OS PENSADORES

XLII

BRONISLAW MALINOWSKI

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL

UM RELATO DO EMPREENDIMENTO

EDA AVENTURA DOS NATIVOS NOS

ARQUIPÉLAGOS DA NOVA GUINÉ MELANÉSIA

Com Prefácio de Sir James George Frazer

Tradução de Anton P. Carr (Capítulos | - XV) e Lígia Aparecida Cardieri Mendonça (Capítulos XVI - XXI). revista por Eunice Ribeiro Durham.

EDITOR: VICTOR CIVITA

Titulo original: Argonauts of the Western Pacific An Account of Native Enterprise and Adventure in the Archipelagoes of Melanesian New Guinea.

1.2 edição junho 1976

o Copyright desta edição, 1976,

Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Publicado com licença dos herdeiros de B. Malinowski, México. Direitos exclusivos sobre a presente tradução, 1976, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL

* Traduzido do original inglês de Bronislaw Malinowski,. Argonauts of the Western Pacific - An Account of Native Enterprise and Adventure in the Archipelagos of Meltanesian New Guinea (Robert Mond Expedi- tion to New Guinea, 1914-1918), publicado na coletânea Studies in Economics and Political Science, edi- tada por The Director of the London School of Economics and Politica! Science com o n.º 65 na série de Monografias por escritores ingleses ligados a London School of Economics and Political Sciense, Rou- tledge & Kegan Paul Lid., London 1950, 3.º impressão.

Ao Mestre e Amigo Professor C. G. Seligman

PREFÁCIO

Sir James G. Frazer

Meu estimado amigo, o Dr. Malinowski, solicitou-me que prefaciasse este seu livro; com prazer aquiesço a seu pedido, embora acredite que minhas palavras, quaisquer sejam, nada terão a adicionar à valiosa pesquisa antropológica que neste volume ele nos oferece. Minhas observações, como tais, dirão respeito, de um lado, ao método por ele seguido e, de outro, ao assunto de seu livro.

Quanto ao método, o Dr. Malinowski realizou seu trabalho em circunstân- cias altamente favoráveis e de modo calculado para obter os melhores resultados possíveis. Ele estava bem munido tanto em conhecimentos teóricos quanto em experiência prática para a tarefa a que se propôs. De seus conhecimentos teóricos ele nos deu provas em seu tratado sobre a organização da família entre os aborígines da Austrália, obra erudita e bem cuidada; ! sua experiência prática evidencia-se não menos satisfatoriamente em seu relato sobre os nativos de Mailu, baseado em seus seis meses de convivência com eles na Nova Guine. ? A leste da Nova Guiné, nas ilhas Trobriand, às quais ele a seguir devotou sua atenção, o Dr. Malinowski viveu, durante muitos meses a fio, como um nativo entre os nativos, observando-os diariamente no trabalho e nas diversões, conver- sando com eles na própria língua nativa c obtendo todas as suas informações das fontes mais seguras: observações pessoais e declarações feitas a ele direta- mente pelos nativos em sua própria língua, sem a intervenção de intérpretes. Pôde ele, dessa maneira, compilar uma multiplicidade de dados de alto valor científico, referentes à vida social, religiosa e econômica dos nativos das ilhas Trobriand. Ele tenciona e espera poder, futuramente, publicar integralmente todos esses dados; nesse ínterim, ele nos oferece com o presente volume um estudo preli- minar sobre uma faceta interessante e muito peculiar da sociedade de Trobriand: o extraordinário sistema de trocas (econômico ou comercial apenas em parte) utili- zado pelos ilhéus entre si e com os habitantes das ilhas circunvizinhas.

Não precisamos refletir muito para nos convencermos de que as forças econô- micas são de suma importância em todos os estágios do desenvolvimento humano, do mais humilde ao mais elevado. A espécie humana, afinal, é parte integrante do mundo animal e, como os outros animais, precisa de um alicerce material ao qual pode sobrepor uma vida melhor intelectual, moral e social; sem esse alicerce, esta superestrutura é impossível. A fundamentação material, que consiste na necessidade de alimento e em certo grau de calor e proteção contra os ele- mentos, forma a base econômica ou industrial e constitui condição necessária da vida humana. Acredito que, se agora os antropólogos indevidamente negligen- ciaram esse aspecto, foi porque eles foram atraídos por aspectos mais elevados da

1 Malinowski, Bronislaw, The Family among the Australian Aborigines: À Sociological Strudy. Londres, University of London Press, 1913.

2 Malinowski, Bronislaw, “The Natives of Mailu: Preliminary Results of the Robert Mond Research Work in British New Guinea”. Transactions of the Royal Society of South Australia, vol. XXXIX, 1915.

IO MALINOWSKI

natureza humana e não porque deliberadamente ignoraram ou subestimaram a importância e necessidade de um aspecto mais básico. Como desculpa por essa negligência, podemos também lembrar que a antropologia é ainda uma ciência jovem e que a multiplicidade dos problemas a serem enfrentados pelos estudiosos não pode ser abordada simultaneamente, mas deve ser analisada por partes, isoladamente. Seja como for, o Dr. Malinowski acertou ao enfatizar a grande importância da economia primitiva, isolando para um estudo detalhado o extraor- dinário sistema de trocas utilizado pelos nativos das ilhas Trobriand.

Além disso, ele sensatamente recusou limitar-se a uma simples descrição do processo de trocas: dispôs-se, em vez disso, a penetrar nos motivos que o funda- mentam, bem como nos sentimentos que provoca nos nativos. Parece-me que alguns estudiosos defendem o ponto de vista de que a sociologia deve ater-se à descrição das ações, deixando para a psicologia o problema dos motivos e senti- mentos. Sem dúvida, a análise das motivações e reações difere do estudo das ações e pertence, estritamente falando, ao âmbito da psicologia. Na prática, porém, o comportamento social nada significa para o observador, a não ser que ele conheça ou possa inferir pensamentos e emoções do agente. Assim, a simples descrição de atos, sem qualquer referência ao estado mental do agente, não vai de encontro aos propósitos da sociologia, cujo objetivo não é apenas registrar -— mas, sim, entender o comportamento do ser humano na sociedade. Portanto, a sociologia não pode levar a cabo sua tarefa sem amparar-se, a cada passo, na psicologia.

O método do Dr. Malinowski caracteriza-se pela preocupação em levar em conta a complexidade da natureza humana. Ele observa o ser humano em sua totalidade, ciente de que o homem é uma criatura dotada de paixões tanto quanto de razão, e não poupa esforços para descobrir a base tanto racional quanto emo- cional do comportamento humano. O cientista, assim como o literato, tende a ver a humanidade somente em abstrato, selecionando para suas considerações apenas um aspecto dos muitos que caracterizam o ser humano em sua comple- xidade. Das grandes obras literárias, a de Moliére pode ser usada como um exemplo típico dessa visão parcial. Todas as personagens de Moliêre são proje- tadas num plano; uma delas é o avarento, outra o hipócrita, outra o preten- sioso e assim por diante; mas nenhuma delas é humana. São todas bonecos, vestidos de modo a parecerem seres humanos. A semelhança, porém, é apenas superficial. Por dentro, são ocas e vazias, pois a fidelidade à natureza foi sacri- ficada ao efeito literário. Bem diferente é a apresentação da natureza humana na obra de outros grandes autores como Cervantes e Shakespeare: suas personagens são sólidas, criadas ao molde humano em quase toda a sua multiplicidade de aspectos. Sem dúvida, nas ciências não é legítimo mas necessário um certo grau de abstração, pois elas nada mais são do que o conhecimento elevado a potência mais alta, e todo conhecimento implica num processo de abstração e generalização: até mesmo para reconhecermos uma pessoa a quem vemos diaria- mente, é imprescindível usarmos certas abstrações e generalizações que sobre ela viemos fazendo, cumulativamente, no passado. Assim, a antropologia é forçada a abstrair certos aspectos da natureza humana, considerando-os à parte da reali- dade concreta; mais precisamente, ramifica-se ela em várias outras ciências, cada uma analisando o complexo organismo humano sob um único aspecto físico, intelectual, moral, ou social. As conclusões gerais de cada uma dessas ciências compõem um quadro mais ou menos incompleto do ser humano como um todo incompleto porque as facetas que o compõem correspondem a apenas algumas das muitas que o caracterizam.

