OS PENSADORES

XXXV

KARL MARX

MANUSCRITOS ECONÔMICO-FILOSÓFICOS

E OUTROS TEXTOS ESCOLHIDOS

Seleção por José Arthur Giannotti

aBAL CA

SE EDITOR: VICTOR CIVITA

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Titulos originais:

Oekonomisch-philosophische Manuskripte Die deutsche Ideologie Value, price and profit Zur Kritik der politischen Oekonomie Revenue and its sources. Die Vulgirókonomie The eighteenth Brumaire of Louis Bonaparte.

1.º edição julho 1974

- Copyright desta edição, 1974, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Tradução publicada sob licença de Editora Paz e Terra Ltda., Rio de Janeiro (O 18 Brumário de Luís Bonaparte). Direitos exclusivos sobre as demais traduções deste volume. 1974,

Abril S.A. Cultural e Industrial. São Paulo. pa E

Sumário

MANUSCRITOS ECONÔMICO-FILOSÓFICOS .........ccccciccccciiiie serra 7 TESES CONTRA FEUERBACH unia Papua GO ni a UA 55 SALÁRIO: PRECO: E LUCROS ns unas a oa ir e O A AD ag 61 PARA A CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA .........ccicccciccis e 107 O RENDIMENTO E SUAS FONTES A ECONOMIA VULGAR ........iciiiiiiiiio 265

O 18 BRUMÁRIO DE LUÍS BONAPARTE. .........ccciiiiiciiss sir 329

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MANUSCRITOS ECONÔMICO- FILOSÓFICOS*

TERCEIRO MANUSCRITO

Tradução de José Carlos Bruni

* Escrito em 1844, em Paris. Sob o titulo Manuscritos Econômico-Filosóficos tornaram-se conhecidos estes escritos da juventude de Marx, publicados pela primeira vez na Marx Engels Gesamtausgabe, Berlim, 1932. Para a tradução utilizou-se a edição da Dietz Verlag, Marx-Engels puras Erster Teil, Berlim, 1968, págs. 530-588.

TERCEIRO MANUSCRITO

[Propriedade privada e trabalho]!

/1.36/? A essência subjetiva da propriedade privada, a propriedade priva- da como atividade para si, como sujeito, como pessoa, é o trabalho. Compreen- de-se pois que somente a economia política que reconheceu o trabalho como seu princípio Adam Smith e portanto não mais reconhece a propriedade priva- da como um estado exterior ao homem, que essa economia política deva ser considerada tanto um produto da energia real e do movimento da propriedade privada um movimento autônomo que se tornou para si na consciência, é a indústria moderna como sujeito) (als selbst), como produto da indústria moderna, que por sua vez acelera e enaltece a energia e o movimento dessa indústria, trans- formando-a numa força da consciência. Perante esta economia política ilustrada, que descobriu a essência subjetiva da riqueza no interior da propriedade priva- da aparecem como adoradores de ídolos, como católicos, os partidários do sistema monetário e mercantilista, que vêem a propriedade privada como apenas uma essência objetiva para o homem. Por isso Engels chamou com razão Adam Smith de Lutero da economia política. Assim como Lutero reconheceu na reli- gião, na fé, a essência do mundo exterior e opôs-se por isso ao paganismo católi- co; assim como ele superou a religiosidade exterior, ao fazer da religiosidade a essência interior do homem; assim como ele negou a separação entre o sacerdote e o leigo, porque transferiu o sacerdote para o coração do leigo; assim também é superada a riqueza que se encontra fora do homem e é independente dele que de ser, pois, afirmada e mantida apenas de modo exterior —, isto é, é superada esta sua objetividade exterior e privada de pensamento, ao ser incorporada a propriedade privada ao próprio homem e ao ser reconhecido o próprio homem como sua essência; mas com isso, o próprio homem é posto sob a determinação (Bestimmung) da propriedade privada, assim como em Lutero, sob a determina- ção da religião. Sob a aparência de um reconhecimento do homem, a economia política, cujo princípio é o trabalho, é muito mais a consegiente negação do homem, na medida em que ele próprio não se encontra em uma tensão exterior

* Os títulos entre colchetes não são do autor, mas da edição alemã usada para esta tradução. (N. do E.) 2 Os números romanos indicam o caderno dos manuscritos, e os arábicos, a página do caderno.

/ [ indica caderno ou página.

// ! indica começo de caderno ou página.

/ !f indica fim de caderno ou página. (N. do E.).

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com a essência exterior da propriedade privada, mas sim tornou-se a essência tensa da propriedade privada. O que antes era ser-exterior-a-si, exteriorização real do homem, converteu-se apenas no fato da exteriorização, em extranhamento. Se essa economia política começa, pôis, sob a aparência do reconhecimento do homem, de sua autonomia, de sua atividade própria, etc., ao transferir a essência mesma do homem à propriedade privada, não pode ser condicionada pelas deter- minações locais, nacionais, etc., da propriedade privada, como um ser que exista fora dela, isto é, se essa economia política desenvolve uma energia cosmopolita, geral, que derruba todas as barreiras e todos os laços, para se colocar como a única política, a única generalidade, a única barreira, o único laço, assim tem de rejeitar em seu desenvolvimento posterior essa hipocrisia e tem de aparecer em seu cinismo total; e ela o faz (despreocupada de todas as contradições aparentes em que sua doutrina a envolve) ao desenvolver mais unilateral e por isso mais aguda e mais consegiientemente o trabalho como a única essência da riqueza, ao provar a desumanidade das consequências desta doutrina, em oposição aquela concepção originária, e ao dar, por último, o golpe mortal aquele último modo de existência individual, natural, independente do movimento do trabalho, da propriedade pri- vada e fonte de riqueza a renda da terra —, essa expressão da propriedade feu- dal totalmente economificada e incapaz por isso de resistir à economia política (Escola de Ricardo). Não aumenta o cinismo da economia política relativa- mente a partir de Smith, passando por Say, até Ricardo, Mill, etc., na medida em que saltam à vista destes últimos, mais desenvolvidas e cheias de contradições, as consequências da indústria, como também positiva e conscientemente vão estes sempre mais além que seus predecessores na alienação contra o homem, e isto unicamente porque sua ciência se desenvolve de forma mais verdadeira e conse- quente. Ao converterem em sujeito a propriedade privada em sua figura ativa, ao mesmo tempo fazem tanto do homem uma essência (Wesen), como do homem como não-ser (Unwesen) uma essência, de modo que a contradição da realidade corresponde perfeitamente à essência contraditória tomada como princípio. A rea- lidade dilacerada /II/ da indústria confirma o próprio princípio dilacerado em si mesmo, muito longe de refutá-lo, pois seu princípio é justamente o princípio dessa dilaceração. A doutrina fisiocrática do Dr. Quesnay representa a passagem do mercanti- lismo a Adam Smith. A fisiocracia é, diretamente, a dissolução econômico-po- lítica da propriedade feudal, mas por isso, de maneira igualmente direta, a trans- formação econóômico-política, a reposição mesma, com a ressalva de que sua linguagem não é feudal, mas econômica. Toda a riqueza reduz-se à terra e à agricultura. A terra não é ainda capital, é ainda um modo particular de existência do mesmo, que deve valer na sua particularidade natural e por causa dela; mas a terra é, com efeito, um elemento natural, geral, enquanto o sistema mercantilista não conhecia outra existência da riqueza senão o metal nobre. O objeto da rique- za, sua matéria, recebeu pois ao mesmo tempo, a maior generalidade dentro dos limites da natureza na medida em que, como natureza, é também imediatamente riqueza objetiva. E a terra somente é para o homem mediante o trabalho,

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mediante a agricultura. A essência subjetiva da riqueza transfere-se, portanto, para o trabalho. Ao mesmo tempo, contudo, a agricultura é o único trabalho pro- dutivo. O trabalho ainda não é entendido na sua generalidade e abstração; está li- gado ainda a um elemento natural particular, à sua matéria; ê conhecido apenas em um modo particular de existência naturalmente determinado. Por isso é ainda uma alienação determinada, particular do homem, da mesma maneira que seu produto é apreendido ainda como uma riqueza determinada, que depende mais da natureza do que do próprio trabalho. A terra é reconhecida aqui ainda como um modo de existência natural, independente do homem, e não como capital, isto é, não como um momento do próprio trabalho. O trabalho aparece muito mais como um momento da terra. Mas, ao reduzir-se o fetichismo da antiga riqueza exterior, que existia apenas como objeto, a um elemento natural muito simples, e ao reconhecer-se sua essência, ainda que parcialmente, em sua existência subje- tiva sob um modo particular, está iniciado necessariamente o passo seguinte, de reconhecer a essência geral da riqueza e elevar por isso a princípio o trabalho em sua forma mais absoluta, isto é, abstrata. Prova-se à fisiocracia que, do ponto de vista econômico, o único justificado, a agricultura não ê distinta de qualquer outra indústria, que a essência da riqueza não é, pois, um trabalho determinado, um trabalho ligado a um elemento particular, uma determinada manifestação do trabalho, mas sim o trabalho em geral.

A fisiocracia nega a riqueza particular, exterior, apenas objetiva, ao declarar que sua essência é o trabalho. Mas inicialmente o trabalho é para ela apenas a essência subjetiva da propriedade fundiária (ela parte do tipo de propriedade que historicamente aparece como dominante e reconhecida); para ela somente a propriedade fundiária converte-se em homem alienado. A fisiocracia supera seu caráter feudal ao declarar a indústria (agricultura) como sua essência; mas comporta-se negativamente perante o mundo da indústria, reconhece o sistema feudal, ao declarar que a agricultura é a única indústria.

É evidente que, tão logo se apreenda a essência subjetiva da indústria que se constitui em oposição à propriedade fundiária, como indústria, então esta essên- cia inclui em si seu contrário. Pois assim como a indústria abarca a propriedade fundiária superada, assim também sua essência subjetiva abarca, ao mesmo tempo, a essência subjetiva desta.

Do mesmo modo que a propriedade fundiária é a primeira forma da proprie- dade privada, do mesmo modo que historicamente a indústria opõe-se a ela de início apenas como um modo especial de propriedade (ou melhor, é o escravo liberado da propriedade fundiária), assim também se repete este processo na compreensão científica da essência subjetiva da propriedade privada, isto é, do trabalho; o trabalho aparece primeiro unicamente como-trabalho agrícola, para ser reconhecido, depois, como trabalho em geral.

/II/ Toda riqueza se transforma em riqueza industrial, em riqueza do tra- balho, e a indústria é trabalho acabado, assim como o sistema fabril é a essência desenvolvida da indústria, isto é, do trabalho, e o capital industrial é a forma objetiva acabada da propriedade privada.

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Vemos como somente agora a propriedade privada pode complementar seu domínio sobre o homem e converter-se, em sua forma mais geral, em um poder histórico mundial.

[Propriedade privada e comunismo

Ad pag. XXXIX. Mas a oposição entre a falta de propriedade e a proprie- dade é ainda indiferente, não tendo sido concebida ainda como a oposição em seu relacionamento ativo com seu nexo interno, isto é, ainda não é concebida como contradição, até que não seja encarada como a oposição entre o trabalho e o capi- tal. Ademais, essa oposição pode revelar-se em sua primeira forma sem o movi- mento desenvolvido da propriedade privada, como na Roma Antiga, na Turquia, etc. Assim ela aparece como se não fosse instituída pela propriedade privada. Mas o trabalho, a essência subjetiva da propriedade privada como exclusão da proprie- dade, e o capital, trabalho objetivo como exclusão do trabalho, é a propriedade privada como relação desenvolvida da contradição e por isso uma relação enér- gica que tende para sua resolução.

Ad ibidem. A superação da auto-alienação segue o mesmo caminho que a auto-alienação. Em primeiro lugar a propriedade privada é considerada apenas em seu aspecto objetivo, mas tomando o trabalho como sua essência. Sua forma de existência é por isso o capital, que de ser superado “enquanto tal” (Proud- hon); ou se toma um modo particular de trabalho (o trabalho nivelado, parcelado e, em consequência, não livre) como fonte da nocividade da propriedade privada e de seu modo de existência alheio ao homem (Fourier, que, analogamente aos fisiocratas, considera também o trabalho agrícola no mínimo como o trabalho por excelência; Saint-Simon, ao contrário, declara que o trabalho industrial, como tal, é a essência e aspira ao domínio exclusivo dos industriais e à melhoria da situação dos operários). O comunismo, finalmente, é a expressão positiva da propriedade privada superada; é, em primeiro lugar, a propriedade privada geral. Ao tomar esta relação em sua generalidade, o comunismo é: 1.º) em sua primeira figura somente uma generalização e acabamento da mesma; como tal, mostra-se em sua dupla figura: de um lado, o domínio da propriedade material é tão grande frente a ele, que ele quer aniquilar tudo o que não é susce- tível de ser possuído por todos como propriedade privada; quer abstrair de modo violento o talento, etc. A posse física imediata vale para ele como a finalidade única da vida e do modo de existência; a determinação do trabalhador não é superada, mas estendida a todos os homens; a relação da propriedade privada continua ainda a relação da coletividade com o mundo das coisas; finalmente, pronuncia-se este movimento por uma oposição da propriedade privada à propriedade privada geral, e de uma forma animal, opondo o matrimônio (que

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ademais é uma forma da propriedade privada exclusiva) à comunidade das mulheres, em que a mulher se converte em propriedade coletiva e comum. Pode- se dizer que este pensamento da comunidade de mulheres é o segredo pronun- ciado deste comunismo ainda totalmente grosseiro e privado de pensamento. Assim como a mulher sai do matrimônio para entrar na prostituição geral, assim também o mundo todo da riqueza, isto é, da essência objetiva do homem, sai da relação do matrinônio exclusivo como proprietário privado para entrar na rela- ção da prostituição geral com a coletividade. Este comunismo, ao negar por com- pleto a personalidade do homem, é justamente a expressão consequente da propriedade privada, que é esta negação. A inveja geral e constituída em poder não é senão a forma oculta em que a cobiça se estabelece e, simplesmente, se satisfaz de outra maneira. O pensamento de toda propriedade privada enquanto tal volta-se, pelo menos, contra a propriedade privada mais rica como inveja e de- sejo de nivelação, de maneira que estes constituem até a essência da concor- rência. O comunista grosseiro é apenas o acabamento desta inveja e desta nivela- ção, partindo de um mínimo representado. Tem uma medida determinada e limitada. O pouco que esta superação da propriedade privada tem de efetiva apropriação, o prova justamente a negação abstrata de todo o mundo da educa- ção e da civilização, o regresso à simplicidade não natural /IV/ do homem pobre, bruto e sem necessidades, que não não superou a propriedade privada, como também nem sequer chegou a ela.

A coletividade é apenas uma coletividade do trabalho e de igualdade do salário, que o capital coletivo, a coletividade como capitalista geral, paga. Ambos os lados da relação são elevados a uma generalidade representada: o trabalho como a destinação (Bestimmung) em que cada um é posto, o capital como a gene- ralidade e o poder reconhecidos da coletividade.

Na relação com a mulher, como presa e servidora da luxúria coletiva, expressa-se a infinita degradação na qual o homem existe para si mesmo, pois o segredo desta relação tem sua expressão inequívoca, decisiva, manifesta, desvela- da, na relação do homem com a mulher e no modo de conceber a relação imedia- ta, natural e genérica. A relação imediata, natural e necessária do homem com o homem é a relação do homem com a mulher. Nesta relação natural dos gêneros, a relação do homem com a natureza é imediatamente sua relação com o homem, do mesmo modo que a relação com o homem é imediatamente sua relação com a natureza, sua própria destinação natural. Nesta relação aparece, pois, de manei- ra sensível, reduzida a um fato visível, em que medida a essência humana se con- verteu para o homem em natureza ou a natureza tornou-se a essência humana do homem. A partir desta relação, pode-se julgar o grau de cultura do homem em sua totalidade. Do caráter desta relação deduz-se a medida em que o homem converteu-se em ser genérico, em homem, e se apreendeu como tal; a relação do homem com a mulher é a relação mais natural do homem com o homem. Nela se mostra em que medida o comportamento natural do homem tornou-se humano ou em que medida a essência humana tornou-se para ele essência natural, em que medida a sua natureza humana tornou-se para ele natureza. Mostra-se também

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nesta relação a extensão em que o carecimento (Bediirfnis) do homem se tornou carecimento humano, em que extensão o outro homem enquanto homem conver- teu-se para ele em carecimento; em que medida ele, em seu modo de existência mais individual, é, ao mesmo tempo, ser coletivo.

A primeira superação positiva da propriedade privada, o comunismo gros- seiro, não é portanto nada mais do que uma forma fenomênica da infâmia da propriedade privada que se quer instaurar como coletividade positiva.

2.º) O comunismo a) ainda de natureza política, democrática ou despótica; b) com a superação do Estado, mas ao mesmo tempo ainda com a essência inaca- bada e afetada pela propriedade privada, isto é, pela alienação do homem. Em ambas as formas, o comunismo se conhece como reintegração ou retorno a si do homem, como superação da auto-alienação do homem, mas, como ainda não apreendeu a essência positiva da propriedade privada, e da mesma forma ainda não compreendeu a natureza humana do carecimento, está ainda prisioneiro e infetado por ela. Apreendeu seu conceito, mas ainda não sua essência. .

3.º) O comunismo como superação positiva da propriedade privada, enquanto auto-alienação do homem, e por isso como apropriação efetiva da essência humana através do homem e para ele; por isso, como retorno do homem a si enquanto homem social, isto é humano; retorno acabado, consciente e que veio a ser no interior de toda a riqueza do desenvolvimento até o presente. Este comunismo é, como acabado naturalismo = humanismo, como acabado huma- nismo = naturalismo; é a verdadeira solução do antagonismo entre o homem e a natureza, entre o homem e o homem, a resolução definitiva do conflito entre exis- . tência e essência, entre objetivação e auto-afirmação, entre liberdade e necessi- dade (Notwendigkeit), entre indivíduo e gênero. É o enigma resolvido da história e se conhece como esta solução.

/V/ O movimento inteiro da história é, por isso, tanto seu ato de geração efe- tivo o ato de nascimento de seu modo de existência empírico como, para sua consciência pensante, o movimento compreendido e conhecido de seu vir-a- ser, enquanto que aquele comunismo inacabado busca em algumas figuras histó- ricas isoladas que se opõem à propriedade privada uma prova histórica, uma prova para si no que persiste, destacando, pois, momentos isolados do movi- mento (da história) (Cabet, Villegardelle, etc., montam-se nisso) para fixá-los como prova de sua legitimidade histórica; mas com isso apenas ele evidencia que a parte incomparavelmente maior desse movimento contradiz suas afirmações e que, ainda que tivesse existido alguma vez, por isso mesmo seu Ser passado con- tradiz a pretensão de ser essencial.

É fácil ver a necessidade de que todo o movimento revolucionário encontre sua base, tanto empírica como teórica, no movimento da propriedade privada, na Economia. .

Esta propriedade privada material, imediatamente sensível, é a expressão material e sensível da vida humana alienada. Seu movimento a produção e o consumo é a manifestação sensível do movimento de toda a produção passa- da, isto é, da efetivação (Verwirklichung) ou efetividade (Wirklichkeit) do

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homem. Religião, família, Estado, direito, moral, ciência, arte, etc., são apenas modos particulares da produção e estão submetidos à sua lei geral. A superação positiva da propriedade privada como apropriação da vida humana é por isso a superação positiva de toda alienação, isto é, o retorno do homem da religião, da família, do Estado, etc., ao seu modo de existência humano, isto é, social. A alie- nação religiosa, como tal, transcorre no terreno da consciência da interiori- dade do homem, mas a alienação econômica é a da vida efetiva sua superação abarca por isso ambos os lados. É evidente que o movimento se origina entre os diferentes povos, conforme a verdadeira vida reconhecida do povo transcorra mais na consciência ou no mundo exterior, conforme a vida seja mais ideal ou real. O comunismo começa juntamente com o ateismo (Owen), o ateismo inicial- mente está ainda muito longe de ser comunismo, porque aquele ateísmo é ainda muito mais uma abstração. A filantropia do ateísmo é, por isso, em primeiro lugar, somente uma filantropia filosófica abstrata, a do comunismo é imediata- mente real e tende diretamente para a atuação.

Vimos como, sob a pressuposição da superação positiva da propriedade pri- vada, o homem produz o homem, a si próprio e a outro homem; como o objeto, que é a átividade imediata de sua individualidade, é ao mesmo tempo seu próprio modo de existência para o outro homem, o modo de existência deste e o modo de existência deste para ele. Mas, igualmente, tanto o material do trabalho como o homem enquanto sujeito são, ao mesmo tempo, resultado e ponto de partida do movimento (e no fato de que têm de ser este ponto de partida reside justamente a necessidade histórica da propriedade privada). O caráter social é, pois, o caráter geral de todo o movimento; assim como é a própria sociedade que produz o homem enquanto homem, assim também ela é produzida por ele. A atividade e o gozo também são sociais, tanto em seu modo de existência, como em seu conteú- do; atividade social e gozo social. A essência humana da natureza não existe senão para o homem social, pois apenas assim existe para ele como vínculo com o homem, como modo de existência sua para o outro e modo de existência do outro para ele, como elemento vital da efetividade humana; assim existe como fundamento de seu próprio modo de existência humano. então se con- verte para ele seu modo de existência natural em seu modo de existência humano, e a natureza torna-se para ele o homem. A sociedade é, pois, a plena unidade essencial do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição da natureza, o naturalismo acabado do homem e o humanismo acabado da natureza.

/VI/ A atividade social e o gozo social não existem de modo algum unica- mente na forma de uma atividade imediatamente coletiva e de um gozo imediata- mente coletivo, ainda que a atividade coletiva e O gozo coletivo, isto é, a atividade e o gozo que se exteriorizam e confirmam imediatamente na sociedade efetiva com outros homens, encontrar-se-ão onde quer que aquela expressão imediata da

? Segue-se a seguinte nota de Marx, separada por um traço, sem qualquer outra indicação: “A prostituição é apenas uma expressão particular da prostituição geral do trabalhador, e, desde que a prostituição é uma relação que inclui não somente o prostituído, mas também o prostituinte cuja infâmia é ainda maior —, rêcai também o capitalista, etc., nesta categoria”.

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sociabilidade esteja fundada na essência de seu conteúdo e seja adequada à sua natureza.

Mas mesmo quando eu atuo cientificamente, etc., uma atividade que rara- mente posso levar a cabo em comunidade imediata com outros, também sou social, porque atuo enquanto homem. Não o material de minha atividade como a própria língua, na qual o pensador é ativo me é dado como produto social, como também meu próprio modo de existência é atividade social, porque o que eu faço de mim, o faço para a sociedade e com a consciência de mim enquanto um ser social.

Minha consciência geral é apenas a figura teórica daquilo cuja figura viva é a comunidade real, o ser social, enquanto hoje em dia a consciência geral é uma abstração da vida efetiva e como tal a enfrenta como inimiga. Por isso também a atividade de minha consciência geral como tal é minha existência teórica enquanto ser social.

Deve-se evitar antes de tudo fixar a “sociedade” como outra abstração frente ao indivíduo. O indivíduo é o ser social. A exteriorização da sua vida ainda que não apareça na forma imediata de uma exteriorização de vida coletiva, cum- prida em união e ao mesmo tempo com outros é, pois, uma exteriorização e confirmação da vida social. A vida individual e a vida genérica do homem não são distintas, por mais que, necessariamente, o modo de existência da vida indivi- dual seja um modo mais particular ou mais geral da vida genérica, ou quanto mais a vida genérica seja uma vida individual mais particular ou geral.

Como consciência genérica o homem confirma sua vida social real e não.faz mais que repetir no pensar seu modo de existência efetivo, assim como, inversa- mente, o ser genérico se confirma na consciência genérica e é para si, na sua gene- ralidade, enquanto ser pensante.

O homem por mais que seja um indivíduo particular, e justamente é sua particularidade que faz dele um indivíduo e um ser social individual efetivo é, na mesma medida, a totalidade, a totalidade ideal, o modo de existência subjetivo da sociedade pensada e sentida para si, do mesmo modo que também na efetivi- dade ele existe tanto como intuição e gozo efetivo do modo de existência social, quanto como uma totalidade de exteriorização de vida humana.

Pensar e ser são pois, na verdade, diferentes, mas, ao mesmo tempo, formam em conjunto uma unidade.

A morte aparece como uma dura vitória do gênero sobre o indivíduo e pare- ce contradizer a unidade de ambos; mas o indivíduo determinado é apenas um ser genérico determinado e, enquanto tal, mortal.

4.º) Tal como a propriedade privada é apenas a expressão sensível do fato de que o homem se torna objetivo para si e, ao mesmo tempo, se converte bem mais em um objeto estranho e inumano, do fato de que a exteriorização de sua vida é a alienação da sua vida e sua efetivação sua desefetivação, uma efetividade estranha, a superação positiva da propriedade privada, isto é, a apropriação sen- sível pelo homem e para o homem da essência e da vida humanas, do homem objetivo, das obras humanas, não deve ser concebida no sentido do gozo ime-

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diato, exclusivo, no sentido da posse, do ter. O homem apropria-se do seu ser glo- bal de forma global, isto é, como homem total. Cada uma de suas relações huma- nas com o mundo ver, ouvir, cheirar, saborear, sentir, pensar, observar, perceber, querer, atuar, amar —, em resumo, todos os órgãos de sua individuali- dade, como os órgãos que são imediatamente coletivos em sua forma, /VII/ são, em seu comportamento objetivo, em seu comportamento para com o objeto, a apropriação deste. A apropriação da efetividade humana, seu comportamento frente ao objeto, é a manifestação da efetividade humana; * eficácia humana e sofrimento humano, pois o sofrimento, humanamente entendido, é um gozo pró- prio do homem.

A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e unilaterais que um objeto é nosso quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando é imediatamente possuído, comido, bebido, vestido, habitado, em resumo, utilizado por nós. Se bem que a propriedade privada concebe, por sua vez, todas essas efetivações imediatas da posse apenas como meios de subsistência, e a vida, à qual elas servem de meios, é a vida da propriedade privada, o trabalho e a capitalização.

Em lugar de todos os sentidos físicos e espirituais apareceu assim a simples alienação de todos esses sentidos, o sentido do ter. O ser humano teve que ser reduzido a esta absoluta pobreza, para que pudesse dar à luz a sua riqueza inte- rior partindo de si. (Sobre a categoria do ter, veja-se Hess, nos Einundzwanzig Bogen.)

A superação da propriedade privada é por isso a emancipação total de todos os sentidos e qualidades humanos; mas é precisamente esta emancipação, porque todos estes sentidos e qualidades se fizeram humanos, tanto objetiva como subje- tivamente. O olho fez-se um olho humano, assim como seu objeto se tornou um objeto social, humano, vindo do homem para o homem. Os sentidos fizeram-se assim imediatamente teóricos em sua prática. Relacionam-se com a coisa por amor da coisa, mas a coisa mesma é uma relação humana e objetiva para si e para o homem º e inversamente. Carecimento e gozo perderam com isso sua natu- reza egoísta e a natureza perdeu sua mera utilidade, ao converter-se a utilidade em utilidade humana. Igualmente, os sentidos e o gozo dos outros homens converteram-se em minha própria apropriação. Além destes órgãos imediatos constituem-se assim órgãos sociais, na forma da sociedade; assim, por exemplo, a atividade imediatamente na sociedade com outros, etc., converte-se em um órgão de minha exteriorização de vida e um modo de apropriação da vida humana.

