homens e sobretudo de sua patria. Tinha razão. Os homens de sua época não conheciam a liberdade de filo- sofar para poder esclarecê-lo e eram capazes de prejudicá-lo.

Deixou a França porque procurava a verdade, então perseguida pela miserável filosofia da Escola. Mas não encontrou mais razão nas universidades da Holanda, para onde se retirara, pois, na época em que na França as únicas proposições verdadeiras de seu sistema eram condenadas, também foi perseguido pelos pretensos filósofos da Holanda, que não o compreendiam melhor e que, vendo sua glória mais de perto, odiavam ainda mais sua pessoa. Foi obrigado a sair de Utrecht; agiientou a acusação de ateísmo, último recurso dos caluniadores. E ele, que empregara toda a sagacidade de seu espírito procurando novas provas da existência de Deus, foi acusado de não reconhecê-la.

Tantas perseguições supõem um grande mérito e uma reputação brilhante: Descartes possuía ambos. A razão manifestou-se um pouco no mundo, em meio às trevas da Escola e aos precon- ceitos da superstição popular. Seu nome fez tanto barulho que se quis atraí-lo para a França com recompensas. Foi-lhe proposta uma pensão de mil escudos. Voltou com esperança, pagou as des- pesas da patente, que então se vendia, não teve a pensão e regressou para filosofar na solidão da Holanda, no tempo em que o célebre Galileu, com oitenta anos, gemia nas prisões da Inquisição por ter demonstrado o movimento da Terra. Por fim, em virtude de um mau regime, morreu prematuramente em Estocolmo entre sábios, seus inimigos, e nas mãos de um médico que o odiava.

A carreira do Cavaleiro Newton foi completamente diferente. Viveu oitenta e cinco anos, sempre tranquilo, feliz e honrado em sua pátria. Sua grande felicidade foi não somente a de nascer num pais livre, mas também numa época em que, banidas as impertinências escolásticas, apenas a razão era cultivada. E assim, o mundo poderia ser seu discípulo e não seu inimigo.

Uma oposição singular entre ele e Descartes reside no fato de que no curso de uma vida tão longa não teve paixões nem fraquezas; nunca se aproximou de mulher alguma o que me foi confirmado pelo médico e pelo cirurgião em cujos braços morreu. Newton pode ser admirado por isso, O que não significa, porém, que se deva censurar Descartes.

A opinião pública inglesa considera este último um sonhador, c o outro, um sábio.

Pouca gente em Londres Descartes, cujas obras tornaram-se inúteis efetivamente. Muito poucos lêem Newton, porque é preciso ser muito sábio para compreendê-lo. Mas todo mundo fala sobre os dois. Nada é atribuído ao francês; tudo, ao inglês. Alguns acreditam que se deve a New- ton a perda do horror ao vácuo, o conhecimento do peso do ar, o uso do telescópio. Aqui eleé o Hércules da fábula, a quem os ignorantes atribuem todos os feitos dos outros heróis.

Em uma crítica feita ao discurso do Sr. de Fontenelle, em Londres, ousou-se dizer que Des- cartes não era um grande geômetra. Os que assim falam podem censurar-se por baterem em sua nutriz. Descartes impulsionou a geometria tanto quanto Newton depois dele. Foi o primeiro a encontrar equações algébricas para as curvas. Graças a ele sua geometria é hoje bastante conheci- da, mas em seu tempo era tão profunda que somente Fermat, na França, e Schooten, na Holanda, puderam compreendê-la. É

Transportou o espirito de geometria e de invenção para a dióptrica, que se tornou uma arte nova em suas mãos. Se por acaso enganou-se em alguma coisa, é porque um homem, ao descobrir uma nova terra, não pode de um golpe conhecer também todas as suas propriedades. Os que vierem depois dele e fertilizarem essa terra devem-lhe pelo menos a obrigação da desco- berta. Não negarei que os erros fervilham nas outras obras do Sr. Descartes.

A geometria era um guia que de algum modo ele próprio havia formado, e que poderia tê-lo

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conduzido com segurança na física; no entanto, abandonou o guia em favor do espirito de siste- ma. A partir de então, sua filosofia foi apenas um romance engenhoso e, quando muito, verossimil para os ignorantes. Enganou-se a respeito da natureza da alma, das provas da existência de Deus. da matéria, das leis do movimento, da natureza da luz. Admitiu idéias inatas, inventou novos ele- mentos, criou um mundo, fez o homem à sua moda, e com razão diz-se que o homem de Descartes é apenas o de Descartes, muito distante do homem verdadeiro.

Impeliu seus erros metafísicos até o ponto de pretender que dois mais dois são quatro porque Deus o quis. Mas nunca é demais dizer que era estimável mesmo em seus extravios. Enganou-se, mas pelo menos com método e com um espirito conseguente. Destruiu as quimeras absurdas com que se enfatuava a juventude mais de dois mil anos. Ensinou os homens de sua época a racioci- nar e a servir-se de suas armas contra ele próprio. Se não pagou com a moeda boa, é muito que tenha desmascarado a falsa.

Não creio que se ouse comparar sua filosofia à de Newton: a primeira é um ensaio, a segun- da uma obra-prima. mas aquele que nos pós na via da verdade talvez valha tanto quanto aquele que encontramos depois, no final desse caminho.

Descartes deu a visão aos cegos e estes viram os enganos da Antiguidade e os dele. A estrada aberta por ele tornou-se imensa. Outrora, o livrinho de Rohaut apresentava uma física completa. Hoje, todos os compêndios das academias da Europa não chegam a ser um começo de sistema. Aprofundando-se o abismo, viu-se que era infinito. Trata-se de ver agora o que o Sr. Newton cavou nesse precipício.

DéÉciMA QUINTA CARTA

Sobre o Sistema da Atração

As descobertas do Cavaleiro Newton, que lhe deram reputação universal, referem-se ao siste- ma do mundo, à luz, ao infinito em geometria e, enfim, à cronologia. divertimento de suas horas de descanso. |

Vou dizer-vos (sem verborragia, se puder) o pouco que pude agarrar dessas idéias sublimes.

No que tange ao sistema do mundo, desde longa data se discutia sobre a causa que fez os planetas girarem e manterem-se em órbita. e sobre aquela que faz todos os corpos terrestres desce- rem rumo ao centro da Terra.

O sistema de Descartes, explicado e bem transformado depois dele, parecia fornecer uma causa plausível para esses fenômenos, razão que parecia tanto mais verdadeira por ser muito sim- ples e inteligível para todo mundo. Mas em filosofia é preciso desconfiar tanto daquilo que se crê entender muito facilmente, quanto daquilo que não se entende.

O peso, a queda acelerada dos corpos caindo sobre a Terra, a revolução dos planetas em suas órbitas, suas rotações em torno do seu eixo, tudo isso é apenas movimento. Este, porém, pode ser concebido por impuiso, portanto todos aqueles corpos foram impulsionados. Mas. por quê? O espaço é pleno, preenchido por uma matéria muito sutil, que não a percebemos. Essa matéria vai do ocidente para o oriente, visto que todos os planetas são arrastados nessa direção. Assim. de suposição em suposição, de verossimilhança em verossimilhança, imaginou-se um vasto turbilhão de matéria sutil. que arrasta os planetas à volta do Sol. Criou-se também um tur- bilhão particular, flutuando no grande, e girando diariamente em torno do planeta julga-se que o peso depende desse movimento diário. Supondo-se que a matéria sutil que gira em torno de nosso pequeno turbilhão deve possuir uma velocidade dezessete vezes maior do que a da Terra, neste caso, sua força centrífuga é maior e deve empurrar todos os corpos para a Terra. Eis a causa do peso no sistema cartesiano.

Entretanto, antes de calcular a força centrífuga e a velocidade dessa matéria sutil, era preciso assegurar-se de sua existência. E mesmo supondo-se sua existência, foi demonstrado ser falso tomá-la como causa do peso.

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O Sr. Newton parece aniquilar sem apelo todos os turbilhões, grandes e pequenos, aquele que carrega os planetas à volta do Sol e aquele que faz cada um deles girar sobre si mesmo.

1.º) Está provado que o pretenso pequeno turbilhão da Terra deve perder seu movimento pouco a pouco. Está provado que se a Terra bóia num fluido, este deve possuir a mesma densi- dade que aquela e neste caso todos os corpos que removemos devem oferecer uma extrema resis- tência ou seja: seria preciso uma alavanca do comprimento da Terra para levantar um peso de uma libra.

2.º) Os grandes turbilhões, por sua vez, são ainda mais quiméricos. É impossível pô-los de acordo com as regras de Kepler, cuja verdade está demonstrada. O Sr. Newton mostra como a revolução do fluido, onde se supõe Júpiter arrastado, não está para a revolução do fluido da Terra assim como a revolução de Júpiter está para a da Terra.

Prova que todos os planetas, revolucionando em elipse, estando conseguentemente bem afas- tados uns dos outros pelos afélios e bem próximos pelos periélios, a Terra, por exemplo, deveria ir mais depressa quando próxima de Vênus e de Marte, pois o fluido que a impulsiona teria mais movimento porque estaria com pressão maior nessa hora. Ora, é justamente nessa ocasião que o movimento da Terra é mais lento.

Prova que não matéria celeste indo do ocidente para o oriente, pois os cometas atraves- sam o espaço nas duas direções.

Para liquidar de uma vez as dificuldades, prova ou pelo menos torna muito provável, até com experiências, que o pleno é impossível, reconduzindo-nos ao vácuo, banido do mundo por Aristóteles e Descartes.

Com todas essas razões e com muitas outras desbaratou os turbilhões cartesianos, e, no entanto, desesperava de poder conhecer se um princípio secreto na natureza, causa simultânea dos movimentos de todos os corpos celestes e do peso da Terra. Retirando-se em 1666 para o campo, perto de Cambridge, passeando um dia em seu jardim e vendo os frutos caírem de uma ár- vore, entregou-se a uma meditação profunda sobre o peso, cuja causa os filósofos havia tanto pro- curavam em vão, e cujo mistério passava despercebido do vulgo. Disse a si próprio: “De qualquer altura que um corpo caísse na Terra, sua queda certamente estaria na progressão descoberta por Galileu, e os espaços que percorresse seriam o quadrado dos seus tempos. O poder que faz os cor- pos grandes descerem é o mesmo, sem nenhuma diminuição sensível, quer estejam em grande profundidade ou no alto de uma montanha. Por que esse poder não se estenderia até a Lua? E se assim for, parece ser ele que a mantém em órbita e que determina seu movimento. Mas se a Lua obedecer a tal princípio, não será razoável crer que também os outros planetas estarão submeti- dos a ele?

“Se tal poder existir, deverá (o que aliás está provado) aumentar na razão inversa dos qua- drados das distâncias. há, pois, que examinar o percurso de um corpo grave caindo na Terra de uma altura média e o percurso que faria simultaneamente um corpo caindo da órbita da Lua. Para sabê-lo basta ter a medida da Terra e a distância da Terra à Lua.”

Assim raciocinou o Sr. Newton. Mas na Inglaterra havia medidas falsas de nosso globo. Confiava-se na estimativa incerta dos pilotos, que contavam sessenta milhas inglesas como um grau, quando deveriam contar mais ou menos setenta. Esse cálculo falso, discordando das conclu- sões que o Sr. Newton queria tirar, fê-lo abandonar a questão. Um filósofo mediocre e vaidoso teria encaixado como pudesse a medida da Terra em seu sistema. O Sr. Newton preferiu abando- nar seu projeto. Mas, desde que o Sr. Picart mediu exatamente a Terra, traçando o famoso meri- diano que tanto honrou a França, o sr. Newton retomou suas primeiras idéias e suas contas concordaram com os cálculos do Sr. Picart. Parece-me admirável que coisas tão sublimes tenham sido descobertas com a ajuda de um quarto de circulo e de um pouco de aritmética.

A circunferência da Terra é: cento e vinte e três milhões, duzentos e quarenta e nove mil e seiscentos pés de Paris º. O sistema da atração decorre inteiramente apenas disso.

Conhece-se a circunferência da Terra, a da órbita da Lua e o diâmetro dessa órbita. A revo-

8 Pésde Paris - medida antiga equivalente a 0,324 m; o inglês equivale a 0,3048 m. (N. do T.)

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lução da Lua nessa órbita realiza-se em vinte e sete dias, sete horas e quarenta minutos. Está, pois, demonstrado que a Lua, em seu movimento médio, percorre cento e oitenta e sete mil, novecentos e sessenta pés de Paris por minuto; e por um teorema conhecido demonstra-se que a força central que faria um corpo cair da altura da Lua fá-lo-ia cair apenas quinze pés de Paris no primeiro minuto.

Se for verdadeira a regra segundo a qual os corpos pesam, gravitam, atraem-se na razão inversa dos quadrados das distâncias e se o mesmo poder agir segundo essa regra em toda a natu- reza, é evidente que, estando a Terra a sessenta semidiâmetros de distância da Lua, um corpo grave deve cair sobre a Terra quinze pés no primeiro segundo, e cinquenta e quatro mil pés no pri- meiro minuto.

Ora, com efeito, um corpo cai quinze pés no primeiro segundo e percorre no primeiro minuto cinquenta e quatro mil pés, e este número é o quadrado de sessenta multiplicado por quinze. Por- tanto, OS corpos pesam na razão inversa dos quadrados das distâncias. Logo, o mesmo poder pro- duz o peso na Terra e mantém a Lua em órbita.

Estando, pois, demonstrado que a Lua pesa sobre a Terra, centro de seu movimento particu- lar, fica demonstrado que ambas pesam sobre o Sol, centro de seus movimentos anuais.

Os outros planetas devem submeter-se a essa lei geral e, se tal lei existir, os planetas devem obedecer às regras encontradas por Kepler. Todas essas regras, todas essas relações são mantidas efetivamente pelos planetas com a maior exatidão. Portanto, o poder da gravitação faz com que todos os planetas pesem com relação ao Sol, assim como nosso globo. Enfim, a reação de todo corpo sendo proporcional à ação. permanece certo que a Terra, por sua vez, pesa sobre a Lua e que o Sol pesa sobre ambas, que cada um dos satélites de Saturno pesa sobre os quatro e estes sobre ele, os cinco sobre Saturno e este sobre eles. O mesmo ocorre com Júpiter e com todos os globos atraídos pelo Sol e, reciprocamente, este é atraído por eles.

O poder da gravitação age proporcionalmente à quantidade de matéria que os corpos encer- ram, verdade que o Sr. Newton demonstrou com experiências. Essa nova descoberta serviu para mostrar que o Sol, centro de todos os planetas, os atrai na razão direta de suas massas, combina- das com suas distâncias. Elevando-se daí, gradativamente, até conhecimentos que não pareciam ser feitos para o espírito humano, ousa calcular quanta matéria o Sol contém, e quanto em cada planeta. Dessa maneira, mostra através de simples leis mecânicas que cada globo celeste ocupa necessariamente o lugar que deve ocupar. Seu princípio único da gravitação conta de todas as desigualdades aparentes no curso dos globos celestes. As variações da Lua tornam-se uma sequência necessária dessas leis. Além disso, vê-se evidentemente por que os nós da Lua fazem sua revolução em dezenove anos e os da Terra em vinte e seis mil anos. O fluxo e refluxo do mar também é um simples efeito da atração. A proximidade da Lua quando cheia e quando nova, e seu afastamento na minguante e na crescente, combinados com a ação do Sol explicam de maneira sensível a elevação e o abaixamento do oceano.

Depois de dar conta do curso e das desigualdades dos planetas, através de sua teoria subli- me, o Sr. Newton submeteu os cometas ao jugo da mesma lei. Esses fogos, por tanto tempo desco- nhecidos, terror do mundo e escolho da filosofia, colocados por Aristóteles abaixo da Lua. e por Descartes acima de Saturno, foram enfim postos em seus lugares por Newton.

Prova que são corpos sólidos, movendo-se na esfera de ação do Sol, descrevendo uma elipse tão excêntrica e tão aproximada da parábola, que alguns deles precisar de mais de quinhentos anos para realizar sua revolução.

O Sr. Halley acredita que o cometa de 1680 é o mesmo que apareceu no tempo de Júlio César, e é a prova que melhor serve para mostrar que os cometas são corpos duros e opacos: com efeito, como desceu tão perto do Sol, que se afastou dele somente pela sexta parte de seu disco, deve ter adquirido, então, um grau de calor duas mil vezes mais violento que o do ferro mais incandescente; assim, teria sido dissolvido e consumido em pouco tempo, se não fosse um corpo opaco. A moda de adivinhar o curso dos cometas começou a se espalhar. O célebre matemático Jacques Bernoulli concluiu por seu sistema que o famoso cometa de 1680 reapareceria a 17 de maio de 1719. Nenhum astrônomo europeu dormiu nessa noite, mas nenhum cometa apareceu. pelo menos mais correção, se não houver segurança, em dar-lhe quinhentos e setenta e cinco

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anos para voltar. Um geômetra inglês, chamado Wilston, não menos quimérico do que geômetra, afirmou seriamente que no tempo do Dilúvio houve um cometa que inundou nosso globo. Foi injusto que zombassem dele. A Antiguidade pensava mais ou menos no mesmo estilo que Wils- ton. Acreditava que os cometas eram sempre os batedores de alguma grande desgraça que deveria cair sobre a Terra. Newton, ao contrário, suspeita que são muito benéficos, a fumaça que sai deles servindo para socorrer e vivificar os planetas que se embebem, em seus cursos, de todas as parti- culas que o Sol destacou dos cometas. Esse sentimento é pelo menos mais provável do que o outro.