A grande preocupação do Dr. Malinowski em seu presente estudo é a análise de fatos que, à primeira vista, poderíamos interpretar como uma atividade pura-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL NM

mente econômica dos habitantes das ilhas Trobriand; todavia, com a grande abertura de perspectiva e acuidade que o caracterizam, ele se ao cuidado de nos demonstrar que essa curiosa circulação de riquezas entre os habitantes das ilhas Trobriand e os das demais ilhas, embora acompanhada por um comércio de tipo comum, não constitui, de maneira alguma, uma forma de transação estrita- mente comercial; ele nos mostra que essa modalidade de troca não se fundamenta num mero cálculo utilitário de lucros e perdas; e que ela vem de encontro a necessidades emocionais e estéticas de ordem mais elevada que o simples atendi- mento aos requisitos da natureza animal. Tudo isso leva o Dr. Malinowski a criticar acerbamente a concepção que se faz do Homem Econômico Primitivo como um tipo de fantasma que, segundo parece, ainda infesta os livros de texto das ciências econômicas, chegando mesmo a estender sua influência nefasta às mentes de alguns antropólogos. Vestindo os farrapos abandonados pelos senhores Jeremy Bentham e Gradgrind, esse fantasma horrendo aparentemente é movido exclusivamente pela sede de lucro, o qual ele busca implacavelmente, seguindo princípios spencerianos, ao longo das linhas de menor resistência. Se realmente os bons pesquisadores acreditam que tal ficção angustiante possa encontrar para- lelos na sociedade silvícola e não a vêem apenas como mera abstração útil, o relato do Dr. Malinowski sobre o Kula deve contribuir para destruir definitiva- mente este fantasma pois o Dr. Malinowski demonstra que a transação de objetos úteis, parte integrante do Kula, ocupa, na mente dos nativos, uma posição inteiramente subordinada à troca de certos objetos que é feita sem quaisquer finalidades utilitárias. Combinando transações comerciais, organização social, mitos e rituais mágicos o Kula, essa. extraordinária instituição nativa que chega a abranger enorme extensão geográfica, parece não ter paralelos nos anais de antropologia. Mas, seu descobridor, o Dr. Malinowski, pode muito bem ter razão ao presumir que entre os povos selvagens e bárbaros existem outras instituições se não idênticas, pelo menos semelhantes ao Kula que eventualmente serão descobertas através de novas pesquisas.

Segundo o Dr. Malinowski, a importância que a magia assume nesta instituição constitui uma das facetas mais interessantes e instrutivas do Kula. A julgar pela maneira com que ele a descreve, a realização dos rituais de magia e o uso de fórmulas mágicas são indispensáveis ao bom êxito do Kula em todas as suas fases desde a derrubada das árvores, cujos troncos são escavados e transfor- mados em canoas, até o momento em que, terminada a expedição com êxito, as canoas e sua preciosa carga iniciam a viagem de volta ao ponto inicial. A propósito, aprendemos também que os rituais de magia e os feitiços são igual- mente indispensáveis à horticultura e ao bom êxito na pesca duas das ativi- dades que constituem o principal meio de sustento dos nativos; o “feiticeiro agrícola”, a quem cabe a responsabilidade de promover, através de suas fórmulas, o crescimento das plantas, é consequentemente um dos elementos mais impor- tantes da aldeia, figurando hierarquicamente logo abaixo do chefe e do feiticeiro propriamente dito. Em suma, os nativos crêem que a magia é absolutamente imprescindível, a todo e qualquer ramo de suas atividades que é tão impres- cindível ao bom êxito de um trabalho como as operações técnicas envolvidas, tais como a impermeabilização, pintura e lançamento de uma canoa, o plantio de uma horta, a colocação de uma armadilha para peixes. “A no poder da magia”, conta-nos o Dr. Malinowski, “é uma das principais forças psicológicas que per- mitem a organização e sistematização do esforço econômico nas ilhas Tobriand.”

O valioso relato do Dr. Malinowski sobre a magia como fator de grande importância para o bem-estar econômico e, de fato, para a própria sobrevivência da comunidade nativa, é suficiente para anular a hipótese errônea de que a magia, contrariamente à religião, é por sua própria natureza essencialmente

12 MALINOWSKI

maléfica e anti-social; e que é sempre usada pelo indivíduo para promover seus próprios interesses egoístas e prejudicar seus inimigos, sem levar em conta seus efeitos sobre o bem-estar comum. A magia pode ser usada com essa finalidade e, de fato, provavelmente o é em todas as regiões do mundo; nas ilhas Trobriand também se acredita que seja praticada com fins nefandos pelos feiticeiros, que provocam nos nativos temores profundos e preocupação constante. Mas, em si, a magia não é nem benéfica nem maléfica; é simplesmente um poder imagi- nário de controle sobre as forças da natureza, que pode ser exercido pelo feiti- ceiro para o bem ou para o mal, para beneficiar o indivíduo ou a comunidade, ou para prejudicá-los. Sob esse ponto de vista, a magia está exatamente no mesmo plano das ciências, das quais vem a ser a “irmã bastarda”; também as ciências não são nem boas nem más em si, embora possam gerar tanto o bem quanto o mal, conforme a maneira como forem utilizadas. Seria absurdo, por exem- plo, estigmatizar a farmacêutica como ciência anti-social por que o conhe- cimento das propriedades das drogas pode ser empregado tanto para curar quanto para destruir o homem. É igualmente absurdo negligenciar a aplicação bené- fica da magia, atendo-se apenas a sua utilização maligna na caracterização das propriedades que a definem. As forças da natureza, sobre as quais a ciência exerce controle real e a magia controle imaginário, não são influenciadas pela disposição moral ou pela boa ou intenção do indivíduo que se utiliza de seus conhecimentos especiais para colocá-las em movimento. A ação das drogas no organismo humano é exatamente a mesma, quer sejam elas administradas por um médico, quer por um envenenador. A natureza e as ciências não são nem benéficas nem hostis à moral; são simplesmente indiferentes a ela, e estão igual- mente prontas para atender às ordens quer do santo, quer do pecador, desde que um deles lhes a ordem adequada. Se na artilharia as armas estão bem carregadas e apontam para o alvo certo, seu fogo será igualmente destrutivo: não não importa que seus portadores sejam patriotas a lutar em defesa da pátria, ou invasores a arriscar-se numa guerra de agressão injusta. Caracterizar a ciência ou a arte em função de sua aplicabilidade, ou de acordo com a intenção moral do cientista ou artista é obviamente falacioso no que se refere à farma- cêutica ou à artilharia; e o é igualmente (embora, para muitos, não tão óbvio) no que diz respeito à magia.

A grande influência da magia sobre a vida e o pensamento dos nativos das ilhas Trobriand é, no presente volume, talvez um dos aspectos que mais impres- sionam o leitor. O Dr. Malinowski nos conta que “a magia, tentativa humana de controlar diretamente as forças da natureza através de conhecimentos especiais, é fator fundamental e permeante na vida dos nativos das ilhas Trobriand”; é “parte integrante de todas as suas atividades industriais e comunitárias”; “todos os dados até agora analisados revelam a extrema importância da magia no sis- tema do Kula. Mas, se se tratasse de qualquer outro aspecto da vida tribal desses nativos, constataríamos igualmente que os nativos recorrem à magia toda vez que enfrentam problemas de importância vital. Podemos dizer, sem corrermos o risco de exagerar, que a magia, segundo eles, governa os destinos do homem; que ela ao homem o poder de dominar as forças da natureza e que ela é a arma e o escudo com que o homem enfrenta todos os perigos que o rodeiam”.

Assim sendo, no ver dos ilhéus de Trobriand, a magia é uma força de su- prema importância, quer para o bem, quer para o mal; ela pode construir ou ani- quilar a vida de um homem; pode sustentar e proteger o indivíduo e a comu- nidade, ou pode prejudicá-los e destruí-los. Comparada a esta convicção univer- sal ce profundamente enraizada, a crença na existência dos espíritos dos mortos poderia, à primeira vista, parecer de pouca influência na vida daqueles nativos. Contrariamente à atitude geral entre os selvagens, os nativos de Trobriand não

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 13

temem os espíritos. Acreditam, mesmo, que os espíritos voltam às aldeias uma vez por ano, a fim de participar do grande festejo anual; mas, “de maneira geral, os espíritos não têm muita influência sobre os seres humanos, seja para o bem seja para o mal”; “nada existe da interação mútua, da colaboração íntima entre o homern e os espíritos que constitui a essência do culto religioso”. Esse predo- mínio conspícuo da magia sobre a religião ou, pelo menos, sobre o culto dos mortos é uma característica marcante da cultura dos ilhéus de Trobriand, que ocupam lugar relativamente alto na escala da selvageria. E este fato nos fornece nova prova da extraordinária força e da tenacidade da influência que essa uni- versal ilusão tem exercido agora e sempre, sobre a mente humana.

Sem dúvida, iremos aprender muito sobre a relação entre magia e religião entre os nativos das ilhas Trobriand no relato completo das pesquisas do Dr. Malinowski.

Da observação paciente que devotou a uma única instituição e da riqueza de detalhes com que a ilustrou, podemos auferir a extensão e o valor da obra completa que está em preparação, a qual promete ser um dos trabalhos mais completos e científicos produzidos sobre um povo selvagem.

J. G. Frazer

Londres, The Temple, 7 de março de 1922.

PRÓLOGO

do autor

Encontra-se a moderna etnologia em situação tristemente cômica, para não dizer trágica: no exato momento em que começa a colocar seus laboratórios em ordem, a forjar seus próprios instrumentos e a preparar-se para a tarefa indicada, o objeto de seus estudos desaparece rápida e irremediavelmente. Agora, numa época em que os métodos e objetivos da etnologia científica parecem ter se delineado; em que um pessoal adequadamente treinado para a pesquisa científica está começando a empreender viagem às regiões selvagens e a estudar seus habitantes, estes estão desaparecendo ante nossos olhos.

A pesquisa sobre raças nativas, realizada por pessoal de formação acadêmica, tem-nos fornecido provas irrefutáveis de que a investigação científica e metódica proporciona resultados melhores e em maior número que a dos melhores armadores. A maioria, embora não a totalidade, dos relatos científicos feitos atual- mente tem revelado novos e inesperados aspectos da vida tribal: traçou, em linhas claras e precisas, um quadro de instituições sociais, que são muitas vezes surpreendentemente vastas e complexas; apresentou uma visão do nativo, tal como ele é, com suas crenças e práticas religiosas e mágicas; e nos permitiu penetrar em sua mente de maneira mais profunda do que nos era possível ante- riormente. Deste material novo, que tem cunho genuinamente científico, os estu- diosos de etnologia comparada podem retirar algumas conclusões valiosas so- bre a origem dos costumes, crenças e instituições humanas, sobre a história das culturas, sua difusão e contato, sobre as leis do comportamento do homem em sociedade e sobre a mentalidade humana.