É evidente que o olho humano goza de modo distinto que o olho bruto, não humano, que o ouvido humano goza de maneira distinta que o bruto, etc.

Como vimos, o homem não se perde em seu objeto quando este se confi- gurar como objeto humano ou homem objetivado. E isso somente será possível

* É, por isto, tão múltipla quanto múltiplas são as destinações essenciais e as atividades do homem. S posso relacionar-me na prática de um modo humano com a coisa, quando a coisa se relaciona huma- namente com o homem.

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quando se lhe configurar como objeto social e quando ele mesmo se configurar como ser social, assim como a sociedade se configurará nesse objeto como ser para ele. Assim, enquanto, de um lado, para o homem em sociedade a efetividade objetiva se configura em geral como a efetividade das forças essenciais humanas, como efetividade humana e por isso como efetividade de suas próprias forças essenciais, todos os objetos se lhe apresentarão como objetivação de si próprio, como objetos que confirmam e efetivam sua individualidade, como seus objetos, isto é, o objeto vem a ser ele mesmo. Como vem a ser seu, depende da natureza do objeto e da natureza da força essencial que a ela corresponde, pois precisa- mente a determinidade (Bestimmtheit) dessa relação constitui o modo particular e efetivo da afirmação. O objeto se apresenta ao olho de maneira diferente do que ao ouvido, e o objeto do olho é diferente do objeto do ouvido. A peculiaridade de cada força essencial é justamente seu ser peculiar, logo também o modo peculiar de sua objetivação, de seu ser objetivo-efetivo, de seu ser vivo. Por isso o homem se afirma no mundo objetivo não apenas no pensar, /VIII/ mas também com todos os sentidos.

Por outro lado, e subjetivamente considerado: é primeiramente a música que desperta o sentido musical do homem; para o ouvido não musical a mais bela música não tem sentido algum, não é objeto, porque meu objeto pode ser a confirmação de uma de minhas forças essenciais, isto é, é para mim na medida em que minha força essencial é para si, como capacidade subjetiva, porque o sen- tido do objeto para mim (somente tem um sentido a ele correspondente) chega justamente até onde chega meu sentido; por isso também os sentidos do homem social são distintos dos do não social. É somente graças à riqueza objetivamente desenvolvida da essência humana que a riqueza da sensibilidade humana subje- tiva é em parte cultivada, e é em parte criada, que o ouvido torna-se musical, que o olho percebe a beleza da forma, em resumo, que os sentidos tornam-se capazes de gozo humano, tornam-se sentidos que se confirmam como forças essenciais humanas. Pois não os cinco sentidos, como também os chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor, etc.), em uma palavra, o sentido humano, a humanidade dos sentidos, constituem-se unicamente mediante o modo de existência de seu objeto, mediante a natureza humanizada. A formação dos cinco sentidos é um trabalho de toda a história universal atê nossos dias. O senti- do que é prisioneiro da grosseira necessidade prática tem apenas um sentido limi- tado. Para o homem que morre de fome não existe a forma humana da comida, mas apenas seu modo de existência abstrato de comida; esta bem poderia apre- sentar-se na sua forma mais grosseira, e seria impossível dizer então em que se distingue esta atividade para alimentar-se da atividade animal para alimentar-se. O homem necessitado, carregado de preocupações, não tem senso para o mais belo espetáculo. O comerciante de minerais não senão seu valor comercial, e não sua beleza ou a natureza peculiar do mineral; não tem senso mineralógico. A objetivação da essência humana, tanto no aspecto teórico como no aspecto práti- co, é, pois, necessária, tanto para tornar humano o sentido do homem, como para criar o sentido humano correspondente à riqueza plena da essência humana e natural.

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Assim como a sociedade em vir-a-ser (werdende) se encontra através do movimento da propriedade privada, de sua riqueza e sua miséria ou de sua riqueza e sua miséria espiritual e material —, todo o material para esta formação, do mesmo modo a sociedade que veio a ser (gewordene) produz, como sua efetivi- dade permanente, o homem nesta plena riqueza de seu ser, o homem rico e profundamente dotado de todos os seus sentidos. Vê-se pois, como somente no estado social, subjetivismo e objetivismo, espiritualismo e materialismo, atividade e passividade deixam de ser contrários e perdem com isso seu modo de existência como tais contrários; vê-se como a solução das mesmas oposições teóricas é possível de modo prático, é possível mediante a energia prática do homem e que, por isso, esta solução não é, de modo algum, tarefa exclusiva do conheci- mento, mas uma tarefa efetiva da vida que a Filosofia não pode resolver, precisa- mente porque a tomava unicamente como tarefa teórica.

Vê-se como a história da indústria e o modo de existência tornado objetivo da indústria são o livro aberto das forças humanas essenciais, a psicologia huma- na sensorialmente presente, que não havia sido concebida até agora em sua cone- xão com a essência do homem, mas apenas em uma relação externa de utilidade, porque movendo-se no interior da alienação se podia conceber como efetividade das forças humanas essenciais e como ação humana genérica a exis- tência geral do homem, a religião ou a história em sua essência geral e abstrata, como política, arte, literatura, etc.

/(IX/ Na indústria material costumeira (que pode ser concebida como parte daquele movimento geral, do mesmo modo que se pode conceber este como uma parte particular da indústria, pois até agora toda atividade humana era trabalho, isto é, indústria, atividade alienada de si mesma) temos perante nós, sob a forma de objetos sensíveis, estranhos e úteis, sob a forma da alienação, as forças essen- ciais objetivadas do homem. Uma psicologia para a qual permanece fechado este livro, isto é, justamente a parte mais sensorialmente atual e acessível da história, não pode tornar-se uma ciência efetiva, provida de conteúdo e real. O que se pode pensar de uma ciência que orgulhosamente faz abstração desta grande parte do trabalho humano e que não se sente incompleta, enquanto a tão propagada rique- za do atuar humano não lhe diz outra coisa que não seja o que se pode, talvez, dizer em uma palavra: carecimento, vulgar carecimento?

As ciências naturais desenvolveram uma enorme atividade e se apropriaram de um material que aumenta sem cessar. A filosofia, no entanto, permaneceu tão estranha para elas, como elas para a filosofia. A momentânea união foi apenas uma fantástica ilusão. Existia a vontade, mas faltava a capacidade. A própria historiografia de passagem se ocupa das ciências naturais enquanto momento de ilustração, de utilidade, de grandes descobrimentos particulares. Mas quanto mais praticamente a ciência natural, através da indústria, se introduziu na vida humana, transformou-a e preparou a emancipação humana, tanto mais teve que completar diretamente a desumanização. A indústria é a relação histórica efetiva da natureza, e por isso da ciência natural, com o homem; por isso, ao concebê-la como desvelamento esotérico das forças humanas essenciais, compreende-se tam-.

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bém a essência humana da natureza ou a essência natural do homem; com isto perde a ciência natural sua orientação abstrata, material, ou melhor, idealista, e se torna a base da ciência humana, do mesmo modo que se tornou ainda que de forma alienada a base da vida humana efetiva, e dar uma base à vida e outra à ciência ê, pois, de antemão, uma mentira. A natureza que vem a ser na história humana (no ato de nascimento da sociedade humana) é a natureza efetiva do homem; por isso a natureza é, tal como ela se tornou através da indústria, ainda que numa figura alienada, a verdadeira natureza antropológica. A sensi- bilidade (veja-se Feuerbach) deve ser a base de toda ciência. quando a ciência parte dela na dupla figura de consciência sensível e de carecimento sensível portanto, quando ela parte da natureza é ciência efetiva. A história toda é a história da preparação e do desenvolvimento, para que o “homem” se torne ob- jeto da consciência sensível e para que o carecimento do “homem enquanto homem” torne-se carecimento. A própria história é uma parte efetiva da história natural, do vir-a-ser da natureza no homem. As ciências naturais subsumirão mais tarde a ciência do homem, assim como a ciência do homem subsumirá as ciências naturais. Haverá então uma única ciência.

/X/ O homem é o objeto imediato da ciência natural; pois a natureza sensí- vel imediata para o homem é imediatamente a sensibilidade humana (uma expres- são idêntica), como o outro homem sensivelmente existente para ele; pois sua pró- pria sensibilidade através do outro existe para ele como sensibilidade humana. Mas a natureza é o objeto imediato da ciência do homem. O primeiro objeto do homem o homem é natureza, sensibilidade; e as forças essenciais, particu- lares, sensíveis e humanas, como encontram apenas nos objetos naturais sua efeti- vação, podem encontrar na ciência da natureza seu próprio conhecimento. O elemento do próprio pensar, o elemento da exteriorização de vida do pensamento a linguagem —, é natureza sensível. A realidade social da natureza e a ciência natural humana ou ciência natural do homem são expressões idênticas.

Vê-se como no lugar da riqueza e da miséria da economia política, surge o homem rico e o rico carecimento humano. O homem rico &, ao mesmo tempo, o homem carente de uma totalidade de exteriorização de vida humana, o homem no qual sua própria efetivação existe como necessidade (Notwendigkeit) interna, como carência (Not). Não a riqueza como também a pobreza do homem, adquirem igualmente do ponto de vista do socialismo um significado hu- mano e, por isso, social. A pobreza é o laço passivo, que faz com que o homem sinta como carecimento a maior riqueza, o outro homem. A dominação em mim do ser objetivo, a explosão sensível de minha atividade essencial, é a paixão que, com isso, se converte aqui na atividade de meu ser.

5.º) Um ser se considera autônomo, quando é senhor de si mesmo, e é senhor de si, quando deve a si mesmo seu modo de existência. Um homem que vive graças a outro, se considera a si mesmo um ser dependente. Vivo, no entanto, totalmente por graça de outro, quando lhe devo não a manutenção de minha vida, como também o fato de que ele além disso criou minha vida, é a fonte de minha vida; e minha vida tem necessariamente o fundamento fora de si mesma,

MANUSCRITOS ECONÔMICO-FILOSÓFICOS 21 quando não é minha própria criação. A criação é, por isso, uma representação muito difícil de eliminar da consciência do povo. O ser-por-si-mesmo da natureza e do homem é incompreensível, porque contradiz todos os fatos tangíveis da vida prática.

A criação da terra recebeu um potente golpe por parte da geognosia, isto é, da ciência que explica a formação da terra, seu desenvolvimento, como um pro- cesso, como autogênese. A generatio aequivoca é a única refutação prática da teoria da criação.

Ora, é realmente fácil dizer ao indivíduo singular o que Aristóteles disse: tu foste engendrado por teu pai e tua mãe, isto é, o coito de dois seres humanos, um ato genérico dos homens, produziu em ti o homem. Vês, pois, que inclusive fisicamente o homem deve ao homem sua existência. Por isto não deves fixar-te apenas em um aspecto, o progresso infinito, e perguntar sucessivamente quem engendrou meu pai, quem engendrou seu avó, etc. Deves fixar-te também no movimento circular, sensivelmente visível naquele progresso, no qual o homem se repete a si mesmo na procriação, e portanto, o homem permanece sempre sujeito. Tu responderás, porém: admito este movimento circular, mas admita o progresso que me leva cada vez mais longe, atê que eu pergunte: quem engendrou o pri- meiro homem e a natureza em geral? posso responder-te: tua própria pergunta é um produto da abstração. Pergunta-te como chegaste a essa pergunta; pergun- ta-te se tua pergunta não provém de um ponto de vista a que não posso responder, porque é um ponto de vista absurdo. Pergunta-te se esse progresso existe como tal para um pensamento racional. Quando perguntas pela criação do homem e da natureza, fazes abstração do homem e da natureza. Tu os supões como não exis- tentes, e queres que eu os prove a ti como existentes. Digo-te aperias: abandona tua abstração e assim abandonarás também tua pergunta, ou, se queres aferrar-te à tua abstração, consequente, e, se ainda que pensando o homem e a natureza como não existentes, pensas, /XI/ pensa-te a ti mesmo como não existente, pois tu também és natureza e homem. Não penses, não me perguntes, pois, enquanto pensas e perguntas, perde todo o sentido tua abstração do ser da natureza e do homem. Ou és tão egoísta, que colocas tudo como nada e queres ser somente tu?

Podes replicar-me: não quero postular o nada da natureza, etc.; pergunto-te pelo seu ato de nascimento, como pergunto ao anatomista pela formação dos OSSOS, etc.

No entanto, como para o homem socialista toda a assim chamada história universal nada mais é do que a produção do homem pelo trabalho humano, o vir-a-ser da natureza para o homem tem assim a prova evidente, irrefutável, de seu nascimento de si mesmo, de scu processo de origem. Ao ter-se feito evidente de uma maneira prática e sensível a essencialidade do homem na natureza; ao ter-se evidenciado, prática e sensivelmente, o homem para o homem como de existência da natureza e a natureza para o homem como o modo de existência do homem, tornou-se praticamente impossível perguntar por um ser estranho, por um ser situado acima da natureza e do homem uma pergunta que encerra o reconhecimento da não-essencialidade da natureza e do homem. O ateísmo

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enquanto negação desta não-essencialidade carece totalmente de sentido, pois o ateísmo é uma negação de Deus e afirma, mediante esta negação, a existência do homem; mas o socialismo, enquanto socialismo, não necessita de tal media- ção; ele parte da consciência sensível, teórica e prática, do homem e da natureza como essência. É autoconsciência positiva, humana, que dispensa a mediação da superação da religião, do mesmo modo que a vida efetiva é a efetividade positiva do homem, que dispensa a mediação pela superação da propriedade privada, o comunismo. O comunismo é a posição como negação da negação e, pois, O momento da emancipação e recuperação humanas, momento efetivo e necessário para o movimento histórico seguinte. O comunismo é a configuração necessária e o princípio energético do futuro próximo, mas o comunismo não é como tal, o objetivo do desenvolvimento humano, a configuração da sociedade humana.

[Necessidade, produção e divisão do trabalho!

/XIV/ 7.º) Vimos que significação tem, do ponto de vista do socialismo, a riqueza das necessidades humanas e, por isso, que significação têm tanto um novo modo de produção como um novo objeto da mesma. Nova afirmação da força essencial humana e novo enriquecimento da essência humana. No interior da propriedade privada, o significado inverso. Cada indivíduo especula sobre o modo de criar no outro uma nova necessidade para obrigá-lo a um novo sacrifí- cio, para levá-lo a uma dependência, para desviá-lo para uma nova forma de gozo e com isso, da ruína econômica. Cada qual trata de criar uma força essencial estranha sobre o outro, para encontrar assim satisfação para seu próprio careci- mento egoísta. Com a massa de objetos cresce, pois, o reino dos seres alheios aos quais o homem está submetido e cada novo produto é uma nova potência do en- gano recíproco e da pilhagem recíproca. O homem torna-se cada vez mais pobre enquanto homem, precisa cada vez mais do dinheiro para apossar-se do ser inimi- go, e o poder do seu dinheiro diminui em relação inversa à massa da produção; isto é, seu carecimento (Beduirftigkeit) cresce quando o poder do dinheiro aumen- ta. A necessidade (Bediirfnis) do dinheiro é assim a verdadeira necessidade produzida pela economia política e a única necessidade que ela produz. A quantidade de dinheiro torna-se cada vez mais sua única propriedade dotada de poder. Assim como ele reduz todo ser à sua abstração, assim se reduz em seu pró- prio movimento, a ser quantitativo. A ausência de medida e a desmedida passam a ser sua verdadeira medida. Inclusive subjetivamente isto se mostra, em parte, no fato de que o aumento da produção e das necessidades se converte no escravo engenhoso e sempre calculador de apetites desumanos, refinados, antina- turais e imaginários a propriedade privada não sabe fazer da necessidade bruta necessidade humana; seu idealismo é a fantasia, a arbitrariedade, o capri- cho; nenhum eunuco adula mais baixamente seu déspota ou procura com os meios mais infames estimular sua capacidade embotada de gozo, a fim de obter

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um favor, do que o eunuco industrial, o produto, para granjear para si mais moe- ' das de prata e para fazer sair ovos de ouro do bolso de seus próximos. cristã- mente amados (cada produto é uma isca com a qual se quer atrair o ser dos outros, seu dinheiro; toda necessidade real ou possível é uma fraqueza que arras- tará as moscas ao melado exploração universal da essência coletiva do homem; assim como toda imperfeição do homem é um laço com os céus, um laço pelo qual seu coração é acessível ao sacerdote; toda carência oferece uma ocasião para aparecer do modo mais amável diante do próximo e dizer-lhe: querido amigo, dou-te o que necessitas, mas conheces a conditio sine qua non, sabes com que tinta tens que assinar o compromisso que te liga a mim; engano-te enquanto te proporciono gozo). O produtor submete-se aos mais abjetos capri- chos do seu próximo, desempenha o papel de proxeneta entre ele e suas necessida- des, desperta-lhe apetites mórbidos e espreita todas as suas fraquezas, para exigir dele, depois, a propina por estes bons serviços. Esta alienação manifesta-se, em parte, enquanto produz o refinamento das necessidades (Bediirfnis) e de seus meios, por um lado, e bestial selvageria, completa, brutal e abstrata simplicidade dos carecimentos (Bediirfnis) de outro; ou mais ainda: ela apenas engendra de novo a si mesma com um sentido oposto. Mesmo a necessidade de ar livre deixa de ser no operário um carecimento; o homem retorna à caverna, envenenada agora pela pestilência mefitica da civilização, e ele a habita apenas precaria- mente, como um poder estranho, que pode escapar dele a cada dia, e da qual pode a cada dia ser expulso, se não pagar. /XV/ Tem que pagar por esta casa dos mor- tos. A morada da luz que Prometeu designa, em Ésquilo, como um dos maiores presentes que lhe permitiu converter o selvagem em homem, deixa de existir para o operário. A luz, o ar, etc., a mais simples limpeza animal, deixa de ser uma necessidade para o homem. O lixo, esta corrupção e podridão do homem, a cloa- ca (em sentido literal) da civilização, torna-se para ele um elemento de vida. O abandono totalmente antinatural, a natureza podre, convertem-se em seu ele- mento de vida. Nenhum de seus sentidos existe mais, nem em seu modo humano, nem de modo desumano e nem sequer de modo animal. Os modos (e ins- trumentos) do trabalho humano mais grosseiros retornam, como o moinho a tra- ção dos escravos romanos, convertidos em modo de produção e de existência de muitos operários ingleses. Não o homem não tem nenhum carecimento (Bedurfnis) humano, como inclusive os carecimentos animais acabam. O irlandês não conhece outra necessidade (Bediirfnis) senão a de comer, e, mais precisa- mente, a de comer batatas, e para sermos mais exatos, a de comer batatas estra- gadas, a pior espécie de batata. Mas Inglaterra e França têm em cada cidade industrial uma pequena Irlanda. O selvagem, o animal, tem necessidade de caça, de movimento, etc., de companhia. A simplificação da máquina, do trabalho, é utilizada para converter em operário o homem que ainda está se formando, o homem ainda não formado a criança—, assim como o operário tornou-se uma criança totalmente abandonada. A máquina acomoda-se à fraqueza do homem, para converter o homem fraco em máquina.

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O economista (e o capitalista; em geral falamos sempre dos homens de negó- cios empíricos quando nos dirigimos aos economistas, que são sua afirmação e modo de existência científicos) prova como o crescimento das necessidades (Bedhirfnis) e dos recursos engendra a privação de necessidades e de recursos: 1.º) ao reduzir a necessidade do operário à mais imprescindível e miserável manuten- ção da vida física, e sua atividade ao mais abstrato movimento mecânico, o eco- nomista afirma que o homem não tem nenhuma necessidade de atividade nem de gozo e declara que esta vida é também vida e modo de existência humanas; 2.º) ao calcular a vida (existência) mais pobre possível como a medida, e aliás como a medida geral: geral porque vale para a massa dos homens, faz do operário um ser sem sentidos e privado de necessidades, do mesmo modo que faz de sua atividade pura abstração de toda atividade; por isso, todo luxo do operário parece-lhe censurável e tudo o que excede à mais abstrata necessidade tanto como gozo passivo ou como exteriorização de atividade configura-se-lhe um luxo. A eco- nomia política, esta ciência da riqueza, é assim também ao mesmo tempo a ciên- cia da renúncia, da privação, da poupança e chega realmente a poupar ao homem a necessidade de ar puro e de movimento físico. Esta ciência da maravilhosa indústria é ao mesmo tempo a ciência do ascetismo, e seu verdadeiro ideal é o avaro ascético, mas usurário, e o escravo ascético, mas produtivo. Seu ideal moral é o trabalhador que leva à caixa econômica uma parte de seu salário e, para esta sua idéia favorita encontrou até uma arte servil. Isto foi levado ao teatro de forma sentimental. Por isso, a economia política, apesar de sua aparência mundana e prazerosa, é uma verdadeira ciência moral, a mais moral das ciências. A auto-renúncia, a renúncia à vida e a todo o carecimento humano é seu dogma fundamental. Quanto menos comas e bebas, quanto menos livros compres, quan- to menos vás ao teatro, ao baile, à taverna, quanto menos penses, ames, teorizes, cantes, pintes, esgrimes, etc., tanto mais poupas, tanto maior se torna teu tesouro, que nem traças nem poeira devoram, teu capital. Quanto menos és, quanto menos exteriorizas tua vida, tanto mais tens, tanto maior é a tua vida alienada e tanto mais armazenas da tua essência alienada. Tudo /XVI/ o que o economista tira-te em vida e em humanidade, tudo isso ele te restitui em dinheiro e riqueza, e tudo o que não podes, pode-o teu dinheiro. Ele pode comer, beber, ir ao teatro e ao baile; conhece a arte, a sabedoria, as raridades históricas, o poder político; pode viajar, pode fazer-te dono de tudo isto, pode comprar tudo isto; é a verdadeira fortuna. Mas sendo tudo isto, o dinheiro não pode mais que criar-se a si mesmo, comprar-se a si mesmo, pois tudo o mais é seu escravo, e, quando eu tenho o senhor, tenho o servo e não preciso dele. Todas as paixões e toda atividade devem, pois, afundar-se na avareza. O trabalhador deve ter o suficiente para querer viver e deve querer viver para ter.

Contudo, verifica-se uma controvérsia no campo da economia política. Um grupo (Lauderdale, Malthus, etc.) recomenda o luxo e amaldiçoa a poupança; o outro (Say, Ricardo, etc.) recomenda a poupança e amaldiçoa o luxo. Mas o pri- meiro confessa que quer o luxo para produzir o trabalho, isto é, a poupança abso- luta, e o segundo confessa que recomenda a poupança para produzir a riqueza, isto é, o luxo. O primeiro grupo tem a romântica ilusão de que a avareza não deve

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apenas determinar o consumo dos ricos e contradiz suas próprias leis, ao apresen- tar o esbanjamento diretamente como um meio de enriquecimento; e o grupo oposto demonstra, pois, de modo muito sério e pormenorizado, que, por meio do esbanjamento meu ter diminui, e não aumenta. Este segundo grupo comete a hipocrisia de não confessar que precisamente o capricho e o humor determinam a produção; esquece a “necessidade refinada”; esquece que sem consumo não se produziria; esquece que, através da concorrência, a produção de tornar-se mais geral, mais luxuriosa; esquece que o uso determina o valor da coisa e que a moda determina o uso; deseja ver produzido apenas “o útil”, mas esquece que a produção de demasiadas coisas úteis produz demasiada população inútil. Ambos Os grupos esquecem que esbanjamento e poupança, luxo e abstinência, riqueza e pobreza são iguais.

E não deves poupar somente teus sentidos imediatos, como comer, etc., mas também a participação em interesses gerais (compaixão, confiança, etc.); tudo isto deves poupar se quiseres ser econômico e não quiseres morrer de ilusões.

Tudo o que é teu deves fazê-lo venal, isto é, útil. Se pergunto ao economista: obedeço às leis econômicas se consigo dinheiro com a entrega, com a venda de meu corpo ao prazer alheio? (os operários fabris em França chamam a prostitui- ção de suas esposas e filhas de enésima hora de trabalho, o que é literalmente certo); não atuo de modo econômico ao vender meu amigo aos marroquinos? (e a venda direta dos homens na qualidade de comércio de recrutas, etc., tem lugar em todos os países civilizados), assim o economista me responde: não ages contra minhas leis, mas olha o que dizem a senhora Moral e a senhora Religião; minha moral e minha religião econômicas não têm nada que censurar-te. Mas em quem tenho eu que acreditar então, na economia política ou na moral? A moral da eco- nomia política é o ganho, o trabalho e a poupança, a sobriedade, mas a economia política promete satisfazer a minhas necessidades. A economia política da moral é a riqueza de boa consciência, de virtude, etc. Mas como posso ser virtuoso, se não sou? Como posso ter boa consciência, se não sei nada? Tudo isto está funda- do na essência da alienação: cada uma aplica-me uma medida diferente e oposta, a moral aplica-me uma e a economia política outra, porque cada uma destas é uma determinada alienação do homem e /XVII/ fixa um círculo particular da ati- vidade essencial alienada; cada uma delas se relaciona de forma alienada com a outra alienação (...). Assim o senhor Michel Chevalier acusa Ricardo de fazer abstração da moral. Ricardo, no entanto, deixa a economia política falar sua lin- guagem própria. Se esta não fala moralmente, a culpa não é de Ricardo. M. Che- valier faz abstração da economia política enquanto moraliza, mas, necessária e efetivamente, faz abstração da moral, enquanto pratica a economia política. A relação da economia política com a moral, quando não é arbitrária, casual e por isso infundada e não-científica, quando não é uma aparência, mas quando é considerada como essencial, não pode ser senão a relação das leis econômicas com a moral. Que pode fazer Ricardo se esta relação não existe ou se o que existe é antes o contrário? Além disso, também a oposição entre economia política e moral é uma aparência, e assim sendo, não oposição alguma. A economia política apenas expressa ao seu modo as leis morais.

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A privação de necessidade como princípio da economia política resplandece sobretudo em sua teoria da população. demasiados homens. Inclusive a exis- tência dos homens é um puro luxo, e, se o operário é moral (Mill propõe louvores públicos para aqueles que se mostrem continentes nas relações sexuais e uma condenação pública para aqueles que pequem contra esta esterilidade do matri- mônio... Não é esta a doutrina moral do ascetismo?), será econômico na procriação. A produção do homem aparece como desgraça pública.