Não é tudo: se a força da gravitação, da atração, age em todos os globos celestes, sem dúvi- da age sobre todas as partes desses globos, pois se os corpos se atraem na razão de suas massas, pode ser na razão da quantidade de suas partes, e se esse poder estiver alojado no todo, tam- bém estará na metade, na quarta, na oitava parte e assim até o infinito. Além disso, se esse poder não estivesse igualmente em cada parte, haveria lados do globo que gravitariam mais do que outros, O que não ocorre. Portanto, esse poder existe realmente em toda matéria e nas suas meno- res partículas.

Assim, a atração é a grande mola que move toda a natureza.

Newton havia previsto, depois de demonstrar a existência desse princípio, que seu nome seria motivo para revolta. Em mais de um trecho de seu livro previne o leitor contra a própria atração, advertindo-o para que não a confunda com as qualidades ocultas dos antigos, e para que se contente em conhecer a existência de uma força central que age de uma ponta a outra do uni- verso sobre os corpos mais próximos e sobre os mais afastados, segundo leis imutáveis da mecânica.

É surpreendente que após esses protestos do grande filósofo os Srs. Saurin e de Fontenelle, também filósofos, o censurem por quimeras peripatéticas. O primeiro, nas Memórias da Acade- mia, de 1709; o segundo, no próprio elogio a Newton.

Quase todos os franceses, sábios ou não, repetiram essa censura. Em toda parte ouve-se dizer: “Por que Newton não usou o termo impulso, tão compreensível, em vez do termo atração, que não se compreende?”

Newton poderia responder a tais críticas: “Em primeiro lugar, não entendeis melhor o termo impulso do que o termo atração, e se não concebeis por que um corpo tende para o centro de um outro, não imaginareis também que virtude permite a um corpo empurrar um outro. Em segundo lugar, não pude admitir o impulso, pois para isto seria preciso que soubesse se a matéria celeste empurra efetivamente os planetas; ora, não somente não conheço tal matéria como ainda provei que não existe. Em terceiro lugar, sirvo-me do termo atração apenas para exprimir um efeito que descobri na natureza, efeito certo e indiscutível de um princípio desconhecido, qualidade inerente à matéria, cuja causa outros mais hábeis do que eu poderão encontrar”. ,

Que nos haveis ensinado, então? E para que tantos cálculos para dizer-nos aquilo que nem mesmo vós compreendeis?

Ensinei-vos que a mecânica das forças centrais faz com que todos os corpos pesem proporcionalmente às suas matérias e sozinhas movem os planetas e os cometas em proporções determinadas. Demonstro-vos que é impossível haver uma outra causa do peso e do movimento de todos os corpos celestes, pois os corpos graves caindo sobre a Terra segundo a proporção demonstrada das forças centrais, e os planetas acabando seus cursos segundo essas mesmas proporções, se ainda houvesse um outro poder que agisse sobre todos esses corpos, aumentaria suas velocidades ou mudaria suas direções. Ora, nunca qualquer desses corpos possui um grau de movimento, de velocidade, de determinação que não seja demonstrado como efeito das forças centrais. Portanto, é impossível que haja um outro princípio.

Permitam-me deixar Newton falar ainda. “Estou numa situação bem diferente da dos anti- gos. Vendo a água subir nas bombas, diziam: a água sobe porque tem horror ao vazio. Eu, ao contrário, estou na situação daquele que teria sido o primeiro a observar que a água sobe nas bombas, deixando a outros o cuidado de explicar a causa desse efeito. O primeiro anatomista que disse que o braço se mexe porque os músculos se contraem ensinou uma verdade incontestável

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aos homens. Deveríamos sentir-nos desobrigados diante dele por não ter sabido por que os mús- culos se contraem” A causa da elasticidade do ar é desconhecida, mas quem descobriu tal elastici- dade prestou grande serviço à física. A elasticidade que descobri é mais escondida e mais univer- sal; portanto, dever-se-ia agradecer-me. Descobri uma nova propriedade da matéria, um dos segredos do Criador; calculei e demonstrei seus efeitos. Podem ironizar o nome que lhe dei? Os turbilhões é que devem ser considerados qualidades ocultas, pois sua existência nunca foi prova- da. A atração, ao contrário, é uma coisa real, pois seus efeitos são demonstráveis e suas propor- ções calculáveis. A causa desta causa mora no seio de Deus.” Procedes huc, et non ibis amplius. ?

DECIMA SEXTA CARTA

Sobre a Óptica do Sr. Newton

Um novo universo foi descoberto pelos filósofos do último século. Mundo novo, difícil de conhecer porque nem se desconfiava que existisse. Aos mais sábios parecia uma temeridade ousar somente sonhar que se pudesse adivinhar quais as leis que movem os corpos celestes e como a luz age.

Galileu com suas descobertas astronômicas, Kepler com seus cálculos, Descartes pelo menos com sua dióptrica e Newton em todas as suas obras viram a mecânica das molas do mundo. Na geometria, o infinito foi submetido ao cálculo. A circulação do sangue nos animais e a da seiva nos vegetais transformaram a natureza para nós. A máquina pneumática deu aos cor- pos uma nova maneira de existir. Os objetos se aproximaram de nossos olhos com a ajuda de telescópios. E enfim, depois de tantas novidades, o que Newton descobriu sobre a luz é digno de tudo o que a humanidade poderia esperar de mais ousado.

Até Antonio de Dominis, o arco-íris parecera um milagre inexplicável. Esse filósofo adivi- nhou que se tratava de um efeito necessário da chuva e do sol. Descartes imortalizou seu nome pela explicação matemática desse fenômeno tão natural; calculou as reflexões da luz nas gotas da chuva e sua sagacidade pareceu quase divina.

Mas, que teria retrucado se lhe tivessem dito que se enganara sobre a natureza da luz, não possuindo nenhuma razão para afirmar que fosse um corpo globuloso? Que é falso que essa maté- ria, espalhando-se por todo o universo, aja quando empurrada pelo Sol, como um longo bastão que agiria numa ponta ao ser pressionado na outra? Que é verdadeiro que seja dardejada pelo Sol, sendo transmitida do Sol à Terra mais ou menos em sete minutos, embora uma bala de canhão, mantendo sempre sua velocidade, pudesse realizar esse percurso em vinte e cinco anos?

Como se surpreenderia se lhe tivessem dito: “É falso que a luz se reflita diretamente ricoche- teando sobre as partes sólidas dos corpos; é falso que os corpos sejam transparentes por terem poros largos; virá um homem que demonstrará esses paradoxos e que anatomizará um único raio de luz com mais destreza do que a de um artista ao dissecar o corpo humano

Este homem veio. Newton, contando apenas com o recurso do prisma, demonstrou aos olhos que a luz é um amontoado de raios coloridos que, juntos, formam a cor branca. Um único raio foi dividido por ele em sete raios que vêm depositar-se sobre um lençol ou sobre um papel branco em ordem, um acima do outro em distâncias desiguais. O primeiro é cor de fogo; o segundo, limão; o terceiro, amarelo; o quarto, verde; o quinto, azul; o sexto, índigo; o sétimo, violeta. Cada um deles, joeirado por cem outros prismas, nunca mudará de cor, como o ouro depurado nunca muda nos cadinhos. Para provar sobejamente que cada um desses raios elementares traz em si mesmo aquilo que produz sua cor em nossos olhos, tomai, por exemplo, um pedacinho de madeira amare-

7 Avançarás até lá, e dali não prosseguirás. (N. do A.)

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la, expondo-o ao raio cor de fogo: a madeira tingir-se-á instantaneamente de cor de fogo; se exposta ao raio verde, tomará a cor verde, e assim por diante.

Qual a causa das cores na natureza?, Apenas a disposição dos corpos para refletir os raios de uma certa ordem e absorver todos os outros. Que disposição secreta é essa? A espessura das partículas constituintes de um corpo. Como ocorre a reflexão? Supunha-se que era causada pelo ricocheteio dos raios sobre os corpos sólidos, como se fossem balas. De jeito nenhum. Newton ensinou aos filósofos surpresos que os corpos são opacos apenas porque seus poros são largos e a luz se reflete em nossos olhos do seio desses próprios poros; que quanto menores os poros de um corpo, mais este é transparente. Assim, o papel que reflete a luz quando seco transmite-a quando encerado, porque a cera, fechando seus poros, torna-os muito menores.

Examinando a extrema porosidade dos corpos, cada parte tendo seus poros, e cada parte das partes tendo os seus, mostra que não é possível assegurar que exista um milímetro cúbico de maté- ria sólida no universo. Como nosso espirito está longe de conceber o que seja a matéria!

Tendo decomposto a luz e levando a sagacidade de suas descobertas até demonstrar o meio de conhecer a cor composta pelas cores prismáticas, mostrou que os raios elementares, sepa- rados por meio do prisma, estão arranjados em sua ordem porque são refratadas nessa mesma ordem. Denomina refrangibilidade a propriedade, desconhecida até ele, de romper-se nessa proporção, bem como a refração desigual dos raios, o poder de refratar o vermelho mais do que o laranja, etc.

Os raios mais reflexíveis são os mais refrangíveis. Mostra, portanto, que a reflexão e a refra- ção da luz possuem uma e mesma causa.

Tantas maravilhas são apenas o começo de suas descobertas. Encontrou o segredo de ver as vibrações e os saltos da luz, que vão e vêm ininterruptamente e que a transmitem ou refletem segundo a espessura das partes que encontram. Ousou calcular a espessura necessária das parti- culas de ar entre dois vidros sobrepostos, um chato e um convexo num dos lados, a fim de operar esta ou aquela transmissão ou reflexão, e para produzir esta ou aquela cor.

A partir de todas essas combinações, descobriu em que proporção a luz age sobre os corpos e estes sobre ela.

Conheceu tão bem a luz, que pôde determinar os limites da arte de aumentar e ajudar nossos olhos por meio de telescópio.

Descartes, cheio de uma confiança perdoável no ardor provocado pelos albores de uma arte quase descoberta por ele, esperava que as lunetas de alcance lhe permitissem enxergar nos astros objetos tão pequenos como os que distinguimos na Terra.

Newton mostrou não ser possível aperfeiçoar mais as lunetas justamente por causa da refra- ção ou da refrangibilidade que, aproximando os objetos, separa muito seus raios elementares. Cal- culou nos vidros a proporção do afastamento dos raios vermelhos e azuis. Transportando a demonstração para coisas cuja existência nem suspeitávamos, examina as desigualdades que pro- duz a figura do vidro e aquela produzida pela refrangibilidade. Descobre que se o vidro objetivo da luneta for convexo de um lado e chato de outro, e se este estiver voltado para o objeto, o defeito vindo da construção e da posição do vidro é cinco mil vezes menor do que aquele vindo da refran- gibilidade. Assim, não é a figura dos vidros que impede o aperfeiçoamento das lunetas, mas a pró- pria matéria luminosa.

Eis por que inventou um telescópio que mostra os objetos por reflexão e não por refração. Esse novo tipo de luneta é muito difícil de ser feito, mas diz-se na Inglaterra que um telescópio por reflexão de cinco pés tem o mesmo efeito que uma luneta de alcance de cem pés.

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DÉCIMA SÉTIMA CARTA

Sobre o Infinito e sobre a Cronologia

O labirinto e o abismo do infinito: caminho novo também percorrido por Newton, de quem recebemos um fio condutor.

Descartes é ainda seu precursor nessa novidade surpreendente. Em sua geometria caminhou a largos passos até o infinito, mas deteve-se às suas margens. O Sr. Wallis, em meados do século passado, foi o primeiro a reduzir uma fração, por uma divisão perpétua, a uma sequência infinita.

Milorde Brauncker serviu-se dessa sequência para encontrar o quadrado da hipérbole.

Mercator publicou uma demonstração dessa quadratura. Mais ou menos nessa época, New- ton, com vinte e cinco anos, havia inventado um método geral para fazer com todas as curvas o que se fizera com a hipérbole.

Esse método de submeter o infinito ao cálculo algébrico é denominado cálculo diferencial ou das fluxões e cálculo integral. É a arte de numerar e medir com exatidão aquilo cuja existência nem se consegue conceber.

Com efeito, não acreditarieis que se quereria zombar de vós quando vos dizem que linhas infinitamente grandes que formam um ângulo infinitamente pequeno? Que uma reta, que o é enquanto for finita, mudando infinitamente pouco de direção toma-se uma curva infinita? Que uma curva pode tornar-se infinitamente menos curva? Que quadrados de infinito, cubos de infinito, infinitos de infinito cujo penúltimo nada é com relação ao último?

Tudo isso, que à primeira vista parece excesso de irrazão, na verdade é o efeito da finura e da extensão do espirito humano e o método para encontrar verdades até então desconhecidas.

Esse edifício audacioso está fundado sobre idéias simples. Trata-se de medir a diagonal de um quadrado, de obter a área de uma curva, de encontrar a raiz quadrada de um número que não existe da aritmética ordinária.

E tantas ordens de infinitos não devem revoltar a imaginação mais do que a proposição: entre um círculo e uma tangente pode-se fazer passar sempre mais curvas; ou do que esta outra: a matéria é divisível. Desde muito essas duas verdades estão demonstradas e nem por isso são mais compreensíveis do que o resto. .

Durante muito tempo disputou-se com Newton a invenção desse cálculo. Na Alemanha, o Sr. Leibniz passou por inventor das diferenças que Newton denomina fluxões. Bernoulli reivin- dicou o cálculo integral. Mas a honra da primeira descoberta pertence a Newton fica para ou- tros a glória de terem podido suscitar dúvidas entre eles e ele.

Assim também contestou-se que Harvey tivesse descoberto a circulação do sangue; Perrault, a da seiva; que Hartsoeker e Leeuwenhoek tivessem sido os primeiros a ver os minúsculos verme- zinhos com que somos feitos. Este mesmo Hartsoeker disputou com Huygens a invenção de uma nova maneira de calcular a distância de uma estrela fixa. Ainda não se sabe qual o filósofo que descobriu o problema da roleta.

Seja como for, graças à geometria do infinito, Newton galgou os conhecimentos mais sublimes.

Falta falar ainda de uma outra obra, mais ao alcance do gênero humano, mas que exala o mesmo espírito criador que Newton depositava em todas as suas investigações. Trata-se de uma cronologia totalmente nova, pois tudo que empreendia acabava transformando as idéias admiti- das pelos outros homens.

Acostumado a desenredar o caos, quis trazer pelo menos alguma luz ao das fábulas antigas, confundidas com a história, fixando uma cronologia incerta. É verdade que não família, cida- de, nação que não procure recuar sua origem, e além disso, os primeiros historiadores foram sem- pre os mais negligentes na marcação das datas. Os livros eram mil vezes mais raros do que hoje,

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consequentemente, menos expostos à crítica enganava-se o mundo mais impunemente. E visto que se até os fatos foram supostos, muito provavelmente as datas também o foram. De um modo geral, segundo Newton, o mundo seria quinhentos anos mais novo do que dizem os cronologistas. Para fazer tal afirmação Newton recorre à observação do curso ordinário da natureza e a obser- vações astronômicas.

Entende-se por curso ordinário da natureza o tempo de cada geração dos homens. Os egip- cios foram os primeiros a usar essa maneira incerta de contar. Ao escreverem os começos de sua história contaram trezentas e quarenta e uma gerações desde Menes até Setão. Não possuindo datas fixas, avaliaram as gerações em trezentos anos. Contaram de Menes a Setão onze mil tre- zentos e quarenta anos.

Antes de contar por olimpíadas, os gregos contavam como os egípcios e ampliaram um pouco a duração das gerações, elevando cada geração para quarenta anos.

Nesse ponto, gregos e egípcios enganaram-se nos cálculos. É verdade que, segundo o curso ordinário da natureza, três gerações fazem aproximadamente cem anos. Mas não é preciso de modo algum que três reinos tenham esse número de anos. É bastante evidente que, em geral, os homens vivem mais tempo do que os reis a reinar. Assim, um homem que quiser escrever a histó- ria sem datas precisas e que souber que houve nove reis numa nação, errará muito se contar tre- zentos anos para os nove. Cada geração dura aproximadamente trinta e seis anos; cada reino, vinte, um depois do outro. Tomai os trinta reis da Inglaterra, de Guilherme, o Conquistador, a Jorge I. Reinaram seiscentos e quarenta e oito anos, o que, repartido entre os trinta reis, mais ou menos vinte e um anos e meio de reino. Sessenta e três reis da França reinaram, um depois do outro, mais ou menos vinte anos cada um. Eis o curso ordinário da natureza. Assim, os antigos se enganaram ao igualar a duração dos reinos e a das gerações. Contaram muito e por isso deve- se diminuir um pouco seus cálculos.

As observações astronômicas parecem trazer uma ajuda maior ao nosso filósofo. Parece mais forte combatendo em seu terreno.

Sabeis, senhor, que além do movimento anual em torno do Sol de ocidente para oriente, a Terra possui ainda uma revolução singular, totalmente desconhecida até os últimos tempos. Seus pólos têm um movimento muito lento de retrogradação do oriente para o ocidente, fazendo com que diariamente sua posição não corresponda exatamente aos mesmos pontos do céu. Essa diferença, insensível num ano, torna-se muito grande com o passar do tempo e no fim de setenta e dois anos a diferença é de um grau, isto é, a tricentésima sexagésima parte de todo céu. Assim, após setenta e dois anos, o coluro do equinócio da primavera, que passava por uma fixa, corresponde a uma outra fixa. Vem daí que o Sol, em vez de estar na parte do céu onde esta- va o Carneiro no tempo de Hiparco, corresponde à parte do céu onde estava Touro, e os Gêmeos “ocupam o lugar que Touro ocupava então. Todos os signos mudaram de lugar. Entretanto, conservamos sempre o modo de falar dos antigos. Dizemos que o Sol está no Carneiro na prima- vera pela mesma condescendência com que dizemos que gira.