A esperança de se obter uma nova visão da humanidade selvagem através do trabalho de cientistas especializados surge como uma miragem para desapa- recer novamente quase no mesmo instante. Embora atualmente ainda se encontre ura bom número de comunidades nativas disponíveis ao estudo científico, dentro de uma ou duas gerações essas comunidades ou suas culturas terão praticamente desaparecido. É premente a necessidade de trabalho árduo, e curto demais o tempo. Além disso, é com tristeza que se verifica, até o presente, uma falta de real interesse por parte do público nesse tipo de estudos. São poucos os pesqui- sadores, e o incentivo que recebem é escasso. Em vista disso, não sinto necessi- dade de justificar uma contribuição etnológica que é resultado de pesquisa de campo especializada.

Neste volume eu relato apenas uma das facetas da vida selvática, descre- vendo certos tipos de relações comerciais que se verificam entre os nativos da Nova Guiné. Este relato foi selecionado de material etnográfico que cobre toda a cultura tribal de um distrito. Sem dúvida, para que um trabalho etnográfico seja válido, é imprescindível que cubra a totalidade de todos os aspectos social, cultural e psicológico da comunidade; pois esses aspectos são de tal forma

16 MALINOWSKI

anterdependentes que um não pode ser estudado e entendido a não ser levando- se em consideração todos os demais. O leitor irá perceber claramente que, embora o tema principal desta pesquisa seja econômico pois trata de empre- endimentos e transações comerciais —, constantes referências serão feitas à orga- nização social, aos rituais mágicos, à mitologia e folclore enfim, a todos os demais aspectos da vida tribal, além do nosso tema principal.

A região geográfica de que tratamos neste volume limita-se à dos arquipélagos situados no extremo leste da Nova Guiné. Nela, um único distrito, o das ilhas Trobriand, constitui o objeto principal de nossa pesquisa. Este, entretanto foi estudado minuciosamente. Durante aproximadamente dois anos, e no decorrer de três expedições à Nova Guiné, vivi naquele arquipélago e, naturalmente, du- rante esse tempo, aprendi bem a sua língua. Fiz meu trabalho completamente sozinho, vivendo nas aldeias a maior parte do tempo. Tinha constantemente ante meus olhos a vida cotidiana dos nativos e, com isso, não me podiam passar des- percebidas quaisquer ocorrências, mesmo acidentais: falecimentos, brigas, disputas, acontecimentos públicos e cerimoniais.

Na atual situação em que se acha a etnografia, quando ainda muito por fazer no sentido de se estabelecerem as diretrizes e o escopo de nossas próximas pesquisas, é necessário que cada contribuição nova se justifique em diversos pontos Deve revelar algum progresso metodológico; deve superar os limites das pes- quisas anteriores, em amplitude, em profundidade ou em ambas; e, finalmen- te, apresentar seus resultados de maneira precisa, mas não insípida. O espe- cialista interessado em metodologia irá encontrar, na Introdução, nas seções II- IX e no capítulo XVIII, uma exposição dos meus pontos de vista e esforços neste sentido. Ao leitor que se preocupa com os resultados da pesquisa mais do que com o processo pelo qual foram obtidos, apresento nos capítulos IV-XXI um relato das expedições do Kula e dos vários costumes e crenças que a ele se acham associados. O estudioso que se interessa não pelas descrições, mas também pela pesquisa etnográfica que as fundamenta e pela definição precisa da instituição, encontrará a primeira dessas nos capítulos I e II, e a última no capítulo III.

Ao Sr. Robert Mond desejo expressar meus maiores agradecimentos. Graças à sua generosa doação, pude levar a efeito, durante muitos anos, a pesquisa da qual esta monografia representa apenas uma parcela. Ao Sr. Atlee Hunt, C. M. G,., secretário do Departamento de Habitação e Territórios do governo australiano, quero expressar meu reconhecimento pelo auxílio financeiro que obtive através de seu departamento, e também pela grande colaboração que cle me ofereceu tão prontamente. Nas ilhas Trobriand, fui imensamente auxiliado pelo Sr. B. Hancock, negociante de pérolas, a quem sou grato não pela assistência e serviços a mim prestados, mas também pelas grandes provas de amizade que dele recebi.

Pude aperfeiçoar muito dos meus argumentos neste livro através da crítica feita por um amigo meu, o Sr. Paul Khuner, de Viena, especialista nos negócios práticos da indústria moderna e pensador altamente qualificado em assuntos eco- nômicos. O Professor L. T. Hobhouse pacientemente leu o manuscrito, dando-me conselhos valiosos sobre diversos pontos.

Sir James Frazer, com seu prefácio, engrandece o valor deste livro muito além de seu mérito; é não uma grande honra e de grande proveito tê-lo como autor do prefácio, mas também especial satisfação, pois minha paixão pela etnologia associa-se em sua origem à leitura de seu livro Golden Bough (O Ramo Dourado), na época em sua segunda edição.

Por último, desejo mencionar o nome não menos importante do Professor C. G. Seligman, a quem dedico este livro. A ele devo a iniciativa de minha expe-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 1.7

dição; e a ele, mais do que posso expressar com palavras, sou especialmente grato pelo incentivo e aconselhamento científico que me deu tão generosamente no transcorrer de minhas pesquisas na Nova Guiné.

B. M.

El Boquin,

Icod de Los Vinos, Tenerife,

abril de 1921.

AGRADECIMENTOS

A pesquisa etnográfica, por sua própria natureza, exige que o pesquisador dependa da assistência e auxílio de outros, o que ocorre muito mais freqiiente- mente na etnografia do que em outros ramos científicos. Desejo, portanto, expres- sar nestas páginas meu profundo agradecimento às muitas pessoas que me aju- daram. Financeiramente, como consta no prefácio, minha maior dívida é para com o Sr. Robert Mond, que possibilitou meu trabalho ao conceder-me a bolsa de viagens “Robert Mond” (Universidade de Londres), de 250 libras esterlinas anuais, que recebi por um período de cinco anos (1914, 1917-1920). Fui substancialmente auxiliado, também, pela doação de 250 libras obtidas através dos esforços do Sr. Atlee Hunt, C. M. G., do Departamento de Habitação e Ter- ritórios da Austrália. Da Faculdade de Ciências Econômicas de Londres recebi a bolsa de estudos “Constance Hutchinson”, de 100 libras anuais, pelo período de dois anos (1915-1916). O Professor Seligman, a quem muito devo nesta pesquisa e em tantos outros assuntos, além de ajudar-me a conseguir todas essas bolsas e doações, deu-me 100 libras de seu próprio bolso, destinadas aos gastos da expedição; presenteou-me, também, com uma máquina fotográfica, um fonó- grafo, instrumentos antropométricos e vários aparelhos adequados à pesquisa etno- gráfica. A convite e sob os auspícios do governo australiano, estive na Austrália em 1914 com a Associação Britânica para o Desenvolvimento da Ciência.

Talvez seja de interesse a futuros pesquisadores de campo notar que minha pesquisa etnográfica se desenvolveu num período de seis anos (1914-1920); fiz três expedições diferentes à região onde desenvolvi meus trabalhos e nos inter- valos entre elas analisei o material obtido e estudei a literatura etnográfica especializada de que dispunha na época. Para isso tudo, foram-me necessários pouco mais de 250 libras anuais. Pude custear com esse dinheiro não as des- pesas de viagem e pesquisa tais como passagens, soldo de criados nativos e pagamentos a intérpretes mas também um bom número de espécimes etnográ- ficos, parte dos quais foi doada ao Museu Melbourne sob o título de “Coleção Robert Mond”. Nada disso teria sido possível se eu não tivesse, também, recebido a ajuda de residentes da Nova Guiné. Meu amigo, o Sr. B. Hancock, de Gu- saweta, nas ilhas Trobriand, permitiu-me que usasse sua casa e sua loja como base para meus aparelhos e provisões; emprestou-me seu barco em ocasiões diversas e me proveu com um lar ao qual eu podia sempre voltar em caso de necessidade ou doença. Auxiliou-me no trabalho fotográfico, fornecendo-me, inclu- sive, um bom número de suas próprias chapas fotográficas, muitas das quais se encontram reproduzidas neste livro (ilustrações XV, XXXVII e L-LIJ).

Outros negociantes de pérolas e comerciantes das ilhas Trobriand foram também bastante pacientes comigo de modo especial, o Sr. e a Sra. Raphael Brudo, de Paris; os Srs. C. e G. Auerbach; e o finado Sr. Mick George. Todos eles me ajudaram bastante em diversos aspectos do meu trabalho e ofereceram sua bondosa hospitalidade.

20 MALINOWSKI

Durante os intervalos em Melbourne, fui grandemente auxiliado em meus estudos pelos funcionários da excelente Biblioteca Pública de Victoria; a todos eles expresso minha gratidão através do bibliotecário, Sr. E. La Touche Arms- trong, meu amigo Sr. E. Pitt, o Sr. Cooke e outros.