O sentido que a produção tem com relação aos ricos manifesta-se clara- mente no sentido que tem para os pobres; para cima, sua manifestação ê sempre refinada, encoberta, ambígua, aparência; para baixo, grosseira, direta, franca, essência. A grosseira necessidade do trabalhador é uma fonte de lucros maior que a necessidade refinada do rico. As moradias nos porões de Londres rendem mais aos que as alugam que os palácios, isto é, elas são, em relação a eles, uma riqueza maior, e portanto, falando em termos de economia política, são uma riqueza so- cial maior. E, assim como a indústria especula sobre o refinamento das neces- sidades, assim também especula sobre sua crueza, sobre sua crueza artificial- mente produzida, cujo verdadeiro gozo é o auto-aturdimento, essa aparente satisfação das necessidades. As tavernas inglesas são, pois, representações simbó- licas da propriedade privada. Seu luxo mostra a verdadeira relação do luxo e da riqueza industriais com o homem. Por isso são, com razão, os únicos diverti- mentos dominicais do povo, que a polícia inglesa trata pelo menos com suavidade.

/XVIII/ vimos como o economista estabelece a unidade do trabalho e do capital de diversas formas: 1.º) o capital é trabalho acumulado; 2.º) a determina- ção do capital no interior da produção, em parte a reprodução do capital com ganho, em parte o capital como matéria-prima (matéria do trabalho), em parte como instrumento que trabalha por si mesmo a máquina é o capital posto imediatamente como idêntico ao trabalho é o trabalho produtivo; 3.º) o operá- rio é um capital; 4.º) o salário faz parte dos custos do capital; 5.º) no que diz res- peito ao operário, o trabalho é a reprodução do seu capital vital; 6.º) no que diz respeito ao capitalista, é um fator de atividade do seu capital.

Finalmente, 7.º) o economista supõe a unidade originária de ambos como unidade do capitalista e do operário; esta é a paradisíaca situação primitiva. O fato de estes dois momentos /XIX/ avançarem um para o outro como duas pes- soas é, para o economista, um acontecimento casual e por isso pode ser expli- cado exteriormente. (Veja-se Mill.) As nações que estão ainda ofuscadas pelo brilho dos metais preciosos, e que por isso adoram ainda o fetiche do dinheiro- metal, não são ainda as nações de dinheiro perfeitas. Oposição entre França e Inglaterra. No fetichismo, por exemplo, vê-se até que ponto a solução dos enig- mas teóricos é uma tarefa da prática, uma tarefa cuja mediação é a prática, até que ponto a verdadeira prática é a condição de uma teoria positiva efetiva. A consciência sensível do fetichista é diferente da do grego porque seu modo de existência sensível também é diferente. A inimizade abstrata entre sensibilidade e espírito é necessária, enquanto o sentido humano para a natureza, o sentido hu-

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mano da natureza e, portanto, também q sentido natural do homem, não for pro- duzido pelo próprio trabalho do homem. A igualdade nada mais é do que o eu = eu alemão traduzido em francês, isto é, em forma política. A igualdade como fundamento do comunismo é uma fundamentação política, e a mesma coisa se passa quando o alemão o fundamenta na medida em que concebe o homem como autoconsciência geral. É evidente que a superação da alienação se sempre a partir da forma da alienação que constitui a potência dominante: na Alemanha, a autoconsciência; na França, a igualdade, por causa da política; na Inglaterra, a necessidade prática, material, real, que se toma por única medida. Deste ponto de vista deve-se criticar e apreciar Proudhon. Se caracterizarmos ainda o próprio comunismo (porque é a negação da negação, a apropriação da essência humana através da negação da própria propriedade privada, por isso ainda não como a posição verdadeira, que parte de si mesma, mas antes como a posição que parte da propriedade privada) *(...) a alienação da vida humana permanece e con- tinua sendo tanto maior, quanto mais consciência dela como tal se tem pode ser realizado, assim mediante o comunismo posto em prática pode realizar-se. Para superar o pensamento da propriedade privada, basta o comunismo pensado. Para suprimir a propriedade privada efetiva, é necessário uma ação comunista efetiva. A história virá trazê-la, e aquele movimento que conhecemos em pen- samento como um movimento que se supera a si mesmo percorrerá na realidade um processo muito duro e muito extenso. Devemos considerar, no entanto, como um progresso verdadeiro e efetivo o fato de que tenhamos tomado de antemão consciência tanto da limitação como da finalidade do movimento histórico uma consciência que o ultrapassa.

Quando os artesãos comunistas se associam, sua finalidade é inicialmente a doutrina, a propaganda, etc. Mas com isso e ao mesmo tempo apropriam-se de uma nova necessidade, a necessidade de associação, e, o que parecia meio, converteu-se em fim. Pode-se observar este movimento prático em seus resultados mais brilhantes, quando se vêem reunidos os operários socialistas franceses. não necessitam de pretextos para reunir-se, de mediadores como o fumo, a bebi- da, a comida, etc. A vida em sociedade, a associação, a conversa, que por sua vez têm a sociedade como fim, lhes bastam. Entre eles, a fraternidade dos homens não é nenhuma fraseologia, mas sim uma verdade, e a nobreza da humanidade brilha nessas figuras endurecidas pelo trabalho.

/XX/ Quando a economia política afirma que a oferta e a procura se equili- bram mutuamente, está ao mesmo tempo esquecendo que, segundo sua própria afirmação, a oferta de homens (teoria da população) excede sempre a procura, e que, portanto, a desproporção entre a oferta e a procura encontra sua expressão mais decisiva no resultado essencial de toda a produção a existência do homem.

Na medida em que é o dinheiro, que aparece como meio, o verdadeiro poder e o único fim; na medida em que o meio em geral, que me faz ser, que faz meu o

* A página do manuscrito está rasgada no canto esquerdo. Restam apenas as últimas palavras de seis linhas, o que é insuficiente para reconstituir a passagem por inteiro. (N. do T.)

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ser objetivo estranho, é um fim em si mesmo (...), é o que se pode ver no fato de como a propriedade da terra (ali onde a terra é a fonte da vida), o cavalo e a espa- da (ali onde eles são o verdadeiro meio de vida) são reconhecidos também como as verdadeiras forças políticas da vida. Na Idade Média um estamento se eman- cipa tão logo tenha direito a portar a espada. Entre os povos nômades, é o cavalo que me torna livre e membro da coletividade.

Havíiamos dito antes que o homem retorna à caverna, etc., mas de uma forma alienada, hostil. O selvagem em sua caverna este elemento natural que se oferece espontaneamente para seu gozo e proteção não se sente estranho, ou, melhor dito, se sente tão à vontade como um peixe na água. Mas o quarto de porão do pobre é uma habitação hostil, que “retém uma potência estranha, que se entrega a ele quando ele entregar a ela seu suor e seu sangue”, habitação que ele não pode considerar como lar onde, finalmente, pudesse dizer: aqui estou em casa —, onde ele se encontra muito mais em uma casa estranha, na casa de outro que o espreita diariamente e que o expulsa se não pagar o aluguel. Igual- mente, do ponto de vista da qualidade, sua casa como o oposto à habitação hu- mana situada no além, no céu da riqueza.

A alienação aparece tanto no fato de que meu meio de vida é de outro, que meu desejo é a posse inacessível de outro, como no fato de que cada coisa é outra que ela mesma, que minha atividade é outra coisa, e que, finalmente (e isto é váli- do também para o capitalista), domina em geral o poder desumano. A destinação da riqueza esbanjadora, inativa e entregue ao gozo, cujo beneficiário atua, de um lado, como um indivíduo somente instável, que desperdiça suas energias, que con- sidera o trabalho escravo alheio o suor sangrento dos homens como presa de seus apetites e que, por isso, considera o próprio homem (e com isto a si pró- prio) como um ser sacrificado e nulo (o desprezo do homem aparece, assim, em parte como arrogância, como esbanjamento daquilo que poderia prolongar cente- nas de vidas humanas, e em parte como a infame ilusão de que seu desperdício desenfreado e incessante, seu consumo improdutivo condicionam o trabalho e, por isso, a subsistência dos demais), esta destinação encara a efetivação das for- ças humanas essenciais apenas como efetivação de sua não-essência (Unwesen), de seus humores, de seus caprichos arbitrários e bizarros. Esta riqueza que, no entanto, por outro lado, se considera a si mesma como um puro meio, uma coisa digna de aniquilação, que é ao mesmo tempo escravo e senhor, generosa e mes- quinha, caprichosa, vaidosa, petulante, refinada, culta e engenhosa, esta riqueza não experimentou ainda em si mesma a riqueza como um poder totalmente estra- nho; ela apenas seu próprio poder e não a riqueza, mas sim o gozo, é seu obje- tivo final. Este (...)'

/[XXI/(...) e com a brilhante ilusão sobre a essência da riqueza, tornada cega pela aparência sensível, defronta-se o industrial laborioso, sóbrio, prosaico, econômico, esclarecido sobre a essência da riqueza que, assim como cria para a sua ânsia de gozo um círculo mais amplo, ao lisonjeá-lo com suas produções

Uma parte da página do manuscrito está rasgada; faltam cerca de três linhas. (N. do T.)

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seus produtos são igualmente cumprimentos abjetos aos apetites do esbanjador —., também sabe apropriar-se, do único modo útil, do poder que escapa àquele. Se inicialmente a riqueza industrial parece resultado da riqueza fantástica, esban- Jjadora, assim o movimento da primeira reprime, de modo ativo, o movimento próprio da última. A queda dos juros do dinheiro é com efeito uma conseqiiência necessária e resultado do movimento industrial. Os meios daquele que vive de rendas e é esbanjador diminuem, pois, diariamente em proporção inversa ao aumento dos meios e dos ardis do gozo. Ele é obrigado assim a devorar seu capi- tal, quer dizer, a arruinar-se, ou a converter-se em capitalista industrial (.. .). Por outro lado, a renda da terra aumenta direta e continuamente através da marcha do movimento industrial, mas como vimos chega necessariamente um momento em que a propriedade da terra deve cair, como qualquer outra proprie- dade, na categoria de capital que se reproduz com lucro, e isto é, sem dúvida, o resultado do mesmo movimento industrial. Também o proprietário fundiário esbanjador deve pois devorar seu capital, quer dizer, arruinar-se ou converter-se em arrendatário de sua própria terra, em industrial agricultor. A diminuição dos juros do dinheiro que Proudhon considera como a superação do capital e como tendência à socialização do capital é assim diretamente apenas um sin- toma do triunfo completo do capital trabalhador sobre a riqueza esbanjadora, isto é, a transformação de toda a propriedade privada em capital industrial o triunfo absoluto da propriedade privada sobre todas as qualidades aparentemente humanas da mesma e a total submissão do proprietário privado à essência da propriedade privada ao trabalho. Na verdade também o capitalista industrial goza. Ele não retorna de modo algum à simplicidade natural do carecimento, mas seu gozo é apenas coisa secundária, repouso, gozo subordinado à produção e por- tanto mais calculado, e mesmo mais económico, pois o capitalista soma seu gozo aos custos do capital, e, por isso, aquele deve custar-lhe apenas uma quantia tal que o que foi esbanjado seja restituído pela reprodução do capital mais o lucro. O gozo é subordinado ao capital e o indivíduo que goza é subordinado àquele que capitaliza, enquanto antes sucedia o contrário. A diminuição dos juros não é assim um sintoma da superação do capital senão na medida em que é um sintoma do término de sua dominação, um sintoma da alienação que se acaba e que acele- ra sua superação. Este é o único modo pelo qual o existente comprova o seu contrário. A querela dos economistas sobre o luxo e a poupança é, portanto, ape- nas uma querela daquela parte da economia política que compreendeu a essência da riqueza com aquela outra que é ainda prisioneira de recordações românticas e antiindustriais. Nenhuma das duas partes sabe, no entanto, reduzir o objeto da disputa à sua expressão simples e, consequentemente, nunca chegarão a um acor- do mútuo. /XXI/

/XXXIV/ Além disso, a renda da terra, enquanto renda da terra, foi invali- dada, pois, em oposição ao argumento dos fisiocratas de que o proprietário de terras é o único produtor verdadeiro, a economia política moderna demonstrou que o proprietário de terras, enquanto tal, é muito mais a única pessoa que vive de rendas totalmente improdutiva. A agricultura seria assunto do capitalista, que

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daria este emprego a seu capital, quando pudesse esperar dela o lucro costumeiro. A colocação dos fisiocratas de que a propriedade da terra como única proprie- dade produtiva é a única que tem de pagar impostos ao Estado e, portanto, tam- bém a única que tem que aprová-los e que deve tomar parte no organismo do Es- tado transforma-se assim na afirmação inversa de que o imposto sobre a renda da terra é o único imposto sobre um ingresso improdutivo e por isso o único imposto que não é nocivo à produção nacional. É evidente que, assim entendido, também o privilégio político do proprietário de terras não decorre de sua situação de principal contribuinte. ú

Tudo o que Proudhon entende por movimento do trabalho contra o capital nada mais é do que o movimento do trabalho na determinação do capital, do capital industrial, contra o capital que não se consome como capital, isto é, industrialmente. E este movimento segue seu caminho vitorioso, isto é, o caminho da vitória do capital industrial. Vê-se, pois, que quando se entende o traba- lho como essência da propriedade privada é que se pode penetrar o movimento econômico como tal em sua determinação real.

A sociedade tal como aparece para os economistas é a sociedade civil, na qual cada indivíduo é o conjunto de carecimentos e existe para o outro /[XXXV/ como o outro existe para ele, na medida em que se convertem em meio um para o outro. O economista do mesmo modo que a política em seus Direitos do Homem reduz tudo ao homem, isto é, ao indivíduo, do qual elimi- na toda determinação, para fixá-lo como capitalista ou como operário.

A divisão do trabalho é a expressão econômica do caráter social do trabalho no interior da alienação. Ou, posto que o trabalho não é senão uma expressão da atividade humana no interior da alienação, da exteriorização da vida como alie- nação da vida, assim também a divisão do trabalho nada mais é do que o pôr alienado, alheado da atividade humana enquanto atividade genérica real ou como atividade do homem enquanto ser genérico.

A respeito da essência da divisão do trabalho que naturalmente teria que ser considerada como o motor principal da produção da riqueza —, tão logo se reconhecesse o trabalho como a essência da propriedade privada isto é, a res- peito desta figura alienada e alheada da atividade humana como atividade genéri- ca, os economistas são muito obscuros e contraditórios.

Adam Smith: “A divisão do trabalho não deve sua origem à sabedoria humana. É a consegiiência necessária, lenta e gradual da propensão para a troca e para o tráfico recíproco dos produtos. Esta propensão para negociar é provavel- mente uma consequência necessária do uso da razão e da palavra. É comum a todos os homens e não se em nenhum animal. O animal, tão logo se faça adul- to, vive de seu próprio esforço. O homem necessita constantemente do apoio dos demais, e esperaria em vão se fosse contar com sua mera benevolência. É muito mais seguro dirigir-se a seu interesse pessual e convencê-los de que fazer o que deles se espera os beneficia a si mesmos. Quando nos dirigimos aos demais, não o fazemos à sua humanidade, mas sim a seu egoísmo; nunca lhes falamos de nos- sas necessidades, mas sim da sua conveniência. De qualquer modo, é através da troca, do comércio, do tráfico, que recebemos a maior parte dos bons serviços

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que reciprocamente necessitamos, é esta propensão para o tráfico que deu origem à divisão do trabalho. Assim, por exemplo, em uma tribo de caçadores ou pasto- res alguém que faz arcos e flechas com mais rapidez e habilidade que os demais. Frequentemente troca estes instrumentos com seus companheiros por gado e caça, e rapidamente se conta de que por este meio consegue maior quantidade destes produtos, do que se ele mesmo fosse caçar. Com um cálculo interessado passa a fazer da fabricação de arcos, etc., sua ocupação principal. A diferença dos talentos naturais entre os indivíduos não é tanto a causa, como o efeito da divisão do trabalho (. . .). Sem a disposição dos homens para o comér- cio e para a troca, cada um se veria obrigado a satisfazer por si mesmo todas as necessidades e comodidades da vida. Todos teriam que realizar a mesma tarefa e não se teria produzido esta grande diferença de ocupações que é a única que pode engendrar a grande diferença de talentos. E, assim como é essa propensão para a troca que engendra a diversidade de talentos entre os homens, é também essa pro- pensão que faz útil tal diversidade. Muitas raças animais, ainda que perten- centes à mesma espécie, receberam da natureza uma diversidade de caráter muito mais evidenciada que aquela que se pode encontrar entre os homens não civiliza- dos. Por natureza não existe entre um filósofo e um carregador de fardos nem a metade da diferença que entre um mastim e um galgo, entre um galgo e um perdigueiro ou entre qualquer destes e um cão pastor. Contudo, estas diferentes raças, ainda que pertencendo todas a uma mesma espécie, não têm utilidade umas para as outras. O mastim não acrescenta nenhuma vantagem à sua força por ser- vir-se da ligeireza do galgo, etc. Os efeitos destes diferentes talentos ou graus de inteligência não comportam um denominador comum, porque falta a capacidade ou a propensão para a troca e para o comércio e não podem, portanto, contribuir em nada para a vantagem ou a comodidade geral da espécie (...). Cada animal deve alimentar-se e proteger-se a si mesmo, independentemente dos demais; não pode obter a mínima vantagem da diversidade de talentos que a natureza distribui entre seus semelhantes. Entre os homens, ao contrário, os talentos mais diversos são úteis uns aos outros, porque, mediante esta propensão geral para o comércio e para a troca, os diferentes produtos dos diferentes tipos de atividade podem ser postos, por assim dizer, em uma massa comum, à qual cada um pode ir comprar uma parte dos produtos da indústria dos demais, de acordo com suas necessida- des. Como esta propensão para a troca origem à divisão do trabalho, o crescimento desta divisão estará sempre limitado pela expansão da capacidade de trocar ou, dito em outras palavras, pela expansão do mercado. Se o mercado é muito pequeno, ninguém se animará a dedicar-se inteiramente a uma única ocu- pação, frente ao temor de não poder trocar aquela parte da sua produção que ex- cede às suas necessidades pelo excedente da produção de outro que desejaria adquirir (. . .)”. Numa situação de maior progresso: “Todo homem vive da troca e se converte em uma espécie de comerciante e a própria sociedade é realmente uma sociedade mercantil. (Veja-se Destutt de Tracy: A sociedade é uma série de trocas recíprocas, no comércio está a essência de toda a sociedade (...)) A acumulação de capitais cresce com a divisão do trabalho e vice-versa”. Até aqui Adam Smith.

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“Se cada família produzisse a totalidade dos objetos de seu consumo, a sociedade poderia caminhar ainda que não se fizesse nenhuma espécie de troca; sem ser fundamental, a troca é indispensável no estágio avançado de nossa socie- dade; a divisão do trabalho é um hábil emprego das forças do homem, que aumenta, em consequência, os produtos da sociedade, seu poder e seus prazeres, mas reduz, diminui a capacidade de cada homem considerado individualmente. Não pode haver produção sem troca.” Assim fala J. B. Say.

“As forças inerentes ao homem são: sua inteligência e sua aptidão física para o trabalho; as que derivam do estado social consistem na capacidade de dividir o trabalho e de repartir entre os diferentes homens os diversos trabalhos e na faculdade de trocar os serviços recíprocos e os produtos que constituem seu meio. O motivo pelo qual um homem consagra a outro seus serviços é o egoismo Oo homem exige uma recompensa pelos serviços prestados a outrem. O direito a propriedade privada exclusiva é, pois, indispensável para que se possa estabe- lecer a troca entre os homens. Troca e divisão do trabalho condicionam-se reciprocamente.” É o que diz Skarbek.

Mill apresenta a troca desenvolvida, o comércio, como consequência da divisão do trabalho.

“A atividade do homem pode reduzir-se a elementos muito simples. Ele não pode, com efeito, fazer outra coisa senão produzir movimento; pode mover as coisas para afastá-las /XXXVII/ ou aproximá-las umas das outras; as proprie- dades da matéria fazem o resto. No emprego do trabalho e das máquinas ocorre com frequência que se podem aumentar os efeitos por meio de uma hábil divisão, de uma separação das operações que se contrariam, e por meio da unificação de todas aquelas que, de alguma maneira, podem facilitar-se mutuamente. Como, em geral, os homens não podem executar muitas operações distintas com a mesma habilidade e velocidade, e como o hábito lhes esta capacidade para a realiza- ção de um pequeno número, sempre é vantajoso que se limite, dentro do possível, o número de operações confiadas a cada indivíduo. Para a divisão do trabalho e a repartição da força dos homens de maneira mais vantajosa, é necessário operar em grande escala com muitos casos, ou, em outras palavras, produzir as riquezas em massa. Esta vantagem é o motivo que originou as grandes manufaturas, um pequeno número das quais, estabelecidas em condições vantajosas, abastecem frequentemente com os objetos por elas produzidos não um, mas sim vários países, nas quantidades que eles requerem.” Assim se expressa Mill.

Toda a economia política moderna está de acordo, no entanto, em que divi- são do trabalho e riqueza da produção, divisão do trabalho e acumulação do capital se condicionam reciprocamente, assim como no fato de que a proprie- dade privada liberada, entregue a si mesma, pode produzir a mais útil e a mais ampla divisão do trabalho.

A exposição de Adam Smith pode ser assim resumida: a divisão do trabalho a este uma infinita capacidade de produção. Está baseada na propensão para a troca e para o tráfico, uma propensão especificamente humana, que provavel- mente não é casual, mas sim condicionada pelo uso da razão e da linguagem. O

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motivo daquele que troca não é a humanidade, mas o egoísmo. A diversidade dos talentos humanos é mais o efeito do que a causa da divisão do trabalho, isto é, da troca. É também apenas esta última que torna útil aquela diversidade. As proprie- dades particulares das diferentes raças de uma espécie animal são por natureza mais distintas que a diversidade de dons e atividades humanas. Mas como os ani- mais não podem trocar, nenhum indivíduo animal se aproveita da propriedade diferente de um animal da mesma espécie, mas de raças distintas. Os animais não têm capacidade para reunir as diversas propriedades da sua espécie; não são capazes de contribuir em nada para o proveito e o bem-estar comum de sua espé- cie. Outra coisa sucede com o homem, no qual talentos e formas de atividade mais díspares se beneficiam reciprocamente, porque podem reunir seus diferentes produtos em uma massa comum da qual todos podem comprar. Assim como a divisão do trabalho nasce da propensão para a troca, assim também ela cresce e é limitada pela expansão da troca, do mercado. Num estado mais avançado, todo homem é comerciante, a sociedade é uma sociedade mercantil.

Say considera a troca como casual e não fundamental. A sociedade poderia subsistir sem ela. Ela faz-se indispensável no estado avançado da sociedade. Entretanto, sem ela não pode haver produção. A divisão do trabalho é um meio cómodo e útil, um hábil emprego das forças humanas para a riqueza social, mas diminui a capacidade de cada homem considerado individualmente. A última observação é um progresso de Say.

Skarbek distingue as forças individuais, inerentes ao homem (inteligência e disposição fisica para o trabalho), das forças derivadas da sociedade (troca e divi- são do trabalho), que se condicionam mutuamente. Mas o pressuposto necessário da troca é a propriedade privada. Skarbek expressa aqui em forma objetiva o mesmo que Smith, Say, Ricardo, etc., dizem quando apontam o egoísmo, o inte- resse privado, como fundamento da troca, ou o tráfico como a forma essencial e adequada da troca.

Mill apresenta o comércio como consequência da divisão do trabalho. A ati- vidade humana reduz-se para ele a um movimento mecânico. Divisão do trabalho e emprego de máquinas fomentam a riqueza da produção. Deve-se confiar a cada homem um conjunto de atividades tão pequeno quanto possível. Por sua vez, divi- são do trabalho e emprego de máquinas determinam a produção da riqueza em massa e, portanto, do produto. Este é o fundamento das grandes manufaturas.

/XXXVIII/ O exame da divisão do trabalho e da troca é do maior interesse, porque são as expressões manifestamente alienadas da atividade e da força huma- na essencial, enquanto atividade e força essencial adequadas ao gênero.

Afirmar que a divisão do trabalho e a troca se baseiam na propriedade pri- vada não é senão afirmar que o trabalho é a essência da propriedade privada, uma afirmação que o economista não pode provar e que nós vamos provar por ele. Justamente pelo fato de a divisão do trabalho e a troca serem configurações da propriedade privada, nisto precisamente reside a dupla prova tanto de que, por um lado, a vida humana necessitava da propriedade privada para a sua efetiva- ção, como de que, por outro lado, necessita agora da supressão da propriedade privada.

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Divisão do trabalho e troca são os dois fenômenos que fazem com que o economista faça alarde do caráter social de sua ciência e expresse, de um fôle- go e inconscientemente, a contradição da sua ciência: a fundamentação da socie- dade mediante o interesse particular anti-social.

Os momentos que temos que considerar são: em primeiro lugar, a propensão para a troca (cujo fundamento se encontra no egoismo) é considerada como fun- damento ou efeito recíproco da divisão do trabalho. Say considera a troca como não fundamental para a essência da sociedade. A riqueza, a produção, são expli- cadas pela divisão do trabalho e pela troca. Admite-se o empobrecimento e a dessencialização (Entwesung) da atividade individual por meio da divisão do tra- balho. Reconhece-se que a divisão do trabalho e a troca são produtoras da grande diversidade dos talentos humanos, diversidade que, por sua vez, faz-se útil graças aquelas. Skarbek divide as forças de produção ou forças produtivas do homem em duas partes: 1.º) as individuais e inerentes a ele, sua inteligência e sua especial disposição ou capacidade de trabalho; 2.º) as derivadas da sociedade (não do indivíduo real), a divisão do trabalho e a troca. Além disso, a divisão do trabalho está limitada pelo mercado. O trabalho humano é simples movimento mecánico; as propriedades materiais dos objetos fazem o principal.

Deve-se atribuir a um indivíduo a menor quantidade possível de funções. Desdobramento do trabalho e concentração do capital, a nulidade da produção individual e a produção da riqueza em massa. Concepção da propriedade privada livre na divisão do trabalho.

[Dinheiro|

/XLI/ Se as sensações, paixões, etc., do homem não são apenas determina- ções antropológicas em sentido estrito, mas sim na verdade afirmações ontoló- gicas do ser (natureza) e se se afirmam realmente pelo fato de que seu objeto ê sensível para elas, então é claro: 1.º) que o modo de sua afirmação não é em absoluto um e-o mesmo, mas que, muito mais o modo diverso da afirmação cons- titui a peculiaridade de seu modo de existência, de sua vida; o modo pelo qual o objeto é para elas, é o modo peculiar do seu gozo; 2.º) ali onde a afirmação sensi- vel é superação direta do objeto em sua forma independente (comer, beber, elabo- rar o objeto, etc.), é esta a afirmação do objeto; 3.º) enquanto o homem é huma- no, enquanto é humana sua sensação, etc., a afirmação do objeto por outro é, da mesma forma, seu próprio gozo; 4.º) por meio da indústria desenvolvida, isto é, pela mediação da propriedade privada, constitui-se a essência ontológica da paixão humana, tanto em sua totalidade como em sua humanidade; a própria ciência do homem é, pois, um produto da auto-afirmação valente do homem; 5.º) o sentido da propriedade privada desembaraçada da sua alienação é O modo de existência dos objetos essenciais para o homem, tanto como objeto do gozo, quanto como objeto da atividade.