Hiparco foi o primeiro entre os gregos a perceber alguma modificação nas constelações com relação aos equinócios, ou melhor, aprendeu isto com os egípcios. Os filósofos atribuíram esse movimento as estrelas, pois naquela época estava-se longe de supor uma revolução na Terra acreditava-se que era imóvel em todos os sentidos. Criaram, então, um céu onde pregaram todas as estrelas, deram-lhe um movimento particular que o fazia dirigir-se para o oriente enquanto todas as estrelas pareciam fazer seu caminho diário do oriente para o ocidente. Acrescentaram a esse erro um outro mais essencial: acreditaram que o céu das supostas estrelas fixas avançava cada cem anos um grau para o oriente. Enganaram-se em seus cálculos astronômicos como em sua física. Assim, por exemplo, um de seus astrônomos teria dito então: “O equinócio da prima- vera esteve, no tempo do observador tal, no signo tal, na estrela tal; desse observador até nós, caminhou dois graus; ora, dois graus equivalem a duzentos anos, portanto, esse observador viveu duzentos anos antes de mim”. É certo que um astrônomo que houvesse raciocinado dessa maneira ter-se-ia enganado exatamente em cinquenta e quatro anos. Foi assim que, duplamente enganados, os antigos compuseram seu grande ano do mundo, isto é, uma revolução do céu todo, durando trinta e seis mil anos. Mas os modernos sabem que essa revolução imaginária do céu das estrelas

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é apenas a revolução dos pólos da Terra, feita em vinte e cinco mil e novecentos anos. É bom notar aqui. de passagem, que Newton, determinando a figura da Terra, explicou de um modo muito feliz a razão dessa revolução.

Posto isso, para fixar a cronologia resta ver por qual estrela o coluro do equinócio corta atualmente a eclíptica da primavera e saber se não algum antigo que nos tenha dito em que ponto a eclíptica era cortada em seu tempo pelo mesmo coluro dos equinócios.

Clemente de Alexandria informa que Chirão, da expedição dos Argonautas, observou as constelações na época da expedição, fixando o equinócio da primavera no Carneiro, o do outono no meio da Balança, o solstício de verão no meio de Câncer, e o de inverno, no meio de Capricórnio.

Muito tempo depois, um ano antes da guerra do Peloponeso, Metão observou que o ponto do solstício de verão passava pelo oitavo grau de Câncer.

Ora, cada signo do zodíaco é de trinta graus. No tempo de Chirão o solstício estava na meta- de do signo, isto é, no décimo quinto grau; um ano antes da guerra do Peloponeso estava no oita- vo. Retardou-se, portanto, em sete graus. Um grau equivale a setenta e dois anos. Assim sendo, entre a expedição dos Argonautas e a guerra do Peloponeso passaram-se quinhentos e quatro anos e não setecentos anos, como diziam os gregos. Comparando-se o estado atual do céu com o de então, vemos que a expedição dos Argonautas deve ser colocada aproximadamente novecentos anos antes de Jesus Cristo e não mil e quatrocentos anos aproximadamente. Consegiientemente, o mundo tem quinhentos anos menos do que se pensava. Desse modo, todas as épocas se toma- ram mais próximas e tudo foi feito mais tarde do que se pensa.

Não sei se esse engenhoso sistema terá grande prestígio e se provocará uma reforma da cro- nologia do mundo. Talvez os sábios achassem muito atribuir a um homem a honra de ter aper- feiçoado a física, a geometria e a história. Seria uma espécie de monarquia universal que não agrada muito ao amor-próprio. Por isso, enquanto muitos filósofos atacavam seu sistema da atra- ção, outros combatiam seu sistema cronológico. O tempo, que deveria apontar a quem cabe a vitória, talvez consiga tornar a disputa ainda mais indecisa.

Décima OITAVA CARTA

Sobre a Tragédia

Os ingleses (e também os espanhóis) possuíam um teatro na época em que os franceses possuíam tablados. Shakespeare, considerado o Corneille inglês, florescia mais ou menos na mesma ocasião em que Lope de Vega. Criou o teatro. Tinha um gênio cheio de força e de fecundi- dade, natural e sublime, sem a menor chama de bom gosto e sem o menor conhecimento das regras. Vou dizer uma coisa um tanto temerária, mas verdadeira: foi o mérito desse autor que per- deu o teatro inglês. cenas tão belas, trechos tão grandiosos e terríveis espalhados em suas far- sas monstruosas, chamadas tragédias, que suas peças foram sempre representadas com sucesso* O tempo, único responsável pela reputação dos homens, acaba tornando respeitáveis seus defeitos. A maioria das idéias bizarras e gigantescas desse autor ao cabo de duzentos anos adquiriu o direi- to de passar por sublime. Quase todos os autores modernos as copiaram, mas o que era êxito em Shakespeare torna-se um fiasco nos outros. E podeis crer: a veneração pelo antigo aumenta à me- dida que cresce o desprezo pelos modernos. A reflexão deveria mostrar que não se deve imitá-lo. Em vez disso, o insucesso de seus copiadores faz somente com que se creia que é inimitável.

Sabeis que na tragédia do Mouro de Veneza, peça muito tocante, um marido estrangula sua mulher no palco, e quando a pobre mulher está estrangulada, grita que está morrendo injusta- mente. Não ignorais que, no Hamlet, coveiros cavam uma cova bebendo, cantando cançonetas satíricas e gracejando sobre as cabeças dos mortos que encontram, duma maneira digna da gente de seu ofício. Mas o que de surpreender-vos é que essas tolices foram imitadas no reinado de Carlos II, que, no entanto, foi a idade de ouro das belas-artes e da polidez.

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Otway, em sua Veneza Salva, introduz o Senador Antônio e a cortesã Naki em meio aos hor- rores da conspiração do Marquês de Bedmar. O velho Senador Antônio realiza junto à sua corte- todas as macaquices de um velho debochado, impotente e fora do bom senso. Imita o touro e o cachorro, morde as pernas de sua amante, que lhe pontapés e chicotadas. Essas palhaçadas, feitas para a canalha mais vil, foram retiradas da peça de Otway, e, no entanto, deixaram no Júlio César de Shakespeare gracejos de cordoeiros e sapateiros romanos, introduzidos na peça com Brutus e Cassius. É que a tolice de Otway é moderna, e a de Shakespeare, antiga.

Sem dúvida estais a lamentar que aqueles que vos falaram do teatro inglês e do famoso Shakespeare tenham mostrado seus erros e que ninguém tenha traduzido qualquer dos trechos que pedem perdão por todas as suas faltas. Respondo-vos que é muito fácil contar em prosa os erros de um poeta, mas muito difícil traduzir seus belos versos. Todos os rabugentos que se eri- gem em críticos dos escritores célebres compilam volumes; preferiria duas páginas que me mos- trassem algumas belezas, pois manterei sempre, com as pessoas de bom gosto, que se aproveita mais com doze versos de Homero e Virgílio do que com todas as críticas feitas a respeito desses dois grandes homens.

Arrisquei traduzir alguns trechos dos melhores poetas ingleses. Aqui está um de Shakes- peare. Perdoai a cópia em favor do original e lembrai-vos, sempre, quando virdes uma tradução, que vedes uma fraca estampa de um belo quadro.

Escolhi o monólogo de Hamlet, conhecido de todos, e que começa com estes versos: “To be or not to be, that is the question”.

Hamlet, príncipe da Dinamarca, fala:*

“Fica. É preciso escolher e passar num instante

Da vida à morte, ou do ser ao nada.

Deuses cruéis ! se existis, iluminai minha coragem.

É preciso envelhecer curvado sob a mão que me ultraja? Deve suceder talvez às doçuras do sono.

Ameaçam-nos. Dizem-nos que esta curta vida

De tormentos eternos é logo seguida.

- Ómorte! Ó momento fatal! terrível eternidade! Todo coração ao teu nome enregela, apavorado. Oh! quem poderia sem ti suportar esta vida,

De nossos Padres mentirosos suportar a hipocrisia? De uma indigna amante incensar os erros? Arrastar sob um Ministro, adorar sua altivez?

E mostrar os langores de sua alma abatida

A amigos ingratos que desviam a vista?

À morte, seria muito doce nesses extremos;

Mas o escrúpulo fala e nos grita: Parai!

Suportar ou acabar minha infelicidade e minha sina? Quem sou? Que me detém? Que é a morte?

É o fim dos males, é meu único asilo;

Após longos transportes, um sono trangiiilo.

8 Seria muito útil que o leitor confrontasse o texto de Shakespeare com o de Voltaire. Hamlet, nos versos voltairianos, perde sua universalidade trágica para converter-se num atormentado nobre francês católico, às voltas com a corte decadente de Versalhes! A crítica da tradução literal, feita logo a seguir por Voltaire, é muito sugestiva. De um modo geral, a tradução de Voltaire é uma transposição da problemática inglesa para a francesa. Isto é bem nítido nas poesias das próximas páginas, onde o tom anticlerical e antifilosófico é muito pouco inglês e bastante francês. uma espécie de tráfico ideológico na base das traduções “livres” feitas pelo autor. (N. do T.)

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Dorme-se e tudo morre. Mas um terrível despertar Proíbe às nossas mãos este horrível homicídio, E de um herói guerreiro faz um cristão tímido ”,

Não acrediteis que traduzi o inglês palavra por palavra. Infelizes os que fazem traduções lite- rais, que traduzindo cada palavra enervam o sentido! É nessa hora que se pode dizer que a letra mata e o espírito vivifica.

Eis ainda uma passagem de um famoso trágico inglês, Dryder, poeta do tempo de Carlos II, autor mais fecundo que judicioso, cuja reputação teria sido sem mancha se tivesse escrito a déci- ma parte de suas obras e cujo grande defeito foi o de ter desejado ser universal.

“When I consider life, tis alla cheat. Yetfool'd by hope men favour deceit”.

“Dos propósitos aos remorsos, dos erros aos desejos Os mortais passeiam sua loucura.

Nas infelicidades presentes, na esperança dos prazeres Não vivemos nunca, esperamos a vida.

Amanhã, amanhã, diz-se, vai cumular todos os novos votos. Amanhã vem, e nos deixa ainda mais infelizes.

Qual erro, ai de nós! do cuidado que nos devora? Nenhum de nós quereria recomeçar seu caminho:

De nossos primeiros momentos amaldiçoamos a aurora,

E da noite que vem esperamos ainda

O que em vão prometeram os mais belos de nossos dias ”.

Nesses trechos isolados os trágicos ingleses se sobressaem. Suas peças, quase todas bárba- ras, desprovidas de conveniência, de ordem, de verossimilhança, têm lampejos surpreendentes no meio dessa noite. O estilo é muito empolado, muito artificial, muito copiado dos escritores hebrai- cos, tão cheios de ênfase asiática. Mas é preciso admitir que as pernas de pau do estilo figurado, sobre as quais a língua inglesa torna-se pomposa, também elevam bem alto o espirito. embora numa marcha irregular.

O primeiro inglês que escreveu uma peça razoável e elegante, do começo ao fim, foi o ilustre Sr. Addison. Seu Catão de Utica é uma obra-prima pela dicção e pela beleza dos versos. Para meu gosto, o papel de Catão é muito superior ao de Cornélio no Pompeu, de Corneille, pois Catão é grande sem afetação e Cornélio, aliás personagem desnecessária, chega às vezes ao galimatias. O Catão do Sr. Addison parece-me a mais bela personagem do teatro. mas os outros papéis da peça não estão à sua altura, e a obra, embora bem escrita, é desfigurada por uma intriga de amor fria, espalhando pela peça um langor que a mata.

O costume de introduzir o amor a torto e a direito nas obras dramáticas passou de Paris a Londres por volta de 1660, com nossas fitas e perucas. As mulheres que enfeitam os espetáculos, como aqui, querem que se lhes fale de amor. O sábio Addison teve a fraca complacência de do- brar a severidade de seu caráter aos costumes de seu tempo e estragou uma obra-prima porque quis agradar.

Depois dele, as peças se tornaram mais regulares. o povo mais difícil, os autores mais corre- tos c menos ousados. Vi peças novas muito sábias, mas frias. Parece que até agora os ingleses foram feitos para produzir belezas irregulares. Os monstros brilhantes de Shakespeare agra- dam mil vezes mais que a sabedoria moderna. O gênio poético dos ingleses assemelha-se, até agora, a uma árvore espessa plantada pela natureza, lançando ao léu mil ramos e crescendo irregularmente e com força. Morrerá se quiserdes forçar sua natureza e podá-la como as árvores de Marly.

VOLTAIRE

DÉCIMA NONA CARTA

Sobre a Comédia

Não sei como o sábio e engenhoso Sr. de Muralt, de quem tendes cartas sobre os ingleses e sobre os franceses, falando da comédia, limitou-se a criticar um cômico chamado Shadwell, autor muito desprezado em seu tempo. Não cera o poeta da gente honesta. Suas peças, saboreadas pelo povo durante algumas representações, eram desdenhadas por toda gente de bom gosto c asseme- lhavam-se a tantas peças que vi, na França, atrairem a massa e revoltarem os leitores. Delas pô- de-se dizer:

“Paris inteira as condena: Paris inteira as celebra”.

O Sr. de Muralt deveria ter-nos falado de um autor excelente que vivia nessa época: o Sr. Wicherley, por muito tempo amante declarado da favorita mais ilustre de Carlos II. Esse homem, vivendo na alta roda, conhecia perfeitamente seus vícios e ridículos, pintando-os com pincel firme e cores verdadeiras.

Fez um misantropo copiado de Moliêre. Todos os traços de Wicherley são mais fortes e ousados do que os do nosso misantropo, mas menos finos e convenientes. O autor inglês corrigiu um único defeito que existe na peça de Moliêre: a falta de intriga e de interesse. A peça inglesa é interessante, a intriga, engenhosa, muito ousada para nossos hábitos. Um capitão de navio, cheio de valor, de franqueza e de desprezo pelo gênero humano, tem um amigo sábio e sincero de quem desconfia, e uma amante por quem é ternamente amado, mas sobre a qual não se digna lançar os olhos. Ao contrário, depositou toda a sua confiança num amigo falso e homem indigno, e deu seu coração à mais vaidosa e pérfida das mulheres. Está certo de que esta mulher é uma Penélope e de que o amigo é um Catão. Parte para combater os holandeses, deixando todo seu dinheiro, pedrarias e todos os bens a esta mulher, recomendando-a ao amigo, com quem conta muito. No entanto, o verdadeiro homem honesto, de quem desconfia, embarca com ele; e a amante, a quem nem se dignou olhar, disfarça-se de pajem e viaja sem que o capitão se aperceba de seu sexo durante toda a campanha.

Tendo seu navio explodido numa batalha, o capitão volta a Londres sem recursos, sem navio e sem dinheiro, com seu pajem e seu amigo, desconhecendo a amizade de um e o amor da outra. Vai diretamente à casa da pérola das mulheres, que espera reencontrar com seu baú e com sua fidelidade. Encontra-a casada com o honesto patife em quem confiara. Guardaram seu depósito tanto quanto o resto. O homem tem a maior dificuldade do mundo para crer que uma mulher de bem possa pregar tais peças. Para melhor convencê-lo, a dama honesta toma-se de amores pelo pajenzinho e quer tomá-lo à força. Mas como é preciso que se faça justiça e que, numa peça de teatro, o vício deva ser punido e a virtude recompensada, acontece que no final das contas o capi- tão se põe no lugar do pajem, dorme com a infiel, corneia seu amigo traidor, dá-lhe uma boa esto- cada no corpo, retoma seu baú e casa-se com o pajem. Notareis ainda que se entremeou na peça uma Condessa de Pimbesche, velha intrigante, parente do capitão, e a mais divertida criatura e o melhor caráter existentes no teatro.

Wicherley tirou ainda de Moliêre uma peça não menos singular e ousada, uma espécie de Es- cola de Mulheres.

A principal personagem da peça é um gozador muito rico, terror dos maridos de Londres, que resolveu espalhar a notícia de que durante sua última doença os cirurgiões resolveram torná- lo eunuco. Com esta bela reputação todos os maridos levam-lhe as mulheres e o pobre homem tem o embaraço da escolha. preferência a uma camponezinha, muito inocente e tempera- mental, que corncia o marido com uma boa que vale mais do que a malícia das damas experien- tes. Essa peça não é bem uma escola de bons costumes, mas, na verdade, uma escola de espírito e de bom cômico.

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Um tal de Cavaleiro Vanbrugh escreveu comédias ainda mais engraçadas e menos engenho- sas. Era um homem do prazer e, acima disso, poeta e arquiteto. Pretende-se que escrevia como construía: um tanto grosseiramente. Foi o construtor do famoso castelo de Blenheim, monumento pesado e durável de nossa infeliz batalha de Hochstedt. Se os apartamentos fossem tão grandes como são espessas as muralhas. o castelo talvez fosse bem cômodo.

Colocou-se em seu epitáfio: espera-se que a terra não lhe seja leve, visto que, enquanto vivo. sobrecarregou-a desumanamente.