Dois mapas e duas ilustrações acham-se aqui reproduzidos por gentil con- cessão do Professor Seligman, retirados que foram de seu livro Os Melanésios da Nova Guiné Britânica. Desejo, também, expressar meus agradecimentos ao Capi- tão T. A. Joyce, editor da revista Man, que me permitiu usar aqui fotos anterior- mente publicadas naquele periódico.

O Sr. William Swan Stallybrass, Diretor Gerente Senior, da editora Geo. Routledge & Sons, Ltd., não poupou esforços no sentido de certificar-se de que todas as minhas indicações referentes a detalhes científicos fossem seguidas à risca na publicação deste livro. A ele, portanto, desejo também manifestar meu sincero agradecimento.

Nota fonética

Os nomes e vocábulos nativos empregados neste texto seguem a regras sim- ples de pronúncia, conforme recomendação da Sociedade Geográfica Real e do Instituto Antropológico Real. As vogais devem ser pronunciadas como em italiano, e as consoantes como em inglês. Esta grafia é bastante adequada para repro- duzir razoavelmente bem os sons das línguas da Nova Guiné. O apóstrofo colocado entre duas vogais indica que estas se devem pronunciar separadamente, i. e., não formam ditongo. Na maioria dos casos, acentua-se a penúltima, raramente a antepenúltima sílaba. Todas as sílabas devem ser anunciadas com clareza e precisão.

INTRODUÇÃO

Tema, método e objetivo desta pesquisa

Com raras exceções, as populações costeiras das ilhas do sul do Pacífico são ou foram, antes de sua extinção constituídas de hábeis navegadores e comerciantes. Muitas delas produziram excelentes variedades de canoas grandes para navegação marítima, usadas em expedições comerciais a lugares distantes ou incursões de guerra ou conquistas. Os papua-melanésios, habitantes da costa e das ilhas periféricas da Nova Guiné, não são exceção a esta regra. São todos, de ma- neira geral, navegadores destemidos, artesãos laboriosos, comerciantes perspicazes. Os centros de manufatura de artigos importantes tais como artefatos de cerá- mica, implementos de pedra, canoas, cestas finas e ornamentos de valor encon- tram-se em localidades diversas, de acordo com a habilidade dos habitantes, a tradição herdada por cada tribo e as facilidades especiais existentes em cada dis- trito. Destes centros os artigos manufaturados são transportados a diversos locais, por vezes a centenas de milhas de distância, a fim de serem comerciados.

Encontram-se, entre as várias tribos, formas bem definidadas de comércio ao longo de rotas comerciais específicas. Entre os motu de Port Moresby e as tribos do golfo Papua encontra-se uma das mais notáveis formas de comércio. Os motu navegam centenas de milhas em suas toscas e pesadas canoas, chamadas lakatoi, munidas das características velas em forma de “pinça de caranguejo”. Trazem artefatos de cerâmica e ornamentos feitos de conchas e, em épocas ante- riores, lâminas de pedra aos habitantes do golfo Papua, deles obtendo em troca o sagu” e os pesados troncos escavados que são mais tarde usados pelos motu na construção de suas canoas lakatoi.!

Mais para o leste, na costa sul, vivem os mailu, população laboriosa e nave- gadora que, através de expedições feitas anualmente, servem de elo entre o extre- mo leste da Nova Guiné e as tribos da costa central.

Há, finalmente, os nativos das ilhas e arquipélagos, espalhados no extremo leste que também se encontram em constantes relações comerciais uns com os ou- tros. No livro do Professor Seligman o leitor encontrará uma excelente descrição sobre o assunto, especialmente no que se refere às rotas comerciais mais próxi- mas existentes entre as várias ilhas habitadas pelos massim meridionais. A par desse tipo de comércio, existe entretanto outro sistema, bastante extenso e alta- mente complexo, que abrange, em suas ramificações, não as ilhas próximas

3 O sagu é uma espécie de goma preparada com a polpa de determinados tipos de palmeira e usada na confecção de pudins, etc. (N. do T.)

4 Essas expedições, a que os motu chamam de hiri, são narradas com precisão e admirável riqueza de detalhes pelo Capitão F. Barton, no livro The Melanesians of British New Guinea, de autoria do Professor C. G. Seligman (capítulo VIII, Cambridge, 1910).

5 Cf. Malinowski, Bronislaw, “The Mailu”, em Transactions of the Royal Society of South Australia, 1915; capítulo IV, pp. 612-629.

é Op. cit., capítulo XL.

22 MALINOWSKI

ac extremo leste da Nova Guiné, mas também as Lusíadas, a ilha de Woodlark, o arquipélago de Trobriand, e o grupo d'Entrecasteaux; penetra no interior da Nova Guiné e exerce influência indireta sobre vários distritos circunvizinhos, tais como a ilha de Rossel e algumas porções dos litorais sul e norte da Nova Guiné. Esse sistema de comércio, o Kula, é o que me proponho a descrever neste volume e como veremos mais adiante, trata-se de um fenômeno econômico de considerável importância teórica. Ele assume uma importância fundamental na vida tribal e sua importância é plenamente reconhecida pelos nativos que vivem no seu círculo, cujas idéias, ambições, desejos e vaidade estão intimamente relacionadas ao Kula.

H

Antes de iniciarmos aqui o relato sobre o Kula, será interessante apresentar uma descrição dos métodos utilizados na coleta do material etnográfico. Os re- sultados da pesquisa científica, em qualquer ramo do conhecimento humano, de- vem ser apresentados de maneira clara e absolutamente honesta. Ninguém so- nharia em fazer uma contribuição às ciências físicas ou químicas sem apresentar um relato detalhado de todos os arranjos experimentais, uma descrição exata dos aparelhos utilizados, a maneira pela qual se conduziram as observações, o número de observações, o tempo a elas devotado e, finalmente, o grau de aproximação com que se realizou cada uma das medidas. Nas ciências menos exatas, tais como a biologia e a geologia, isso não se pode fazer com igual rigor; mas os estudio- sos dessas ciências não medem esforços no sentido de fornecer ao leitor todos os dados e condições em que se processou o experimento e se fizeram as observa- ções. A etnografia, ciência em que o relato honesto de todos os dados é talvez ainda mais necessário que em outras ciências, infelizmente nem sempre contou no passado com um grau suficiente deste tipo de generosidade. Muitos dos seus autores não utilizam plenamente o recurso da sinceridade metodológica ao mani- pular os fatos e apresentam-nos ao leitor como que extraídos do nada.

Facilmente poderíamos citar muitas obras de grande reputação e cunho aparentemente científico, nas quais se fazem as mais amplas generalizações, sem que os autores nos revelem algo sobre as experiências concretas que os levaram às suas conclusões. Em obras desse tipo, não nenhum capítulo ou parágrafo destinado ao relato das condições sob as quais foram feitas as observações e coletadas as informações. A meu ver, um trabalho etnográfico terá valor cien- tífico irrefutável se nos permitir distinguir claramente, de um lado, os resultados da observação direta e das declarações e interpretações nativas e, de outro, as inferências do autor, baseadas em seu próprio bom-senso e intuição psicológica.” O resumo que apresento mais adiante (seção VI deste capítulo) ilustra a linha de pesquisa a ser observada. É necessária a apresentação desses dados para que os leitores possam avaliar com precisão, num passar de olhos, quão familiarizado está o autor com os fatos que descreve e sob que condições obteve as informações dos nativos.

Nas ciências históricas, como foi dito, ninguém pode ser visto com serie- dade se fizer mistério de suas fontes e falar do passado como se o conhecesse por adivinhação. Na etnografia, o autor é, ao mesmo tempo, o seu próprio cro- nista e historiador; suas fontes de informação são, indubitavelmente, bastante

x

7 No que diz respeito à metodologia, devemos à Cambridge School of Anthropology a intro- dução de critérios realmente científicos no tratamento do problema. Especialmente nas obras de Haddon, Rivers e Seligman sempre perfeita distinção entre observação dos .fatos e conclusões e nelas podemos claramente perceber sob que condições e circunstâncias foram realizadas as pesquisas.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 23

acessíveis, mas também extremamente enganosas e complexas; não estão incor- poradas a documentos materiais fixos, mas sim ao comportamento e memória de seres humanos. Na etnografia, é fregiientemente imensa a distância entre a apre- sentação final dos resultados da pesquisa e o material bruto das informações cole- tadas pelo pesquisador através de suas próprias observações, das asserções dos nativos, do caleidoscópio da vida tribal. O etnógrafo tem que percorrer esta distância ao longo dos anos laboriosos que transcorrem desde o momento em que pela primeira vez pisa numa praia nativa e faz as primeiras tentativas no sentido de comunicar-se com os habitantes da região, até à fase final dos seus estudos, quando redige a versão definitiva dos resultados obtidos. Uma breve apresentação acerca das tribulações de um etnógrafo as mesmas por que pas- sei pode trazer mais luz à questão do que qualquer argumentação muito longa e abstrata.

08

Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista. Tendo encontrado um lugar para morar no alojamento de algum homem branco negociante ou missio- nário você nada tem para fazer a não ser iniciar imediatamente seu trabalho etnográfico. Suponhamos, além disso, que você seja apenas um principiante, sem nenhuma experiência, sem roteiro e sem ninguém que o possa auxiliar pois o homem branco está temporariamente ausente ou, então, não se dispõe a per- der tempo com você. Isso descreve exatamente minha iniciação na pesquisa de campo, no litoral sul da Nova Guiné. Lembro-me bem das longas visitas que fiz às aldeias durante as primeiras semanas; do sentimento de desespero e desalento após inúmeras tentativas obstinadas mas inúteis para tentar estabelecer contato real com os nativos e deles conseguir material para a minha pesquisa. Passei por fases de grande desânimo, quando então me entregava à leitura de um romance qualquer, exatamente como um homem que, numa crise de depressão e tédio tro- pical, se entrega à bebida.