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O dinheiro, enquanto possui a propriedade de comprar tudo, enquanto pos- sui a propriedade de apropriar-se de todos os objetos, é, pois, o objeto por exce- lência. A universalidade de sua qualidade é a onipotência de sua essência; ele vale, pois, como ser onipotente (...). O dinheiro é o proxeneta entre a necessi- dade e o objeto, entre a vida e os meios do homem. Mas o que me serve de meio para minha vida, serve também de meio para o modo de existência dos outros ho- mens para mim. Isto é para mim o outro homem.

“Que diabo! Claro que mãos e pés e cabeça e traseiro são teus! Mas tudo isto que eu tranquilamente gozo é por isso menos meu? Se posso pagar seis cavalos, não são minhas tuas forças? Ponho-me a correr e sou um verdadeiro senhor, como se tivesse vinte e quatro pernas.” Goethe, Fausto (Mefistófeles) 8

Shakespeare em Timão de Atenas:

“Ouro ! amarelo, reluzente, precioso ouro ! Não, deuses, não faço súplicas em vão (...). Assim, um tanto disto tornará o preto branco, o repugnante belo, o errado certo, o vil nobre, o velho jovem, o covarde valente (. ..).

Por que isto arrancará vossos sacerdotes e servidores de vossos lados, arrebatará coxins de sob a cabeça de homens corpulentos: este escravo amarelo tecerá e despedaçará religiões; abençoará os amaldiçoados; fará a alvacenta lepra adorada; levará ladrões, dando-lhes título, reverência e aprovação, ao banco

dos senadores; isto é o que faz a desgastada viúva casar-se novamente; a ela, para quem

o lazarento e ulcerosas feridas abririam

a goela, isto perfuma e condimenta para

o dia de abril novamente. Vem, elemento danado, tu, vulgar rameira da humanidade, que instalas a disputa na multidão de nações (...)”.

8 Goethe, Fausto |, cena 4.(N. do T.)

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E mais adiante:

“O tu, doce regicida e caro divórcio entre

filho e senhor! tu, brilhante violador do

mais casto leito de Himen ! tu, Marte valente! tu, sempre jovem, loução, amado e delicado sedutor, cujo rubor derrete a neve

consagrada que jaz no regaço de Diana!

tu, deus visível, que soldas impossibilidades

e fá-las beijarem-se ! que falas com toda língua para todo propósito ! ó tu, contato de corações! pensa, teu escravo, o homem, se rebela, e

por tua virtude eles entram em tais confusas disputas, que as bestas poderão ter o mundo sob império”. º

Shakespeare descreve muito acertadamente a essência do dinheiro. Para entendê-lo, comecemos primeiro com a interpretação da passagem goethiana.

Aquilo que mediante o dinheiro é para mim, o que posso pagar, isto é, o que o dinheiro pode comprar, isso sou eu, o possuidor do próprio dinheiro. Minha força é tão grande como a força do dinheiro. As qualidades do dinheiro quali- dades e forças essenciais são minhas, de seu possuidor. O que eu sou e o que eu posso não são determinados de modo algum por minha individualidade. Sou feio, mas posso comprar a mais bela mulher. Portanto, não sou feio, pois o efeito da feiúra, sua força afugentadora, é aniquilado pelo dinheiro. Segundo minha individualidade sou inválido, mas o dinheiro me proporciona vinte e quatro pés, portanto não sou inválido; sou um homem mau, sem honra, sem caráter e sem espírito, mas o dinheiro é honrado e, portanto, também o seu possuidor. O dinheiro é o bem supremo, logo, é bom o seu possuidor; o dinheiro poupa-me além disso o trabalho de ser desonesto, logo, presume-se que sou honesto; sou estúpido, mas o dinheiro é o espírito real de todas as coisas, como poderia seu possuidor ser um estúpido? Além disso, seu possuidor pode comprar as pessoas inteligentes e quem tem o poder sobre os inteligentes não é mais inteligente do que o inteligente? Eu, que mediante o dinheiro pesso tudo a que o coração humano aspira, não possuo todas as capacidades humanas? Não transforma meu dinhei- ro, então, todas as minhas incapacidades em seu contrário?

Se o dinheiro é o laço que me liga à vida humana, que liga a sociedade a mim, que me liga com a natureza e com o homem, não é o dinheiro o laço de todos os laços? Não pode ele atar e desatar todos os laços? Não é por isso tam- bém o meio geral da separação? É a verdadeira marca divisória, assim como o verdadeiro meio de união, a força (. . .) química da sociedade.

* Shakespeare, Timão de Atenas, Ato IV, cena 3 (grifos de Marx). (N. do T.)

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Shakespeare destaca especialmente duas propriedades do dinheiro:

1.º) é a divindade visível, a transmutação de todas as propriedades humanas e naturais em seu contrário, a confusão e inversão geral de todas as coisas; irma- na as impossibilidades;

2.º) é a rameira geral, a proxeneta geral dos homens e dos povos.

A inversão e confusão de todas as qualidades humanas e naturais, a irmana- ção das impossibilidades a força divina do dinheiro repousa na sua essên- cia enquanto essência genérica, alienante e auto-alienante do homem. O dinheiro é a capacidade alienada da humanidade.

O que não posso como homem, o que não podem minhas forças individuais, posso através do dinheiro. O dinheiro converte assim todas essas forças essen- ciais naquilo que em si não são, isto é, em seu contrário.

Se eu desejo uma refeição ou se quero me utilizar da mala-posta, porque não sou suficientemente forte para fazer o caminho a pé, o dinheiro me proporciona a refeição e a mala-posta, isto é, ele transforma meus desejos, que são meras representações, ele os traduz de seu modo de existência pensada, representada, desejada, para seu modo de existência sensível, efetivo, da representação à vida, do ser representado ao ser efetivo. O dinheiro é, ao realizar esta mediação, a ver- dadeira força criadora.

É certo que a demanda existe também para aquele que não tem dinheiro algum, mas sua demanda é uma pura entidade da imaginação, que não tem sobre mim, sobre um terceiro, sobre os outros /XLIII/ nenhum efeito, nenhuma existên- cia, que, portanto, continua sendo para mim mesmo não efetivo, privado de obje- to. A diferença entre a demanda efetiva baseada no dinheiro e a demanda sem efeito, baseada em meu carecimento, minha paixão, meu desejo, etc., é a diferença entre o ser e o pensar, entre a pura representação que existe em mim e a represen- tação tal como é para mim enquanto objeto efetivo fora de mim.

Se não tenho dinheiro algum para viajar, não tenho necessidade (isto é, nenhuma necessidade efetiva e efetivável) de viajar. Se tenho vocação para estu- dar, mas não tenho dinheiro para isso, não tenho nenhuma vocação (isto é, nenhuma vocação efetiva, verdadeira) para estudar. Ao contrário, se realmente não tenho vocação alguma para estudar, mas tenho a vontade e o dinheiro, tenho para isso uma vocação efetiva. O dinheiro, enquanto meio e poder gerais exte- riores, não derivados do homem enquanto homem, nem da sociedade humana, enquanto sociedade para fazer da representação efetividade e da efetividade uma pura representação, transforma igualmente as forças efetivas, essenciais, humanas e naturais em puras representações abstratas e, por isto, em imperfei- ções, em dolorosas quimeras, assim como, por outro lado, transforma as imper- feições e quimeras efetivas, as forças essenciais realmente impotentes, que exis- tem na imaginação do indivíduo, em forças essenciais efetivas e poder efetivo. Segundo esta destinação o dinheiro é a inversão geral das individualidades, que as transforma em seu contrário e que adiciona às suas propriedades propriedades contraditórias.

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Como tal poder inversor, o dinheiro atua também contra o indivíduo e con- tra os laços sociais, etc., que se dizem essenciais. Transforma a fidelidade em infi- delidade, o amor em ódio, o ódio em amor, a virtude em vício, o vício em virtude, o servo em senhor, o senhor em servo, a estupidez em entendimento, o entendi- mento em estupidez.

Como o dinheiro, enquanto conceito existente e ativo do valor, confunde e troca todas as coisas, então ele é a confusão e a troca gerais de todas as coisas, isto é, o mundo invertido, a confusão e a troca de todas as qualidades humanas e naturais.

Ainda que seja covarde, é valente aquele que pode comprar a valentia. Como o dinheiro não se troca por uma qualidade determinada, nem por uma coisa determinada, por uma força essencial humana, mas sim pela totalidade do mundo objetivo natural e humano, do ponto de vista do seu possuidor, pode tro- car qualquer propriedade por qualquer outra propriedade e qualquer outro objeto, inclusive os contraditórios. É a irmanação das impossibilidades; obriga aquilo que se contradiz a beijar-se.

Se se pressupõe o homem como homem e sua relação com o mundo como uma relação humana, se pode trocar amor por amor, confiança por confiança, etc. Se se quiser gozar da arte deve-se ser um homem artisticamente educado; se se quiser exercer influência sobre outro homem, deve-se ser um homem que atue sobre os outros de modo realmente estimulante e incitante. Cada uma das rela- ções com o homem e com a natureza deve ser uma exteriorização determi- nada da vida individual efetiva que se corresponda com o objeto da vontade. Se amas sem despertar amor, isto é, se teu amor, enquanto amor, não produz amor recíproco, se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado, teu amor é impotente, uma desgraça.

/XLIII/

[Crítica da dialética e da filosofia hegelianas em geral|

/X1.6/Este é talvez o ponto em que convém, para entendimento e justifica- ção do que foi dito, fazer algumas indicações, tanto sobre a dialética hegeliana em geral como especialmente sobre sua exposição na Fenomenologia e na Lógica e, finalmente, sobre a relação do moderno movimento crítico com Hegel.

A preocupação da moderna crítica alemã pelo conteúdo do velho mundo era tão forte, e seu desenvolvimento estava tão preso ao seu conteúdo, que manteve uma atitude totalmente acrítica a respeito do método de criticar e uma total inconsciência a respeito da seguinte questão aparentemente formal, mas efetiva- mente essencial: em que situação nos encontramos agora frente à dialética hege- liana? A inconsciência sobre a relação da crítica moderna com a filosofia hege- liana em geral e com a dialética em particular era tão grande, que críticos como Strauss e Bruno Bauer (o primeiro completamente e o segundo em seus Sinóticos,

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nos quais, frente a Strauss, coloca a “autoconsciência” do homem abstrato em lugar da substância da “natureza abstrata”, e inclusive no Cristianismo Desco- berto) estão, pelo menos potencialmente, totalmente presos à lógica hegeliana. Assim, por exemplo, no Cristianismo Descoberto lê-se:

“Como se a autoconsciência, ao pôr o mundo, a diferença, não se produzisse a si mesma ao produzir seu objeto, pois ela supera de novo a diferença entre o produzido e ela mesma, pois ela é ela mesma na produção e no movimento, como se não tivesse neste movimento sua finalidade”, etc., e também: “Eles” (os materialistas franceses) “não puderam ver ainda que o movimento do universo somente como movimento da autoconsciência tornou-se efetivo para si e chegou à unidade consigo mesmo”.

Expressões que nem sequer na terminologia mostram uma diferença com respeito à concepção hegeliana, ao contrário, repetem-na literalmente.

/XII/ Quão pouco existia, durante o ato da crítica (Bauer, os Sinóticos), uma consciência de sua relação com a dialética hegeliana, quão pouco esta cons- ciência surgiu inclusive depois do ato da crítica material, é o que prova Bauer, quando em sua Boa Causa da Liberdade recusa a indiscreta pergunta do senhor Gruppe: “Que fazer da lógica”, remetendo-a aos críticos vindouros.

Mas ainda agora, depois que Feuerbach (tanto em suas “Teses” nos Anecdo- tis como, detalhadamente, na Filosofia do Futuro) demoliu o gérmen da velha dialética e da velha filosofia; depois que, ao contrário, aquela crítica, que não As tinha sido capaz de realizar este feito, o viu realizado e se proclamou crítica pura, decisiva, absoluta, chegada à clareza consigo mesma; depois que, em seu orgulho espiritualista, reduziu o movimento histórico todo à relação do resto do mundo (que frente a ela cai sob a categoria de “massa”) com ela mesma e reduziu todas as contradições dogmáticas à única contradição dogmática entre sua própria agu: dez e a estupidez do mundo, entre o Cristo crítico e a humanidade, a multidão; depois de ter provado, dia após dia, hora-ápós hora, sua própria excelência frente à estupidez da massa; depois. de que, por último, anunciou o juízo final crítico, proclamando que-se aproxima o dia em que toda a decadente humanidade se

—agrupará ante ela e será por ela dividida em grupos, recebendo cada um deles seu testimonium paupertatis; depois de ter feito imprimir sua superioridade sobre os sentimentos humanos e sobre o mundo, sobre o qual, reinando em sua orgulhosa solidão, deixa ressoar, de tempos em tempos, o riso dos deuses olímpicos de seus lábios sarcásticos; depois de todas estas divertidas atitudes do idealismo (do neo- hegelianismo) que expira sob a forma da crítica, este não expressou nem sequer a suspeita de ter que ocupar-se criticamente com sua mãe, a dialética hegeliana, assim como tampouco soube indicar nenhuma relação com a dialética de Feuer- bach. Uma atitude totalmente acrítica para consigo mesmo.

Feuerbach é o único que tem a respeito da dialética hegeliana uma atitude séria, crítica, e o único que fez verdadeiros descobrimentos nesse terreno. Ele é, em suma, aquele que verdadeiramente superou a velha filosofia. A grandeza da contribuição e a discreta simplicidade com que Feuerbach a entrega ao mundo estão em surpreendente contraste com a atitude inversa dos outros.

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O grande feito de Feuerbach é:

1) ter provado que a filosofia nada mais é do que a religião trazida para o pensamento e exposta pensadamente; uma outra forma, outro modo de existência da alienação do ser humano; e que também se deve condenar;

2) ter fundado o verdadeiro materialismo e a ciência real, ao fazer igual- mente da relação social “de homem a homem” o princípio fundamental da teoria, e ao

3) ter oposto à negação da negação, que pretende ser o absolutamente posi- tivo, o positivo a descansar sobre si mesmo e a fundar-se positivamente em si.

Feuerbach explica a dialética hegeliana (fundamentando com isso o ponto de partida do positivo, da certeza sensível) do seguinte modo:

Hegel parte da alienação (da perspectiva da lógica: do infinito, do universal abstrato) da substância, da abstração absoluta e fixa; isto é, dito em termos popu- lares, parte da religião e da teologia.

Segundo. Supera o infinito, põe (setzt) o verdadeiro, o sensível, o real, o fini- to, o particular (filosofia, superação da religião e da teologia).

Terceiro. Supera de novo o positivo, restabelece a abstração, o infinito (restabelecimento da religião e da teologia).

Feuerbach concebe pois a negação da negação apenas como a contradição da filosofia consigo mesma, como a filosofia que afirma a teologia (transcen- dência, etc.) depois de a ter negado, depois de a ter afirmado em oposição a si mesma.

A posição (Position), ou a auto-afirmação e a autoconfirmação que residem na negação da negação, é concebida como uma posição que não está segura de si mesma, e, por isso, estã ligada a seu oposto, duvidando de si mesma e necessi- tando então de uma prova, portanto que não se prova a si mesma por meio de sua existência, posição que não confessa e, /XIII/ por conseguinte, é oposta direta e imediatamente à posição sensível, certa e fundada sobre si mesma.

Mas, enquanto Hegel concebeu a negação da negação de acordo com o aspecto positivo que nela repousa, como o verdadeiro e único positivo e, de acor- do com o aspecto negativo que nela repousa, como o ato único e verdadeiro; ——.. como ato de auto-afirmação de todo o ser —, ele apenas encontrou a expressão abstrata, lógica, especulativa para o movimento da história, que não é ainda his- tória efetiva do homem como sujeito pressuposto, mas apenas ato de geração do homem, história do nascimento do homem. Explicaremos tanto a forma abstrata como a diferença que este movimento tem em Hegel, em oposição à moderna crí- tica do mesmo processo em A Essência do Cristianismo de Feuerbach; ou melhor, explicaremos a figura crítica deste movimento que em Hegel é ainda acrítico.

Examinemos o sistema hegeliano. Deve-se começar com a Fenomenologia hegeliana, fonte verdadeira e segredo da filosofia hegeliana.

19 Feuerbach concebe ainda a negação da negação, o conceito concreto, como o pensamento que se supera a si mesmo no pensamento, enquanto pensamento, e quer ser intuição imediata, natureza, efetividade. (Nota de Marx escrita à margem inferior da página do manuscrito, sem qualquer outra indicação.)

MANUSCRITOS ECONÔMICO-FILOSÓFICOS 41

Fenomenologia

A) A autoconsciência

I Consciência. a) Certeza sensível ou o isto e o meu. b) À percepção ou a coisa com suas propriedades e a ilusão. c) Força e entendimento, fenômeno e mundo supra-sensível.

II. Autoconsciência. A verdade da certeza de si mesmo. a) Autonomia e não-autonomia da autoconsciência, dominação e servidão. b) Liberdade da autoconsciência. Estoicismo, ceticismo, a consciência infeliz.

HI. Razão. Certeza e verdade da razão. Razão observadora; observação da natureza e da autoconsciência. b) Efetivação da autoconsciência racional por meio de si mesma. O prazer e a necessidade. A lei do coração e o delírio da presunção. A virtude e os caminhos do mundo. c) A individualidade que é real em si e para si. O reino animal do espírito e a fraude ou a coisa mesma. A razão legisladora. A razão examinadora das leis.

B) O Espírito

I. O verdadeiro Espírito: a ética. II. O Espírito alienado de si, a cultura. III. O Espírito seguro de si mesmo, a moralidade.

C) A religião Religião natural, religião estética, religião revelada.

D) “O Saber Absoluto E

Como a Enciclopédia de Hegel começa com a lógica, com o pensamento especulativo puro, e termina com o saber Absoluto, com o Espírito autocons- ciente, que se capta a si mesmo, filosófico, Absoluto, isto é, com o Espírito sobre-humano e abstrato, a Enciclopédia toda nada mais é do que a essência desenvolvida do Espirito filosófico, sua auto-objetivação. O Espirito filosófico não é por sua vez senão o Espírito alienado do mundo que pensa no interior de * sua auto-alienação, isto é, que se compreende a si mesmo abstratamente. A lógica é o dinheiro do Espírito, o valor pensado, especulativo, do homem e da natureza; sua essência, tornada totalmente indiferente a toda determinidade (Bestimmtheit) efetiva, e, portanto, não efetiva é o pensamento alienado que por isso faz abstra- ção da natureza e do homem efetivo; o pensamento abstrato. A exterioridade deste pensamento abstrato (. . .) a natureza, como é para este pensamento abstra- to. Ela lhe é exterior, é uma perda de si mesmo; e ele a apreende também exterior- mente como pensamento abstrato, mas como pensamento abstrato alienado; finalmente o Espírito, este pensamento que retorna ao seu lugar próprio de ori-

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gem, pensamento que como Espírito antropológico, fenomenológico, psicológico, moral, artístico-religioso ainda não é válido para si mesmo, enquanto não encon- trar-se e afirmar-se a si mesmo como saber Absoluto e portanto como Espírito Absoluto, isto é, abstrato, recebe seu modo de existência consciente, o modo de existência que lhe corresponde. Pois seu modo de existência efetivo é a abstração.

Um erro duplo em Hegel

O primeiro evidencia-se da maneira mais clara na Fenomenologia, como fonte originária da filosofia hegeliana. Quando ele concebe, por exemplo, a rique- za, o poder estatal, etc., como essências alienadas para o ser humano, isto acontece na sua forma de pensamento (...). São seres de pensamento e por isso simplesmente uma alienação do pensamento filosófico puro, isto é, abstrato. Todo movimento termina assim com o saber Absoluto. É justamente do pensa- mento abstrato que estes objetos se alienam, e é justamente ao pensamento abs- trato que se opõem com sua pretensão à efetividade. O filósofo (uma figura abs- trata, pois, do homem alienado) erige-se em medida do mundo alienado. Toda a história da exteriorização e toda retomada da exteriorização não é assim senão a história da produção do pensamento abstrato, isto é, Absoluto (veja-se pág. XIIND), /XVII/ do pensamento lógico e especulativo. A alienação, que constitui, portan- to, o verdadeiro interesse dessa exteriorização e superação desta exteriorização, é a oposição entre o em sie o para si, a consciência e a autoconsciência, o sujeito e o objeto, isto é, a oposição, no interior do próprio pensamento, entre o pensa- mento abstrato e a efetividade sensível ou a sensibilidade efetiva. Todas as demais oposições e movimentos destas oposições são apenas aparência, o invólucro, a fi- gura esotérica destas oposições, as únicas interessantes que constituem o sentido das restantes profanas oposições. O que vale como essência posta (gezetzte) e a superar da alienação não é que o ser humano se objetive desumanamente, em oposição a si mesmo, mas sim que se objetive diferenciando-se do pensamento abstrato e em oposição a ele.

/XVIII/ A apropriação das forças essenciais humanas, convertidas em obje- tos, em objetos estranhos, é pois, em primeiro lugar, uma apropriação que se passa apenas na consciência, no pensamento puro, isto é, na abstração, a apro- priação desses objetos como pensamentos e movimentos do pensamento; por isso, na Fenomenologia (apesar do seu aspecto totalmente negativo e crítico, e apesar da crítica efetivamente nela contida, que com frequência se adianta muito ao desenvolvimento posterior) está latente como gérmen, como potência, como um mistério, o positivismo acrítico e o igualmente acrítico idealismo das obras posteriores de Hegel, essa dissolução e restauração filosóficas da empiria existen- te. Em segundo lugar. A reivindicação do mundo objetivo para o homem por exemplo, o conhecimento de que a consciência sensível não é uma consciência sensível abstrata, mas uma consciência sensível humana; o conhecimento de que

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a religião, a riqueza, etc., são apenas a efetividade alienada da objetivação huma- na, das forças essenciais humanas nascidas para a ação e, por isso, apenas o caminho para a verdadeira efetividade humana —, esta apropriação ou compreensão deste processo, apresenta-se assim em Hegel de tal modo, que a sensibilidade, a religião, o poder do Estado, etc., são essências espirituais, pois o Espírito é a verdadeira essência do homem, e a verdadeira forma do Espírito é o Espirito pensante, o Espírito lógico, especulativo. A humanidade da natureza e da natureza produzida pela história, dos produtos do homem, aparece no fato de que eles são produtos do Espírito abstrato e, portanto, nessa mesma medida, momentos espirituais, seres de pensamento. A Fenomenologia é a crítica oculta, obscura ainda para si mesma e mistificadora; mas, enquanto retém a alienação do homem ainda que o homem apareça na figura do Espírito —, encon- tram-se ocultos nela todos os elementos da crítica e com frequência preparados e elaborados de modo tal, que superam amplamente o ponto de vista hegeliano. A “consciência infeliz”, a “consciência honrada”, a luta entre a “consciência nobre e a consciência vil”, etc., etc., essas seções isoladas contêm mas ainda de forma alienada os elementos críticos de esferas inteiras, da religião do Estado, da vida civil, etc. Assim como a essência é o objeto como ser de pensamento, assim O sujeito é sempre consciência ou autoconsciência; ou bem mais, o objeto surge apenas como consciência abstrata, o homem apenas como autoconsciência; as diferentes figuras da alienação que surgem são, por isso, apenas diferentes figu- ras da consciência e da autoconsciência. Como em si a consciência abstrata como tal o objeto é concebido é simplesmente um momento da diferenciação da autoconsciência, assim também surge como resultado do movimento a identi- dade da autoconsciência com a consciência, o saber Absoluto, o movimento do pensamento abstrato, que não se passa mais no exterior, mas no interior de si mesmo; isto é, a dialética do pensamento puro é o resultado.

/XXHI/ A grandeza da Fenomenologia hegeliana e de seu resultado final a dialética da negatividade na qualidade de princípio motor e gerador consiste, de uma parte, em que Hegel compreenda a autogeração do homem como proces- so, a objetivação como desobjetivação, alienação e superação dessa alienação; em que compreenda então a essência do trabalho e conceba o homem objetivado, verdadeiro, pois esse é o homem efetivo como o resultado de seu próprio traba- lho. O comportamento efetivo e ativo do homem para consigo mesmo, na quali- dade de ser genérico ou a manifestação de si mesmo como ser genérico, isto é, como ser humano, somente é possível porque ele efetivamente exterioriza todas as suas forças genéricas o que por sua vez se torna possível em virtude da ação conjunta dos homens enquanto resultado da história e se comporta frente a elas como frente a objetos, o que, por sua vez, é de início possível na forma da alienação.

Exporemos agora detalhadamente a unilateralidade e os limites de Hegel à luz do capítulo final da Fenomenologia “O Saber Absoluto” —, um capítulo que contém tanto o espírito condensado da Fenomenologia, sua relação com a dialética especulativa, como a consciência de Hegel sobre ambos e sobre sua rela- ção recíproca.

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De momento anteciparemos apenas isto: Hegel se coloca no ponto de vista da economia política moderna. Concebe o trabalho como a essência do homem, que se afirma a si mesma; ele o lado positivo do trabalho, não seu lado negativo. O trabalho é o vir-a-ser para si do homem no interior da alienação ou como homem alienado. O único trabalho que Hegel conhece e reconhece é o abs- trato, espiritual. O que, em suma, constitui a essência da filosofia, a alienação do homem que se conhece, ou a ciência alienada que se pensa, isto Hegel toma como sua essência, e por isso pode, frente à filosofia precedente, resumir seus momentos isolados, e apresentar sua filosofia como a filosofia. O que os outros filósofos fizeram apreender momentos isolados da natureza e da vida humana como momentos da autoconsciência, e, na verdade, da autoconsciência abstrata —, isto entende Hegel como o fazer da filosofia. Por isso sua ciência é absoluta.

Passemos agora ao nosso tema.

“O Saber Absoluto”. Capitulo Final da Fenomenologia

O fundamental é que o objeto da consciência nada mais é do que a autocons- ciência, ou que o objeto não é senão a autoconsciência objetivada, a autocons- ciência como objeto. (Pôr (setzen) do homem = autoconsciência.)

Importa, pois, superar o objeto da consciência. A objetividade como tal é to- mada por uma relação alienada do homem, uma relação que não corresponde à essência humana, à autoconsciência. A reapropriação da essência objetiva do homem, produzida como estranha sob a determinação da alienação, não tem, pois, somente a significação de superar a alienação, mas também a objetividade; isto é, o homem é considerado como um ser não objetivo, espiritualista.