Esse cavaleiro, tendo feito uma viagem pela França antes da guerra de 1701. foi posto na Bastilha, a permanecendo algum tempo, sem nunca saber o que lhe teria valido essa distinção da parte de nosso Ministério. Escreveu uma comédia na Bastilha. Em minha opinião é muito estra- nho que não haja na peça nenhum traço contra o pais onde agientou essa violência.

Dentre todos os ingleses, foi o Sr. Congreve quem alçou mais alto a glória do teatro cômico. Escreveu poucas peças, mas todas excelentes em seu gênero. Nelas as regras do teatro são rigoro- samente observadas. Estão cheias de caracteres matizados com extrema finura. Não tenta ne- nhum gracejo de mau gosto. Em toda parte vê-se a linguagem de gente honesta nas ações de patife O que prova que conhecia bem o seu mundo e que vivia naquilo que se chama de boa compa- nhia. Estava enfermo e quase moribundo quando o conheci. Seu defeito era estimar pouco seu pri- meiro ofício de autor, que lhe dera reputação e fortuna. Falava-me de suas obras como se fossem bagatelas abaixo dele. Em nossa primeira conversa, disse-me que o encarasse apenas como a um gentil-homem que vivia muito simplesmente. Respondi-lhe que se fosse um gentillhomem que vivesse como todos os outros nunca teria vindo vê-lo e fiquei muito chocado com essa vaidade tão deslocada.

Suas peças são as mais espirituais e exatas; as de Vanbrugh, as mais alegres, e as de Wicher- ley, as mais fortes.

É notável que nenhum deles tenha falado mal de Moliêre. os maus autores ingleses o fize- ram. São os maus músicos italianos que desprezam Lullio, mas um Buononcini o estima e lhe rende justiça, assim como um Mead diante de Helvetius e de Silva.

A Inglaterra tem também bons poetas cômicos, como o Cavaleiro Steele e o Sr. Cibber. exce- lente comediante e poeta do rei, título que parece ridículo mas que lhe rende mil escudos e belos privilégios. Nosso grande Corneille não conseguiu tanto.

Não me peçais que entre em menores detalhes sobre essas comédias inglesas de que sou grande partidário, nem que vos conte um trocadilho ou um gracejo dos Wicherley ou dos Congre- ve: não se ri numa tradução. O único meio para conhecer a comédia inglesa é vir a Londres, per- manecer três anos, aprender bem o inglês e ver comédia todos os dias. Não tenho grande prazer lendo Plauto ou Aristófanes. Por quê? Porque não sou romano nem grego. A finura dos trocadi- lhos, a alusão, o a-calhar perdem-se para um estrangeiro.

O mesmo não ocorre com a tragédia. Nela grandes paixões e tolices heróicas, consa- gradas por velhos erros de fábula ou de história. Édipo, Eletra pertencem aos espanhóis, aos ingle- ses e a nós, como aos gregos. Mas a boa comédia e a pintura falante dos ridículos de uma nação e se não conheceis a nação a fundo não podereis julgar a pintura.

VIGÉSIMA CARTA

Sobre os Senhores que Cultivam as Letras

Houve um tempo, na França, em que as belas-artes eram cultivadas pelos primeiros do Esta- do. Sobretudo os cortesãos se metiam nisso, malgrado a dissipação, o gosto das insignificâncias, a paixão pela intriga, divindades do país.

Atualmente parece que o gosto da corte nada tem a ver com o das letras. Talvez com o

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tempo a moda de pensar volte basta que um rei queira. Faz-se dessa nação tudo que se quiser. Na Inglaterra o hábito de pensar é comum e as letras são mais honradas aqui do que na França. Essa vantagem é uma consequência necessária da forma-de governo. em Londres aproximada- mente oitocentas pessoas com o direito de falar em público e de defender os interesses da nação; por sua vez, mais ou menos umas cinco ou seis mil pretendem a mesma honra; o restante erige-se em juiz daqueles e cada um pode mandar imprimir o que pensa sobre os negócios públicos. Resul- tado: toda a nação necessita instruir-se. Fala-se muito dos governos de Roma e de Atenas; embo- ra fastidioso, é preciso ler os autores que escreveram a esse respeito. Tal estudo conduz natural- mente às belas-letras. Em geral, os homens possuem o espirito de sua posição. Por que, ordinariamente, nossos magistrados, nossos advogados. nossos médicos e muitos de nossos eclesiásticos conhecem mais as letras, têm mais gosto e espírito do que os outros profissionais? É que realmente sua condição social consiste em ter um espírito cultivado, como a de um comer- ciante consiste em conhecer seu negócio. Não muito tempo, um jovem lorde inglês veio ver-me em Paris. ao voltar da Itália. Fizera uma descrição em versos do país tão bem escrita como tudo o que escreveram o Conde de Rochester, nossos Chalieu, nossos Sarrasin e nossos Chapelle.

Minha tradução perdeu muito da força e da graça originais, por isso peço perdão ao autor e aos que conhecem o inglês, mas, como não outro meio para divulgar os versos de Milor- de...,ai vão em minha lingua:

“Que vi, pois, na Itália?

Orgulho, astúcia e pobreza,

Grandes cumprimentos, pouca bondade E muita cerimônia.

A extravagante comédia

Que fregiientemente a Inquisição

Quer que se denomine religião;

Mas que nós chamamos loucura.

A natureza, em vão benéfica,

Quer enriquecer esses lugares encantadores; Dos padres a mão desoladora

Sufoca seus mais belos presentes.

Os Monsignors, que se dizem grandes, Solitários em seus palácios magníficos Neles são ilustres desocupados,

Sem dinheiro, sem domésticos.

Quanto aos pequenos, sem liberdade, Mártires do jugo que os domina, Fizeram votos de pobreza,

Orando a Deus por ociosidade

E sempre jejuando por fome.

Esses belos lugares, pelo Papa benditos, Parecem habitados pelos diabos

E os habitantes miseráveis

São condenados no paraíso ”.

Talvez se diga que são versos de um herege. Mas traduzem-se todos os dias, e fregiiente- mente mal, os de Horácio e Juvenal. que tinham a infelicidade de serem pagãos. Sabeis que um tradutor não precisa ter os mesmos sentimentos que o autor. Tudo o que pode fazer é rezar a Deus por sua conversão é o que não me canso de fazer por milorde.

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VIGÉSIMA PRIMEIRA CARTA Sobre o Conde de Rochester e o Sr. Waller

Todos conhecem a reputação do conde de Rochester. O Sr. de Saint-Évremond falou muito dela, mas nos deu a conhecer o homem do prazer, o felizardo. De minha parte, gostaria de mostrar o homem de gênio e o grande poeta. Entre outras obras onde brilha a imaginação ardente que ele possui, também escreveu algumas sátiras sobre os mesmos assuntos que nosso célebre Despréaux. Nada melhor para aperfeiçoar o gosto do que comparar os grandes gênios que se exer- citaram sobre a mesma matéria.

Eis o que diz Despréaux sobre a razão humana, na sátira sobre o homem:

“Entretanto, ao vê-lo, cheio de leves vapores Acalentar-se com suas próprias quimeras, ele da natureza a base e o apoio

E o décimo céu girando apenas para ele.

De todos os animais está aqui o senhor. Quem poderia negar, prossegues? Eu, talvez. Esse pretenso senhor, quem lhe leis?

Esse rei dos animais, quantos reis há?”

Eis como se exprime Rochester, embora volte a lembrar que a versificação francesa não con- segue ser fiel à inglesa; as decências delicadas de nossa língua deixam escapar a licença impe- tuosa do estilo inglês:

“Este espírito que odeio, este espírito cheio de erro,

Não é minha razão, é a tua, Doutor;

É tua razão frívola, inquieta, orgulhosa,

Dos sábios animais rival desdenhosa,

Que crê entre eles e o Anjo ocupar o meio,

E pensa ser a imagem de teu Deus,

Vil átomo importuno, que crê, que duvida, que disputa. Rasteja, levanta, cai e nega ainda sua queda;

Que nos diz 'sou livre”, mostrando seus ferros,

E cujo olho perturbado e falso crê transpassar o universo. Ide, reverendos loucos, bem-aventurados fanáticos! Complicai bem a montoeira de vossos nadas escolásticos! Pais de visões e de enigmas sagrados,

Autores do labirinto onde vos perdeis,

Ide obscuramente esclarecer vossos mistérios.

E correi a escola adorar vossas quimeras.

Esse mistério enclausurado, orgulhoso de sua indolência, Tranquilo no seio de Deus, que pode fazer aí?

Pensa.

Não, não pensas, miserável, dormes.

Iuútil à terra e posto entre os mortos,

Desperta, homem e sai de tua embriaguez.

O homem nasceu para agir, e tu pretendes pensar!”

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Falsas ou verdadeiras, essas idéias são expressas com energia por um grande poeta. Não exa- minarei a coisa como filósofo, não trocarei o pincel pelo compasso. Nesta carta pretendo apenas revelar o gênio dos poetas ingleses, mais nada. E continuo no mesmo tom.

Na França, ouviu-se falar muito sôbre o célebre Waller. Os Srs. de Le Fontaine, de Saint- ÉEvremond e Bayle fizeram seu elogio. mas na verdade se conhece seu nome. Em Londres teve a mesma reputação que Voiture em Paris, mas creio que merecia coisa melhor. Voiture viveu num tempo de barbaria e de ignorância. Queria-se ter espírito, mas ainda não se tinha. Buscavam-se torres em vez de pensamentos. e os falsos brilhantes são mais encontradiços do que as pedras pre- ciosas. Voiture nasceu com um gênio fácil e frivolo; foi o primeiro a brilhar na aurora da litera- tura francesa. Se tivesse vivido depois dos grandes homens da época de Luis XIV, teria sido um desconhecido, ter-se-ia falado dele para corrigi-lo ou desprezá-lo. Waller, melhor do que Voiture, ainda não era perfeito. Suas obras galantes respiram graça, mas a negligência as enlanguesce e, frequentemente, pensamentos falsos a desfiguram. Os ingleses ainda não haviam chegado ao seu tempo de escrita escorreita. Suas obras sérias são cheias de vigor, inesperado ante a suavidade de outras peças. Fez o elogio fúnebre de Cromwell, que apesar dos defeitos é tido por obra-prima. Para compreender essa obra é preciso lembrar-se de que Cromwell morreu num dia de tempestade.

“Ele nao existe mais; foi-se. Sejamos submissos ao destino: O céu assinalou o dia com tempestades,

E a voz do trovão, explodindo sobre nossas cabeças, Acaba de anunciar sua morte.

Por seus últimos suspiros, abala esta ilha,

Esta ilha que seu braço fez tremer tantas vezes

Quando em suas empresas quebrava a cabeça aos reis

E submetia o povo a seu jugo, único dócil”, etc.

Tendo feito versos para Carlos II, o dicionário de Bayle conta que Waller teria sido criticado pelo rei porque o elogio de Cromwell fora superior ao seu. Ao que Waller teria respondido: “Sire, nós, poetas, temos mais êxito na ficção do que na verdade”. Resposta menos sincera do que a do embaixador da Holanda ao mesmo rei e pelas mesmas lamúrias: “Ah! Sire, Cromwell era outra coisa”.

Minha intenção não é comentar o caráter de Waller ou de qualquer outro; considero os mor- tos apenas por suas obras, o resto não me concerne. Observo somente que Waller, nascido na corte, com sessenta mil libras de renda, nunca teve o orgulho tolo nem a moleza de abandonar seu talento. Os condes de Dorset e de Roscommon, os dois duques de Buckingham, Milorde Halifax e tantos outros nunca acrediram faltar à dignidade por se tornarem grandes poetas e escritores ilustres. Suas obras vêm honrá-los mais do que seus nomes. Cultivaram as letras como se esperas- sem delas sua fortuna. Tornaram as artes respeitáveis aos olhos do povo que, em tudo, precisa ser corrigido pelos grandes, e que, no entanto, se regula menos por eles na Inglaterra do que em todos os outros lugares.

VIGÉSIMA SEGUNDA CARTA Sobre o Sr. Pope e Alguns Poetas Famosos Gostaria de falar-vos sobre o Sr. Prior, um dos poetas mais amáveis da Inglaterra, que vistes

em Paris como plenipotenciário e enviado extraordinário em 1712. Esperava também dar-vos al- guma idéia das poesias de Milorde Roscommon e de Milorde Dorset. Entretanto, sinto que preci-

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saria escrever um volume muito grande e que depois de muito trabalho vos ofereceria uma idéia muito imperfeita de todas essas obras. À poesia é uma espécie de música: é preciso ouvi-la para julgá-la. Quando traduzo alguns trechos dessas poesias estrangeiras, anoto imperfeitamente sua música, mas não posso exprimir o sabor de seu canto.

especialmente um poema inglês que gostaria que conhecêsseis. Chama-se Hudibras, a guerra civil dos puritanos ridicularizada. É D. Quixote mais nossa Sátira Menipéia fundidos. De todos os livros que li, é o mais espirituoso e também o mais intraduzível. Quem acreditaria na impossibilidade de traduzir um livro que apanha todos os ridículos do gênero humano, tendo mais pensamentos do que palavras? É que nele quase tudo alude a aventuras particulares. O ridículo maior recai sobre os teólogos, que pouquissimos compreendem. E assim, a cada momento seria preciso um comentário e o gracejo explicado deixa de ser gracejo: todo comentador de piadas é um tonto.

Por isso nunca os franceses entenderão os livros engenhosos do Dr. Swift, chamado o Rabe- lais da Inglaterra. Tem a honra de ser padre como Rabelais, e de zombar de tudo, como este. Mas em minha modesta opinião, é uma grande injustiça chamá-lo assim. Rabelais, em seu livro extra- vagante e ininteligivel, espalhou muita hilaridade e muita impertinência; prodigalizou erudição, lixo e tédio. Um bom conto de duas páginas é comprado com volumes de tolices. algumas pes- soas de gosto muito esquisito gabam-se de entender e de gostar da obra toda. O resto da nação ri das graças de Rabelais e despreza o livro. Encarando-o como o maior dos bufões, as pessoas zan- gam-se porque um homem de tanto espírito o tenha usado tão miseravelmente. É um filósofo ébrio que escreveu no tempo de sua embriaguez.

O Sr. Swift é Rabelais em seu bom senso e vivendo em boa companhia. Na verdade não tem a alegria deste, mas possui a finura, a razão, a escolha, o bom gosto que faltam ao nosso cura de Meudon. Seus versos têm um gosto singular e quase inimitável. O bom gracejo é a parte que lhe toca em verso e em prosa. Mas para bem compreendê-lo é preciso fazer uma pequena viagem até seu país.

Podeis fazer mais facilmente certa idéia do Sr. Pope, que creio seja o poeta mais correto, mais elegante e, o que é bem raro, mais harmonioso da Inglaterra. Reduziu os silvos azedos da trombeta inglesa aos sons doces da flauta. Pode-se traduzi-lo porque é extremamente claro, e seus assuntos, muito gerais e da alçada de todas as nações.

A França logo conhecerá seu Ensaio sobre a Crítica, na tradução em versos feita pelo Abade du Resnel.

Eis um trecho de seu poema 4 Madeixa de Cabelo, que acabo de traduzir com a liberdade de sempre. Ainda uma vez, repito que não vejo coisa pior do que traduzir um poeta palavra por palavra.

“Umbriel, num instante, velho gnomo mal-humorado, Vai, com uma asa pesada e um ar carrancudo,

Procurar, murmurando, a caverna profunda

Que, longe dos doces raios que espalha o olho do mundo, A Deusa dos vapores escolheu para sua morada.

Os tristes aquilões silvam em volta

E o sopro malisão de seu árido hálito

Traz aos arredores a febre e a cefaléia.

Sobre um rico sofá, atrás de um biombo

Longe das chamas, do ruído, das vozes e do vento

A caprichosa deusa incessantemente repousa,

O coração cheio de pena, sem saber a causa,

Não tendo jamais pensado, o espírito sempre perturbado, O cenho carregado, a tez pálida e o abdômen inchado.

A maledicente Inveja está sentada aos seus pés.

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Velho espectro feminino, decrépita donzela, Com ar devoto dilacerando seu próximo

E zombando das gentes, o Evangelho nas mãos. Sobre um leito florido negligentemente jogada Uma jovem beleza não longe dela está deitada. É a Afetação, que fala guturalmente,

Ouve sem escutar e esguelha ao olhar,

Que enrubesce sem pudor e ri de tudo sem alegria, De cem males pretende ser a presa

E cheia de saúde sob o rouge e a máscara Lamenta-se com langor e desfalece com arte.”

é o suficiente para ser honesto com os poetas ingleses. vos falei um pouco sobre seus filósofos. Quanto a seus historiadores, ainda não os conheço foi preciso que um francês lhes escrevesse a história. Talvez o gênio inglês, frio ou impetuoso, ainda não tenha alcançado a eloguência singela e nobre da história. Talvez, também, o espírito partidário, que perturba a visão, tenha desacreditado seus historiadores: metade da nação é sempre inimiga da outra. Encontrei gente que me assegurou que Milorde Bourough era um poltrão, c o Sr. Pope, um tolo, como na França alguns jesuítas acham Pascal medíocre, e alguns jansenistas consideram o Padre Bourda- louse um tagarela. Maria Stuart é uma santa heroina para os jacobitas; uma debochada, uma adúltera, uma homicida, para outros. Na Inglaterra têm-se facta e não história. É verdade que atualmente o Sr. Gordon, excelente tradutor de Tácito, é bem capaz de escrever a história de seu país, mas o Sr. Rapin de Thayras o precaveu. Enfim, parece-me que os ingleses não possuem tão bons historiadores como nós, nem tão bons trágicos, mas possuem boas comédias, trechos admi- ráveis de poesia e filósofos que deveriam ser os preceptores do gênero humano.