Imagine-se entrando pela primeira vez na aldeia, sozinho ou acompanhado de seu guia branco. Alguns dos nativos se reúnem ao seu redor principalmente quando sentem cheiro de tabaco. Outros, os mais velhos e de maior dignidade, continuam sentados onde estão. Seu guia branco possui uma rotina própria para tratar os nativos; ele não compreende e nem se preocupa muito com a maneira como você, o etnógrafo, terá que aproximar-se deles. A primeira visita o enche da esperança de que, ao voltar sozinho, as coisas lhe serão mais fáceis. Era isso, pelo menos, que eu esperava.

Realmente, voltei como planejara. Logo reuniram-se os nativos ao meu redor. Trocamos alguns cumprimentos em inglês pidgin,* dei-lhes um pouco de tabaco e assim criou-se entre nós uma atmosfera de mútua cordialidade. Ten- tei, então, dar início ao meu trabalho. Primeiro, comecei por “fazer” tecno- logia, a fim de não entrar diretamente em assuntos que pudessem levantar sus- peitas entre os nativos. Alguns deles estavam absortos em suas ocupações, fabri- cando este ou aquele objeto. Foi fácil observá-los e deles obter os nomes dos instrumentos que estavam usando, e até mesmo algumas expressões técnicas rela- tivas aos seus métodos de trabalho; mas ficou nisso o assunto. Devemos ter em mente que o inglês pidgin é um instrumento muito imperfeito como veículo de

* N. do revisor: Inglês modificado e simplificado usado como língua franca em diversas regiões do Pacífico.

24 MALINOWSKI

comunicação. Até que se adquira prática em formular perguntas e entender res- postas, tem-se a impressão desconfortável de que, através do inglês pidgin, ja- mais conseguiremos comunicar-nos livremente com os nativos. Assim sendo, no começo não me foi possível entrar em conversas mais explícitas ou detalhadas com os nativos. Eu sabia perfeitamente que a melhor solução para esse problema era coletar dados concretos, e, assim, passei a fazer um recenscamento da aldeia: anotei genealogias, esbocei alguns desenhos, fiz uma relação dos termos de paren- tesco. Isso tudo, porém, permanecia material “morto” que realmente não me podia levar a entender a verdadeira mentalidade e comportamento dos nativos, pois eu não conseguia obter deles nenhuma boa interpretação de quaisquer desses itens nem atingir o significado intrínseco da vida tribal. Quanto a obter suas idéias sobre religião e magia, suas crenças sobre feitiçaria e espíritos nada disso parecia possível, exceto algumas noções sobre o seu folclore, noções essas muito distorcidas pelo fato de serem expressas em inglês pidgin.

As informações que me foram dadas por alguns dos moradores brancos do distrito, apesar de válidas para o meu trabalho, eram ainda mais decepcio- nantes. Os brancos, não obstante seus longos anos de contato com os nativos, c apesar da excelente oportunidade de observá-los e comunicar-se com eles, quase nada sabiam sobre eles. Como poderia eu, então, no prazo de apenas alguns me- ses, ou até mesmo de um ano, esperar conseguir mais que o homem branco da região? Além disso, o modo como meus informantes brancos se referiam aos nativos e expressavam suas opiniões revelava, naturalmente, mentes não discipli- nadas e, portanto, não acostumadas a formular seus pensamentos com precisão e coerência. Ainda mais, em sua maioria, como era de esperar, esses homens tinham preconceitos e opiniões sedimentadas, coisas essas inevitáveis no homem comum, seja ele administrador, missionário ou negociante, mas repulsivas àqueles que buscam uma visão objetiva e científica da realidade. O hábito de tratar com uma frivolidade mesclada de auto-satisfação tudo que é realmente importante para o etnógrafo, o menosprezo pelo que constitui para o pesquisador um tesouro cien- tífico, isto é, a independência e as peculiaridades mentais e culturais dos nativos, tudo isto, tão comum nos livros de amadores, eu encontrei no tom da maioria dos residentes brancos.*

De fato, em minha primeira pesquisa etnográfica no litoral sul, foi somente quando me vi no distrito que pude começar a realizar algum progresso nos meus estudos e, de qualquer forma, descobri onde estava o segredo da pesquisa de campo eficaz. Qual é, então, esta magia do etnógrafo, com a qual ele con- segue evocar o verdadeiro espírito dos nativos, numa visão autêntica da vida tri- bal? Como sempre, se pode obter êxito através da aplicação sistemática e paciente de algumas regras de bom-senso assim como de princípios científicos bem conhecidos, e não pela descoberta de qualquer atalho maravilhoso que conduza ac resultado desejado, sem esforços e sem problemas. Os princípios metodológicos podem ser agrupados em três unidades: em primeiro lugar, é lógi- co, o pesquisador deve possuir objetivos genuinamente científicos e conhecer os valores e critérios da etnografia moderna. Em segundo lugar, deve o pesquisador assegurar boas condições de trabalho, o que significa, basicamente, viver mesmo entre os nativos, sem depender de outros brancos. Finalmente, deve ele aplicar certos métodos especiais de coleta, manipulação e registro da evidência. Algumas palavras são necessárias a respeito desses três fundamentos da pesquisa de campo. Comecemos pelo segundo, o mais elementar dos três.

8 Devo dizer, entretanto. que houve exceções admiráve's: meus amigos Billy Hancock, nas ilhas Trobriand; o Sr. Raphael Brudo, também negociante de pérolas; e o missionário, Sr. M. K. Gilmour.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL

[ND] tn

IV

Condições adequadas à pesquisa etnográfica. Como dissemos, o pesqui- sador deve, antes de mais nada, procurar afastar-se da companhia de outros homens brancos, mantendo-se assim em contato o mais íntimo possível com os na- tivos. Isso realmente se pode conseguir acampando dentro das próprias aldeias (veja fig. 1 e 2). É muito bom quando se pode manter uma base na residência de um homem branco, para guardar os suprimentos e saber que se pode obter proteção e refúgio em casos de doença ou no caso de estafa da vida nativa. Mas deve ser um local suficientemente longe para que não se transforme em lugar de residência permanente, do qual se emerge em horas certas para “estudar a aldeia”. Não deve sequer ser perto o suficiente para que se possa ir até ele a qualquer momento, em busca de distração. Os nativos, é verdade, não são os companheiros naturais do homem civilizado; após convivermos com eles durante longas horas, observando-os no trabalho do plantio e ouvindo-os discorrer sobre itens de seu folclore ou discutindo seus costumes, é natural que sintamos falta da companhia de nossos iguais. Mas, se nos encontramos sós na aldeia ou, em outras palavras, sem a companhia do homem branco podemos fazer um passeio solitário durante uma ou duas horas, voltar e, então, como acontece natu- ralmente, procurar a companhia dos próprios nativos, desta feita como lenitivo à solidão, como se faria com qualquer outra. Através deste relacionamento natural, aprendemos a conhecê-los, familiarizamo-nos com seus costumes e crenças de modo muito melhor do que quando dependemos de informantes pagos e, como frequentemente acontece, entediados.

É enorme a diferença entre o relacionar-se esporadicamente com os nativos e estar efetivamente em contato com eles. Que significa estar em contato? Para o etnógrafo significa que sua vida na aldeia, no começo uma estranha aventura por vezes desagradável, por vezes interessantíssima, logo assume um caráter natural em plena harmonia com o ambiente que o rodeia.

Pouco depois de me haver fixado em Omarakana (ilhas Trobriand), come- cei, de certo modo, a tomar parte na vida da aldeia; a antecipar com prazer os acontecimentos importantes e festivos; a assumir um interesse pessoal nas male- dicências e no desenvolvimento dos pequenos acontecimentos da aldeia; a acor- dar todas as manhãs para um dia em que minhas expectativas eram mais ou menos as mesmas que as dos nativos. Saía de meu mosquiteiro para encontrar ao meu redor os primeiros burburinhos da vida da aldeia, ou os nativos tra- balhando várias horas, de acordo com o tempo e a época do ano, pois eles se levantam e começam seu trabalho às vezes cedo, às vezes tarde, conforme sua urgência. No meu passeio matinal pela aideia, podia observar detalhes íntimos da vida familiar os nativos fazendo sua toalete, cozinhando, comendo; podia observar os preparativos para os trabalhos do dia, as pessoas saindo para realizar suas tarefas; grupos de homens e mulheres ocupados em trabalhos de manufatura (veja fig. 3). Brigas, brincadeiras, ceras de família, incidentes geralmente triviais, às vezes dramáticos, mas sempre significativos, formavam a atmosfera da minha vida diária, tanto quanto a da deles. Com o passar do tempo, acostumados a ver-me constantemente, dia após dia, os nativos deixaram de demonstrar curiosi- dade ou alarma em relação à minha pessoa nem se sentiam tolhidos com minha presença deixei de representar um elemento perturbador na vida tribal que devia estudar, alterando-a com minha aproximação, como sempre acontece com um estranho em qualquer comunidade selvagem. Sabendo que eu meteia o nariz em tudo, até mesmo nos assuntos em que um nativo bem educado jamais ousaria intrometer-se, os nativos realmente acabaram por aceitar-me como parte de sua

26 MALINOWSKI

vida, como um mal necessário, como um aborrecimento mitigado por doações de tabaco.