O movimento da superação do objeto da consciência é descrito por Hegel do seguinte modo:

O objeto não se mostra unicamente (esta é, segundo Hegel, a concepção uni- lateral que apreende um lado daquele movimento) como retornante ao si-mesmo (Selbst). O homem é posto = si-mesmo. Mas o si-mesmo não é senão o homem abstratamente concebido e gerado mediante a abstração. O homem é si-mesmo. Seu olho, seu ouvido, etc., são si-mesmo; cada uma de suas forças essenciais tem nele a propriedade do si-mesmo. Mas por isso é completamente falso dizer: a autoconsciência tem olhos, ouvidos, força essencial. A autocons- ciência ê muito mais uma qualidade da natureza humana, do olho humano, etc., e não a natureza humana é uma qualidade /XXIV/ da autoconsciência. O si- mesmo abstraído e fixado para si é o homem como egoísta abstrato, o egoísmo em sua pura abstração elevado até o pensamento. (Voltaremos mais tarde a tratar deste ponto.)

A essência humana, o homem, equivale para Hegel à autoconsciência. Toda alienação da essência humana nada mais é do que a alienação da autocons- ciência. A alienação da autoconsciência não é considerada como expressão

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(expressão que se reflete no saber e no pensar) da alienação efetiva da essência humana. A alienação efetiva, que aparece como real, não é, pelo contrário, segun- do sua essência mais íntima e oculta (que a filosofia traz à luz) nada mais que o aparecimento da alienação da essência humana efetiva, da autoconsciência. Por isso, a ciência que compreende isto se chama Fenomenologia. Toda reapro- priação da essência objetiva alienada aparece assim como uma incorporação na autoconsciência; o homem que se apodera de sua essência é apenas a autocons- ciência que se apodera da essência objetiva. O retorno do objeto ao si-mesmo é, portanto, a reapropriação do objeto.

Expresso de forma global, a superação do objeto da autoconsciência resu- me-se no seguinte: |

1) o objeto enquanto tal se apresenta à autoconsciência como evanescente;

2) a alienação da autoconsciência põe a coisidade (Dingheit);

3) esta alienação não tem significado negativo, como também positivo;

4) ela não o tem apenas para nós ou em si, mas também para si mesma;

5) para ela, o negativo do objeto, ou a sua auto-superação, tem significado positivo, ou ela conhece esta nadidade (Nichtigkeit) do mesmo, na medida em que se aliena a si mesma, pois nesta alienação ela se pôe como objeto ou põe o objeto como si-mesmo em virtude da inseparável unidade do ser-para-si;

6) por outro lado, está igualmente presente este outro momento, a saber: a autoconsciência superou e retomou a si esta alienação e esta objetividade, isto é, em seu ser-outro como tal está junto a si;

7) este é o movimento da consciência e esta é, por isso, a totalidade de seus momentos;

8) a autoconsciência deve comportar-se em relação ao objeto segundo a totalidade de suas determinações e tem que tê-lo apreendido, assim, segundo cada uma delas. Esta totalidade de suas determinações o faz em si essência espiritual e para a consciência isto se faz em verdade pela apreensão de cada uma das deter- minações isoladas como do si-mesmo ou pelo anteriormente mencionado comportamento espiritual para com elas;

ad 1) Que o objeto como tal se apresente perante a consciência como evanescente, é o anteriormente mencionado retorno do objeto ao si-mesmo.

ad 2) A alienação da autoconsciência põe a coisidade. Posto que homem = autoconsciência, assim sua essência objetiva alienada, ou a coisidade (o que para o homem é objeto, e ê verdadeiramente objeto para ele aquilo que para ele é objeto essencial, isto é, aquilo que é sua essência objetiva. Ora, posto que não se toma o homem efetivo enquanto tal como sujeito, portanto, tampouco a natureza o homem é a natureza humana —, mas somente a abstração do homem, a autoconsciência, a coisidade pode ser a autoconsciência alienada), é = autoconsciência alienada, a coisidade é posta por esta alienação. É perfeitamente compreensível um ser vivo, natural, provido e dotado de forças essenciais objeti- vas, isto é, naturais, ter objetos reais e naturais de seu ser e igualmente sua auto-

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alienação ser a posição (Setzung) de um mundo real, mas sob a forma da exterio- ridade, como um mundo objetivo que não pertence ao seu ser e que ele não domina. Nada de ininteligível nem de misterioso nisso. Ao contrário, o inverso é que seria misterioso. Mas é igualmente claro que uma autoconsciência, por meio da sua alienação, possa pôr apenas a coisidade, isto é, apenas uma coisa abstrata, uma coisa da abstração e não uma coisa efetiva. Além disso é /XXVI/ também claro que a coisidade, portanto, não é nada de autônomo e essencial fren- te à autoconsciência, mas sim uma mera criatura, algo posto por ela, e o posto, ao invés de confirmar-se a si mesmo, é uma confirmação do ato de pôr, que por um momento fixa sua energia como produto e, aparentemente mas por um momento —, lhe atribui o papel de um ser autônomo e efetivo.

Quando o homem real, corpóreo, de sobre a terra firme e aspirando e expirando todas as forças naturais, põe suas forças essenciais reais e objetivas como objetos estranhos mediante sua alienação, o pór (Setzen) não é o sujeito; é a subjetividade de forças essenciais objetivas, cuja ação, por isso, deve ser tam- bém objetiva. O ser objetivo atua objetivamente e não atuaria objetivamente se o objetivo não estivesse na destinação do seu ser. O ser objetivo cria e põe apenas objetos, porque ele próprio é posto por objetos, porque é originariamente nature- za. No ato de pôr não cai, pois, de sua “atividade pura” em uma criação do obje- to, senão que seu produto objetivo apenas confirma sua atividade objetiva, sua atividade como atividade de um ser natural e objetivo.

Vemos aqui como o naturalismo realizado, ou humanismo, se distingue tanto do idealismo como do materialismo e é, ao mesmo tempo, a verdade unifi- cadora de ambos. Vemos, também, como o naturalismo é capaz de compreender o ato da história universal.

O homem é imediatamente ser natural. Como ser natural, e como ser natural vivo, está, em parte, dotado de forças naturais, de forças vitais, é um ser natural ativo; estas forças existem nele como disposição e capacidades, como instintos; em parte, como ser natural, corpóreo, sensível, objetivo, é um ser que padece, condicionado e limitado, tal qual o animal e a planta; isto é, os objetos de seus instintos existem exteriormente, como objetos independentes dele; entretanto, esses objetos são objetos de seu carecimento, objetos essenciais, imprescindíveis para a efetuação e confirmação de suas forças essenciais. Que o homem seja um ser corpóreo, dotado de forças naturais, vivo, efetivo, sensível, objetivo, significa que tem como objeto de seu ser, de sua exteriorização de vida, objetos efetivos, sensíveis, ou que em objetos reais, sensíveis, pode exteriorizar sua vida. Ser objetivo, natural, sensível e ao mesmo tempo ter fora de si objeto, natureza, senti- do, ou inclusive ser objeto, natureza e sentido para um terceiro se equivalem. A fome é um carecimento natural; precisa, pois, uma natureza fora de si, um objeto fora de si, para satisfazer-se, para acalmar-se. A fome é a necessidade (Bediirfnis) confessa que meu corpo tem de um objeto que estã fora dele e é indispensável para a sua integração e para a sua exteriorização essencial. O sol é objeto da planta, um objeto indispensável e assegurador de sua vida, assim como a planta é objeto do sol, enquanto exteriorização da força vivificadora do sol, de sua força essencial e objetiva.

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Um ser que não tenha sua natureza fora de si não é um ser natural, não faz parte da essência da natureza. Um ser que não tem nenhum, objeto fora de si não é um ser objetivo. Um ser que não é, por sua vez, objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser como objeto seu, isto é, não se comporta objetivamente, seu ser não é objetivo.

/XXVII/ Um ser não objetivo é um não-ser (Unwesen).

Suponha-se um ser que nem é ele próprio objeto nem tem um objeto. Tal ser seria, em primeiro lugar, o único ser, não existiria nenhum ser fora dele, existiria solitário e sozinho. Pois, tão logo haja objetos fora de mim, tão logo não esteja só, sou um outro, uma outra efetividade diferente do objeto fora de mim. Para este terceiro objeto eu sou, pois, uma outra efetividade diferente dele, isto é, sou seu objeto. Um ser que não é objeto de outro ser, supõe, pois, que não existe ne- nhum ser objetivo. Tão logo eu tenha um objeto, este objeto me tem a mim como objeto. Mas um ser não objetivo é um ser não efetivo, não sensível, somente pen- sado, isto é, apenas imaginado, um ser da abstração. Ser sensível, isto é, ser efeti- vo, é ser objeto dos sentidos, é ser objeto sensível, e, portanto, ter objetos sensi- veis fora de si, ter objetos de sua sensibilidade. Ser sensível é padecer.

O homem como ser objetivo sensível é, por isso, um ser que padece, e, por ser um ser que sente sua paixão, um ser apaixonado. A paixão é a força essencial do homem que tende energicamente para seu objeto.

O homem, no entanto, não é apenas ser natural, mas ser natural humano, isto é, um ser que é para si próprio e, por isso, ser genérico, que enquanto tal deve atuar e confirmar-se tanto em seu ser como em seu saber. Por conseguinte, nem os objetos humanos são os objetos naturais tais como se oferecem imediatamente, nem o sentido humano, tal como é imediata e objetivamente, é sensibilidade humana, objetividade humana. Nem objetiva nem subjetivamente está a natureza imediatamente presente ao ser humano de modo adequado. E como tudo o que é natural deve nascer, assim também o homem possui seu ato de nascimento: a Ais- tória, que, no entanto, é para ele uma história consciente, e que, portanto, como ato de nascimento acompanhado de consciência é ato de nascimento que se supe- ra. A história é a verdadeira história natural do homem. (Temos que voltar a este assunto.)

Em terceiro lugar, por ser este pôr a própria coisidade uma aparência, um ato que contradiz a essência da atividade pura, deve ser por sua vez superado, e a coisidade, negada.

Ad 3,4,5, 6 3) Esta alienação da consciência não tem significado somen- te negativo, mas também positivo e, 4) este significado positivo não apenas para nós ou em si, mas para ela, para a própria consciência. 5) Para ela o negativo do objeto ou a auto-superação deste tem um significado positivo ou, em outras pala- vras, ela conhece esta nadidade do mesmo, porque ela própria se aliena, pois nesta alienação ela se conhece como objeto ou conhece o objeto como si mesma, graças à inseparável unidade do ser-para-si. 6) Por outro lado, está aqui presente simultaneamente o outro momento: ela superou e retomou a si igualmente esta alienação e objetividade, e portanto, está em seu ser-outro enquanto tal junto a si.

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vimos que a apropriação do ser objetivo alienado ou a superação da obje- tividade sob a determinação da alienação que tem de progredir da estranheza indiferente até a alienação efetiva e hostil tem para Hegel, imediata e até principalmente, o significado de superar a objetividade, pois não é o caráter deter- minado do objeto, mas seu caráter objetivo que na alienação escandaliza a autoconsciência. O objeto é por isso um negativo, algo que se supera a si mesmo, uma nadidade. Esta nadidade do mesmo não tem para a consciência um signifi- cado apenas negativo, mas também positivo, pois essa nadidade do objeto é preci- samente a autoconfirmação da não-objetividade, da /XXVIII/ abstração dele próprio. Para a própria consciência, a nadidade do objeto tem um significado positivo porque ela conhece esta nadidade, o ser objetivo, como auto-alienação; porque sabe que é mediante sua auto-alienação. ..

O modo pelo qual a consciência é, e pelo qual algo é para a consciência, é para ela o saber. O saber é seu único ato, por isso algo é para ela na medida em que ela conhece este algo. Saber é seu único comportamento objetivo. Ora, a autoconsciência conhece a nadidade do objeto, isto é, o não-ser-diferente do obje- to em relação a ela, o não-ser do objeto para ela, porque conhece o objeto como sua auto-alienação, isto é, ela se conhece o saber como objeto porque o ob- jeto é apenas a aparência de um objeto, uma fantasmagoria mentirosa, pois em seu ser não é outra coisa senão o próprio saber que se opôs a si mesmo e por isso opôs a si uma nadidade, algo que não tem nenhuma objetividade fora do saber; ou, dito de outro modo, o saber sabe que, ao relacionar-se com o objeto, está ape- nas fora de si, que se exterioriza, que ele mesmo aparece ante si como objeto ou que aquilo que se lhe aparece como objeto é ele mesmo.

Por outro lado, diz Hegel, encontra-se aqui presente, ao mesmo tempo, esse outro momento, em que a consciência superou e retomou a si esta alienação e esta objetividade e, em conseqiiência, está em seu ser-outro enquanto tal junto a si.

Nesta investigação, encontramos juntas todas as ilusões da especulação.

Em primeiro lugar: a consciência, a autoconsciência, está em seu ser-outro enquanto tal junto a si. Por isso, a autoconsciência ou se fizermos abstração aqui da abstração hegeliana e pusermos a autoconsciência do homem no lugar da autoconsciência está em seu ser-outro enquanto tal junto a si. Isto implica, primeiramente, que a consciência o saber enquanto saber, o pensar enquanto pensar pretende ser imediatamente o outro de si mesmo, pretende ser sensibili- dade, efetividade, vida: o pensamento que se ultrapassa no pensamento (Feuer- bach). Este lado está contido aqui na medida em que a consciência, apenas como consciência, escandaliza-se não com a objetividade alienada, mas sim com a objetividade enquanto tal.

Em segundo lugar, isto implica que o homem autoconsciente, na medida em que reconheceu e superou como auto-alienação o mundo espiritual (ou o modo de existência espiritual geral de seu mundo), confirma-o, no entanto, novamente nesta figura alienada e a apresenta como seu verdadeiro modo de existência, restaura-a, pretende estar junto a si em seu ser-outro enquanto tal. Isto é, depois

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de ter superado, por exemplo, a religião, depois de ter reconhecido a religião como um produto da auto-alienação, encontra-se, entretanto, confirmado na reli- gião enquanto religião. Aqui está a raiz do falso positivismo de Hegel ou de seu criticismo apenas aparente; o que Feuerbach designa como o pôr, o negar e o res- taurar da religião ou teologia, mas que se deve conceber de modo mais geral. A razão estã, pois, junto a si na desrazão (Unvernunft) enquanto desrazão. O homem que reconheceu que no direito, na política, etc., leva uma vida alienada, leva nesta vida alienada, enquanto tal, sua verdadeira vida humana. A auto-afir- mação autoconfirmação em contradição consigo mesma, tanto com o saber como com o ser do objeto é o verdadeiro saber e a verdadeira vida.

Assim, não se pode mais falar de uma acomodação de Hegel à religião, ao Estado, etc., pois esta mentira é a mentira de seu princípio.

/XXIX/ Se eu sei que a religião é a autoconsciência alienada do homem, sei portanto que na religião, enquanto tal, não minha autoconsciência, mas minha autoconsciência alienada encontra sua confirmação. Sei, por conseguinte, que minha autoconsciência, que depende de sua essência, não se confirma na religião, mas sim na religião aniquilada, suprimida.

Assim, em Hegel, a negação da negação não é a confirmação da essência verdadeira mediante a negação do ser aparente, mas a confirmação do ser apa- rente ou do ser alienado de si em sua negação, ou a negação deste ser aparente com um ser objetivo, que habita fora do homem e é independente dele, e sua transformação em sujeito.

Um papel peculiar desempenha, pois, a superação, onde a negação e a conservação, a afirmação, estão vinculadas.

Assim, por exemplo, na filosofia do direito de Hegel, o direito privado supe- rado = moral, a moral superada = família, a família superada = sociedade civil, a sociedade civil superada = Estado, o Estado superado = história universal. Na realidade continuam de direito privado, moral, família, sociedade civil, Estado, etc., que se converteram em momentos, em existências e modos de existência do homem que carecem de validez isolados, que se dissolvem e se engendram reciprocamente, etc., momentos do movimento.

Na sua existência efetiva, esta sua essência móvel está oculta. no pensa- mento, na filosofia, aparece, revela-se, e por isso meu verdadeiro modo de exis- tência religioso é meu modo de existência filosófico-religioso, meu verdadeiro modo de existência político é meu modo de existência filosófico-jurídico, meu verdadeiro modo de existência natural é meu modo de existência filosófico- natural, meu verdadeiro modo de existência artístico é meu modo de existência

filosófico-artístico, meu verdadeiro modo de existência humano é meu modo de existência filosófico. Do mesmo modo, a verdadeira existência da religião, do Estado, da natureza, da arte, é a filosofia da religião, do Estado, da natureza, da arte. Mas se para mim o verdadeiro modo de existência da religião, etc., é unica- mente a filosofia da religião, sou verdadeiramente religioso como filósofo da religião e nego assim a religiosidade efetiva e o homem efetivamente religioso. Mas, ao mesmo tempo, os confirmo, em parte, no interior do meu próprio modo

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de existência ou do modo de existência estranho que lhes oponho, pois esta é simplesmente a expressão filosófica daqueles, e, em parte, em sua peculiar figura originária, pois eles valem para mim como o apenas ser-outro aparente, como ale- gorias, como figuras ocultas sob invólucros sensíveis, de seu verdadeiro modo de existência, isto é, de meu modo de existência filosófico.

Do mesmo modo, a qualidade superada = quantidade, a quantidade supe- rada = medida, a medida superada = essência, a essência superada = fenômeno, o fenômeno superado = efetividade, a efetividade superada = conceito, o con-

ceito superado = objetividade, a objetividade superada = idéia absoluta, a idéia absoluta superada = natureza, a natureza superada = espírito subjetivo, o espi- rito subjetivo superado = Espírito subjetivo ético, o espírito ético superado = arte, a arte superada = religião, a religião superada = saber absoluto.

Por um lado, este superar é um superar do ser pensado, e assim a proprie- dade privada pensada se supera no pensamento da moral. E, como o pensamento imagina ser imediatamente o outro de si mesmo, efetividade sensível, e como, em consequência, também sua ação vale para ele como ação efetiva sensível, este superar pensante que deixa intacto seu objeto na efetividade crê havê-lo ultrapas- sado efetivamente. Por outro lado, como o objeto tornou-se agora para ele momento de pensamento, também em sua efetividade vale para ele como confir- mação de si mesmo, da autoconsciência, da abstração.

/XXX/ Portanto, por um lado, os modos de existência que Hegel supera na filosofia não são a religião, o Estado ou a natureza efetivas, mas a própria reli- gião como objeto do saber, isto é, a dogmática, e assim também a jurispru- dência, a ciência do Estado, a ciência natural. Por outro lado, pois, está em oposi- ção tanto ao ser efetivo como à ciência imediata, não filosófica, ou ao conceito não filosófico deste ser. Hegel contradiz, portanto, os conceitos usuais dessas ciências.

Por outro lado, o homem religioso, etc., pode encontrar em Hegel sua última confirmação.

Deve-se tomar agora os momentos positivos da dialética hegeliana, no inte- rior da determinação da alienação.

a) O superar, como movimento objetivo que retoma a si a alienação. É esta a concepção que se expressa no interior da alienação, da apropriação da essência objetiva mediante a superação da sua alienação, a concepção alienada na objeti- vação efetiva do homem, na apropriação efetiva de sua essência objetiva mediante a aniquilação da determinação alienada do mundo objetivo, mediante sua superação, no seu modo de existência alienado. Do mesmo modo que o ateís- mo, enquanto superação de deus, é o vir-a-ser do humanismo teórico, o comunis- mo, enquanto superação da propriedade privada, é a reivindicação da vida huma- na efetiva como sua propriedade, é o vir-a-ser do humanismo prático, ou, dito de outro modo, o ateísmo é o humanismo conciliado consigo mesmo mediante a superação da religião; o comunismo é o humanismo conciliado consigo mesmo mediante a superação da propriedade privada. mediante a superação dessa mediação (que é, no entanto, um pressuposto necessário) chega-se ao humanismo que começa positivamente a partir de si mesmo, ao humanismo positivo.

MANUSCRITOS ECONÔMICO-FILOSÓFICOS 51

Mas ateísmo e comunismo não são nenhuma fuga, nenhuma abstração, nenhuma perda do mundo objetivo engendrado pelo homem, de suas forças essen- ciais nascidas para a objetividade; não são uma pobreza que retorna à simplici- dade não natural e não desenvolvida. São, muito mais, pela primeira vez, o vir-a- ser efetivo, a efetivação, tornada efetiva para o homem, de sua essência e de sua essência como algo efetivo.

Ao apreender o sentido positivo da negação referida a si mesma (ainda que sempre em forma alienada), Hegel apreende a auto-alienação, a exteriorização da essência, a desobjetivação e desefetivação do homem, como um ganhar-se a si mesmo, como exteriorização da essência, como objetivação, como efetivação. Em resumo, apreende no interior da abstração o trabalho como o ato autoge- rador do homem, o relacionar-se consigo mesmo como um ser estranho, e seu manifestar-se como um ser estranho, como consciência genérica e vida genérica em vir-a-ser.

b) Em Hegel abstração feita do absurdo descrito, ou melhor, em consequência dele este ato aparece, entretanto, em primeiro lugar, como ato apenas formal porque abstrato, porque o próprio ser humano tem valor como ser abstrato pensante, como autoconsciência; em segundo lugar, como a concep- ção é formal e abstrata, a superação da alienação converte-se em uma confirma- ção da alienação, ou, dito de outra forma, esse movimento de autogeração, de auto-objetivação como auto-exteriorização e auto-alienação é a exteriorização absoluta da vida humana e por isso a exteriorização definitiva, que constitui sua própria meta e se acalma, que atinge sua essência.

Em sua forma abstrata, /XXXI/ como dialética, este movimento é tomado assim pela vida verdadeiramente humana, mas, como esta é uma abstração, uma alienação da vida humana, esta vida é considerada como processo divino, mas como processo divino do homem um processo que perfaz a própria essência do homem distinta dele, abstrata, pura, absoluta.

Em terceiro lugar: este processo deve ter um portador, um sujeito; mas o sujeito aparece enquanto resultado; este resultado, o sujeito que se conhece como autoconsciência absoluta, é portanto o Deus, o Espírito Absoluto, a idéia que se conhece e atua. O homem efetivo e a natureza efetiva convertem-se simplesmente em predicados, em símbolos deste homem não efetivo, escondido e desta natureza não efetiva. Sujeito e predicado têm assim um com o outro relação de uma inversão absoluta: sujeito-objeto místico ou subjetividade que transcende o objeto, o sujeito absoluto como um processo, como sujeito que se aliena e volta para si da alienação, mas que, ao mesmo tempo, a retoma em si, e o sujeito como este processo; o puro, incessante girar dentro de si.

Primeiro. Concepção formal e abstrata do ato de autogeração ou ato de auto-objetivação do homem.

O objeto alienado, a efetividade essencial alienada do homem, nada mais é (desde que Hegel identifica homem e autoconsciência) do que consciência, simplesmente a idéia da alienação, sua expressão abstrata e por isso não efetiva e sem conteúdo, a negação. Igualmente, a superação da alienação não é, portanto,

52 MARX

nada mais do que uma superação abstrata e sem conteúdo desta abstração vazia, a negação da negação. A atividade plena de conteúdo, viva, sensível e concreta da auto-obijetivação converte-se assim em sua pura abstração, em negatividade abso- luta, uma abstração que, por sua vez, é fixada como tal e pensada como uma ati- vidade autônoma, como a atividade simplesmente. Como esta assim chamada negatividade nada mais é do que a forma abstrata, sem conteúdo, daquele ato vivo e efetivo, seu conteúdo pode ser um conteúdo formal, gerado pela abstra- ção de todo conteúdo. Trata-se pois das formas gerais e abstratas da abstração, pertencentes a qualquer conteúdo, e, consequentemente, tanto indiferentes a res- peito de qualquer conteúdo, como válidas para qualquer um deles; são as formas de pensar, as categorias lógicas arrancadas do espirito efetivo e da natureza efeti- va. (Mais adiante desenvolveremos o conteúdo lógico da negatividade absoluta.)

O positivo da contribuição de Hegel em sua lógica especulativa é que os conceitos determinados, as formas fixas e universais do pensamento são, na sua autonomia frente à natureza e ao espírito, um resultado necessário da aliena- ção geral do ser humano, e portanto também do pensar humano, e que Hegel, por isso, apresentou e resumiu como momentos do processo de abstração. Por exem- plo, o ser superado é a essência, a essência superada, conceito, o conceito supe- rado (...) idéia absoluta. Mas o que é a idéia absoluta? Ela se supera por sua vez a si mesma, se não quiser perfazer de novo e desde o início todo o ato de abstra- ção e não quiser contentar-se com ser uma totalidade de abstrações ou a abstra- ção que se apreende a si mesma. Mas a abstração que se apreende como abstra- ção conhece-se como nada; deve abandonar-se a si mesma, à abstração, e chega assim junto a um ser que é justamente o seu contrário, junto à natureza. A lógica toda é, pois, a prova de que o pensar abstrato não é nada por si, de que a idéia absoluta por si não é nada, que unicamente a natureza é algo.

/XXXII/ A idéia absoluta, a idéia abstrata, que “considerada em sua

unidade consigo é contemplação (Hegel, Enciclopédia, 3.º ed., pág.

222 [$244]), que “na absoluta verdade de si mesma decide-se a fazer

sair livremente de si o momento de sua particularidade ou da primeira

determinação e ser-outro, a idéia imediata, como seu reflexo; que se

decide a se fazer sair de si mesma como natureza ”(1. c.), toda esta idéia, que se comporta de forma tão estranha e barroca e que propiciou aos hegelianos incríveis dores de cabeça, nada mais é, afinal das contas, do que a abstração (isto é, o pensador abstrato), que, escaldada pela experiência e escla- recida sobre sua verdade, decide, sob certas condições abandonar-se e pôr seu ser-outro, o particular, o determinado, no lugar de seu ser-junto-a-si, de seu não- ser, de sua generalidade e de sua indeterminação, a natureza. Decide deixar sair livremente para fora de si a natureza, que ocultava em si como abstração, como coisa do pensamento. Isto é, decide abandonar a abstração e contemplar por fim a natureza libertada dela. A idéia abstrata, que se converte imediatamente em contemplação, não é outra coisa senão o pensamento abstrato que se renuncia e se decide pela contemplação. Toda esta passagem da lógica à filosofia da natu- reza é apenas a passagem de tão difícil realização para o pensador abstrato,

MANUSCRITOS ECONÔMICO-FILOSÓFICOS 53

que por isso descreve-a de forma tão extravagante da abstração à contempla- ção. O sentimento místico que leva o filósofo do pensar abstrato à contemplação é o aborrecimento, a ânsia por um conteúdo.

(O homem alienado de si mesmo é também o pensador alienado de sua essência, isto é, da essência natural e humana. Seus pensamentos são, por isso, espíritos fixos que vivem fora da natureza e do homem. Na sua lógica, Hegel encerrou juntos todos estes espíritos fixos e tomou cada um deles, em primeiro lugar, como a negação, isto é, como alienação do pensar humano, depois como negação da negação, isto é, como superação desta alienação, como efetiva exteriorização do pensar humano; mas, prisioneira ainda da sua alienação, esta negação da negação é, em parte, a restauração desses espíritos na alienação, em parte, o estacionar no último ato, o relacionar-se consigo mesma na alienação, como modo de existência efetivo destes espíritos fixos,'! e em parte, na medida em que esta abstração se compreende a si mesma e se aborrece infinitamente de si mesma, o abandono do pensamento abstrato que se move no pensamento e não tem nem olhos nem dentes, nem orelhas nem nada, aparece em Hegel, como a decisão de reconhecer a natureza como essência e dedicar-se à contemplação.)