Os ingleses aproveitaram muito as obras de nossa lingua. Por nossa vez. deveríamos tomar emprestado deles, depois de tanto lhes darmos. Nós e os ingleses viemos depois dos italianos, nossos mestres em tudo e que ultrapassamos em algumas coisas. Não sei a qual das três nações devemos dar a preferência. mas feliz daquele que sabe perceber suas diferenças!

VIGÉSIMA TERCEIRA CARTA

Sobre a Consideração que se Deve Ter pela Gente de Letras

Na Inglaterra, como em todos os países do mundo, não existem estabelecimentos em favor das belas-artes como na França. Em quase toda parte universidades; somente na França encontram-se esses úteis encorajamentos para a astronomia. para todas as partes da matemática, para a medicina, para as investigações sobre a Antiguidade, para a pintura. a escultura e a arqui- tetura. Luis XIV imortalizou-se por todas essas fundações, que não lhe custaram duzentos mil francos por ano.

Confesso minha grande surpresa ao ver que o Parlamento da Inglaterra, que resolveu prome- ter vinte mil guinéus a quem fizesse a descoberta impossível das longitudes, não tenha nunca pen- sado em imitar Luis XIV em sua magnanimidade para com as artes.

Na verdade, na Inglaterra o mérito encontra outras recompensas mais honrosas para a nação. O respeito que seu povo tem pelo trabalho faz com que um homem de mérito sempre alcance fortuna. Na França, o Sr. Addison teria pertencido a alguma academia, teria podido obter, pelos créditos de alguma mulher, uma pensão de mil e duzentas libras. ou melhor, ter-lhe- iam criado um caso sob o pretexto de que em sua tragédia Catão percebera-se algum trecho con- tra o porteiro de um homem de posição. Na Inglaterra, foi secretário de Estado. O Sr. Newton era intendente da Casa da Moeda: o Sr. Congreve possuía um cargo importante; o Sr. Prior era

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plenipotenciário. O Dr. Swift é deão da Irlanda e mais considerado do que o primaz. Se a religião do Sr. Pope não lhe permite ter um lugar, não lhe impede, contudo, de receber duzentos mil fran- cos por sua tradução de Homero. Na França vi o autor de Rhamadisto quase morrer de fome: e o filho de um dos maiores homens que a França teve e começava a seguir os passos de seu pai. reduzido à miséria se não fosse o Sr. Fagon. O que mais encoraja as artes na Inglaterra é a consi- deração que se tem por elas o retrato de um ministro encontra-se no alto da lareira de seu escritório. mas vi o do Sr. Pope em vinte casas.

O Sr. Newton era honrado enquanto vivo e assim continuou depois de morto. Os principais da nação disputaram carregar o caixão dele. Entrai em Westminster. Não são os túmulos dos reis que ai são admirados, mas os monumentos que o reconhecimento da nação erigiu aos maiores ho- mens que contribuiram para sua glória. Vereis suas estátuas como em Atenas as de Sófocles e Platão. Estou certo de que a simples vista desses gloriosos monumentos excitou mais de um espi- rito e formou mais de um grande homem.

Chegou-se mesmo a censurar os ingleses por terem ido muito longe nas honras que prestam ao simples mérito. Achou-se o que recriminar-lhes por terem enterrado em Westminster a atriz Srta. Oldfield quase com as mesmas honras que recebeu o Sr. Newton. Outros pretenderam que os ingleses honraram dessa maneira a atriz apenas para nos fazerem sentir ainda mais a bárbara e covarde injustiça que cometemos lançando o corpo da Srta. Lecouvreur num monturo.

Posso assegurar-vos, porém. que nas pompas fúnebres da Srta. Oldfield, enterrada no St. Denis da Inglaterra, os ingleses consultaram apenas seu gosto. Estão longe de infamar a arte de Sófocles c de Eurípedes, excluindo do corpo de seus cidadãos aqueles que se consagram a decla- mar diante deles as obras de que a nação se glorifica.

No tempo de Carlos I e no início das guerras civis, começadas pelos rigoristas fanáticos, suas próprias vitimas afinal, escrevia-se muito contra os espetáculos, sobretudo porque eram muito apreciados pelo rei e por sua mulher (filha de nosso Henrique, o Grande).

Um doutor chamado Prynne. escrupuloso a mais não poder. que acreditaria estar condenado se usasse uma sotaina em vez de um casaco curto. e que teria querido que a metade dos homens massacrasse a outra para a glória de Deus e a “Propaganda Fidei”, resolveu escrever um livro muito ruim contra comédias muito boas. representadas diariamente com inocência diante do rei e da rainha. Citou a autoridade dos rabinos e alguns trechos de São Boaventura para provar que o Édipo, de Sófocles. era obra do maligno. que Terêncio deveria ser excomungado ipso facto. que Brutus. transformado em severo jansenista, havia assassinado César porque este era grão-sa- cerdote e compuscra uma tragédia de Édipo. Enfim. dizia que todos os que assistiam a espetá- culos eram excomungados. renegando sua crisma e seu batismo. Ultrajava. pois. toda a família real. Os ingleses respeitavam Carlos Ie não suportaram que se falasse em excomungar este prínci- pe. cuja cabeça depois eles próprios acabaram cortando. O Sr. Prynne foi citado diante da Câma- ra estrelada. condenado a ver seu belo livro queimado pelo carrasco e a ter suas próprias orelhas cortadas. Seu processo pode ser lido nas atas públicas.

Na lália tem-se O cuidado de não desonrar a ópera nem de excomungar o Signor Senesino ou a Signora Cuzzoni. Quanto a mim, ousaria dizer que na França deveriam ser queimados al- guns maus livros contra os espetáculos. pois quando italianos e ingleses ficam sabendo que man- chamos de infâmia uma arte em que nos sobressaímos. que condenamos como ímpio um espetáculo representado para os religiosos e nos conventos, que desonramos os jogos nos quais Luís XIV e Luis XV foram atores. que declaramos obra do demônio peças revistas pelos mais severos magistrados e representadas diante de uma rainha virtuosa. quando, digo. os estrangeiros tomam conhecimento dessa insolência, dessa falta de respeito pela autoridade real. dessa barbárie gótica ousadamente dita severidade cristã. que quereis que pensem de nossa nação? E como podem conceber que nossas leis autorizem uma arte declarada infame. ou que infamemos uma arte autorizada pelas leis. recompensada pelos soberanos, cultivada por grandes homens .e admi- rada pelas nações? Como podem conceber que encontremos na mesma livraria a declamação do

Padre Le Brun contra nossos espetáculos ao lado das obras imortais de Racine. de Corneille e de Moligre?

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VIGÉSIMA QUARTA CARTA

Sobre as Academias

Muito antes de nós, os ingleses tiveram uma Academia de Ciências, mas não tão bem regula- mentada como a nossa, e por uma única razão: porque é mais antiga. Se tivesse sido criada após a Academia de Paris, teria adotado certas leis muito sábias e aperfeiçoado outras.

A Sociedade Real de Londres carece das duas coisas mais necessárias aos homens: recom- pensas e regras. Em Paris, ter um lugar na Academia é uma pequena fortuna assegurada para um geômetra, para um químico. Em Londres, ao contrário, custa muito pertencer à Sociedâde Real. Na Inglaterra, qualquer um que diga “amo as artes” e quer ser da Sociedade entra para ela imediatamente. Mas na França, para ser membro e pensionista da Academia não basta ser ama- dor. É preciso ser sábio, disputar o lugar com muitos concorrentes, tanto mais temíveis quanto mais animados pela glória e pelo interesse, pela própria dificuldade e pela inflexibilidade de espi- rito que nasce ordinariamente do estudo obstinado das ciências do cálculo.

A Academia das Ciências limitou-se prudentemente ao estudo da natureza, campo bem vasto para ocupar cingiienta ou sessenta pessoas. A de Londres mistura indiscriminadamente lite- ratura e física. Parece-me que é melhor ter uma academia particular para as belas-letras, para que nada seja confundido e não se veja uma dissertação sobre os penteados das romanas ao lado de uma centena de curvas novas.

Visto que a Sociedade de Londres possui tão pouca ordem e nenhum encorajamento, e que a de Paris está no extremo oposto, não é surpreendente que as memórias de nossa Academia sejam superiores as deles: a longo prazo soldados bem pagos e disciplinados devem superar os voluntários. É verdade que a Sociedade Real teve um Newton, mas não o produziu. Aliás, tinha poucos confrades capazes de compreendê-lo. Um gênio como o de Newton pertencia a todas as academias da Europa porque todas tinham muito a aprender com ele.

O famoso Dr. Swift, no final do reino da Rainha Ana, pretendeu formar uma academia para a lingua, nos moldes da francesa. O projeto recebeu apoio do conde de Oxford, grão-tesoureiro, e também do visconde Bolingbroke, secretário de Estado, tão dotado que falava de improviso no Parlamento com tamanha pureza quanto Swift escrevendo em seu gabinete. Bolingbroke teria sido protetor e ornamento da nova academia. Os membros que deveriam compó-la eram homens cujas obras durarão tanto quanto a lingua inglesa. Eram eles: o Dr. Swift, o Sr. Prior (que tem na Ingla- terra a mesma reputação que La Fontaine entre nós), o Sr. Pope (o Boileau da Inglaterra), o Sr. Congreve (que pode ser chamado o Moliêre inglês), e muitos outros cujos nomes me escapam no momento e que teriam feito o grupo florescer desde seu nascimento.Mas a rainha morreu subita- mente, os Whigs meteram na cabeça enforcar os protetores da academia, o que, como vedes, foi mortal para as belas-letras. Os membros desse corpo teriam maiores vantagens do que seus prede- cessores franceses porque haviam fixado a língua inglesa em seus textos, enquanto os nossos pri- meiros acadêmicos eram o opróbrio da nação e seus nomes tornaram-se tão ridículos que, se algum autor passável tivesse a infelicidade de chamar-se Chapelain ou Cotin, seria obrigado a mudar de nome. Teria sido preciso sobretudo que a academia inglesa propusesse ocupações dife- rentes das nossas. Um dia um belo espírito inglês pediu-me as memórias da Academia Francesa. Respondi-lhe: “Ela não escreve memórias, mas manda imprimir sessenta ou oitenta volumes de cumprimentos”. Percorreu um ou dois, não podendo nunca compreender o estilo, embora compreendesse muito bem todos os nossos bons autores. “Tudo que enxergo nesses discursos é que o novo membro, tendo assegurado que seu predecessor era um grande homem, que o Cardeal Richelieu era um muito grande homem, que o Chanceler Séguier era um bastante grande homem, que Luís XIV era ainda mais do que um muito grande homem, o diretor lhe responde a mesma coisa, acrescentando que o novo membro poderia também ser uma espécie de grande homem e que ele, diretor, não deixa de ter parte nisso.”

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É fácil ver qual a fatalidade que tornou esses discursos tão pouco honrosos para seus mem- bros: vitium est temporis potius quam hominis”. O uso estabeleceu-se quase insensivelmente e todo acadêmico termina repetindo esses elogios em sua recepção. Tornou-se uma espécie de lei para entediar o público. Se sc quiser saber por que espíritos tão brilhantes fizeram péssimas aren- gas, a razão é ainda mais fácil: porque quiseram brilhar, tratando de forma nova uma matéria gasta. três coisas capazes de ridicularizar mesmo um grande homem: a necessidade de falar, o embaraço por nada ter a dizer e o desejo de ter espírito. Não podendo encontrar pensamentos novos, tentaram novos rodeios, falando sem pensar, como gente que mastigasse vácuo e morresse de inanição fingindo comer.

Em vez de ser uma lei da Academia Francesa mandar imprimir tais discursos, deveria ser lei não imprimi-los.

A Academia das Belas-Letras propôs uma finalidade mais sábia e mais útil: apresentar ao público uma coletânea de memórias, cheias de investigações e de críticas curiosas. Essas memó- rias são muito estimadas no estrangeiro, desejando-se apenas que certas matérias fossem mais aprofundadas e que outras não fossem tratadas. Assim, por exemplo, não faria a menor falta uma dissertação sobre as prerrogativas da mão direita sobre a esquerda, e outras cujos títulos menos ridículos escondem investigações mais frívolas.

A Academia das Ciências, em suas investigações mais dificeis e de utilidade mais sensível, abarca o conhecimento da natureza e o aperfeiçoamento das artes. É de crer-se que estudos tão profundos e conseguentes, cálculos tão exatos, descobertas tão finas, visões tão grandes, produzi- rão, enfim, alguma coisa que servirá para o bem do universo.

Como observamos, até agora as descobertas mais úteis foram feitas em séculos mais bár- baros. Parece que a tarefa dos séculos mais iluminados e das companhias mais sábias tem sido raciocinar sobre aquilo que os ignorantes inventaram. Sabe-se hoje, depois das discussões intermi- náveis entre o Sr. Huygens e o Sr. Renaud, qual a determinação do ângulo mais vantajoso do leme com a quilha de um navio. Mas Cristóvão Colombo descobriu a América sem ter a menor idéia desse ângulo.

Estou longe de inferir que seja preciso deter-se apenas numa prática cega, mas seria uma feli- cidade se os físicos e geômetras, tanto quanto possível, unissem a prática à especulação. Será pre- ciso que aquilo que mais honra o espírito humano seja frequentemente o menos útil? Um homem, com as quatro regras da aritmética mais o bom senso, torna-se um grande negociante, um Jacques Coeur, um Delmet, um Bernard, enquanto um pobre algebrista passa sua vida procurando nos nú- meros relações e propriedades surpreendentes, mas sem uso, e que não lhe ensinarão o que seja a troca. Todas as artes estão mais ou menos no mesmo caso: passando um certo ponto, as investi- gações são feitas para a curiosidade. Essas verdades engenhosas e inúteis assemelham-se a estrelas que, situadas muito longe de nós, não.nos dão claridade.

Que belo serviço a Academia Francesa prestaria às letras, à língua e à nação se, em vez de mandar imprimir todos os anos cumprimentos, mandasse imprimir todas as belas obras do tempo de Luís XIV, purificadas de todos os vícios de linguagem que deslizaram nelas! Corneille e Moliére estão repletos deles; fervilham em La Fontaine. Aqueles que não pudessem ser corrigidos seriam pelo menos assinalados. A Europa inteira, que esses autores, aprenderia nossa língua com segurança; sua pureza estaria fixada para sempre; os bons livros franceses, impressos com cuidado às expensas do rei, seriam os monumentos mais gloriosos da nação. Ouvi dizer que o Sr. Despréaux fizera outrora uma proposta semelhante, renovada por um homem cujo espírito, cuja sabedoria e cuja crítica salutar são bem conhecidos 'º. Mas, ao que parece, a idéia teve o mesmo destino que outros projetos úteis: aprovada e negligenciada.

º* A culpa é do tempo mais do que do homem.

Este homem formidável é o próprio Voltaire. (N. do T.)

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VIGÉSIMA QUINTA CARTA

Sobre os Pensamentos do Sr. Pascal

Envio as observações críticas que muito fiz sobre os Pensamentos do Sr. Pascal. Não me compareis a Ezequias querendo queimar os livros de Salomão. Respeito o gênio e a cloquência de Pascal, mas quanto maior meu respeito, tanto maior minha convicção de que ele próprio teria cor- rigido muitos de seus “pensamentos”, lançados ao acaso sobre o papel, para serem examinados depois. Admirando seu gênio, combato algumas de suas idéias.

De um modo geral, parece-me que, ao escrever os Pensamentos, a intenção do Sr. Pascal era mostrar o homem sob uma luz odiosa. Encarniça-se para pintar-nos malvados e infelizes. Escreve contra a natureza humana quase como escrevia contra os jesuítas. Imputa à essência de nossa natureza aquilo que pertence a alguns homens. Eloquentemente profere injúrias contra o gêne- ro humano. Ouso tomar o partido da humanidade contra esse misantropo sublime. Ouso assegu- rar que não somos nem tão maldosos nem tão infelizes como diz. Além disso, estou bastante per- suadido de que, se, no livro que planejava escrever, tivesse seguido a ordem que aparece em seus Pensamentos, teria escrito um livro cheio de paralogismos elogiuentes e de falsidades admiravel- mente deduzidas. Aliás, creio até que todos os livros escritos recentemente para provar a religião cristã são mais capazes de escandalizar do que de edificar, pois seus autores pretendem saber mais do que Jesus Cristo e os apóstolos ! Querem sustentar o carvalho rodeando-o de caniços. São inúteis. Podem ser afastados sem temer prejudicar a árvore.

Escolhi com discrição alguns pensamentos de Pascal. As respostas estão embaixo. Fica por vossa conta julgar se estou certo ou errado.

| “As grandezas e as misérias do homem são tão visíveis que a verdadeira religião preci- sa necessariamente ensinar-nos que nele algum grande principio de grandeza mesclado a algum grande princípio de miséria, pois é preciso que a verdadeira religião conheça nossa natu- reza a fundo, isto é, tudo que nela é grande e tudo que nela é miserável, e conheça também a razão dessa grandeza e dessa miséria. É preciso, ainda, que nos a razão das contradições surprcen- dentes que se abrigam.”

Esta maneira de raciocinar parece falsa e perigosa, pois a fábula de Prometeu e de Pandora, os andróginos de Platão e os dogmas dos siameses também poderiam explicar essas contradições aparentes. A religião cristã permanecerá sempre verdadeira mesmo que não retiremos dela conclusões tão engenhosas e que servem para fazer o espírito brilhar.