Tudo o que se passava no decorrer do dia estava plenamente ao meu alcance e não podia, assim, escapar à minha observação. O alarma ante a aproximação do feiticeiro, à noite; uma ou duas brigas e questões realmente sérias, os casos de doença e as tentativas de cura; os falecimentos; os rituais de magia que de- viam ser realizados todas essas coisas ocorriam bem diante dos meus olhos e, por assim dizer, à soleira de minha porta (veja fig. 4); eu não precisava sair à procura delas, nem me preocupava com a possibilidade de perdê-las. Devo res- saltar que, se algo dramático ou importante ocorre, é imprescindível que o inves- tiguemos imediatamente, no momento em que acontece, pois então os nativos naturalmente não podiam deixar de comentar o ocorrido, estando demasiado exci- tados para ser reticentes e demasiado interessados para ter preguiça mental de relatar os detalhes do incidente. Muitas e muitas vezes também cometi erros de etiqueta que os nativos, bem acostumados comigo, me apontavam imediata- mente. Tive de aprender a comportar-me como eles e desenvolvi uma certa per- cepção para aquilo que eles consideravam como “boas” ou “más” maneiras. Dessa forma, com a capacidade de aproveitar sua companhia e participar de alguns de seus jogos e divertimentos, fui começando a sentir que entrara realmente em con- tato com os nativos. Isso constitui, sem dúvida alguma, um dos requisitos preli- minares essenciais à realização e ao bom êxito da pesquisa de campo.

V

Não é suficiente, todavia, que o etnógrafo coloque suas redes no local certo e fique à espera de que a caça caia nelas. Ele precisa ser um caçador ativo e atento, atraindo a caça, seguindo-a cautelosamente até a toca de mais difícil acesso. Isto exige o emprego de métodos mais eficazes na procura de fatos etno- gráficos. No fim da seção III falamos da necessidade de o etnógrafo inspirar-se nos resultados mais recentes do estudo científico, em seus princípios e objetivos. Não vou discorrer extensivamente sobre o assunto desejo apenas fazer uma observação e, com ela, evitar a possibilidade de equívocos. Conhecer bem a teoria científica e estar a par de suas últimas descobertas não significa estar sobrecarregado de idéias preconcebidas. Se um homem parte numa expedição decidido a provar certas hipóteses e é incapaz de mudar seus pontos de vista constantemente, abandonado-os sem hesitar ante a pressão da evidência, sem dú- vida seu trabalho será inútil. Mas, quanto maior for o número de problemas que leve consigo para o trabalho de campo, quanto mais esteja habituado a mol- dar suas teorias aos fatos e a decidir quão relevantes eles são às suas teorias, tanto mais estará bem equipado para o seu trabalho de pesquisa. As idéias pre- concebidas são perniciosas a qualquer estudo científico; a capacidade de levantar problemas, no entanto, constitui uma das maiores virtudes do cientista esses problemas são revelados ao observador através de seus estudos teóricos.

Em etnologia, os primeiros trabalhos de Bastian, Tylor, Morgan e dos Voôlker- psychologen alemães reformularam as informações antigas e toscas de viajantes, missionários, etc., mostrando-nos quão importante à pesquisa é a aplicação de concepções mais profundas e o abandono dos conceitos primitivos e inadequados º

? De acordo com a terminologia científica, uso aqui a palavra ETNOGRAFIA para descrever os resultados empíricos e descritivos da ciência do homem; e a palavra ETNOLOGIA para referir-me às teorias especulativas e comparativas.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 27

Os conceitos de “fetichismo” e “culto ao demônio”, termos vazios de signifi- cado, foram suplantados pelo conceito de animismo. O entendimento e a utilização dos sistemas classificatórios de relações abriram novos caminhos às modernas e brilhantes pesquisas sobre a sociologia nativa, através dos trabalhos de pesquisa de campo realizados pelos cientistas de Cambridge. A análise psicológica intro- duzida pelos pensadores alemães tornou possíveis as valiosas informações conse- guidas pelas recentes expedições alemãs à África, à América do Sul e ao Pacífico. Simultaneamente, o trabalho teórico de Frazer, Durkheim e outros inspirou e por muito tempo continuará a inspirar os pesquisadores de campo, conduzindo-os a novas descobertas. O pesquisador de campo depende inteiramente da inspira- ção que lhe oferecem os estudos teóricos. É certamente possível que ele próprio seja também um pensador teórico; nesse caso, encontrará em si próprio todo o estímulo à sua pesquisa. Mas as duas funções são bem distintas uma da outra, na pesquisa propriamente dita devem ser separadas tanto cronologicamente quanto em condições de trabalho.

Como geralmente acontece quando o interesse científico se volta para um campo explorado apenas pela curiosidade de amadores, a etnologia trouxe leis e ordem àquilo que parecia caótico e anômalo. Transformou o extraordinário, inex- plicável e primitivo mundo dos “selvagens” numa série de comunidades bem organizadas, regidas por leis, agindo e pensando de acordo com princípios cocren- tes. A palavra “selvagem”, qualquer que tenha sido sua acepção primitiva, conota liberdade ilimitada, algo irregular, mas extremamente, extraordinariamente ori- ginal. A idéia geral que sc faz é a de que os nativos vivem no seio da natureza, fazendo mais cu menos aquilo que podem e querem, mas presos a crenças e apreensões irregulares e fantasmagóricas. A ciência moderna, porém, nos mostra que as sociedades nativas têm uma organização bem definida, são governadas por leis, autoridade e ordem em suas relações públicas ec particulares, e que estão, além de tudo, sob o controle de laços extremamente complexos de raça e paren- tesco. De fato, podemos constatar nas sociedades nativas a existência de um entrelaçado de deveres, funções e privilégios intimamente associados a uma orga- nização tribal, comunitária e familiar bastante complexa (veja fig. 4). As suas crenças e costumes são coerentes, e o conhecimento que os nativos têm do mundo exterior lhes é suficiente para guiá-los em suas diversas atividades e empreendi- mentos. Suas produções artísticas são prenhes de sentido e beleza.

Estamos hoje muito longe da afirmação feita muitos anos por uma célebre autoridade que, ao responder uma pergunta sobre as maneiras e os costumes dos nativos, afirmou: “Nenhum costume, maneiras horríveis”. Bem diversa é a posição do etnógrafo moderno que, armado com seus quadros de termos de parentesco, gráficos genealógicos, mapas, planos e diagramas, prova a existência de uma vasta organização nativa, demonstra a constituição da tribo, do clã e da família e apre- senta-nos um nativo sujeito a um código de comportamento e de boas maneiras tão rigoroso que, em comparação, a vida nas cortes de Versalhes e do Escorial parece bastante informal!º.

10 O legendário “velho autor” que julgou os nativos bestiais e destituídos de costumes é ultra- passado em suas idéias por um autor moderno que, ao referir-se aos nativos da tribo dos rmassim do sul, com os quais conviveu e trabalhou “em contato íntimo” durante muitos anos. afirma: * Ensinamos a homens sem lei a obediência; aos brutos, o amor; aos selvagens, a civilização”. Em seguida, aíirma também: “Guiado, em sua conduta, apenas por tendências e instintos, e governado por suas paixões irrefreadas...” “Sem leis, desumano e selvagem!” Uma deformação mais grosseira da realidade não poderia ter sido inventada por alguém que desejasse parodiar o ponto de vista missionário. As setenças entre aspas foram transcritas da cbra Savage Life in New Guinea, não datada, de autoria do Reverendo C. W. Abel, da Lon- don Missionary Society.

28 MALINOWSKI

O objetivo fundamental da pesquisa etnográfica de campo é, portanto, estabe- lecer o contorno firme e claro da constituição tribal e delinear as leis e os padrões de todos os fenômenos culturais, isolando-os de fatos irrelevantes. É necessário, em primeiro lugar, descobrir-se o esquema básico da vida tribal. Este objetivo exige que se apresente, antes de mais nada, um levantamento geral de todos os fenômenos, e não um mero inventário das coisas singulares e sensacionais e muito menos ainda daquilo que parece original e engraçado. Foi-se o tempo em que se aceitavam relatos nos quais o nativo aparecia como uma caricatura infantil do ser humano. Relatos desse tipo são falsos e, como tal, a ciência os rejeita inteiramente. O etnógrafo de campo deve analisar com seriedade e moderação todos os fenômenos que caracterizam cada aspecto da cultura tribal sem privi- legiar aqueles que lhe causam admiração ou estranheza em detrimento dos fatos comuns e rotineiros. Deve, ao mesmo tempo, perscrutar a cultura nativa na tota- lidade de seus aspectos. A lei, a ordem e a coerência que prevalecem em cada um desses aspectos são as mesmas que os unem e fazem deles um todo coerente.

O etnógrafo que se propõe estudar apenas a religião, ou somente a tecnologia, ou ainda exclusivamente a organização social, estabelece um campo de pesquisa artificial e acaba por prejudicar seriamente seu trabalho.