/XXXIII/ Mas também a natureza tomada em abstrato, para si, fixada na separação do homem, não é nada para o homem. É evidente por si mesmo que o pensador abstrato que se decidiu pela contemplação contempla-a abstratamente. Como a natureza jazia encerrada pelo pensador na figura, para ele mesmo oculta e misteriosa, da idéia absoluta, da coisa pensada, quando a colocou em liberdade, somente libertou verdadeiramente de si esta natureza abstrata mas agora com o significado de que ela é o ser-outro do pensamento, a natureza efetiva, contem- plada, distinta do pensamento —, apenas libertou a natureza enquanto coisa pen- sada. Ou, para falar uma linguagem humana, o pensador abstrato em sua contemplação da natureza toma conhecimento de que os seres que ele, na dialé- tica divina, deveria criar do nada, da pura abstração, como produtos puros do trabalho do pensamento que se tece em si mesmo e que nunca lança os olhos sobre a realidade, não são outra coisa senão abstrações de determinações natu- rais. A natureza inteira repete para ele, pois, apenas em forma exterior, sensível, as abstrações lógicas. Ele a analisa e analisa novamente estas abstrações. Sua contemplação da natureza é unicamente o ato de confirmação de sua abstração da contemplação da natureza, o ato gerador, conscientemente repetido por ele, de sua abstração. Assim, por exemplo, o tempo = negatividade que se relaciona consigo mesma (pág. 238, 1. c.). Ao vir-a-ser superado como modo de existência corresponde em forma natural o movimento superado como matéria. A luz é a forma natural da reflexão em si. O corpo, como lua e cometa, é a

" (Isto é, Hegel coloca no lugar daquelas abstrações fixas o ato da abstração que gira em torno de si mesmo; com isto, tem o mérito de ter mostrado a fonte de todos estes conceitos inadequados. que. de acor- do com a sua data de origem, pertencem a diversos filósofos; de tê-los reunido e de ter criado como objeto da critica. em lugar de uma abstração determinada, a abstração consumada em toda a sua extensão (mais tarde veremos por que Hegel separa o pensamento do sujeito; desde está claro, no entanto, que, se o homem não é. tampouco a exteriorização da sua essência pode ser humana, e, portanto, tampouco podia conceber-se o pensamento como exteriorização da essência do homem como sujeito humano e natural. com olhos, ouvidos, etc., que vive na sociedade. no mundo e na natureza.) (N. do A.)

54 MARX

forma natural da oposição que, segundo a lógica, é, por um lado, o positivo que descansa sobre si mesmo, e, por outro, o negativo que descansa sobre si mesmo. A terra é a forma natural do fundamento lógico, como unidade negativa da oposição, etc.

A natureza enquanto natureza, isto é, na medida em que ainda se diferencia sensorialmente daquele sentido secreto oculto nela, a natureza separada, diferen- ciada destas abstrações, não é nada, um nada que se comprova como nada, é pri- vada de sentido ou tem apenas o sentido de uma exterioridade que deve ser superada.

“Do ponto de vista teleológico finito encontra-se a justa pressuposição de que a natureza não contém em si mesma o fim Absoluto. Pág. 225 [8 245].

Seu objetivo é a confirmação da abstração.

A natureza resultou como a idéia na forma do ser outro. Posto que a idéia ê, nessa forma, o negativo de si mesma, ou, é exterior a si, a natureza não é exte- rior apenas relativamente a esta idéia, mas sim a exterioridade constitui a destina- ção na qual ela é enquanto natureza.” Pág. 227 [8 247].

Não se deve entender aqui a exterioridade como sensibilidade que se exterio- riza, aberta à luz e ao homem sensível. Esta exterioridade deve ser tomada aqui no sentido da alienação, de uma falta, de uma imperfeição que não deve ser. Pois o verdadeiro é ainda a idéia. A natureza é unicamente a forma de seu ser-outro. E, como o pensar abstrato é a essência, o que lhe é exterior é, de acordo com sua essência, apenas um exterior. O pensador abstrato reconhece, ao mesmo tempo, que a sensibilidade é a essência da natureza, a exterioridade em oposição ao pen- samento que se tece em si mesmo. Mas simultaneamente expressa esta oposição de tal forma que esta exterioridade da natureza é sua oposição ao pensar, sua falta; que a natureza, na medida em que se diferencia da abstração, é um ser falho, /XXXIV/ um ser que é falho não apenas para mim, ante meus olhos, um ser que é falho em si mesmo, tem fora de si algo que lhe falta. Isto é, sua essência é algo diferente dele mesmo. Para o pensador abstrato a natureza, portanto, tem que superar-se a si mesma, pois foi posta por ele como um ser potencialmente superado.

“O Espírito tem para nós, como pressuposto, a natureza, da qual é a verdade e, com isso, o primeiro Absoluto. Nesta verdade, desapareceu a natureza e O Espírito revelou-se como a idéia chegada ao ser-para-si, da qual o conceito é tanto objeto como sujeito. Esta identidade é absoluta negatividade, porque na natureza tem o conceito sua plena objetividade exterior, mas esta sua alienação foi superada e o conceito fez-se nela idêntico consigo mesmo. Assim, ele é esta identidade somente como retorno a partir da natureza.” Pág. 392 [8 381].

“A manifestação, que como idéia abstrata é passagem imediata, vir-a-ser da natureza, é, como manifestação do Espírito, que é livre, o pór da natureza como seu mundo; um pôr, que como reflexão é, ao mesmo tempo, um pressupor do mundo como natureza autônoma. A manifestação no conceito é a criação da natureza como ser deste, no qual ele se a afirmação e verdade de sua liberda- de.” “O Absoluto é o Espírito; esta é a suprema definição do Absoluto.” Pág. 393, [8384]. /XXXIV/

(TESES CONTRA FEUERBACH)

O EGOÍSTA DIVINO EM OPOSIÇÃO AO HOMEM EGOISTA

O ENGANO NO QUE RESPEITA À REVOLUÇÃO SOBRE O ESTADO ANTIGO

O "CONCEITO" E A "SUBSTÂNCIA

A REVOLUÇÃO: HISTÓRIA DO NASCIMENTO DO ESTADO MODERNO

Tradução de José Arthur Giannotti

* Estas teses foram escritas na primavera de 1845 e publicadas, muito mais tarde. por Engels, com algumas modificações. Seguimos a versão original, como foi estabelecida na edição MEGA Marx-Engels Gesam- tausgabe, parte 1, vol. III. págs, 533-535. (N. do T.)

mt a

4 .

Il. Ad Feuerbach

A falha capital de todo materialismo até agora (incluso o de Feuerbach) é captar o objeto, a efetividade, a sensibilidade apenas sob a forma de objeto ou de intuição, e não como atividade humana sensível, praxias; de um ponto de vista subjetivo. Daí, em oposição ao materialismo, o lado ativo ser desenvolvido, de um modo abstrato, pelo idealismo, que naturalmente não conhece a atividade efe- tiva e sensível como tal. Feuerbach quer objetos sensíveis efetivamente dife- renciados dos objetos de pensamento, mas não capta a própria atividade humana como atividade objetiva. Por isso considera, na Essência do Cristianismo, apenas como autenticamente humano o comportamento teórico, enquanto a praxis é captada e fixada em sua forma fenomênica, judia e suja. Não compreende por isso o significado da atividade “revolucionária”, “prático-crítica”.

2

A questão se cabe ao pensamento humano uma verdade objetiva não é teó- rica mas prática. É na praxis que o homem deve demonstrar a verdade, a saber, a efetividade e o poder, a citerioridade de seu pensamento. A disputa sobre a efeti- vidade ou não-efetividade do pensamento-isolado da praxis é uma questão puramente escolástica.

3

A doutrina materialista sobre a mudança das contigências e da educação se esquece de que tais contingências são mudadas pelos homens e que o próprio edu- cador deve ser educado. Deve por isso separar a sociedade em duas partes uma das quais é colocada acima da outra.

A coincidência da alteração das contigências com a atividade humana e a mudança de si próprio pode ser captada e entendida racionalmente como pra- xis revolucionária.

Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, da duplicação do

58 MARX

mundo em religioso e terreno. Seu trabalho consiste em resolver o mundo reli- gioso em seu fundamento terreno. Mas que este fundamento se desloque de si mesmo e se fixe nas nuvens como um reino autônomo, isto se ilumina a partir do autodilaceramento e da autocontradição do próprio fundamento terreno. Este deve ser pois entendido em si mesmo, em sua contradição, como praticamente revolucionado. Porquanto, depois de, por exemplo, descobrir na família terrestre o segredo da família sagrada, cabe aniquilar a primeira teórica e praticamente.

5

Feuerbach, descontente com o pensamento abstrato, recorre à intuição; mas não capta a sensibilidade como atividade prática, humana e sensível.

o)

Feuerbach resolve o mundo religioso na essência humana. Mas a essência humana não é abstrato residindo no indivíduo único. Em sua efetividade é o con- junto das relações sociais.

Feuerbach, que não entra na crítica dessa essência efetiva, é por isso forçado:

1) A abstrair o curso histórico e fixar o ânimo religioso como para-si, pres- supondo um indivíduo humano, abstrato e isolado.

2) Por isso a essência pode ser captada como “gênero”, generalidade interna, muda, que liga muitos indivíduos de modo natural.

7

Feuerbach não vê, pois, que o próprio “ânimo religioso” é um produto social e que o indivíduo abstrato, analisado por ele, pertence a uma forma social determinada.

8

Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios, que induzem as doutrinas do misticismo, encontram sua solução racional na praxis humana e no compreender dessa praxis.

9 O extremo a que chega o materialismo intuitivo, a saber, o materialismo que

não compreende a sensibilidade como uma atividade prática, é a intuição dos indivíduos únicos e a sociedade civil.

TESES CONTRA FEUERBACH 59

10

O ponto de vista do materialismo antigo é a sociedade civil, o do materia- lismo moderno, a sociedade humana ou a humanidade social.

11

Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transformá-lo.

»

SALARIO, PRECO E LUCRO*

Tradução de Elias Chaves

* Informe pronunciado por Marx nos dias 20 a 27 de junho de 1865 nas sessões do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores. Publicado pela primeira vez em folheto à parte. em Londres. 1898. com o titulo Value, price and profit. (N. do T.)

Observações preliminares

Cidadãos!

Antes de entrar no assunto, permiti que faça algumas observações preliminares.

Reina atualmente no Continente uma verdadeira epidemia de greves e se levanta um clamor geral por aumentos de salários. O problema de ser levan- tado no nosso Congresso. Vós, tômo dirigentes da Associação Internacional, de- veis manter um critério firme perante este problema fundamental. De minha parte, julguei-me, por isso, no dever de entrar a fundo na matéria, embora com risco de submeter vossa paciência a uma dura prova.

Outra observação prévia tenho a fazer com respeito ao cidadão Weston. Atento ao que julga ser do interesse da classe operária, ele não somente expôs perante vós, tomo também defendeu, publicamente, opiniões que ele sabe serem profundamente impopulares no seio da classe operária !. Esta demonstração de coragem moral deve calar fundo em todos nós. Confio em que, apesar do estilo desataviado de minha conferência, o cidadão Weston me verá afinal de acordo com a acertada idéia que, no meu entender, serve de base às suas teses, as quais, contudo, na sua forma atual, não posso deixar de considerar teoricamente falsas e perigosas na prática.

Com isso, passo diretamente ao mérito da questão.

I

[Produção e salários|

O argumento do cidadão Weston baseia-se, na realidade, em duas premissas:

1.2) que o volume da produção nacional é algo de fixo, uma quantidade ou grandeza constante, como diriam os matemáticos;

* O operário inglês John Weston defendia no Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalha- dores a tese de que a elevação dos salários não pode melhorar a situação dos operários e que deve ser consi- derada prejudicial a atividade das tradeunions. (N. do T.)

64 MARX

2.2) que o montante dos salários reais, isto é, dos salários medidos pelo vo- lume de mercadorias que permitem adquirir, é também uma soma fixa, uma gran- deza constante.

Pois bem, a sua primeira asserção é manifestamente falsa. Podeis ver que o valor e o volume da produção aumentam de ano para ano, que as forças produti- vas do trabalho nacional crescem e que a quantidade de dinheiro necessário para pôr em circulação esta crescente produção varia sem cessar. O que é exato no fim de cada ano e para diferentes anos comparados entre si também o é com respeito a cada dia médio do ano. O volume ou grandeza da produção nacional varia continuamente. Não é uma grandeza constante, mas variável, e assim tem que ser, mesmo sem levar em conta as flutuações da população, devido às contínuas mudanças que se operam na acumulação de capital e nas forças produtivas do trabalho. É inteiramente certo que, se hoje houvesse um aumento da taxa geral de salários, este aumento por si só, quaisquer que fossem os seus resultados ulterio- res, não alteraria imediatamente o volume da produção. Em primeiro lugar, teria que brotar do estado de coisas existente. E, se a produção nacional, antes da ele- vação dos salários, era variável, e não fixa, ela continuaria a sê-lo, também, de- pois da alta.

Admitamos, porém, que o volume da produção nacional fosse constante em vez de variável. Ainda neste caso, aquilo que o nosso amigo Weston considera uma conclusão lógica permaneceria como uma afirmação gratuita. Se tomo um determinado número, digamos 8, os limites absolutos deste algarismo não impe- dem que variem os limites relativos de seus componentes. Por exemplo: se o lucro fosse igual a 6 e os salários a 2, estes poderiam aumentar até 6 e o lucro baixar a 2, que o número resultante não deixaria por isso de ser 8. Desta maneira, o vo- lume fixo da produção jamais conseguirá provar que seja fixo o montante dos salários. Como, então, nosso amigo Weston demonstra essa fixidez? Simples- mente, afirmando-a.

Mas mesmo dando como boa a sua afirmativa, ela teria efeito em dois senti- dos, ao passo que ele quer fazê-la vigorar apenas em um. Se o volume dos salários representa uma quantidade constante, não poderá aumentar, nem diminuir. Por- tanto, se os operários agem como tolos ao arrancarem um aumento temporário de salários, não menos totalmente estariam agindo os capitalistas ao impor uma baixa temporária dos salários. Nosso amigo Weston não nega que, em certas circunstâncias, os operários podem arrancar aumentos de salários; mas, segundo ele, como por lei natural a soma dos salários é fixa, este aumento provocará, necessariamente, uma reação. Por outro lado, ele sabe também que os capitalistas podem, do mesmo modo, impor uma baixa de salários, e tanto assim que o estão tentando continuamente. De acordo com o princípio do nível constante dos salá- rios, neste caso deveria ter lugar uma reação, exatamente como no interior. Por conseguinte, os operários agiriam com acerto reagindo contra as baixas de salá- rios ou contra as tentativas em tal sentido. Procederiam, portanto, acertadamente, ao arrancar aumentos de salários, pois toda reação contra uma baixa de salários é uma ação a favor do seu aumento. Logo, mesmo que aceitássemos o princípio

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 65

do nível constante de salários, como sustenta o cidadão Weston, vemos que os operários devem, em certas circunstâncias, unir-se e lutar pelo aumento de salários.

Para negar esta conclusão ele teria que renunciar à premissa em que se baseia. Não deveria dizer que o volume dos salários é uma grandeza constante, mas sim que, embora não possa nem deva aumentar, pode e deve baixar todas as vezes que o capital sinta vontade de diminuí-lo. Se o capitalista quer vos alimen- tar com batatas, em vez de carne, ou com aveia, em vez de trigo, deveis acatar a sua vontade como uma lei da economia política e vos submeter a ela. Se num país, por exemplo, nos Estados Unidos, as taxas de salários são mais altas do que em outro, por exemplo, na Inglaterra, deveis explicar esta diferença no nível dos salários como uma diferença entre a vontade do capitalista norte-americano e a do capitalista inglês; método este que, sem dúvida, simplificaria imenso não apenas o estudo dos fenômenos econômicos, como também o de todos os demais fenômenos.

Ainda assim caberia perguntar: Por que a vontade do capitalista norte-ame- ricano difere da do capitalista inglês? E para responder a esta questão, não teriam outro remédio senão ir além dos domínios da vontade. É possível que venha um padre dizer-me que Deus quer na França uma coisa e na Inglaterra outra. E se o convido a explicar esta dualidade de vontade, ele poderá ter a imprudência de res- ponder que está nos desígnios de Deus ter uma vontade na França e outra na Inglaterra. Mas nosso amigo Weston será, com certeza, a última pessoa a conver- ter em argumento esta negação completa de todo raciocínio.

Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bol- sos, o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o caráter desses limites.

H

[Produção, salários, lucros]

A conferência proferida pelo cidadão Weston poderia ser condensada a ponto de caber numa casca de noz.

Toda a sua argumentação reduz-se ao seguinte: se a classe operária obriga a classe capitalista a pagar-lhe, sob a forma de salário em dinheiro, 5 xelins em vez de 4, o capitalista devolver-lhe-á, sob a forma de mercadorias, o valor de 4 xelins em vez do valor de 5. Então a classe operária terá que pagar 5 xelins pelo que antes da alta de salários lhe custava apenas 4. E por que ocorre isto? Por que o capitalista entrega o valor de 4 xelins por 5? Porque o montante dos salários é fixo. Mas por que fixo precisamente no valor de 4 xelins em mercadorias? Por que não em 3, em 2, ou outra qualquer quantia? Se o limite do montante dos salá- rios está fixado por uma lei econômica, independente tanto da vontade do capita-

66 MARX

lista como da do operário, a primeira coisa que deveria ter feito o cidadão Wes- ton era expor e demonstrar essa lei. Deveria provar, além disso, que a soma de salários efetivamente pagos em cada momento dado corresponde sempre, exata- mente, à soma necessária dos salários, e nunca se desvia dela. Em compensação, se O limite dado da soma de salários depende da simples vontade do capitalista, ou das proporções da sua avareza, trata-se de um limite arbitrário, que nada tem em si de necessário. Tanto pode ser modificado pela vontade do capitalista, como também se pode fazê-lo variar contra a sua vontade.

O cidadão Weston ilustrou a sua teoria dizendo-nos que se uma terrina con- tém determinada quantidade de sopa, destinada a determinado número de pes- soas, a quantidade de sopa não aumentará se se aumentar o tamanho das colhe- res. Seja-me permitido considerar este exemplo pouco substancioso. Ele me faz lembrar um pouco aquele apólogo de que se valeu Menênio Agripa.? Quando a plebe romana entrou em luta contra os patrícios, o patrício Agripa disse-lhes que a pança patrícia é que alimentava os membros plebeus do organismo político. Mas Agripa não conseguiu demonstrar como se alimentam os membros de um homem quando se enche a barriga de outro. O cidadão Weston, por sua vez, se esquece de que a terrina da qual comem os operários contém todo o produto do trabalho nacional, e o que os impede de tirar dela uma ração maior não é nem o tamanho reduzido da terrina, nem a escassez do seu conteúdo, mas unicamente a pequena dimensão de suas colheres.

Graças a que artifício consegue o capitalista devolver um valor de 4 xelins por aquilo que vale 5? A alta dos preços das mercadorias que vende. Mas, então, a alta dos preços, ou, falando em termos mais gerais, as variações nos preços das mercadorias, Os próprios preços destas, porventura dependem da simples vontade do capitalista? Ou, ao contrário, são necessárias determinadas circunstâncias para que prevaleça essa vontade? Se não fosse assim, as altas e baixas, as inces- santes oscilações dos preços no mercado seriam um enigma indecifrável.

Se admitimos que não se operou em absoluto alteração alguma, nem nas for- ças produtivas do trabalho, nem no volume do capital e do trabalho empregados, ou no valor do dinheiro em que se expressam os valores dos produtos, mas que se alteraram tão-somente as taxas de salários, de que maneira poderia esta alta de salários influir nos preços das mercadorias? Somente influindo na proporção real entre a oferta e a procura dessas mercadorias.

É inteiramente certo que a classe operária, considerada em conjunto, gasta e será forçosamente obrigada a gastar a sua receita em artigos de primeira. necessi- dade. Uma alta geral na taxa de salários provocaria, portanto, um aumento da procura de artigos de primeira necessidade e, consequentemente, um aumento de seus preços no mercado. Os capitalistas que produzem estes artigos de primeira necessidade compensariam o aumento de salários por meio dos preços dessas mercadorias. Mas que sucederia com os demais capitalistas que não produzem

? Menênio Agripa, cônsul romano em 502 a.C., que, ao intervir numa revolta da plebe, fez um apelo à con- córdia baseado no ardiloso apólogo de “Os membros e o estômago”. (N. do E.)

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 67

artigos de primeira necessidade? E podeis estar certos que o seu número não é pequeno. Se levardes em conta que duas terças partes da produção nacional são consumidas por um quinto da população um deputado da Câmara dos Co- muns declarou, recentemente, que tais consumidores constituem apenas a sétima parte da população —, podereis imaginar que enorme parcela da produção nacio- nal se destina a objetos de luxo, ou a ser trocada por objetos de luxo, e que imen- sa quantidade de artigos de primeira necessidade se desperdiça em criadagem, cavalos, gatos, etc., esbanjamento esse que, como nos ensina a experiência, dimi- nui cada vez mais, com a elevação dos preços dos artigos de primeira necessidade.

Pois bem, qual seria a situação desses capitalistas que não produzem artigos de primeira necessidade? Não poderiam compensar a queda na taxa de lucro, após uma alta geral de salários, elevando os preços de suas mercadorias, visto que a procura destas não teria aumentado. A sua renda diminuiria; e com esta renda diminuída teriam de pagar mais pela mesma quantidade de artigos de pri- meira necessidade, que subiriam de preço. Mas a coisa não pararia aí. Diminuída a sua renda, menos teriam para gastar em artigos de luxo, com o que também se reduziria a procura de suas respectivas mercadorias. E, como consegiiência desta diminuição da procura, cairiam os preços das suas mercadorias. Portanto, nestes ramos da indústria, a taxa de lucros cairia, não em proporção simplesmente ao aumento geral da taxa de salários, como, também, essa queda seria proporcional à ação conjunta da alta geral de salários, do aumento de preços dos artigos de primeira necessidade e da baixa de preços dos artigos de luxo.

Qual seria a consegiência desta diferença entre as taxas de lucro dos capi- tais colocados nos diversos ramos da indústria? Ora, a mesma que se produz sempre que, seja qual for a causa, se verificam diferenças nas taxas médias de lucro dos diversos ramos da produção. O capital e o trabalho deslocar-se-iam dos ramos menos remunerativos para os que fossem mais; e este processo de desloca- mento iria durar até que a oferta em um ramo industrial aumentasse a ponto de se nivelar com a maior procura e nos demais ramos industriais diminuísse proporcionalmente à menor procura. Uma vez operada esta mudança, a taxa geral de lucro voltaria a igualar-se nos diferentes ramos da indústria. Como todo esse desarranjo obedecia originariamente a uma simples mudança na relação entre a oferta e a procura de diversas mercadorias, cessando a causa, cessariam também os efeitos, e os preços voltariam ao seu antigo nível e ao antigo equili- brio. A redução da taxa de lucro, por efeito dos aumentos de salários, em vez de limitar-se a uns quantos ramos da indústria, tornar-se-ia geral. Segundo a suposi- ção de que partimos, nenhuma alteração ocorreria nas forças produtivas do tra- balho, nem no volume global da produção, sendo que aquele volume dado de pro- dução apenas teria mudado de forma. Uma maior parte do volume de produção estaria representada por artigos de primeira necessidade, ao passo que diminuiria a parte dos artigos de luxo, ou, o que vem a ser o mesmo, diminuiria a parte desti- nada à troca por artigos de luxo importados do estrangeiro e consumida desta forma; ou, o que ainda é o mesmo, em outros termos, uma parte maior da produ-

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ção nacional seria trocada por artigos importados de primeira necessidade, em lugar de ser trocada por artigos de luxo. Isto quer dizer que, depois de transtornar temporariamente os preços do mercado, a alta geral da taxa de salários condu- ziria a uma baixa geral da taxa de lucro, sem introduzir nenhuma alteração per- manente nos preços das mercadorias.

Se me disserem que, na anterior argumentação, dou por estabelecido que todo o aumento de salários se gasta em artigos de primeira necessidade, replicarei que fiz a suposição mais favorável ao ponto de vista do cidadão Weston. Se o aumento dos salários fosse aplicado em objetos que antes não entravam no con- sumo dos trabalhadores, seria inútil que nos detivéssemos a demonstrar que seu poder aquisitivo havia experimentado um aumento real. Sendo, porém, mera consegiência da elevação de salários, este aumento do poder aquisitivo dos ope- rários terá de corresponder, exatamente, à diminuição do poder aquisitivo dos capitalistas. Vale dizer, portanto, que a procura global de mercadorias não aumentaria, e apenas mudariam os elementos integrantes dessa procura. O incre- mento da procura de um lado seria contrabalançado pela diminuição da procura do outro lado. Deste modo, como a procura global permaneceria invariável, não se operaria mudança de cunho algum nos preços das mercadorias.

Chegamos, assim, a um dilema: ou o incremento dos salários se gasta por igual em todos os artigos de consumo, caso em que o aumento da procura por parte da classe operária tem que ser compensado pela diminuição da procura por parte da classe capitalista, ou o incremento dos salários se gasta em determi- nados artigos cujos preços no mercado aumentarão temporariamente. Neste caso, a consequente elevação da taxa de lucro em alguns ramos da indústria e a conse- quente baixa da taxa de lucro em outros provocarão uma mudança na distribui- ção do capital e do trabalho, que persiste até que a oferta se tenha ajustado à maior procura em alguns ramos da indústria e à menor procura nos outros. Na primeira hipótese não se produzirá nenhuma mudança nos preços das mercado- rias. Na outra, após algumas oscilações dos preços do mercado, os valores de troca das mercadorias baixarão ao nível anterior. Em ambos os casos, chegare- mos à conclusão de que a alta geral da taxa de salários conduzirá, afinal de con- tas, a nada menos que uma baixa geral da taxa de lucro.

Para espicaçar o vosso poder de imaginação, o cidadão Weston vos convi- dava a pensar nas dificuldades que acarretaria à Inglaterra uma alta geral de 9 para 18 xelins nas jornadas dos trabalhadores agricolas. Meditai, exclamou ele, no enorme acréscimo da procura de artigos de primeira necessidade que isso implicaria e, como consequência, na terrível ascensão dos preços a que daria lugar ! Pois bem, todos sabeis que os salários médios dos trabalhadores agrícolas da América do Norte são mais do dobro dos dos trabalhadores agrícolas ingleses, apesar de os preços dos produtos da lavoura serem mais baixos nos Estados Uni- dos do que na Grã-Bretanha, apesar de reinarem nos Estados Unidos as mesmas relações gerais entre o capital e o trabalho que na Inglaterra e apesar de que o vo- lume anual da produção norte-americana é muito mais reduzido que o da inglesa. Por que, então, o nosso amigo toca com tanto vigor este sino? Simplesmente para

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desviar a nossa atenção do verdadeiro problema. Um aumento repentino de 9 para 18 xelins nos salários representaria um acréscimo repentino de 100 por cento. Ora, não estamos discutindo aqui se seria possível duplicar na Inglaterra, de súbito, a taxa dos salários. Não nos interessa em nada a grandeza do aumento, que em cada caso concreto depende de determinadas circunstâncias e tem que se adaptar a elas. Apenas nos interessa investigar quais os efeitos em que se traduzi- ria uma alta geral da taxa dos salários, mesmo que não fosse além de 1 por cento.