O cristianismo ensina a simplicidade, a humanidade, a caridade. Querer reduzi-lo à meta- física é transformá-lo numa fonte de erros.

H “Que se examinem todas as religiões do mundo para ver se alguma, com exceção da crista, satisfaz tais exigências. A dos filósofos, propondo-nos como Bem um bem que está em nós? É o verdadeiro Bem? Encontram remédios para nossos males? Igualar o homem a Deus é curar sua presunção? E aqueles que nos igualam às feras e nos dão os prazeres da terra como Bem, trazem remédio para nossa concupiscência?”

Os filósofos não ensinaram religião; portanto, não se trata de combater suas filosofias. Nunca um filósofo se disse inspirado por Deus, pois cessaria de ser filósofo para tornar-se profe- ta. Não se trata de saber se Jesus Cristo deve vencer Aristóteles, mas de provar que a religião de Jesus Cristo é verdadeira, enquanto a de Maomé e a de todos os pagãos são falsas.

WI “E no entanto. sem esse mistério, de todos o mais incompreensível. somos incom- preensíveis para nós próprios. O de nossa condição apanha suas voltas e dobras no abismo do pecado original, de sorte que o homem é mais inconcebível sem esse mistério do que este inconce- bivel para o homem.”

* Dizer “o homem é inconcebível sem esse mistério inconcebível” é sofismar. Por que desejar

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ir mais longe do que as Escrituras? Não temeridade em crer que elas precisam de apoio e que as idéias filosóficas são capazes de lho dar?

O que o Sr. Pascal teria respondido a um homem que lhe dissesse: “Sei que o mistério do pe- cado original é o objeto de minha e não de minha razão. Concebo muito bem sem nenhum mis- tério o que é o homem. Vejo que vem ao mundo como os outros animais; que o parto das mães é mais doloroso se são muito delicadas: que algumas mulheres e algumas fêmeas dos animais morrem de parto; que algumas crianças mal conformadas, vivendo privadas de um ou dois sentidos e da faculdade do raciocínio; que os de melhor conformação têm paixões mais vivas: que o amor de si próprio é igual em todos os homens, sendo-lhes tão necessário quanto os cinco senti- dos; que esse amor-próprio nos foi dado por Deus para a conservação de nossa espécie, e que Ele nos deu a religião para regrá-lo: que nossas idéias são justas ou inconsequentes, obscuras ou lumi- nosas. conforme nossos órgãos sejam mais ou menos sólidos, ou conforme sejamos mais ou menos passionais; que dependemos completamente do ar que nos cerca. dos alimentos que apa- nhamos e que não contradição alguma nisso tudo. O homem não é um enigma como imagi- nais, para terdes o prazer de decifrá-lo. Parece estar em seu devido lugar na natureza: superior aos animais (aos quais se assemelha pelos órgãos), inferior a outros seres (aos quais se assemelha provavelmente pelo pensamento). Como tudo o que vemos, está mesclado de bem e de mal. de prazer e de dor. Está provido de paixões para agir e de razão para o governo das ações. Se fosse perfeito. seria Deus. E as pretensas contrariedades a que chamais contradições são os ingredientes necessários que entram na composição do homem. O homem é aquilo que deve ser”?

IV “*Acompanhemos nossos movimentos, observemo-nos e vejamos se não encontramos os caracteres vivos dessas duas naturezas. Tantas contradições num sujeito simples? A duplici- dade do homem é tão visível que muitos chegaram a pensar que tínhamos duas almas, um sujeito simples parecendo-lhes incapaz de tais e tão súbitas variações, desde uma presunção desmesurada até um horrível abatimento do coração.”

Nossas diversas vontades não são uma contradição na natureza, e o homem não é. de modo algum, um sujeito simples. É composto de uma quantidade inumerável de órgãos; se um destes altera-se um pouco, necessariamente muda todas as impressões do cérebro c faz com que o animal tenha novos pensamentos e novas vontades. É verdade que ora estamos abatidos de tristeza. ora inchados de presunção isto deve ocorrer quando estamos em situações opostas. Um animal. acariciado e nutrido por seu dono, e um outro, esganado lentamente com perícia para uma disse- cação, experimentam sentimentos bem contrários. O mesmo ocorre conosco. E as diferenças que existem entre nós são tão pouco contraditórias que seria contraditório justamente se não existissem.

Os loucos que disseram que tinhamos duas almas, pelo mesmo motivo poderiam nos dar trinta ou quarenta, pois numa grande paixão um homem possui trinta ou quarenta idéias diferen- tes da mesma coisa e necessariamente deve tê-las porque o objeto lhe aparece sob múltiplas facetas.

A suposta “duplicidade” do homem é uma idéia tão absurda quanto metafísica. Preferiria dizer que o cão que morde e acaricia é duplo; que a galinha tão cuidadosa com os pintinhos e que depois os abandona até desconhecê-los é dupla: que o espelho, que representa simultaneamente objetos diferentes, é duplo; que a árvore, ora carregada de folhas, ora desfolhada. é dupla. Admito que o homem seja inconcebível, mas todo o resto da natureza também o é, e nele tantas contra- dições aparentes quanto em tudo o mais.

V “Não apostar que Deus é, é apostar que Fle não é. Que escolhereis? Pesemos o ganho ca perda, apostando que Deus é. Se ganhardes, ganhareis tudo. Se perderdes. nada perdereis. Sem hesitar. apostai, então, que Ele é. Sim. é preciso apostar, mas talvez eu aposte muito. Veja- mos: que um risco igual de ganho e de perda, se tiverdes duas vidas a ganhar por uma, pode- rieis ainda apostar.”

Evidentemente é falso dizer: “Não apostar que Deus é, é apostar que Deus não é”. pois aque le que duvida e pede esclarecimentos seguramente não aposta nem pró nem contra.

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Ademais, esse artigo parece-me um pouco indecente e pueril. A idéia de jogo, de perda e ganho não convém a gravidade do assunto.

Além do mais, o interesse que tenho em crer numa coisa não é prova da existência dela. Po- deis dizer-me: “Dar-vos-ei o império do mundo para acreditar que tendes razão. Desejo de todo meu coração que tenhais razão, mas até que mo proveis não poderei acreditar-vos”.

Poder-se-ia dizer ao Sr. Pascal: começai convencendo minha razão. Sem dúvida, tenho inte- resse em que haja um Deus, mas se em vosso sistema Deus tiver vindo para uns poucos, se O pequeno número dos eleitos for assustador, se nada posso por mim mesmo, dizei-me, que interesse tenho para crer em vós? Meu interesse visível não seria justamente persuadir-me do contrário? Com que cara podeis mostrar-me uma felicidade infinita destinada a um dentre um milhão de homens? Se quiserdes convencer-me tentai outro recurso e não me venhais falar de jogo de azar, de aposta, de cara ou coroa, nem aterrorizar-me com os espinhos que semceais pelo caminho que quero e devo seguir. Vosso raciocínio serviria para produzir ateus, se a voz da natureza não nos gritasse que um Deus, com força tanto maior quanto maior a fraqueza de vossas sutilezas.

VI “Vendo a cegueira e a miséria do homem, e as contradições surpreendentes desco- bertas na natureza, olhando todo o universo mudo e o homem sem luz, abandonado a si mesmo, perdido num recanto do universo, sem saber quem o pós ali, o que veio fazer ali, o que se tornará ao morrer, fico aterrorizado como um homem que tivesse sido transportado adormecido para uma ilha deserta e assustadora c despertasse sem saber onde está e sem meios para sair. Admira-me que não se caia no desespero por um estado tão miserável.”

Quando lia essas reflexões recebi uma carta de um amigo que vive num país muito afastado. Eis suas palavras:

“Estou exatamente como me haveis deixado: nem mais alegre, nem mais triste, nem mais rico, nem mais pobre, gozando perfeita saúde, tendo tudo o que torna a vida agradável, sem amor, sem avareza, sem ambição, sem inveja. Enquanto isso durar direi ousadamente que sou um homem feliz”.

muitos homens felizes como este. Com os homens tudo se passa como entre os animais: um cão come e dorme com sua amante e fica muito contente; um outro gira a manivela e também está muito contente; um outro, ainda, torna-se raivoso e o matam. Quanto a mim, olhando Paris ou Londres, não vejo motivo para cair no desespero de que fala o Sr. Pascal. Vejo uma cidade que não se parece com uma ilha deserta, povoada, opulenta, policiada, onde os homens estão felizes tanto quanto a natureza humana o comporta. Que homem sensato estará prestes a enforcar-se porque não sabe como se Deus face a face, e porque sua razão não consegue desembaraçar o mistério da Trindade? Poderia desesperar-se também por não ter quatro patas e duas asas.

Por que abominar nosso ser? Nossa existência não é tão infeliz como querem que acredite- mos. É idéia de um fanático encarar o universo como uma prisão e todos os homens como crimi- nosos a serem executados. É divagação de um sibarita acreditar que o mundo seja um lugar de delícias onde experimentaremos prazeres. É ser um homem sensato pensar que a terra, os ho- mens e os animais são o que devem ser na ordem da Providência.

VII “Os judeus pensam que Deus não deixará os outros povos nas trevas eternamente, que virá um libertador para todos; que estão no mundo para anunciá-lo, que foram criados expressamente para serem os arautos desse grande acontecimento e para convocar todos os povos a fim de que se unam a eles na espera desse libertador.”

Os judeus sempre esperaram um libertador, mas para eles e não para nós. Esperam um Mes- sias que os tornará senhores dos cristãos, e nós esperamos que o Messias reúna, um dia, judeus e cristãos. Pensam exatamente o contrário de nós.

VII “A lei que governa esse povo é, em seu conjunto, a mais antiga do mundo, a mais perfeita e a única conservada sem interrupção num Estado. É o que em vários lugares mostra Filão, o judeu, e admiravelmente José, contra Apião, indicando que é tão antiga que o próprio nome de “lei” foi conhecido pelos antigos mais de mil anos depois, de sorte que Homero, que falou de tantos povos, nunca se serviu do termo. A simples leitura permite julgar a perfeição dessa lei, onde tudo é previsto com tanta sabedoria, tanta equidade, tanto juízo que os mais antigos legisladores gregos e romanos, recebendo certa luz, emprestaram dela suas principais leis. Isto

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aparece claramente naquelas que denominam “das doze tábuas” e em outras provas trazidas por José.”

É falso que a lei dos judeus seja a mais antiga, pois antes de Moisés, seu legislador, viviam no Egito, país dos mais afamados pela sabedoria de suas leis.

É falso que o nome de lei foi conhecido depois de Homero. Este fala nas leis de Minos, e o termo está presente em Hesíodo. E mesmo que não estivesse em Homero e em Hesíodo isso nada provaria. Havia reis e juízes, portanto havia leis.

É ainda mais falso que os gregos e os romanos tenham tomado as leis judaicas. Isso não pode ter ocorrido no início de suas repúblicas porque nesse período não conheciam os judeus. Também não pode ter ocorrido no tempo de seu apogeu porque nessa ocasião tinham profundo desprezo por tais bárbaros. ,

IX “Esse povo também é admirável pela sinceridade. Conservam com amor e fidelidade o livro onde Moisés declara que foram sempre ingratos para com Deus e que o serão ainda mais após sua morte, mas que convoca céus e terra como testemunhas contra eles, que os aconselhou muito, e que, enfim, irritando-se contra eles, Deus os dispersará por todos os povos da terra, e que. assim como eles O ofenderam adorando deuses que não eram seus deuses, Ele os ofenderá chamando um povo que não era seu povo. No entanto, conservam ao preço de suas vidas esse livro que os desonra. É uma sinceridade que não encontra exemplos no mundo, nem raízes na natureza.”

Tal sinceridade é exemplificada em muitos lugares e sua raiz está na natureza. O orgulho de cada judeu tem interesse em crer que o que o perdeu não foi sua política detestável, sua ignorância das artes. sua grosseria, mas a cólera de Deus que o puniu. Pensa com satisfação que foram preci- sos milagres para abatê-lo e que sua nação é sempre a bem-amada do Deus que a castiga.

Se um pregador subir ao púlpito e disser aos franceses: “Sois miseráveis sem honra e sem direção: fostes vencidos em Hochstedt e em Ramillies porque não soubestes defender-vos”, certa- mente seria apedrejado. Mas se disser: “Sois católicos queridos de Deus; vossos pecados infames irritaram o Eterno, que vos abandonou aos heréticos em Hochstedt e em Ramillies, mas quando voltastes ao Senhor, Ele abençoou vossa coragem em Denain”, tais palavras o farão amado pelo auditório.

X “Se um Deus, somente ele deve ser amado e não as criaturas.”

É preciso amar as criaturas, e amá-las ternamente. É preciso amar sua pátria, sua mulher, seus pais, seus filhos. É preciso amá-los tão bem que Deus nos faz amá-los malgrado nós mesmos. Os princípios contrários servem apenas para raciocinadores bárbaros.

XI “Nascemos injustos, pois cada um tende para si próprio, o que é contrário a toda ordem. É preciso tender para o geral. A tendência para si próprio é o começo da desordem na guerra, na polícia, na economia, etc.”

Tudo isso está conforme à ordem. É tão impossível que uma sociedade possa formar-se e subsistir sem o amor-próprio quanto seria impossível gerar filhos sem concupiscência, nutrir-se sem apetite, etc. O amor por nós próprios preside o amor pelos outros. Nossas mútuas carências nos tornam úteis ao gênero humano, e são o fundamento de todo comércio, o vínculo eterno dos homens. Sem amor-próprio não haveria invenção da arte, nem formação de uma sociedade de dez pessoas. É o amor-próprio, dom da natureza para cada animal, que nos adverte para respeitarmos o dos outros. A lei o dirige e a religião o aperfeiçoa. É bem verdade que Deus poderia ter feito criaturas atentas unicamente ao bem de outrem. Neste caso os comerciantes teriam ido às Índias por caridade e o pedreiro teria quebrado pedras para dar prazer ao seu próximo. Mas Deus esta- beleceu as coisas de outra maneira. Não acusemos, pois, o instinto que nos deu e usemo-lo como nos manda.

XH “O sentido escondido das profecias não poderia induzir ao erro e somente um povo muito carnal como aquele poderia ter-se enganado. Pois, se os bens foram prometidos em abun- dância, quem o impediria de compreender os verdadeiros bens? Somente sua cupidez, que lhes atribuía um sentido terrestre.”

O povo mais espiritual da terra teria compreendido diversamente de boa fé? Era escravo dos romanos; esperava um libertador que o tornasse vitorioso e que fizesse Jerusalém respeitada pelo

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mundo todo. Com as luzes de sua razão, como poderia ver o vencedor e o monarca em Jesus pobre e crucificado? Como poderia entender pelo nome de sua capital uma Jerusalém celeste se o Decálogo nem sequer lhe falava da imortalidade da alma? Como um povo preso à sua lei e sem uma luz superior poderia reconhecer nas profecias, que não eram de sua lei, um Deus escondido sob a figura de um judeu circunciso, que através de sua nova religião tornou abomináveis a circuncisão e o sabat, fundamentos sagrados da lei judaica? Ainda uma vez, adoremos a Deus sem querer varar as obscuridades de seus mistérios.

XHI “O tempo do primeiro advento de Jesus Cristo foi predito. O do segundo, não. por- que o primeiro deveria ficar escondido, enquanto o segundo deverá ser esplendoroso e tão mani- festo que seus próprios inimigos o reconhecerão.”

O tempo do segundo advento de Jesus Cristo foi predito ainda mais claramente do que o pri- meiro. Aparentemente o Sr. Pascal teria esquecido que no capítulo 21, de São Lucas, Jesus Cristo diz expressamente: “Quando virdes um exército rodear Jerusalém, sabereis que a desolação estará próxima... Jerusalém será pisoteada e haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas, as ondas do mar farão grande ruído. .. As virtudes dos céus serão abaladas, e então verão o Filho do Homem que virá sobre uma nuvem com grande potência e majestade”.

O segundo advento não está claramente predito nessas palavras? Mas se isso não ocorreu até agora, não nos cabe a ousadia de interrogar a Providência.

XIv “Segundo os judeus carnais, o Messias deve ser um grande principe temporal. Segundo os cristãos carnais, veio dispensar-nos de amar a Deus e dar-nos sacramentos que tudo operam sem nós. Nenhum desses Messias pertence à religião judaica ou crista.”

Esse artigo parece mais um fragmento de sátira do que uma reflexão cristã. Vê-se que os jesuítas são o alvo do ataque. Mas alguma vez um jesuíta disse que Jesus Cristo veio “dispensar- nos de amar a Deus”? A disputa sobre o amor a Deus é uma pura disputa de palavras. como a maioria das querelas científicas, causadoras de tantos ódios ardentes e de tantas desgraças horriveis.

ainda outro engano nesse artigo: supor que a espera de um Messias fosse um ponto de religião entre os judeus, quando. na verdade, era apenas uma idéia consoladora difundida pela nação. Os judeus esperavam um libertador. mas não lhes era ordenado que cressem em sua vinda como num artigo de fé. Toda sua religião estava encerrada nos livros da lei. Os profetas nunca foram encarados como legisladores.

XV “Para examinar as profecias é preciso compreendê-las. Pois se se acredita que têm um único sentido. torna-se certo que o Messias ainda não terá vindo. Mas se tiverem dois senti- dos, é certo que veio em Jesus Cristo.”