VI

Estabelecido esse princípio geral, passemos agora a considerações mais deta- lhadas sobre metodologia. Na pesquisa de campo, como acabamos de dizer, o etnógrafo tem o dever e a responsabilidade de estabelecer todas as leis e regula- ridades que regem a vida tribal, tudo que é permanente e fixo; apresentar a ana- tomia da cultura e descrever a constituição social. Mas estes elementos, apesar de cristalizados e permanentes, não se encontram formulados em lugar nenhum. Não códigos de lei, escritos ou expressos explicitamente; toda a tradição tribal e sua estrutura social inteira estão incorporadas ao mais elusivo dos materiais: o próprio ser humano. Mas nem mesmo na mente ou na memória do nativo se podem encontrar estas leis definitivamente formuladas. Os nativos obedecem às ordens e à força do código tribal, mas não as entendem, do mesmo modo como obedecem a seus próprios instintos e impulsos, embora sejam incapazes de for- mular qualquer lei da psicologia. As regularidades existentes nas instituições nati- vas são resultado automático da ação recíproca das forças mentais da tradição e das condições materiais do meio ambiente. Da mesma forma que os membros mais humildes de qualquer instituição moderna seja o Estado, a Igreja, o Exército, etc. pertencem a ela e nela se encontram, sem ter visão da ação integral do todo e, menos ainda, sem poder fornecer detalhes de sua organização, seria inútil interpelar o nativo em termos sociológicos abstratos. A única diferença, no caso, é que cada uma das instituições da sociedade civilizada possui, em seu meio, elementos inteligentes, historiadores, arquivos e documentos; no caso da sociedade nativa, nada disso existe. Depois que se constata essa dificuldade, é necessário que se procure um recurso através do qual superá-la. O recurso para o etnógrafo é coletar dados concretos sobre todos os fatos observados e através disso formular as inferências gerais. Este princípio parece ser muito simples e evidente; mas a verdade é que não foi descoberto, ou pelo menos utilizado, na etnografia até o aparecimento das primeiras pesquisas de campo feitas pelos ho- mens de ciência. Além disso, na prática, é muito difícil planejar-se a aplicação efetiva desse método e desenvolvê-lo de maneira sistemática e coerente.

Embora os nativos jamais nos possam fornecer regras gerais e abstratas, sempre a possibilidade de os interpelarmos sobre a solução que dariam a deter- minados problemas. Assim, por exemplo, se quisermos saber seu modo de tratar

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 29

ou punir os criminosos, uma pergunta direta, do tipo “Como são tratados e puni- dos os criminosos?” é inútil e, além de tudo, impraticável, pois que não existem na linguagem nativa, ou mesmo no inglês pidgin, palavras adequadas com que expressá-la. Mas um incidente imaginário ou, melhor ainda, uma ocorrên- cia real, estimula o nativo a expressar sua opinião e a fornecer muitas informações. Com efeito, um fato realmente ocorrido incita os nativos a uma série de comen- tários, neles evocando expressões de indignação, fazendo com que se dividam em suas opiniões e, provavelmente, em tudo isso iremos não encontrar uma grande variedade de pontos de vista formados e censuras morais bem definidas, mas também descobrir o mecanismo social ativado pelo crime em questão. A partir daí é fácil levá-los a falar sobre outros casos semelhantes, a lembrar-se de outros acontecimentos, a discutillos em todos os seus aspectos e implicações. Deste material, que deve cobrir o maior número possível de fatos, a inferência é obtida por simples indução. O tratamento científico difere do senso comum, pri- meiro, pelo fato de que o cientista se empenha em continuar sua pesquisa siste- mática e metodicamente, até que ela esteja completa e contenha, assim, o maior número possível de detalhes; segundo, porque, dispondo de um cabedal científico, o investigador tem a capacidade de conduzir a pesquisa através de linhas de efetiva relevância e a objetivos realmente importantes. Com efeito, o treinamento científico tem por finalidade fornecer ao pesquisador um “esquema mental” que lhe sirva de apoio e permita estabelecer o roteiro a seguir em seus trabalhos.

Voltando ao nosso exemplo: através da discussão, com os nativos, de uma série de fatos realmente ocorridos, o etnógrafo tem a oportunidade de conhecer bem o mecanismo social ativado, por exemplo, no processo de punição de um crime. Isso constitui uma das partes ou aspectos da autoridade tribal. Imagine- mos também que, através de métodos indutivos, análogos ao anterior e bascados em dados concretos e específicos, o pesquisador passe a entender diferentes as- pectos da vida nativa tais como a liderança na guerra, nos empreendimentos eco- nômicos, nas festividades da tribo; nisso tudo ele terá os dados necessários para formular teorias relativas ao governo e autoridade social tribal. Na prática, a comparação dos diversos dados assim obtidos, a tentativa de reuni-los num todo coerente, revela muitas vezes lacunas e falhas na informação que nos levam a novas investigações.

Com base em minha própria experiência, posso afirmar que muitas vezes, somente ao fazer um esboço preliminar dos resultados de um problema aparen- temente resolvido, fixado e esclarecido, é que eu deparava com enormes defi- ciências em meu estudo deficiências essas que indicavam a existência de pro- blemas até então desconhecidos e me forçavam a novas investigações. Com efeito, passei alguns meses, no intervalo entre minha primeira e segunda expedições e bem mais de um ano entre a segunda e a terceira revendo o material todo que tinha em mãos e preparando, inclusive, algumas porções dele para publica- ção, mesmo ciente, a cada passo, de que teria de reescrevê-lo. Essa dupla ativi- dade de trabalho construtivo e observação foi-me bastante valiosa e, sem ela, não creio que teria conseguido progredir em minha pesquisa. Faço este pequeno aparte com relação ao desenvolvimento de meus trabalhos apenas para mostrar ao leitor que tudo o que até agora venho afirmando está longe de ser um programa vazio é, muito pelo contrário, o resultado de experiências vividas. No presente volume, faço uma descrição do Kula, instituição nativa dotada de uma enorme variedade de aspectos e associada a um sem-número de atividades. Aos que refle- tirem um pouco sobre o assunto, ficará claro que as informações a respeito de um fenômeno tão complexo e de tantas ramificações como o Kula não poderiam ser completas e exatas não fosse pela constante inter-relação entre esforços cons- trutivos e testes empíricos. Com efeito, fiz esboços da instituição do Kula pelo

30 MALINOWSKI

menos uma meia dúzia de vezes, não durante minha pesquisa in loco, mas também nos intervalos entre uma e outra expedição. A cada nova tentativa, novos problemas e dificuldades apareciam.

A coleta de dados referentes a um grande número de fatos é, pois, uma das fases principais da pesquisa de campo. Nossa responsabilidade não se deve limitar à enumeração de alguns exemplos apenas; mas sim, obrigatoriamente, ao levan- tamento, na medida do possível exaustivo, de todos os fatos ao nosso alcance. Na busca desses fatos, terá mais êxito o pesquisador cujo “esquema mental” for mais lúcido e completo. Sempre que o material da pesquisa o permitir, esse “es- quema mental” deve, todavia, transformar-se num “esquema real” ou seja, materializar-se na forma de diagramas, planos de estudo e pesquisa e quadros sinóticos completos. bastante tempo esperamos encontrar, em todos os bons livros atuais sobre a vida nativa, uma lista completa ou um quadro de termos de parentesco que inclua todos os dados relevantes, c não apenas a seleção de algumas expressões de parentesco ou relações genealógicas anômalas. Nas inves- tigações sobre parentesco, o estudo consecutivo das relações de um indivíduo para outro, em casos concretos, leva naturalmente à construção de gráficos genea- lógicos. Esse método, posto em prática pelos melhores escritores antigos tais como Munzinger e, se não me falha a memória, Kubary encontrou máximo desenvolvimento nos trabalhos do Dr. Rivers. Também no caso das transações econômicas, em estudos feitos com o objetivo de traçar as origens de um objeto de valor e aferir a natureza de sua circulação, de igual forma devemos estudar, exaustivamente, todos os dados concretos o que nos levaria à construção de quadros sinóticos das transações, tais quais os encontramos na obra do Professor Seligman.” Foi seguindo o exemplo do Professor Seligman neste assunto que consegui decifrar alguns dos princípios mais difíceis e complicados do Kula. Esse método de se condensarem em mapas ou quadros sinóticos os dados de informa- ção, deve sempre, na medida do possível, ser aplicado ao estudo de praticamente todos os aspectos da vida nativa. Todos os tipos de transações econômicas podem ser estudados analisando-se dados concretos, relacionando-os uns aos outros e colocando-os em quadros sinóticos. Da mesma forma, deve-se fazer um quadro sinótico de todos os presentes que costumeiramente se fazem numa determinada comunidade nativa, incluindo-se nele a definição sociológica, cerimonial e econô- mica referente a cada item. Do mesmo modo, sistemas mágicos, séries de ceri- mônias interligadas, tipos de ações legais todos devem ser colocados em quadros deste tipo, cada item sendo classificado sob diversos títulos. Além dos quadros sinóticos, é óbvio, são documentos fundamentais da pesquisa etnográfica: o recenseamento genealógico de cada comunidade, na forma de estudos detalha- dos: mapas, esquemas e diagramas ilustrando a posse da terra de cultivo, privi- légios de caça e pesca, etc.