Pondo de lado este aumento imaginário de 100 por cento do amigo Weston, desejo chamar vossa atenção para o aumento efetivo de salários operado na Grã- Bretanha de 1849 a 1859.

Todos vós conheceis a Lei das Dez Horas, ou, mais precisamente, das Dez Horas e Meia, promulgada em 1848. Foi uma das maiores modificações econô- micas que presenciamos. Representou um aumento súbito e obrigatório de salários não em umas quantas indústrias locais, porém nos ramos industriais mais eminentes, por meio dos quais a Inglaterra domina os mercados do mundo. Foi uma alta de salários em circunstâncias singularmente desfavoráveis. O dr. Ure, o prof. Senior e todos os demais porta-vozes oficiais da burguesia no campo da economia demonstraram, e, devo dizer, com razões muito mais sólidas do que as do nosso amigo Weston, que aquilo era o dobre de finados da indústria inglesa. Demonstraram que não se tratava de um simples aumento de salários, mas de um aumento de salários provocado pela redução da quantidade de trabalho empre- gado e nela fundamentado. Afirmaram que a duodécima hora que se queria arre- batar ao capitalista era justamente aquela em que este obtinha o seu lucro. Amea- çaram com o decréscimo da acumulação, a alta dos preços, a perda dos mercados, a redução da produção, a consequente reação sobre os salários e, enfim, a ruína. Sustentavam que a lei de Maximiliano Robespierre sobre os limi- tes máximos * era uma ninharia comparada com essa outra; e, até certo ponto, ti- nham razão. Mas qual foi, na realidade, o resultado? Os salários em dinheiro dos operários fabris aumentaram, apesar de se haver reduzido a jornada de trabalho; cresceu consideravelmente o número de operários em atividade nas fábricas; bai- xaram constantemente os preços dos seus produtos; desenvolveram-se às mil maravilhas as forças produtivas do seu trabalho e se expandiram progressiva- mente, em proporções nunca vistas, os mercados para os seus artigos. Em Manchester, na assembléia da Sociedade pelo Progresso da Ciência, em 1860, eu próprio ouvi o sr. Newman confessar que ele, o dr. Ure, o prof. Senior e todos os demais representantes oficiais da ciência econômica se haviam equivocado, ao passo que o instinto do povo não falhara. Cito neste passo o sr. W. Newman º e

3 A Lei das Dez Horas, que reduziu e regulamentou a duração da jornada de trabalho, representou, na época, uma vitória da classe operária inglesa. (N. do E.)

* A lei sobre os limites máximos, dita Lei do Máximo, foi promulgada pela Convenção Jacobina de 1793, durante a revolução burguesa da França. Fixava, rigidamente, os limites dos preços das mercadorias e dos salários. (N. do T.)

* Marx se equivocou no nome do editor da obra de Thomas Tooke, que foi W. Newmarch e não W. New- man. (N. do T.)

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não o prof. Francis Newman, porque ele ocupa na ciência econômica um lugar proeminente, como colaborador e editor da History of Prices (História dos Pre- ços) da autoria do sr. Thomas Tooke, esta obra magnífica, que retrata a história dos preços desde 1793 a 1856. Se a idéia fixa de nosso amigo Weston acerca do volume fixo dos salários de um volume de produção fixo, de um grau fixo de produtividade do trabalho, de uma vontade fixa e constante dos capitalistas, e tudo o mais que de fixo e imutável em Weston, fossem exatos, o prof. Senior teria acertado em seus sombrios presságios e Robert Owen ter-se-ia equivocado, ele que, em 1816, pedia uma limitação geral da jornada de trabalho como pri- meiro passo preparatório para a emancipação da classe operária, implantando-a, efetivamente, por conta e risco próprios, na sua fábrica têxtil de New Lanark, contra o preconceito generalizado. *

Na mesmíssima época em que entrava em vigor a Lei das Dez Horas e se produzia o subsequente aumento dos salários, ocorreu na Grã-Bretanha, por mo- tivo que não vem ao caso relatar, uma elevação geral dos salários dos trabalha- dores agrícolas.

Conquanto isto não seja indispensável ao meu objetivo imediato, desejo fazer algumas observações preliminares, para vos colocar melhor no assunto.

Se um homem percebe 2 xelins de salário por semana e seu salário aumenta para 4 xelins, a taxa do salário aumentará 100 por cento. Isto, expresso como aumento da taxa de salário, pareceria algo maravilhoso, ainda que, na realidade, a quantia efetiva do salário, ou seja, os 4 xelins por semana, continue a ser um ín- fimo, um mísero salário de fome. Portanto, não vos deveis fascinar pelas altisso- nantes percentagens da taxa de salário. Deveis perguntar sempre: qual era a quantia original? Outra coisa que também compreendereis é que, se dez operá- rios que ganham cada um 2 xelins por semana, cinco ganhando 5 xelins cada um e outros cinco que ganhem 11, eles, os vinte, ganharão 100 xelins, ou 5 libras esterlinas por semana. Logo, se a soma global destes salários semanais aumenta, digamos, de uns 20 por cento, haverá uma melhora de 5 para 6 libras. Tomando a média, poderíamos dizer que a taxa geral de salários aumentou de 20 por cento, embora na realidade os salários de dez dos operários variassem, os salários de um dos dois grupos de cinco operários aumentassem de 5 para 6 xelins por cabeça, e os do outro grupo de 5 operários se elevassem, ao todo, de 55 para 70 xelins. ' Metade dos operários não melhoraria absolutamente nada de situação, a quarta parte deles teria uma melhoria insignificante e somente a quarta parte restante obteria um benefício sensível. Calculando, porém, a média, a soma global dos salários destes vinte operários aumentaria de 20 por cento e, no que se retere ao

8 Robert Owen (1771/1858) foi um industrial britânico que se tornou “socialista utópico”. Introduziu em sua fábrica a jornada de dez horas de trabalho e organizou um seguro por doença, sociedades cooperativas de produtores, etc. Veja-se a obra de Engels, Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, ed. bras., Edi- torial Vitória Ltda., p. 37, Rio de Janeiro, 1962. (N. do E.)

? O salário de 25 + 55 xelins teria subido para 30 + 70, isto é, ao todo, de 80 para 100 ou 25%. É verdade que os salários de 2 xelins, que ficaram na mesma para as dez pessoas do primeiro grupo, não foram conta- dos. Senão seria preciso, para obter um aumento médio de salários de 25%, elevar os salários do último grupo de 55 a 75 xelins, ou fazer passar o salário de cinco operários, de 11 a 15 xelins cada um. (N. da Ed. Francesa.)

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capital global, para o qual trabalham, bem como no concernente aos preços das mercadorias que produzem, seria exatamente o mesmo como se todos partici- passem por igual na elevação média dos salários. No caso dos trabalhadores agri- colas, como os salários médios pagos nos diversos condados da Inglaterra e Escócia diferem consideravelmente, o aumento foi muito desigual.

Enfim, durante a época em que se processou aquele aumento de salários, manifestaram-se, também, influências que c contrabalançavam, tais como os novos impostos lançados no cortejo da Guerra da Criméia,º a demolição exten- siva das habitações dos trabalhadores agrícolas, etc.

Feitas estas reservas, vou agora prosseguir, para constatar que de 1849 a 1859 a taxa média dos salários agricolas na Grã-Bretanha registrou um aumento de cerca de 40 por cento. Poderia dar-vos amplos detalhes em apoio à minha afir- mação, mas para o objetivo em mira creio que bastará indicar-vos a obra de criíti- ca, tão conscienciosa, lida em 1860 pelo finado sr. John C. Morton, na Sociedade de Artes e Ofícios de Londres, sobre As Forças Empregadas na Agricultura. O sr. Morton expõe os dados estatísticos colhidos nas contas e outros documentos autênticos de uns cem agricultores, aproximadamente, em doze condados da Escócia e trinta e cinco da Inglaterra.

Segundo o ponto de vista do nosso amigo Weston, e em harmonia com a alta simultânea operada nos salários dos operários de fábrica, durante o periodo 1849/1859, os preços dos produtos agrícolas deveriam ter registrado um aumento enorme. Mas o que aconteceu realmente? Apesar da Guerra da Criméia e das péssimas colheitas consecutivas de 1854 a 1856, os preços médios do trigo, o pro- duto agricola mais importante da Inglaterra, baixaram de cerca de 3 libras esterli- nas por quarter, como eram cotados de 1838 a 1848, para cerca de 2 libras e 10 xelins por quarter, nas cotações do período de 1849 a 1859. Representa isto uma baixa de mais de 16 por cento no preço do trigo, em simultaneidade com um aumento médio de 40 por cento nos salários agrícolas. Durante a mesma época, se compararmos o seu final com o começo, quer dizer, o ano de 1859 com o de 1849, a cifra do pauperismo oficial desce de 934 419 a 860 470, o que supõe uma diferença de 73 949 pobres; reconheço que é um decréscimo muito pequeno, e que se voltou a perder nos anos seguintes, mas, em todo caso, é sempre diminuição.

Pode-se objetar que, em consequência de anulação das leis sobre os cereais,'º a importação de trigo estrangeiro mais que duplicou, no período de 1849/1859, comparada à de 1838/1848. E que significa isso? Do ponto de vista do cidadão Weston, dever-se-ia supor que esta enorme procura, repentina e sem

8 A Guerra da Criméia durou de 1854 a 1856 e teve a participação de tropas britânicas, francesas, turcas e sardas, contra os exércitos do czar Nicolau I. Com esta guerra a Grã-Bretanha procurou conter as arreme- tidas expansionistas do czar, em direção ao estreito de Bósforo, que eram tidas como uma ameaça ao impe- rialismo britânico no Mediterrâneo. (N. do E.)

* Quarter, medida inglesa de capacidade que equivale a 8 bushels, ou seja, cerca de 290 litros. (N. do E.)

As leis sobre o comércio de cereais, ditas em inglês Corn Laws, foram abolidas pelo primeiro-ministro Robert Peel, em 1846. Os cereais importados do estrangeiro passaram a pagar uma taxa aduaneira reduzida. em 1849, apenas a 1 xelim por quarter. A revogação das Corn Laws abriu, de fato, as alfândegas inglesas aos cereais importados. (N. do E.)

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cessar crescente, sobre os mercados estrangeiros tivesse feito subir a uma altura espantosa os preços dos produtos agrícolas, posto que os efeitos de uma crescente procura são os mesmos, quer venham de fora ou de dentro do país. Mas o que ocorreu na realidade? Afora alguns anos de colheitas decepcionantes, durante todo este período a ruinosa baixa no preço do trigo constituiu um motivo perma- nente de queixas, na França; os norte-americanos viram-se várias vezes obriga- dos a queimar excedentes da produção e a Rússia, se acreditarmos no sr. Urqu- hart, atiçou a guerra civil nos Estados Unidos, porque a concorrência ianque nos mercados da Europa paralisava a sua exportação de produtos agricolas.

Reduzido a sua forma abstrata, o argumento do cidadão Weston traduzir- se-ia no seguinte: todo aumento da procura se opera sempre à base de um dado volume de produção. Portanto, não pode fazer aumentar nunca a oferta dos arti- gos procurados, mas unicamente fazer subir o seu preço em dinheiro. Ora, a mais comum observação demonstra que, em alguns casos, o aumento da procura deixa inalterados os preços das mercadorias e provoca, em outros casos, uma alta pas- sageira dos preços do mercado, à qual se segue um aumento da oferta, por sua vez seguido pela queda dos preços até O nível anterior e, em muitos casos, abaixo dele. Que o aumento da procura obedeça à alta dos salários, ou a outra causa qualquer, isto em nada modifica os dados do problema. Do ponto de vista do cidadão Weston, tão difícil é explicar o fenômeno geral como o que se revela sob as circunstâncias excepcionais de um aumento de salários. Portanto, a sua argu- mentação não tem nenhum valor para o assunto de que tratamos. Apenas expri- miu a sua perplexidade entre as leis em virtude das quais um acréscimo da procu- ra engendra um acréscimo da oferta, em vez de um aumento definitivo dos preços no mercado.

HI

[Salários e dinheiro|

No segundo dia de debate, nosso amigo Weston vestiu as suas velhas afir- mativas com novas formas. Disse ele: Ao verificar-se uma alta geral dos salários em dinheiro, será necessária maior quantidade de moeda corrente para pagar os ditos salários. Sendo fixa a quantidade de moeda em circulação, como podeis pagar, com esta soma fixa de moeda circulante, um montante maior de salários em dinheiro? Primeiro, a dificuldade surgia de que, embora subisse o salário em dinheiro do operário, a quantidade de mercadorias que lhe cabia era fixa; e, agora, surge do aumento de salários em dinheiro, a despeito do volume fixo de mercadorias. Naturalmente, se rejeitardes o seu dogma original, desaparecerão também as dificuldades dele resultantes.

Vou demonstrar, contudo, que este problema da moeda não tem absoluta- mente nada a ver com o tema em questão.

No vosso país, o mecanismo dos pagamentos está muito mais aperfeiçoado

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 73

do que em qualquer outro país da Europa. Graças à extensão e à concentração do sistema bancário, necessita-se de muito menos moeda para pôr em circulação a mesma quantidade de valores e realizar o mesmo, ou um maior número de negó- cios. No que, por exemplo, concerne aos salários, o operário fabril inglês entrega semanalmente o seu salário ao vendeiro, que semanalmente o envia ao banqueiro, o qual o devolve semanalmente ao fabricante, que volta a pagá-lo a seus operá- rios, e assim por diante. Graças a este processo, o salário anual de um operário, que se eleva, vamos supor, a 52 libras esterlinas, pode ser pago com um único “soberano”,!! que todas as semanas percorra o mesmo ciclo. Na própria Ingla- terra, este mecanismo de pagamento não é tão perfeito como na Escócia, nem apresenta a mesma perfeição em todos os lugares; por isso vemos que, por exem- plo, em alguns distritos agrícolas, comparados com os distritos fabris, muito mais moeda é necessária para fazer circular um menor volume de valores.

Se atravessardes a Mancha, observais que no Continente os salários em dinheiro são muito mais baixos do que na Inglaterra, e, apesar disso, na Alema- nha, na Itália, na Suíça e na França, estes salários são postos em circulação mediante uma quantidade muito maior de moeda. O mesmo “soberano” não é interceptado com tanta rapidez pelo banqueiro, nem retorna com tanta presteza ao capitalista industrial; por isso, em vez de um “soberano” fazer circular 52 li- bras anualmente, talvez sejam necessários três “soberanos” para movimentar um salário anual no montante de 25 libras. Deste modo, ao comparar os países do Continente com a Inglaterra, vereis, em seguida, que salários baixos em dinheiro podem exigir, para a sua circulação, quantidades muito maiores de moeda do que salários altos e que isso, na realidade, é uma questão meramente técnica e, como tal, estranha ao nosso assunto.

De acordo com os melhores cálculos que conheço, a renda anual da classe operária deste país pode ser estimada nuns 250 milhões de libras esterlinas. Esta soma imensa se põe em circulação com uns 3 milhões de libras. Suponhamos que se verifique um aumento de salários de 50 por cento. Em vez de 3 milhões seriam precisos 4 milhões e meio de libras em dinheiro circulante. Como uma parte considerável dos gastos diários do operário é coberta em prata e cobre, isto é, em meros signos monetários, cujo valor relativo ao ouro é arbitrariamente fixado por lei, tal como o papel-moeda inconversível, resulta que essa alta de 50 por cento nos salários em dinheiro exigiria, em caso extremo, a circulação adicional, diga- mos, de um milhão de “soberanos”. Lançar-se-ia em circulação um milhão, que está inativo, em barras de ouro ou em metal amoedado, nos subterrâneos do Banco da Inglaterra ou de bancos particulares. Poder-se-ia inclusive poupar-se, e efetivamente poupar-se-ia, O insignificante gasto na cunhagem suplementar, ou o maior desgaste deste milhão de moedas, se a necessidade de aumentar a moeda em circulação ocasionasse algum desgaste. Todos vós sabeis que a moeda deste país se divide em dois grandes grupos. Uma parte, suprida em notas de banco de

*1 Moeda inglesa de ouro, com o valor nominatde 1 libra esterlina. (N. do E.)

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diversas categorias, é usada nas transações entre comerciantes, e também entre comerciantes e consumidores, para saldar os pagamentos mais importantes; enquanto outra parte do meio circulante, a moeda metálica, circula no comércio varejista. Conquanto distintas, estas duas classes de moeda misturam-se e combi- nam-se mutuamente. Assim, as. moedas de ouro circulam em boa proporção, inclusive em pagamentos importantes, para cobrir as quantias fracionárias infe- riores a 5 libras. Se amanhã se emitissem notas de 4 libras, de 3 libras ou de 2 libras, O ouro que enche estes canais de circulação seria imediatamente expulso deles, refluindo para os canais em que fosse necessário a fim de atender ao aumento dos salários em dinheiro. Com este processo poderia ser mobilizado o milhão adicional exigido por um aumento de 50 por cento nos salários, sem que se acrescentasse um único “soberano” ao meio circulante. E o mesmo resultado seria obtido sem que fosse preciso emitir uma nota de banco adicional, com o simples aumento de circulação de letras de câmbio, conforme ocorreu no Lanca- shire, durante muito tempo.

Se uma elevação geral da taxa de salários, vamos dizer, de uns 100 por cento, como supõe o cidadão Weston relativamente aos salários agrícolas, provo- casse uma grande alta nos preços dos artigos de primeira necessidade e exigisse, segundo os seus conceitos, uma soma adicional de meios de pagamento, que não se poderia conseguir logo, uma redução geral de salários deveria provocar o mesmo resultado em idêntica proporção, se bem que em sentido contrário. Pois bem, sabeis todos que os anos de 1858 a 1860 foram os mais favoráveis para a indústria algodoeira e que, sobretudo, o ano de 1860 ocupa a este respeito um lugar único nos anais do comércio; foi também um ano de grande prosperidade para os outros ramos industriais. Em 1860, os salários do algodão e dos demais trabalhadores relacionados com esta indústria chegaram ao seu ponto mais eleva- do até então. Veio, porém, a crise norte-americana e todos estes salários viram-se de pronto reduzidos aproximadamente à quarta parte do seu montante anterior. Em sentido inverso isto teria significado um aumento de 300 por cento. Quando os salários sobem de 5 para 20 xelins dizemos que sobem 300 por cento; se bai- xam de 20 para 5, dizemos que caem 75 por cento, mas a quantia do ascenso num caso, e da baixa, no outro, é a mesma, a saber: 15 xelins. Sobreveio, assim, uma repentina mudança nas taxas dos salários como jamais se conhecera anterior- mente, e esta mudança afetou um número de operários que não incluindo ape- nas aqueles que trabalham diretamente na indústria algodoeira, mas também os que indiretamente dependiam desta indústria excedia em cerca de metade o número de trabalhadores agricolas. Acaso baixou o preço do trigo? Ao contrário, subiu de 47 xelins e 8 pence, '? por quarter, preço médio no triênio de 1358/1860, para 55 xelins e 10 pence o quarter, segundo a média anual referente ao triênio de 1861/1863. Pelo que diz respeito aos meios de pagamento, durante o ano de 1861, cunharam-se na Casa da Moeda 8 673 232 libras contra 3 378 102 cunha- das em 1860. Vale dizer que em 1861 cunharam-se mais 5 295 130 libras que em

"2 O penny corresponde a 1/12 do xelim. (N. do E.)

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1860. É certo que o volume da circulação de papel-moeda, em 1861, foi inferior em 1 319 000 libras ao de 1860. Mas, mesmo deduzindo esta soma, ainda persis- te, para o ano de 1861, comparado com o ano anterior de prosperidade, 1860, um excesso de moeda no valor de 3 976 130 libras, ou quase 4 milhões; em troca, a reserva de ouro do Banco da Inglaterra neste período de tempo diminuiu não exa- tamente na mesma proporção, mas aproximadamente.

Comparai agora o ano de 1862 com o de 1842. Sem contar o formidável aumento do valor e do volume de mercadorias em circulação, o capital desembol- sado apenas para cobrir as transações regulares de ações, empréstimo, etc., de valores das ferrovias, ascendeu, na Inglaterra e Gales, em 1862, à soma de 320 milhões de libras esterlinas, cifra que em 1842 parecia fabulosa. E, no entanto, as somas globais de moeda foram aproximadamente as mesmas nos anos de 1862 e 1842; e, em termos gerais, haveis de verificar, ante um aumento enorme de valor não das mercadorias como em geral das operações em dinheiro, uma tendência à diminuição progressiva dos meios de pagamento. Do ponto de vista do nosso amigo Weston, isto é um enigma indecifrável.

Se se aprofundasse um pouco mais no assunto, contudo, ele teria visto que, independentemente dos salários e supondo que estes permaneçam invariáveis, O valor e o volume das mercadorias postas em circulação e, em geral, o montante das transações concertadas em dinheiro, variam diariamente; que o montante das notas de banco emitidas varia diariamente; que o montante dos pagamentos efe- tuados sem ajuda de dinheiro, por meio de letras de câmbio, cheques, créditos escriturais, clearing-house, etc., varia diariamente; que, na medida em que se necessita efetivamente de moeda metálica, a proporção entre as moedas que cir- culam e as moedas e lingotes guardados de reserva, ou entesourados nos subterrã- neos bancários, varia diariamente; que a soma do ouro absorvido pela circulação nacional e a soma enviada ao estrangeiro para fins de circulação internacional variam diariamente. Teria percebido que o seu dogma de um volume fixo dos meios de pagamento é um erro monstruoso, incompatível com a realidade coti- diana. Ter-se-ia informado das leis que permitem aos meios de pagamento adap- tar-se a condições que variam de maneira tão constante em lugar de converter a sua falsa concepção das leis da circulação monetária em argumento contra o aumento dos salários.

IV

[Oferta e procural

Nosso amigo Weston faz seu o provérbio latino repetitio est mater studio- rum, que significa: “a repetição é a mãe do estudo”, razão pela qual nos repete o

'3 Bancos de compensação por intermédio dos quais se efetuam certos pagamentos. (N. da Ed. Francesa.)

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seu dogma inicial sob a nova forma de que a redução dos meios de pagamento, resultante de um aumento dos salários, determinaria uma diminuição do capital, etc. Depois de haver tratado de sua fantasiosa teoria da moeda, considero de todo inútil deter-me a examinar as consegiências imaginárias que ele crê necessário deduzir de sua imaginária catástrofe dos meios de pagamento. Passo, pois, imediatamente, a reduzir à forma teórica mais simples o seu dogma, que é sempre um e o mesmo, embora repetido sob tantas formas diversas.

Uma única observação evidenciará a ausência de sentido crítico com que ele trata o tema. Declara-se contrário ao aumento de salários, ou aos salários altos, obtidos em consegiência deste aumento. Pois bem, pergunto eu: o que são salá- rios altos e o que são salários baixos? Por que, por exemplo, 5 xelins semanais são considerados como um salário baixo e 20, por semana, são reputados um salário alto? Se um salário de 5 é baixo, em comparação com um de 20, o de 20 será todavia mais baixo comparado com um de 200. Se alguém fizesse uma conferência sobre o termômetro e se pusesse a declamar sobre graus altos e graus baixos, nada nos ensinaria. A primeira coisa que teria de explicar é como se encontra o ponto de congelamento e o ponto de ebulição, e como estes dois pontos-padrão obedecem as leis naturais e não à fantasia dos vendedores ou dos fabricantes de termômetros. Ora, pelo que se refere a salários e lucros, o cidadão Weston não se esqueceu de deduzir das leis econômicas esses pontos-padrão, mas também não sentiu sequer a necessidade de indagá-los. Contenta-se em admitir as expressões vulgares e correntes de alto e baixo, como se estes termos tivessem significado fixo, apesar de que salta à vista que os salários podem ser qualificados de altos ou baixos quando comparados a alguma norma que nos per- mita medir a sua grandeza.

O cidadão Weston não poderá dizer-me por que se paga uma determinada soma de dinheiro por uma determinada quantidade de trabalho. Se me contes- tasse que isto corre por conta da lei da oferta e da procura, eu lhe pediria, antes de mais nada, que me dissesse qual a lei que, por sua vez, regula a da oferta e da procura. E esta réplica pô-lo-ia imediatamente fora de combate. As relações entre a oferta e a procura de trabalho acham-se sujeitas a constantes modificações e com elas flutuam os preços do trabalho no mercado. Se a procura excede a oferta, sobem os salários; se a oferta supera a procura, os salários baixam, ainda que em certas circunstâncias possa ser necessário comprovar o verdadeiro estado da pro- cura e da oferta por uma greve, por exemplo, ou outro procedimento qualquer. Mas, se tomardes a oferta e a procura como lei reguladora dos salários, seria tão pueril quanto inútil clamar contra uma elevação de salários, visto que, de acordo com a lei suprema que invocais, as altas periódicas dos salários são tão necessá- rias e tão legítimas como as suas baixas periódicas. E se não considerais a oferta e a procura como lei reguladora dos salários, então repito minha pergunta: por que se uma determinada soma de dinheiro por uma determinada quantidade de trabalho?

Mas para focalizar as coisas com maior amplidão: equivocar-nos-eis por inteiro, caso acrediteis que o valor do trabalho ou de qualquer outra mercadoria

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 77

se determina, em última análise, pelo jogo da procura e da oferta. A oferta e a procura regulam as oscilações temporárias dos preços no mercado. Explicam por que o preço de um artigo no mercado se eleva acima ou desce abaixo do seu valor, mas não explicam jamais esse valor em si mesmo. Vamos supor que a ofer- ta e a procura se equilibrem ou, como dizem os economistas, se cubram mutua- mente. No preciso instante em que estas duas forças contrárias se nivelam, elas se paralisam mutuamente, deixam de atuar num ou noutro sentido. No mesmo ins- tante em que a oferta e a procura se equilibram e deixam, portanto, de atuar, o preço de uma mercadoria no mercado coincide com o seu valor real, com o preço normal em torno do qual oscilam seus preços no mercado. Por conseguinte, se queremos investigar o caráter deste valor, não nos devemos preocupar com os efeitos transitórios que a oferta e a procura exercem sobre os preços do mercado. E outro tanto caberia dizer dos salários e dos preços de, todas as demais mercadorias.