A religião cristã é tão verdadeira que não carece de provas duvidosas. Ora, o pensamento do Sr. Pascal é desses que podem abalar a religião cristã, se houver algo que possa abalar os funda- mentos dessa religião santa e razoável. Fala em dois sentidos nas Escrituras, mas um homem que tivesse a infelicidade de ser incrédulo poderia dizer-lhe: Aquele que diz palavras com duplo sen- tido quer enganar os homens, e a duplicidade é sempre punida pela lei. Como, então, podeis admi- tir, sem enrubescer. que em Deus aquilo que é punido e detestado nos homens? Que digo?! Com que desprezo tratais os oráculos pagãos justamente porque tinham duplo sentido ! Não deve- riamos dizer que as profecias referentes a Jesus Cristo têm um único sentido. como as de Daniel, de Miquéias e de tantos outros? Não poderiamos até dizer que, mesmo que fôssemos incapazes de compreender as profecias, a religião permaneceria provada?”

XVI “A distância infinita dos corpos aos espiritos afigura a distância infinitamente mais infinita dos espiritos à caridade. pois ela é sobrenatural.”

É de crer-se que o Sr. Pascal não usaria esse aranzel em seu livro, se tivesse tido tempo de escrevê-lo.

XVII “As fraquezas mais aparentes são forças para aqueles que compreendem bem as coisas. Por exemplo, é óbvio que as duas genealogias, a de São Mateus e a de São Lucas. não são concordantes.”

Será que os editores dos Pensamentos de Pascal deveriam ter imprimido esse pensamento. cuja simples exposição parece capaz de prejudicar a religião? De que serve dizer que as duas

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genealogias, pontos fundamentais da religião cristã, são discordantes, se não se disser em que ponto concordam? Seria preciso apresentar o antídoto junto com o veneno. Que pensaríamos de um advogado que dissesse: “Minha parte se contradiz, mas essa fraqueza é uma força para os que sabem apanhar convenientemente as coisas?”

XVII “Que não mais nos censurem a falta de clareza, pois fazemos profissão dela, mas que se reconheça a verdade da religião na própria obscuridade da religião, na pouca luz que pos- suímos e em nossa indiferença para conhecê-la.”

Estranhas marcas da verdade traz Pascal! Que marcas terá a mentira? Como?! Então para ser crido bastaria dizer: “Sou obscuro, sou ininteligível !” Seria muito mais sensato apresentar aos olhos apenas as luzes da em vez das trevas da erudição.

XIX “Se houvesse apenas uma religião, Deus ficaria muito manifesto.”

Como?! Dizeis que se houvesse uma única religião Deus ficaria muito manifesto? ! Ora. então vos esqueceis de que a cada página afirmais que um dia haverá uma religião? Neste caso Deus ficará muito manifesto, segundo vossa opinião.

XX “Digo que a religião judaica não consistia em nada disso, mas apenas no amor de Deus e que Deus reprovava todas as outras coisas.”

Como?! Deus reprovava tudo que Ele próprio ordenara aos judeus com tantos cuidados e com detalhes prodigiosos !? Não seria mais verdadeiro dizer que a lei de Moisés consistia tanto no amor quanto no culto? Reduzir tudo ao amor de Deus é invenção de jansenista que odeia seu pró- ximo molinista nada tem a ver com o amor de Deus.

XXI “A escolha de um ofício é a coisa mais importante para a vida. O acaso dispõe e o costume faz pedreiros, soldados e telhadores.”

O que poderia determinar os soldados, os pedreiros e todos os obreiros mecânicos. se não o acaso e o costume? Nós nos autodeterminamos somente nas artes de gênio. Mas é muito natural e razoável que o costume disponha para os ofícios que todo mundo possa exercer.

XXI “Que cada um examine seu pensamento: encontrá-lo-á sempre ocupado com o passado e com o futuro. Quase não pensamos no presente e se o fazemos é apenas para usar sua luz para dispor do futuro. Nunca o presente é nosso alvo. O passado e o presente são nossos meios, somente o futuro é nosso objetivo.”

Em vez de lamentar-se, é preciso agradecer ao Autor da Natureza por ter-nos dado esse ins- tinto que nos arrasta incessantemente rumo ao futuro. O tesouro mais precioso do homem é a esperança, que ameniza nossas penas e antevê os prazeres futuros na posse dos prazeres presentes. Se os homens fossem bastante desgraçados a ponto de se ocuparem com o presente, ninguém semearia, construiria, plantaria ou proveria alguma coisa. No meio desse falso gozo tudo faltaria. Um espirito como o do Sr. Pascal poderia cair num lugar-comum tão falso? A natureza estabe- leceu que cada homem desfrutaria o presente nutrindo-se, gerando filhos, executando sons agradá- veis, ocupando sua faculdade de pensar e de sentir e que saindo desses estados, ou mesmo no meio deles, pensaria no amanhã, pois, se assim não fosse, pereceria hoje na miséria.

XXHI “Mas quando olhei mais de perto, descobri que uma causa efetiva para os ho- mens se afastarem do repouso e da permanência consigo mesmos: a desgraça natural de nossa condição fraca e mortal, tão miserável que nada pode consolar-nos quando não somos impedidos de pensar nela e quando olhamos para nós próprios.”

Esta expressão “só olhamos para nós próprios” me parece sem sentido.

O que de ser um homem que não age e que fica contemplando a si próprio? Não somente digo que seria um imbecil, inútil à sociedade, mas digo que não pode existir, pois o que contem plaria? Seu corpo, suas mãos, seus pés, seus cinco sentidos? Ou seria um idiota ou usaria tudo isso. Ficaria contemplando sua faculdade de pensar? Mas pode contemplá-la exercendo-a: ou não pensará em coisa alguma, ou pensará nas idéias que lhe vieram, ou comporá outras novas. Ora, pode ter idéias a partir do exterior. Ei-lo, pois, necessariamente ocupado com seus senti dos e com sua idéias. Ei-lo, pois, ou fora de si ou imbecil.

Ainda uma vez, é impossivel à natureza humana permanecer nesse entorpecimento imaginá- rio. É absurdo pensá-lo e insensato pretendê-lo. O homem nasceu para a ação, como o fogo tende

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para o alto e a pedra para baixo. Para o homem, não se ocupar e não existir é a mesma coisa. Toda diferença consiste nas ocupações amenas ou tumultuosas, perigosas ou úteis.

XXIV “Os homens têm um instinto secreto, proveniente do ressentimento de sua misé- ria contínua, que os leva a buscar diversão e ocupação no exterior. Têm, ainda, um outro instinto secreto, remanescente da grandeza de sua primeira natureza, e que lhes mostra que felici- dade no repouso.”

Esse instinto secreto, sendo o primeiro fundamento necessário da sociedade, vem da bondade de Deus e é antes o instrumento de nossa felicidade do que o sentimento de nossa miséria. Não sei o que nossos primeiros pais faziam no paraiso terrestre, mas se cada um deles tivesse pensado apenas em si próprio, a existência do gênero humano teria corrido risco. Não é um absurdo pen- sar que eram dotados de instrumentos de ação perfeitos para dedicarem-se unicamente à contem- plação? E não é engraçado que cabeças pensantes possam imaginar que a preguiça é um título de grandeza, e a ação, um rebaixamento de nossa natureza?

XXV “Quando Pirro se propôs a desfrutar o repouso com seus amigos após a conquista de uma grande parte do mundo, Cineas disse-lhe que seria melhor que adiantasse sua felicidade gozando desde logo o repouso, sem procurá-lo com tantas fadigas. Este conselho era difícil e tão pouco razoável quanto o propósito do jovem audacioso. Um e outro supunham que o homem poderia contentar-se consigo mesmo e com seus bens presentes, sem encher o vazio de seu cora- ção com esperanças imaginárias o que é falso. Pirro não poderia ser feliz nem antes nem de- pois de conquistar o mundo.”

O exemplo de Cíneas está bom para as sátiras de Despréaux, mas não para um livro filosó- fico. Um rei sábio pode ser feliz em sua pátria. E não é porque Pirro passa por um louco que se pode concluir alguma coisa sobre o resto dos homens.

XXVI “Deve-se reconhecer que o homem é tão infeliz que se entediaria ainda que não houvesse nenhuma causa exterior para o tédio. É o estado próprio da sua condição.”

Pelo contrário. O homem está muito feliz com sua condição e temos muitas obrigações para com o Autor da Natureza, que, para forçar-nos a sermos úteis ao próximo c a nós mesmos, vincu- lou o tédio à inação.

XXVII “Por que este homem, que perdeu pouco seu filho único, que se abateu com querelas e processos, que hoje pela manhã achava-se tão perturbado, agora não pensa mais nisso? Não vos espanteis. Está ocupado em ver por onde passará o gamo que seus cães perseguem ardorosamente seis horas. Não é preciso mais para o homem, por muito entristecido que esteja. Desde que se possa convencê-lo a entrar numa diversão, ei-lo feliz durante um tempo.”

Esse homem age maravilhosamente: a dissipação é um remédio mais seguro contra a dor do que o quinino contra a febre. Não censuremos a natureza, sempre pronta a socorrer-nos.

XXVII “Imagine-se um certo número de homens acorrentados e condenados à morte, cada um sendo degolado diante dos outros, os sobreviventes vendo sua própria condição na de seus semelhantes, encarando-se dolorosa e desesperançadamente, à espera de sua vez. É a imagem da condição humana.”

Seguramente essa comparação não é justa: os infelizes acorrentados, degolados uns depois dos outros, são infelizes não somente porque sofrem, mas porque experimentam aquilo que os ou- tros homens não suportam. A sina natural de um homem não é ser acorrentado ou degolado. mas todos os homens são feitos, como os animais e as plantas, para crescer, viver um certo tempo, reproduzir seu semelhante e morrer. Numa sátira pode-se mostrar à vontade o homem por seu lado mau, mas por pouco que usemos a razão admitiremos que o homem é o mais perfeito dos animais, o mais feliz e o que vive mais tempo. Portanto, em vez de nos espantarmos e de nos lamentarmos pela infelicidade e pela brevidade da vida, devemos surpreender-nos e congratular- nos com nossa felicidade e com sua duração. Raciocinando apenas como filósofo, ouso dizer que muito orgulho e temeridade em pretender que por nossa natureza deveríamos ser melhores do que somos.

XXIX “Entre os pagãos, os sábios que disseram que havia um Deus foram persegui- dos; os judeus, odiados, e os cristãos, ainda mais.”

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Algumas vezes foram perseguidos e o mesmo ocorreria hoje se viessem ensinar a adoração de um Deus independente do culto admitido. Sócrates não foi condenado por dizer: “Só um Deus”, mas por ter-se erguido contra o culto exterior do país e por ter muito impropriamente adquirido inimigos potentes. Com respeito aos judeus, eram odiados, mas não porque adorassem um Deus, e sim porque ridiculamente odiavam as outras nações, porque eram bárbaros que massacravam impiedosamente seus inimigos vencidos, porque esse povo vil e supersticioso, igno- rante, privado do comércio e das artes, desprezava os povos mais civilizados. Quanto aos cris- tãos, eram odiados pelos pagãos porque tendiam a destruir sua religião e seu império, o que conseguiram enfim, exatamente como os protestantes que se tornaram senhores nos próprios paí- ses onde foram odiados, perseguidos e massacrados.

XXX “Os defeitos de Montaigne são grandes. Está cheio de palavras sujas e desonestas. Não vale nada. Seus sentimentos sobre o homicídio voluntário e sobre a morte são horríveis.”

Montaigne fala como filósofo e não como cristão apresenta o pró e o contra a respeito do homícidio voluntário. Filosoficamente falando, que mal faz à sociedade um homem que a deixa quando não pode mais servi-la? Um velhinho tem cálculos e sofre dores atrozes. Dizem-lhe: “Se não vos operarem, morrereis. Se fordes operado podereis ainda arengar, babar, rastejar por um ano, carga para vós mesmo e para os outros”. Suponho que o velhote decide não ser carga para mais ninguém. É mais ou menos este o caso que Montaigne expõe.

XXXI “Quantos astros, inexistentes para os filósofos de outrora, as lunetas nos permiti- ram descobrir? Ousadamente as Escrituras foram atacadas porque nelas encontramos grande nú- mero de estrelas. Sabemos que vinte e duas mil, dizia-se.”

É certo que as Santas Escrituras, em matéria de física, sempre se adaptaram às idéias admiti- das, tanto assim que supõem a Terra imóvel, o Sol girando, etc. Não é por um refinamento em astronomia que afirmam a existência de inumeráveis estrelas, mas para adaptarem-se às idéias populares. Com efeito, embora nossos olhos descubram aproximadamente vinte e duas mil estre- las, entretanto, quando olhamos fixamente para o céu, a vista deslumbrada crê. então, ver uma infinidade. As Escrituras falam, pois, segundo o preconceito popular, pois não nos foram dadas para tranformar-nos em físicos. E parece que Deus não revelou a Habacuc, a Baruc ou a Miquéias que um dia um inglês chamado Flamsteed iria anotar em seu catálogo mais de sete mil estrelas vistas com o telescópio.

XXXI “É coragem o que leva um homem moribundo, na fraqueza e na agonia, a enfrentar um Deus onipotente e eterno?”

Isso nunca aconteceu. E num violento ataque cerebral um homem pode dizer: “Creio num Deus e venho desafiá-lo.”

XXXIII “Creio de bom grado nas histórias cujas testemunhas são degoladas.”

A dificuldade não está somente em saber se se acreditará em testemunhas que morrem por sustentarem seus depoimentos, como fizeram tantos fanáticos, mas ainda em saber se essas teste- munhas morreram efetivamente por isso, se seus depoimentos foram conservados, se habitaram nos países onde se diz que morreram. Por que José, nascido no tempo da morte de Cristo; Jose, que odiava o judaismo e que era inimigo de Herodes, por que não disse uma palavra sobre essa morte? Eis algo que o Sr. Pascal teria destrinçado com sucesso, como o fizeram mais tarde tan- tos escritores elogquentes.

XXXIV “As ciências têm duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura igno- rância natural em que se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela aonde cegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo o que os homens podem saber, desco- brem que nada sabem e se reencontram na ignorância de onde partiram.”

Esse pensamento é um puro sofisma. Sua falsidade reside no termo “ignorância”, usado em dois sentidos diferentes. Aquele que não sabe ler nem escrever é um ignorante. Mas um matema- tico não está no mesmo ponto de ignorância de onde partiu ao começar a ler, porque ignora os princípios escondidos da natureza. O Sr. Newton não sabia por que o homem mexe o braço quan- do quer, mas não era menos sábio no resto. Aquele que não conhece o hebraico e sabe o latim é sábio em comparação com aquele que sabe francês.

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XXXV “Não é ser feliz poder alegrar-se com divertimentos, pois vêm de fora, de alhures, sendo, portanto, dependentes e sujeitos a serem perturbados por mil acidentes que provocam afli- ções inevitáveis.”

É atualmente feliz aquele que desfruta um prazer e este pode vir de fora. podemos ter sensações e idéias graças aos objetos exteriores, como podemos nutrir nosso corpo fazendo en- trar nele substâncias estranhas que se transformam na nossa.

XXXVI “O excesso de espírito e a excessiva falta de espírito são chamados loucura. a mediocridade é tida por boa.”

Não se acusa de loucura o excesso de espírito, mas a vivacidade e volubilidade excessivas. O excesso de espírito é a justeza extrema, a finura extrema, a extensão extrema, diametralmente oposta à loucura.

A excessiva “falta de espírito” é uma ausência de concepção, um vazio de idéias não é a loucura, mas a estupidez. A loucura é um desarranjo nos órgãos, fazendo com que vejamos vários objetos muito rapidamente, ou que retém a imaginação num e com muita violência. Não é a mediocridade que é tida por boa, mas a distância desses dois vícios opostos. É o que se chama “o justo meio”, e não “mediocridade”.

XXXVII “Se nossa condição fosse verdadeiramente feliz, não seria preciso desviar-nos de seu pensamento.”

Nossa condição é precisamente a de pensar nos objetos exteriores, com os quais mantemos relações necessárias. É falso que se possa desviar um homem do pensamento de sua condição, pois qualquer coisa a que aplique seu espírito, aplica-o a alguma coisa necessariamente vinculada à condição humana. E, ainda uma vez, pensar em si com abstração das coisas naturais é não pensar.

Longe de impedir o homem de pensar em sua condição, é possível entretê-lo com os atrati- vos dela. Com um sábio fala-se de reputação e de ciência; com um príncipe, daquilo que se rela- ciona com sua grandeza; com todo homem, de prazer.

XXXVI “Os grandes e os pequenos têm os mesmos acidentes, as mesmas zangas, as mesmas paixões. Mas uns estão no topo da roda, outros mais próximos do centro e, assim, menos agitados pelos mesmos movimentos.”

É falso que os pequenos se agitem menos do que os grandes. Pelo contrário, seus desesperos são mais vivos porque dispõem de menos recursos. De cem pessoas que se matam em Londres, noventa e nove são do baixo povo, e somente uma de condição mais alta. A comparação com a

roda é engenhosa, mas falsa.

XXXIX “Não se ensina a honestidade aos homens, mas ensina-se-lhes todo o resto, e, no entanto, é disto que mais se gabam. Assim, gabam-se de saber a única coisa que não aprenderam.”

Ensina-se a honestidade aos homens, senão poucos chegariam a tê-la. Deixai vosso filho, desde a infância, agarrar tudo que lhe caia nas mãos: aos quinze anos roubará pelas estradas. Louvai-o por ter mentido: tornar-se-á uma testemunha falsa. Vangloriai-o por sua concupis- cência: certamente será um debochado. Ensina-se tudo aos homens: a virtude e a religião.