V

[Salários e preços]

Reduzidos a sua expressão teórica mais simples, todos os argumentos de nosso amigo se traduzem num e único dogma: “Os preços das mercadorias são determinados ou regulados pelos salários ”.

Ante esta heresia antiquada e desacreditada, eu poderia invocar a observa- ção prática. Poderia dizer-vos que os operários fabris, os mineiros, os constru- tores navais e outros trabalhadores ingleses, cujo trabalho é relativamente bem pago, vencem a todas as demais nações pela barateza de seus produtos, enquanto, por exemplo, o trabalhador agrícola inglês, cujo trabalho é relativamente mal pago, é batido por quase todos os demais países, em consequência da carestia de seus produtos. Comparando uns artigos com outros, dentro do mesmo país, e as mercadorias de distintos países entre si, poderia demonstrar que, se abstrairmos algumas exceções mais aparentes que reais, em termo médio o trabalho que rece- be alta remuneração produz mercadorias baratas e o trabalho que recebe baixa remuneração, mercadorias caras. Isto, naturalmente, não demonstraria que o ele- vado preço do trabalho em certos casos e, em outros, o seu preço baixo, sejam as respectivas causas destes efeitos diametralmente opostos mas em todo caso servi- ria para provar que os preços das mercadorias não são governados pelos preços do trabalho. Todavia, prescindiremos perfeitamente deste método empírico.

Poder-se-ia, talvez, negar que o cidadão Weston sustente o dogma de que “os preços das mercadorias se determinam ou regulam pelos salários”, De fato, ele jamais formulou este dogma. Disse, ao contrário, que o lucro e a renda do solo são também partes integrantes dos preços das mercadorias, posto que destes têm de sair não os salários dos operários como os lucros do capitalista e as

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rendas do proprietário da terra. Porém, a seu modo de ver, como se formam os preços? Formam-se, em primeiro lugar, pelos salários; em seguida, somam-se ao preço um tanto por cento adicional em benefício do capitalista e outro tanto por cento adicional em benefício do proprietário da terra. Suponhamos que os salá- rios do trabalho invertido na produção de uma mercadoria ascendem a 10. Se a taxa de lucro fosse de 100 por cento, o capitalista acrescentaria 10 aos salários desembolsados, e, se a taxa de renda fosse também de 100 por cento sobre os salários, ter-se-ia que ajuntar mais 10, com o que o preço total da mercadoria viria a cifrar-se em 30. Semelhante determinação do preço, porém, estaria presi- dida simplesmente pelos salários. Se estes, no nosso exemplo, subissem a 20, o preço da mercadoria elevar-se-ia a 60 e assim sucessivamente. Eis por que todos os escritores antiquados de economia política que alvitravam a tese de que os salários regulam os preços intentavam prová-la apresentando o lucro e a renda do solo como simples percentagens adicionais sobre os salários. Nenhum deles era, naturalmente, capaz de reduzir os limites dessas percentagens a uma lei econô- mica. Pareciam, ao contrário, acreditar que os lucros se fixavam pela tradição, costume, vontade do capitalista, ou por qualquer outro método igualmente arbi- trário e inexplicável. Quando afirmavam que os lucros se determinam pela concorrência entre os capitalistas, portanto, não explicavam absolutamente nada. Esta concorrência por certo nivela as diferentes taxas de lucros das diversas indústrias, ou seja, as reduz a um nível médio, porém jamais pode determinar este nível, ou a taxa geral de lucro.

Que queremos dizer quando afirmamos que os preços das mercadorias são determinados pelos salários? Como o salário não é mais do que uma denomina- ção do preço do trabalho, queremos dizer com isso que os preços das mercado- rias regulam-se pelo preço do trabalho. E como “preço” é valor de troca e quando falo de valor refiro-me sempre ao valor de troca —, a saber: valor de troca expresso em dinheiro, aquela afirmativa equivale a esta outra: “O valor das mercadorias é determinado pelo valor do trabalho”, ou, o que vem a dar no mesmo, “O valor do trabalho é a medida geral do valor”.

Mas, por sua vez, como se determina o “valor do trabalho"? Aqui, chega- mos a um ponto morto. A um ponto morto, sem dúvida, se tentamos raciocinar logicamente. Porém, os proponentes desta teoria não têm grandes escrúpulos em matéria de lógica. Tomemos o nosso amigo Weston, como exemplo. Primeiro, dizia-nos que os salários regulavam os preços das mercadorias e que, portanto, quando os salários subiam, estes deviam subir também. Depois, dava meia volta para nos demonstrar que um aumento de salários não serviria para nada, visto que também subiriam os preços das mercadorias, e os salários se mediam, na rea- lidade, pelos preços das mercadorias com eles compradas. Assim, partindo da afirmativa de que o valor do trabalho determina o valor da mercadoria, viemos parar na afirmativa de que o valor da mercadoria determina o valor do trabalho. Nada mais fizemos do que nos mover num circulo vicioso, sem chegar a nenhu- ma conclusão.

No geral, é evidente que, tomando o valor de uma mercadoria, por exemplo,

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 79

o trabalho, o trigo ou outra mercadoria qualquer, como medida e regulador geral do valor, apenas desviamos a dificuldade, que determinamos um valor por outro, que por sua vez também necessita ser determinado.

Expresso em sua forma mais abstrata, o dogma de que “os salários determi- nam os preços das mercadorias” equivale a dizer que “o valor se determina pelo valor”, e esta tautologia demonstra, na realidade, que nada sabemos a respeito do valor. Se admitissemos semelhante premissa, toda argumentação acerca das leis gerais da economia politica converter-se-ia em mera tagarelice. Por isso deve-se reconhecer a Ricardo ! * o grande mérito de haver destruído até os funda- mentos, com a sua obra sobre os Princípios da Economia Política, publicada em 1817, o velho erro, tão divulgado e gasto de que “os salários determinam os pre- ços”, falácia rechaçada por Adam Smith! ? e seus predecessores franceses na parte verdadeiramente científica de suas investigações, mas que, não obstante, eles reproduziram nos seus capítulos mais superficiais e de vulgarização.

VI

[Valor e trabalho]

Cidadãos! Cheguei ao ponto em que devo necessariamente entrar no verda- deiro desenvolvimento do tema. Não posso asseverar que o faça de maneira muito satisfatória, pois isso me obrigaria a percorrer todo o campo da economia política. Apenas posso, como diria o francês, effleurer la question,! º tocar os aspectos fundamentais.

A primeira perguhta que temos de fazer é esta: Que é o valor de uma merca- doria? Como se determina este valor?

À primeira vista, parecerá que o valor de uma mercadoria é algo completa- mente relativo, que não se pode determinar sem pôr uma mercadoria em relação com todas as outras. Com efeito, quando falamos do valor, do valor de troca de uma mercadoria, entendemos as quantidades proporcionais nas quais é trocada por todas as demais mercadorias. Isto, porém, conduz-nos a perguntar: como se regulam as proporções em que umas mercadorias se trocam por outras?

Sabemos por experiência que essas proporções variam ao infinito. Tomemos uma única mercadoria, por exemplo, o trigo, e veremos que um quarter de trigo

'* David Ricardo (1772-1823) foi um dos primeiros teóricos da economia política clássica. Escreveu um grande número de ensaios e deixou uma obra de larga projeção, intitulada Principles of Political Economy and Taxation, tida em grande apreço por Marx, que lhe salientou os aspectos idealistas. (N. do E.) '8 Adam Smith (1723-1790), grande sistematizador do pensamento econômico burguês, o primeiro a consi- derar, realmente, o trabalho como fonte da riqueza. Em sua obra An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations defende, essencialmente, o princípio da organização espontânea do mundo econômico sob a ação do interesse pessoal. (N. do E.)

Em francês, no original: tocar de leve na questão. (N. do E.)

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se permuta, numa série quase infinita de graus de proporção, por diferentes mercadorias. E, sem embargo, como o seu valor é sempre o mesmo, quer se expresse em seda, em ouro, ou outra qualquer mercadoria, este valor tem que ser alguma coisa de distinto e independente dessas diversas proporções em que se troca por outros artigos. Necessariamente de ser possível exprimir, de uma forma muito diferente, estas diversas equações com várias mercadorias.

De resto, quando digo que um quarter de trigo se troca por ferro numa deter- minada proporção ou que o valor de um quarter de trigo se expressa numa deter- minada quantidade de ferro, digo que o valor do trigo ou seu equivalente em ferro são iguais a uma terceira coisa, que não é trigo nem ferro, pois suponho que ambos exprimem a mesma grandeza sob duas formas distintas. Portanto, cada um destes dois objetos, tanto o trigo como o ferro, deve poder reduzir-se, indepen- dentemente um do outro, àquela terceira coisa, que é a medida comum de ambos.

Para esclarecer este ponto, recorrerei a um exemplo geométrico muito sim- ples. Quando comparamos a área de vários triângulos das mais diversas formas e grandezas, ou quando comparamos triângulos com retângulos, ou com outra qualquer figura retilinea, qual é o processo que empregamos? Reduzimos a área de um triângulo qualquer a uma expressão completamente distinta de sua forma visível. E como, pela natureza do triângulo, sabemos que a área desta figura geométrica é sempre igual à metade do produto de sua base pela sua altura, isto nos permite comparar entre si os diversos valores de toda classe de triângulos e de todas as figuras retilíneas, que todas elas podem reduzir-se a um certo nú- mero de triângulos.

Temos que seguir o mesmo processo para os valores das mercadorias. Temos que poder reduzi-los todos a uma expressão comum, distinguindo-os uni- camente pela proporção em que contêm esta mesma e idêntica medida. Como os valores de troca das mercadorias não passam de funções sociais delas, e nada têm a ver com suas propriedades naturais, devemos antes de mais nada perguntar: Qual é a substância social comum a todas as mercadorias? É o trabalho. Para produzir uma mercadoria tem-se que inverter nela, ou a ela incorporar, uma determinada quantidade de trabalho. E não simplesmente trabalho, mas trabalho social. Aquele que produz um objeto para seu uso pessoal e direto, para consu- mi-lo, cria um produto, mas não uma mercadoria. Como produtor que se mantém a si mesmo, nada tem com a sociedade. Mas, para produzir uma mercadoria, não se tem de criar um artigo que satisfaça a uma necessidade social qualquer, como também o trabalho nele incorporado deverá representar uma parte inte- grante da soma global de trabalho invertido pela sociedade. Tem que estar subor- dinado à divisão de trabalho dentro da sociedade. Não é nada sem os demais setores do trabalho, e, por sua vez, é chamado a integrá-los. Quando conside- ramos as mercadorias como valores, vemo-las somente sob o aspecto de trabalho social realizado, plasmado ou, se assim quiserdes, cristalizado. Consideradas desse modo, podem distinguir-se umas das outras enquanto representem quan- tidades maiores ou menores de trabalho; assim, por exemplo, num lenço de seda pode encerrar-se uma quantidade maior de trabalho do que em um tijolo. Mas

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 81

como se medem as quantidades de trabalho? Pelo tempo que dura o trabalho, medindo este em horas, em dias, etc. Naturalmente, para aplicar esta medida, “todas as espécies de trabalho se reduzem a trabalho médio, ou simples, como a sua unidade.

Chegamos, portanto, a esta conclusão. Uma mercadoria tem um valor por ser uma cristalização de um trabalho social. A grandeza de seu valor, ou seu valor relativo, depende da maior ou menor quantidade dessa substância social que ela encerra, quer dizer, da quantidade relativa de trabalho necessário à sua produção. Portanto, os valores relativos das mercadorias se determinam pelas correspondentes quantidades ou somas de trabalho invertidas, realizadas, plas- madas nelas. As quantidades correspondentes de mercadorias que foram produzi- das no mesmo tempo de trabalho são iguais. Ou, dito de outro modo, o valor de uma mercadoria está para o valor de outra, assim como a quantidade de trabalho plasmada numa está para a quantidade de trabalho plasmada na outra.

Suspeito que muitos de vós perguntareis: existe então uma diferença tão grande, supondo que exista alguma, entre a determinação dos valores das merca- dorias na base dos salários e sua determinação pelas quantidades relativas de tra- balho necessárias à sua produção? Não deveis perder de vista que a retribuição do trabalho e a quantidade de trabalho são coisas perfeitamente distintas. Supo- nhamos, por exemplo, que num quarter de trigo e numa onça de ouro se plasmam quantidades iguais de trabalho. Valho-me deste exemplo porque foi empregado por Benjamin Franklin! ? no seu primeiro ensaio, publicado em 1729, sob o título de Uma Modesta Investigação sobre a Natureza e a Necessidade do Papel- Moeda, que é um dos primeiros livros em que se reconhece a verdadeira natureza do valor. Pois bem, suponhamos, como ficou dito, que um quarter de trigo e uma onça de ouro são valores iguais ou equivalentes, por serem cristalizações de quantidades iguais de trabalho médio, de tantos dias, ou tantas semanas de traba-

“lho plasmado em cada uma delas. Acaso, ao determinar assim os valores relati- vos do ouro e do trigo, fazemos qualquer referência aos salários que percebem os operários agrícolas e os mineiros? Em absoluto, nem por sombra. Não dizemos, sequer remotamente, como se paga o trabalho diário ou semanal destes obreiros, nem ao menos dizemos se aqui se emprega, ou não, trabalho assalariado. Ainda supondo que se empregue trabalho assalariado, os salários podem ser muito desi- guaís. Pode acontecer que o operário cujo trabalho se plasma no quarter de trigo perceba por ele dois bushel, enquanto o operário na mina pode ter percebido pelo seu trabalho metade da onça de ouro. Ou, supondo que os seus salários sejam iguais, podem diferir nas mais diversas proporções dos valores das merca- dorias por ele produzidas. Podem representar a metade, a terça, quarta ou quinta parte, ou outra fração qualquer daquele quarter de trigo, ou daquela onça de

'? Benjamin Franklin (1706-1790), filósofo e estadista norte-americano, tornou-se conhecido desde a publi- cação do seu primeiro ensaio: 4 Modest Inquiry into the Nature and Necessity of a Paper Currency. (N. do E.)

'8 Medida inglesa para secos, equivalente, nos Estados Unidos, a 35,238 litros, e, na Inglaterra, a 36,367 litros. (N. do T.)

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ouro. Naturalmente, os seus salários não podem exceder os valores das mercado- rias por eles produzidas, não podem ser maiores que estas, mas podem, sim, ser inferiores em todos os graus imagináveis. Seus salários achar-se-ão limitados pelos valores dos produtos, mas os valores de seus produtos não se acharão limi- tados pelos salários. E sobretudo aqueles valores, os valores relativos do trigo e do ouro, por exemplo, se terão fixado sem atentar em nada no valor do trabalho invertido neles, isto é, sem atender em nada aos salários. A determinação dos valores das mercadorias pelas quantidades relativas de trabalho nelas plasmado difere, como se vê, radicalmente, do método tautológico da determinação dos valores das mercadorias pelo valor do trabalho, ou seja, pelos salários. Contudo, no decurso de nossa investigação, teremos oportunidade de esclarecer ainda mais este ponto. Para calcular o valor de troca de uma mercadoria, temos de acres- centar à quantidade de trabalho invertida nela, em último lugar, a que antes se incorporou nas matérias-primas com que se elaborou a mercadoria e o trabalho aplicado aos meios de trabalho ferramentas, maquinaria e edifícios que ser- viram para esse trabalho. !'º Por exemplo, o valor de uma determinada quantidade de fio de algodão é a cristalização da quantidade de trabalho incorporada ao algodão durante o processo de fiação e, além disso, da quantidade de trabalho anteriormente plasmado nesse algodão, da quantidade de trabalho encerrada no carvão, no óleo e em outras matérias auxiliares empregadas, bem como da quan- tidade de trabalho materializado na máquina a vapor, nos fusos, no edifício da fá- brica, etc. Os meios de trabalho propriamente ditos, tais como ferramentas, maquinaria e edifícios, utilizam-se constantemente, durante um período de tempo mais ou menos longo, em processos repetidos de produção. Se se consumissem de uma vez, como acontece com as matérias-primas, transferir-se-ia imediatamente todo o seu valor à mercadoria que ajudam a produzir. Mas como um fuso, por exemplo, se desgasta aos poucos, calcula-se um termo médio tomando por base a sua duração média, o seu aproveitamento médio ou a sua deterioração ou desgaste durante um determinado tempo, digamos, um dia. Deste modo calcula- mos qual a parte do valor dos fusos que passa ao fio fabricado durante um dia e que parte, portanto, dentro da soma global de trabalho realizado, por exemplo, numa libra de fio, corresponde à quantidade de trabalho anteriormente incorpo- rando nos fusos. Para o objetivo a que visamos é necessário insistir mais neste ponto.

Poderia parecer que, se o valor de uma mercadoria se determina pela quanti- dade de trabalho que se inverte na sua produção, quanto mais preguiçoso ou iná- bil seja um operário, mais valiosa será a mercadoria por ele produzida, pois que o tempo de trabalho necessário para produzi-la será proporcionalmente maior. Mas aquele que assim pensa incorre num lamentável erro. Lembrai-vos que eu empregava a expressão “trabalho social”e nesta denominação de “social” cabem muitas coisas. Ao dizer que o valor de uma mercadoria é determinado pela quan- tidade de trabalho incorporado ou cristalizado nela, queremos referir-nos à quan-

Veja-se David Ricardo, Princípios de Economia Política, cap. 1, sec. IV. (N. do T.)

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 83

tidade de trabalho necessário para produzir essa mercadoria num dado estado so- cial e sob determinadas condições sociais médias de produção, com uma dada intensidade social média e com uma destreza média no trabalho que se emprega. Quando, na Inglaterra, o tear a vapor começou a competir com o tear manual, para converter uma determinada quantidade de fio numa jarda de tecido de algo- dão, ou pano, bastava a metade da duração de trabalho que anteriormente se invertia. Agora, o pobre tecelão manual tinha que trabalhar 17 ou 18 horas diá- rias, em vez das 9 ou 10 de antes. Não obstante, o produto de suas 20 horas de trabalho representava 10 horas de trabalho social; isto é, as 10 horas de traba- lho socialmente necessárias para converter uma determinada quantidade de fio em artigos têxteis. Portanto, seu produto de 20 horas não tinha mais valor do que aquele que antes elaborava em 10.

Se, então, a quantidade de trabalho socialmente necessário, materializado nas mercadorias, é o que determina o valor de troca destas, ao crescer a quanti- dade de trabalho exigível para produzir uma mercadoria aumenta necessaria- mente o seu valor e vice-versa, diminuindo aquela, baixa este.

Se as respectivas quantidades de trabalho necessário para produzir as respectivas mercadorias permanecessem constantes, seriam também constantes seus valores relativos. Porém, assim não sucede. A quantidade de trabalho neces- sário para produzir uma mercadoria varia constantemente, ao variarem as forças produtivas do trabalho aplicado. Quanto maiores são as forças produtivas do tra- balho, mais produtos se elaboram num tempo de trabalho dado; e quanto meno- res são, menos se produzem na mesma unidade de tempo. Se, por exemplo, ao crescer a população, se fizesse necessário cultivar terras menos férteis, teriamos que inverter uma quantidade maior de trabalho para obter a mesma produção, e isto faria subir, por conseguinte, o valor dos produtos agricolas. Por outro lado, se um fiandeiro, com os modernos meios de produção, ao fim do dia converte em fio mil vezes mais algodão que antes fiava no mesmo espaço de tempo com auxílio da roca, é evidente que, agora, cada libra de algodão absorverá mil vezes menos trabalho de fiação que dantes e, por consequência, o valor que o processo de fiação incorpora em cada libra de algodão será mil vezes menor. E na mesma proporção baixará o valor do fio.

À parte as diferenças nas energias naturais e na destreza adquirida para o trabalho entre os diversos povos, as forças produtivas do trabalho dependerão, principalmente:

| Das condições naturais do trabalho: fertilidade do solo, riqueza das jazidas minerais, etc.

2 Do aperfeiçoamento progressivo das forças sociais do trabalho por efeito da produção em grande escala, da concentração do capital, da combinação do trabalho, da divisão do trabalho, maquinaria, melhoria dos métodos, aplica- ção dos meios químicos e de outras forças naturais, redução do tempo e do espa- ço graças aos meios de comunicação e de transporte, e todos os demais inventos pelos quais a ciência obriga as forças naturais a servir ao trabalho, e pelos quais desenvolve o caráter social ou cooperativo do trabalho. Quanto maior é a força produtiva do trabalho, menos trabalho se inverte numa dada quantidade de pro-

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dutos e, portanto, menor é o valor destes produtos. Quanto menores são as forças produtivas do trabalho, mais trabalho se emprega na mesma quantidade de pro- dutos e, por consegiência, maior é o seu valor. Podemos, então, estabelecer como lei geral o seguinte:

Os valores das mercadorias estão na razão direta do tempo de trabalho invertido em sua produção e na razão inversa das forças produtivas do trabalho empregado.

Como até aqui temos falado do valor, acrescentarei algumas palavras acerca do preço, que é uma forma particular tomada pelo valor.

Em si mesmo, o preço outra coisa não é senão a expressão em dinheiro do valor. Os valores de todas as mercadorias deste país se exprimem, por exemplo, em preços-ouro, enquanto no Continente se expressam quase sempre em preços- prata. O valor do ouro, ou da prata, se determina como o de qualquer mercado- ria, pela quantidade de trabalho necessário à sua extração. Permutais uma certa soma de vossos produtos nacionais, na qual se cristaliza uma determinada quan- tidade de vosso trabalho nacional, pelos produtos dos países produtores de ouro e prata, nos quais se cristaliza uma determinada quantidade de sex trabalho. É por este processo, na verdade pela simples troca, que aprendeis a exprimir em ouro e prata os valores de todas as mercadorias, isto é, as quantidades respectivas de trabalho empregadas na sua produção. Se vos aprofundardes mais na expres- são em dinheiro do valor, ou, o que vem a ser o mesmo, na conversão do valor em preço, vereis que se trata de um processo por meio do qual dais aos valores de todas as mercadorias uma forma independente e homogênea, por meio da qual exprimis estes valores como quantidades de igual trabalho social. Na medida em que é apenas a expressão em dinheiro do valor, o preço foi denominado preço natural, por Adam Smith, e prix nécessaire,ºº pelos fisiocratas franceses.

Que relação guardam, pois, o valor e os preços do mercado ou os preços naturais e os preços do mercado? Todos sabeis que o preço do mercado é o mesmo para todas as mercadorias da mesma espécie, por muito que variem as condições de produção dos produtores individuais. Os preços do mercado não fazem mais que expressar a quantidade social média de trabalho, que, nas condi- ções médias de produção, é necessária para abastecer o mercado com determi- nada quantidade de um certo artigo. Calcula-se tendo em vista a quantidade glo- bal de uma mercadoria de determinada espécie.

Até agora o preço de uma mercadoria no mercado coincide com o seu valor. Por outra parte, as oscilações dos preços do mercado que umas vezes excedem o valor, ou preço natural, e outras vezes ficam abaixo dele dependem das flutuações da oferta e da procura. Os preços do mercado se desviam constantemente dos valores, mas, como diz Adam Smith:

“O preço natural é (...)o preço central em torno do qual gravitam constan- temente os preços das mercadorias. Circunstâncias diversas os podem manter erguidos muito acima desse ponto e, por vezes, precipitá-los um pouco abaixo.

Em francês, no texto, “preço necessário”. (N. do E.)

SALÁRIO, PREÇO E LUCRO 85

Quaisquer, porém, que sejam os obstáculos que os impeçam de se deter neste cen- tro de repouso e estabilidade, eles tendem continuamente para lá”.?!

Não posso agora esmiuçar este assunto. Basta dizer que, se a oferta e a pro- cura se equilibram, os preços das mercadorias no mercado corresponderão a seus preços naturais, isto é, a seus valores, os quais se determinam pelas respectivas quantidades de trabalho necessário para a sua produção. Mas a oferta e a procura devem constantemente tender para o equilíbrio, embora o alcancem compen- sando uma flutuação com a outra, uma alta com uma baixa e vice-versa. Se, em vez de considerar somente as flutuações diárias, analisardes o movimento dos preços do mercado durante um espaço de tempo bastante longo, como o fez, por exemplo, o sr. Tooke, na sua História dos Preços, descobrireis que as flutuações dos preços no mercado, seus desvios dos valores, suas altas e baixas, se compen- sam umas com as outras e se neutralizam de tal maneira que, postas à margem a influência exercida pelos monopólios e algumas outras restrições que aqui temos de passar por alto, vemos que todas as espécies de mercadorias se vendem, em termo médio, pelos seus respectivos valores ou preços naturais. Os periodos mé- dios de tempo, durante os quais se compensam entre si as flutuações dos preços no mercado, diferem segundo as distintas espécies de mercadorias, porque numas é mais fácil que em outras adaptar a oferta à procura.

- Se, então, falando de um modo geral e abarcando períodos de tempo bas- tante longos, todas as espécies de mercadorias se vendem pelos seus respectivos valores, é absurdo supor que o lucro não em casos isolados, mas o lucro cons- tante e normal das diversas indústrias brota de uma majoração dos preços das mercadorias, ou do fato de que se vendam por um preço que exceda considera- velmente o seu valor. O absurdo desta idéia evidencia-se desde que a generali- zamos. O que alguém ganhasse constantemente como vendedor, haveria de per- der constantemente como comprador. De nada serve dizer que pessoas que compram sem vender, consumidores que não são produtores. O que estes pagas- sem ao produtor, teriam antes de recebê-lo dele grátis. Se uma pessoa recebe o vosso dinheiro e logo vo-lo devolve comprando-vos as vossas mercadorias, por este caminho nunca enriquecereis por mais caro que vendais. Esta espécie de negócios poderá reduzir uma perda, mas jamais contribuir para realizar um lucro. Portanto, para explicar o caráter geral do lucro não tereis outro remédio senão partir do teorema de que as mercadorias se vendem, em média, pelos seus verdadeiros valores e que os lucros se obtêm vendendo as mercadorias pelo seu valor, isto é, em proporção à quantidade de trabalho nelas materializado. Se não conseguirdes explicar o lucro sobre esta base, de nenhum outro modo consegui- reis explicá-lo. Isto parece um paradoxo e contrário à observação de todos os dias. Parece também paradoxal que a Terra gire ao redor do Sol e que a água seja formada por dois gases altamente inflamáveis. As verdades científicas serão sem- pre paradoxais, se julgadas pela experiência de todos os dias, a qual somente capta a aparência enganadora das coisas.

2 Adam Smith, The Wealth of Nations, t. 1. cap. 7, p. 57, Nova York, 1931.(N. do T.)

86 MARX VII

Força de trabalho

Depois de termos analisado, na medida em que podíamos fazê-lo, em um exame tão rápido, a natureza do valor, do valor de uma mercadoria qualquer, devemos volver nossa atenção para o valor específico do trabalho. E aqui tenho eu, novamente, que vos surpreender com outro aparente paradoxo. Todos vós es- tais completamente convencidos de que aquilo que vendeis todos os dias é vosso trabalho: de que, portanto, o trabalho tem um preço e que, embora o preço de uma mercadoria