XL “O tolo projeto de Montaigne: pintar a si próprio! E não de passagem e contra suas máximas. como pode ocorrer a qualquer um num momento de fraqueza, mas por suas próprias máximas e propositadamente. É um mal corrente dizer tolices por acaso e por fraqueza, mas é insuportável dizê-las expressamente, e, sobretudo, aquelas ditas por Montaigne.”

Que encantador o projeto de Montaigne: pintar-se ingenuamente ! Pintou a natureza huma- na. Como é pobre o projeto -de Nicole, Malebranche e Pascal: desacreditar Montaigne!

XLI “Considerando a confiança que as pessoas depositam nos impostores que afirmam possuir remédios, a ponto de deixarem suas vidas nas mãos deles, perguntei qual seria a causa disto. Pareceu-me que a verdadeira causa é a existência de verdadeiros remédios, pois seria impos- sível que houvesse tantos falsos e. no entanto, tão acreditados, se não houvesse verdadeiros. Se nunca tivessem existido, se os males fossem incuráveis, seria impossível que os homens imagi- nassem que poderiam dar, e que efetivamente dessem, tanto crédito aos que se gabassem de

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possuí-los. Teriam o mesmo descrédito que têm por um homem gabando-se de impedir a morte, pois nunca houve quem o tivesse feito. Mas como houve remédios que se revelaram verdadeiros ao conhecimento de grandes homens, a crença dos outros curvou-se desde então, pois a coisa não podendo ser negada genericamente (visto que efeitos particulares verdadeiros), o povo, não discernindo quais dos efeitos particulares são verdadeiros, passou a acreditar em todos. Assim também, o que nos faz crer em tantos efeitos falsos da Lua é a existência dos verdadeiros, como as marés. E do mesmo modo, parece-me que tantos falsos milagres, falsas revelações e sortilé- gios, justamente porque verdadeiros.”

Parece-me que a natureza humana não precisa do verdadeiro para cair no falso. Imputaram- se mil falsas influências à Lua, antes que se imaginasse sua relação verdadeira com as marés. O primeiro doente acreditou sem dificuldade no primeiro charlatão. Ninguém viu lobisomens nem feiticeiros, e muitos creram nisso. Ninguém viu a transmutação dos metais e muitos se arruinaram pela crença na pedra filosofal. Os romanos, os gregos, todos os pagãos teriam acreditado nos fal- sos milagres porque tinham visto verdadeiros?

XLII “O porto guia aqueles que estão num navio; mas onde encontraremos o porto na moral?”

Nesta única mâxima, admitida por todas as nações: “Não faças aos outros o que não quise- res que te façam”.

XLII “Ferox gens nullam esse vitam sine armis putat. '" Preferem a morte à paz. Outros, a morte à guerra. Toda opinião pode ser preferida à vida, cujo amor parece tão forte e tão natural.”

Tácito disse isto a respeito dos catalães. Contudo, não existe gente de quem se tenha dito ou se possa dizer: “Prefere a morte à guerra”.

XLIV “A medida que se possui mais espírito descobre-se que mais originais. O vulgo não percebe diferenças entre os homens.”

poucos homens verdadeiramente originais. Quase todos se governam, pensam e sentem por influência do costume e da educação. Nada mais raro do que um espírito trilhando uma estra- da nova. Mas na massa de homens que caminha junta, cada um tem uma pequena diferença no andar, perceptível para um olhar agudo.

XLV “Há, pois, dois tipos de espirito. Um penetra viva e profundamente nas conse- quências dos princípios é o espirito de justeza. O outro compreende um grande número de princípios sem confundi-los é o espírito de geometria.”

Atualmente, parece-me que o uso quer que chamemos “espirito de geometria” o espírito metódico e consegiiente.

XLVI “É mais fácil suportar a morte sem pensar nela, do que pensar numa morte sem riscos.”

Não se pode dizer que um homem suporte a morte fácil ou dificilmente quando não pensa absolutamente nela. Quem nada sente, nada suporta.

XLVII “Supomos que todos os homens concebem e sentem da mesma maneira os objetos que se apresentam a eles, mas tal suposição é bastante gratuita, pois não dispomos de prova algu- ma. Vejo bem que as mesmas palavras são aplicadas nas mesmas ocasiões. Assim, por exemplo, todas as vezes que dois homens vêem a neve, exprimem a visão deste objeto com a mesma pala- vra, ambos dizendo que é branca. E dessa conformidade do uso conjectura-se firmemente sobre a conformidade da idéia, mas isso não é absolutamente convincente, embora seja possível apostar na afirmativa.”

A cor branca não deveria ter sido trazida como prova. O branco, reunião de todos os raios, parece brilhante para todo mundo, ofusca um pouco com o passar do tempo, produzindo o mesmo efeito sobre todos os olhos. Poder-se-ia dizer, talvez, que as outras cores não são percebi- das da mesma maneira por todos os olhos.

XLVIII “Todo nosso raciocínio se reduz a ceder ao nosso sentimento.”

** Um povo violento acha que a vida sem armas é nada. (N. do E.)

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Nosso raciocínio se reduz a ceder ao nosso sentimento em matéria de gosto, mas não em matéria de ciência.

XLIX “Em comparação com outros, aqueles que julgam uma obra segundo regras estão na mesma situação daqueles que possuem um relógio, se comparados aos que não o possuem. Um diz: 'Há duas horas que estamos aqui”. O outro retruca: “Faz apenas três quartos de hora”. Olho meu relógio e digo ao primeiro: 'Estais entediado”, e ao segundo: “O tempo não dura muito para vós”?

Nas obras de gosto, na música, na poesia, na pintura, é o gosto que ocupa o lugar do relógio. Aquele que as julga apenas segundo regras julga-as mal.

L “César era muito velho, parece-me, para sair à conquista do mundo. Essa distração era boa para Alexandre, jovem difícil para conter. Mas César deveria estar mais amadurecido.”

Imagina-se comumente que César e Alexandre saíram de casa com o propósito explícito de conquistar a terra. Não foi assim. Alexandre sucedeu a Felipe no generalato da Grécia e foi encar- regado da justa empresa de vingar os gregos das injúrias do rei da Pérsia; venceu o inimigo comum e continuou suas conquistas até a Índia porque o reino de Dario estendia-se até lá. Do mesmo modo o Duque de Marlborough não teria vindo até Lyon sem o Marechal de Villars.

César era um dos primeiros da república; enredou-se com Pompeu como os jansenistas com os molinistas, a vitória ficando para quem exterminasse o adversário. Tudo foi resolvido numa batalha onde foram mortos apenas dez mil homens.

Ademais, o pensamento do Sr. Pascal é completamente falso. Era preciso maturidade para que César desenredasse tantas intrigas. E é surpreendente que Alexandre, com sua idade, renun- ciasse ao prazer por uma guerra penosa.

LI “É divertido considerar que gente no mundo que, tendo renunciado a todas as leis de Deus e da natureza, tenha feito por si própria algumas outras, respeitando-as escrupulosa- mente. É o caso, por exemplo, dos ladrões, etc.”

Considerar-se esse fato é muito mais útil do que divertido, pois prova que nenhuma socie- dade de homens pode subsistir um único dia sem regras.

LII “O homem não é anjo nem fera. Por desgraça, aquele que quer passar por anjo passa por fera.”

Quem quiser destruir as paixões em vez de regrá-las quer passar por anjo.

LIHI “Um cavalo não procura ser admirado por seu companheiro; nota-se entre eles uma

espécie de emulação durante uma corrida, mas sem maiores consequências, pois no estábulo o mais pesado ou mais disforme não cede por isso sua aveia ao outro. O mesmo não acontece entre os homens: sua virtude não se satisfaz consigo mesma, não estão contentes se não tiram alguma vantagem dos outros.”

O homem mais disforme também não cede seu pão a outro, mas o mais forte rouba do mais fraco. E entre os animais, como entre os homens, os grandes comem os pequenos.

LIV “Se o homem começasse estudando a si mesmo veria como é incapaz de ir além. Como poderia fazer com que uma parte conhecesse o todo? Aspirará, talvez, a conhecer pelo menos as partes que lhe são proporcionais. Mas as partes do mundo estão de tal modo relacio- nadas e encadeadas umas com as outras, que creio seja impossível conhecer umas sem as outras e sem o todo.”

Não se deve afastar o homem do conhecimento daquilo que lhe é útil, por considerar que não pode conhecer tudo.

Conhecemos muitas verdades, encontramos muitas invenções úteis. Consolemo-nos por não sabermos quais poderiam ser as relações entre uma aranha e o anel de Saturno, e continuemos a examinar o que está ao nosso alcance.

LV “Se o raio caísse em lugares baixos, os poetas e aqueles que sabem raciocinar sobre coisas desse teor ficariam sem provas.”

Uma comparação não é prova nem em poesia nem em prosa. Na poesia serve para embele- zar; na prosa, para esclarecer e para tornar as coisas mais sensíveis. Os poetas, que compararam as desgraças dos grandes com o raio que vergasta montanhas, fariam comparações contrárias, se o contrário acontecesse.

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LVI “Foi a composição do espírito com o corpo que levou quase todos os filósofos a con- fundir as idéias das coisas, atribuindo aos corpos o que pertencia aos espíritos e a estes aquilo que pode convir aos corpos.”

Se soubéssemos o que é um “espírito” poderíamos lamentar que os filósofos lhe tivessem atribuido o que não lhe pertence. Mas não conhecemos o espírito nem o corpo; não temos idéia alguma de um, e temos idéias muito imperfeitas do outro. Portanto, não podemos saber quais são seus limites.

LVII “Assim como se diz “beleza poética” dever-se-ia também dizer “beleza geométrica” e “beleza medicinal”, Entretanto, não se diz, e isto por uma razão bem simples: sabe-se qual é o obje- to da geometria e o da medicina, mas não se sabe em que consiste o encanto, objeto da poesia. Não se sabe o que é esse modelo natural que se deve imitar e por falta desse conhecimento inven- taram-se certos termos esquisitos: “século de ouro”, 'maravilha de nossos dias”, 'fatal laurel”, “belo astro” etc. e denomina-se tal jargão beleza poética. Mas quem imaginar uma mulher vestida com esse modelo verá uma linda donzela coberta de espelhos e de correntes de latão.”

Tudo isso é bastante falso. Não se deve dizer “beleza geométrica” ou “beleza medicinal” porque um teorema ou um purgativo não afetam agradavelmente os sentidos, e porque se o nome de “beleza” a coisas que encantam os sentidos, como a música, a pintura, a poesia, a eloquencia, a arquitetura etc.

A razão dada pelo Sr. Pascal também é falsa. Sabe-se muito bem em que consiste o objeto da poesia: pintar com força, pureza, delicadeza e harmonia. A poesia é a eloquência harmoniosa. Seria preciso que o Sr. Pascal tivesse muito pouco gosto para dizer que “fatal laurel” ou “belo astro” ou outras tolices do mesmo jaez são belezas poéticas. E seria preciso que os editores dos Pensamentos fossem tão pouco versados nas belas-letras para que imprimissem uma reflexão tão indigna de seu ilustre autor.

Não vos envio as outras observações minhas sobre os Pensamentos do Sr. Pascal porque acarretariam discussões 'muito longas. é bastante ter acreditado perceber alguns erros de desa- tenção nesse grande gênio. É um consolo para um espírito tão limitado como o meu ficar bem per- suadido de que os grandes homens podem enganar-se como o povo.

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TRATADO DE METAFÍSICA

Tradução de Marilena de Souza Chauí

INTRODUÇÃO

Dúvidas sobre o Homem

Poucas pessoas se preocupam em ter uma noção do que seja o homem. A única idéia que os camponeses de uma parte da Europa têm da nossa espécie é a de um animal de dois pés. de pele trigueira, articulando algumas palavras, cultivando a terra, pagando, sem saber por que, tribuios a um outro animal a que chama rei, vendendo suas colheitas tão caro quanto puder, reunindo-se com outros em certos dias do ano para entoar preces numa língua incompreensível.

Um rei sempre encara tôda a espécie humana como seres feitos para obedecer-lhe e aos seus semelhantes. Uma jovem parisiense ao entrar no mundo apenas o que possa servir à sua vaida- de; a idéia confusa que tem da felicidade e o estrondo de tudo que a rodeia impedem sua alma de escutar a voz de todo o resto da natureza. Um jovem turco, no silêncio do serralho, olha os ho- mens como seres superiores, obrigados por certa lei a dormir todas as sextas-feiras com suas escravas; e sua imaginação não vai muito além disso. Um padre divide tedo o universo em eclesiásticos e leigos e, sem dificuldade, considera a parte eclesiástica como a mais nobre e feita para conduzir a outra etc. etc.

Estarífamos profundamente enganados se acreditássemos que os filósofos têm idéias mais completas sobre a natureza humana. Se excetuardes Hobbes, Locke, Descartes, Bayle e um pequeno número de espíritos sábios, todos os outros têm uma opinião particular sobre o homem, tão limitada quanto a do vulgo e somente mais confusa. Perguntai ao Padre Malebranche o que é o homem. Ele vos responderá que é uma substância feita à imagem de Deus, muito deturpada depois do pecado original, e, no entanto, mais unida a Deus do que ao seu próprio corpo, vendo tudo em Deus, pensando, sentindo tudo em Deus.

Pascal encara o mundo inteiro como uma coleção de malvados e de infelizes, criados para serem condenados, entre os quais, porém, algumas almas (isto é, uma entre cinco ou seis milhões) foram escolhidas por Deus desde toda a eternidade para serem salvas.

Um diz: o homem é uma alma unida a um corpo e, quando o corpo está morto, a alma vive sozinha para sempre.

Outro assegura: o homem é um corpo que pensa necessariamente. E nem um nem outro pro- vam o que afirmam. Na investigação do homem gostaria de conduzir-me como faço no estudo da astronomia: meu pensamento se transporta algumas vezes para fora do globo terrestre, acima do qual todos os movimentos celestes parecem irregulares e confusos. E após ter observado o movi- mento dos planetas como se estivesse no Sol, comparo os movimentos aparentes que vejo sobre a Terra com os movimentos verdadeiros que veria se estivesse no Sol. Assim farei também ao estudar o homem: colocar-me-ei primeiramente fora de sua esfera, fora de compromissos, despo- jar-me-ei de todos os preconceitos de educação, de pátria e, sobretudo, dos preconceitos de filósofo.

Suponho, por exemplo, que, nascido com a faculdade de pensar e de sentir que tenho presen- temente, mas não tendo a forma humana, desço ao globo vindo de Marte ou de Júpiter. Posso dar uma olhada rápida em todos os séculos e países, e, consegiientemente, em todas as tolices desse glóbulo.

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É tão fácil supor isso quanto imaginar-me no Sol para dali considerar os dezessete planetas que giram regularmente no espaço em torno desse astro.

CAPÍTULO I

As Diferentes Espécies de Homem

Descendo sobre este montículo de lama e não tendo maiores noções a respeito do homem, como este não tem a respeito dos habitantes de Marte ou de Júpiter, desembarco às margens do oceano, no país da Cafraria, e começo a procurar um homem. Vejo macacos, elefantes e negros. Todos parecem ter algum lampejo de uma razão imperfeita. Uns e outros possuem uma linguagem que não compreciido e todas as suas ações parecem igualmente relacionar-se com um certo fim. Se julgasse as coisas pelo primeiro efeito que me causam, inclinar-me-ia a crer, inicialmente, que de todos esses seres o elefante é o animal racional. Contudo, para nada decidir levianamente tomo filhotes dessas várias bestas. Examino um filhote de negro de seis meses, um elefantezinho, um macaquinho, um leãozinho, um cachorrinho. Vejo, sem poder duvidar, que esses jovens animais possuem incomparavelmente mais força e destreza, mais idéias, mais paixões, mais memória do que o negrinho e que exprimem muito mais sensivelmente todos os seus desejos do que ele. Entre- tanto, ao cabo de certo tempo, o negrinho possui tantas idéias quanto todos eles. Chego mesmo a perceber que os animais negros possuem entre si uma linguagem bem mais articulada e variada do que a dos outros animais. Tive tempo de aprender tal linguagem e, enfim, de tanto observar o pequeno grau de superioridade que a longo prazo apresentam em relação aos macacos e aos ele- fantes, arrisco-me a julgar que efetivamente ali está o homem. E forneço a mim mesmo esta definição:

O homem é um animal preto que possui sobre a cabeça, caminha sobre duas patas, é quase tão destro quanto um símio, é menos forte do que outros animais de seu tamanho, provido de um pouco mais de idéias do que eles e dotado de maior facilidade de expressão. Ademais, está subme- tido igualmente às mesmas necessidades que os outros, nascendo, vivendo e morrendo exatamente como eles.

Após ter passado certo tempo entre essa espécie, desloco-me rumo às regiões marítimas das Índias Orientais. Surpreendo-me com o que vejo: os elefantes, os leões, os macacos e os papagaios não são exatamente como eram na Cafraria; mas o homem, esse parece-me absolutamente dife- rente. Agora são homens de um belo tom amarelo, não possuem lã, mas têm a cabeça coberta de grandes crinas negras. Parecem ter sobre as coisas idéias totalmente contrárias às dos negros. Sou, portanto, forçado a mudar minha definição e a classificar a natureza humana sob duas espé- cies: a negra com e a amarela com crina.

Mas, na Batávia, em Goa e em Surata, ponto de encontro de todas as nações, vejo uma gran- de multidão de europeus. São