Uma genealogia nada mais é do que o quadro sinótico de um determinado grupo de relações de parentesco interligadas. Seu valor como instrumento de pesquisa reside no fato de que ela permite formular questões que o pesquisador jJevanta a si mesmo in abstracto, mas faz ao nativo de maneira concreta. Seu valor como documento etnográfico reside no fato de que abrange uma série de dados autenticados, dispostos em seu arranjo natural. Um quadro sinótico sobre a magia serve à mesma função. Como instrumentos de pesquisa, tenho-os utilizado, por exemplo, para descobrir o que pensam os nativos com referência à natureza do poder mágico. Com um esquema à frente, eu conseguia analisar facilmente os itens, uns após os outros, fazendo anotações sobre as crenças e práticas rele-

x

N Por exemplo, os quadros sinóticos relativos à circulação das valiosas lâminas de macha- do, op. cit., pp. 531 e 532.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 3]

vantes contidas em cada um deles. A resposta aos meus problemas abstratos eu a obtinha através de inferência a partir do conjunto de casos. Os capítulos XVII e XVIII ilustram esse método.!? Não me posso aprofundar na discussão deste assunto, pois que, para isso, precisaria fazer novas distinções, tais como as exis- tentes entre um mapa de dados reais e concretos (uma genealogia, por exemplo) e um mapa em que se resumem as características de determinada crença ou cos- tume nativo (por exemplo, um mapa do sistema mágico).

Voltando uma vez mais à questão metodológica discutida na seção II, quero chamar a atenção do leitor para o fato de que o método de apresentação de dados concretos sob a forma de quadros sinóticos deve, antes de mais nada, ser aplicado às credenciais do etnógrafo. Em outras palavras, o etnógrafo que deseja merecer confiança deve distinguir, de maneira clara e concisa, sob a forma de um quadro sinótico, entre os resultados de suas observações diretas e de informações que recebeu indiretamente pois seu relato inclui ambas. O quadro que apresentamos a seguir servirá como ilustração desse procedimento e auxiliará o leitor a julgar da fidedignidade de quaisquer asserções em que tenha particular interesse. Por meio desse quadro e das demais referências feitas no texto, ao modo, às circuns- tâncias e ao grau de precisão com que cheguei a determinadas conclusões, espero, não restarão dúvidas quanto à autenticidade das fontes de meu estudo.

Resumindo aqui a primeira e principal questão metodológica, posso dizer que cada fenômeno deve ser estudado a partir do maior número possível de suas manifestações concretas; cada um deve ser estudado através de um levantamento exaustivo de exemplos detalhados. Quando possível, os resultados obtidos através dessa análise devem ser dispostos na forma de um quadro sinótico, o qual então será utilizado como instrumento de estudos e apresentado como documento etno- lógico. Por meio de documentos como esse e através do estudo de fatos concretos, é possível apresentar um esboço claro e minucioso da estrutura da cultura nativa, em seu sentido mais lato, e da sua constituição social. Esse método pode chamar-se método de documentação estatística por evidência concreta.

VIH

Desnecessário é dizermos que, neste particular, a pesquisa de campo realizada em moldes científicos supera, e muito, quaisquer trabalhos de amadores. Há, todavia, um aspecto em que o trabalho de amadores frequentemente se sobressai: em sua apresentação de fatos íntimos da vida nativa, de certas facetas com as quais nos podemos familiarizar através de um contato muito estreito com os nativos durante um longo período de tempo. Em certos tipos de pesquisa cientí- fica especialmente o que se costuma chamar de “levantamento de dados”, ou survey é possível apresentar, por assim dizer, um excelente esqueleto da cons- tituição tribal, mas ao qual faltam carne e sangue. Aprendemos muito a respeito da estrutura social nativa mas não conseguimos perceber ou imaginar a realidade da vida humana, o fluxo regular dos acontecimentos cotidianos, as ocasionais demonstrações de excitação em relação a uma festa, cerimônia ou fato peculiar. Ao desvendar as regras e regularidades dos costumes nativos, e ao obter do con-

12 Neste volume, além do quadro apresentado a seguir o qual, aliás, não pertence integral- mente à classe dos documentos a que me refiro o leitor encontrará apenas algumas amos- tras de quadros sinóticos: por exemplo, a lista de parceiros do Kula (mencionada e analisada no capítulo XIII, seção IN); a lista de oferendas e presentes descrita (capítulo VI, seção VI), mas não apresentada sob a forma de quadro sinótico; o quadro sinótico dos dados referentes a uma das expedições do Kula (capítulo XVI), e o quadro dos rituais mágicos relacionados ao Kula (capítulo XVII. Decidi não sobrecarregar o presente volume com quadros. mapas, etc., pois os estou reservando para uma futura publicação completa do meu material.

MALINOWSKI

LISTA CRONOLÓGICA DE ACONTECIMENTOS REFERENTES AO KULA, TESTEMUNHADOS PELO AUTOR

PRIMEIRA EXPEDIÇÃO. Agosto de 1914 março de 1915.

Março de 1915. Na Aldeia de Dikoyas (ilha Woodlark), foram observadas algumas oferen- das cerimoniais. Obtidas algumas informações preliminares.

SEGUNDA EXPEDIÇÃO. Maio de 1915 maio de 1916.

Junho de 1915. Uma expedição kabigidoya chega a Kiriwina, proveniente de Vakuta. Obser- vei ancoragem em Kavataria. Encontrei-me com os visitantes em Omarakana, onde recolhi informações.

Julho de 1915. Algumas comitivas provenientes de Kitava chegam à praia de Kaulukuba. Examinei os visitantes em Omarakana. Pude recolher muita informação nessa época.

Setembro de 1915. Tentativa frustrada de embarcar com To'uluwa, chefe de Omarakana, rumo a Kitava.

Outubro novembro de 1915. Observei em Kiriwina as partidas de três expedições com destino a Kitava. Em cada uma dessas ocasiões, To'uluwa trouxe de volta um carrega- mento de mwali (braceletes de concha).

Novembro de 1915 março de 1916. Preparativos para a grande expedição ultramarina de Kiriwina às ilhas Marshall Bennett. Construção de uma canoa; reforma de outra; confecção de velas em Omarakana; lançamento; tasasoria na praia de Kaulukuba. Simultaneamente obtinha informações a respeito desses assuntos e assuntos afins. Pude obter alguns textos de magia referentes à construção de canoas e à magia do Kula.

TERCEIRA EXPEDIÇÃO. Outubro de 1917 outubro de 1918.

Novembro de 1917 dezembro de 1917. O Kula interno; alguns dados obtidos em Tu- kwaukwa.

Dezembro de 19i7 fevereiro de 1918. Comitivas provenientes de Kitava chegam a Wa- wela. Recoihi dados sobre o vovova. Consegui obter a magia e os encantamentos do Kaygau.

Março de 1918. Preparativos em Sanaroa; preparativos nas ilhas Amphlett; a frota de Dobu

chega às ilhas Amphlett. A expedição uvalaku, proveniente de Dobu, acompanhada até Boyowa.

Abril de 1918. Chegada e recepção dessa expedição em Sinaketa; as transações do Kade; a grande reunião das duas tribos. Obtidas algumas fórmulas mágicas.

Maio de 1918. Observei em Vakuta uma comitiva proveniente de Kitava.

Junho julho de 1918. Em Omarakana, verifiquei e ampliei informações sobre os costumes

e a magia relativos ao Kula, especialmente no que se refere às suas ramificações no leste.

Agosto setembro de 1918. Textos mágicos obtidos em Sinaketa.

Outubro de 1918. Recolhimento de informações fornecidas por alguns nativos em Dobu e no distrito massim do Sul (examinados em Samarai).

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 33

junto de fatos e de asserções nativas uma fórmula exata que os traduza, verifi- camos que esta própria precisão é estranha à vida real, a qual jamais adere rigi- damente a nenhuma regra. Os princípios precisam ser suplementados por dados referentes ao modo como um determinado costume é seguido, ao comportamento dos nativos na obediência às regras que o etnógrafo formulou com tanta precisão e às próprias exceções tão comuns nos fenômenos sociológicos.

Se todas as conclusões forem baseadas única e exclusivamente no relato de informantes ou, então, inferidas de documentos objetivos, será logicamente im- possível suplementá-las com dados de comportamento real. Eis o motivo por que certos trabalhos de amadores que viveram muitos anos entre os nativos tais como negociantes e fazendeiros instruídos, médicos e funcionários e, finalmente (mas não menos importantes), os poucos missionários inteligentes e de menta- lidade aberta aos quais a etnografia deve tanto superam em plasticidade e vividez a maioria dos relatos estritamente científicos. Desde que, porém, o pes- quisador especializado possa adotar as condições de vida acima descritas, estará muito mais habilitado a entrar em contato íntimo com os nativos do que qualquer residente branco da região. Nenhum dos residentes brancos realmente vive numa aldeia nativa, a não ser por breves períodos de tempo; além disso, cada um deles tem os seus próprios afazeres e negócios, que lhes tomam grande parte do tempo. Além do mais, quando um negociante, funcionário ou missionário estabelece relações ativas com os nativos é para transformá-los, influenciá-los, ou usá-los, o que torna impossível uma observação verdadeiramente imparcial e objetiva e impede um contato aberto e sincero pelo menos quando se trata de missio- nários e oficiais.

Vivendo na aldeia, sem quaisquer responsabilidades que não a de observar a vida nativa, o etnógrafo os costumes, cerimônias, transações, etc., muitas e muitas vezes; obtém exemplos de suas crenças, tais como os nativos realmente as vivem. Então, a carne e o sangue da vida nativa real preenchem o esqueleto vazio das construções abstratas. É por esta razão que o etnógrafo, trabalhando em condições como as que vimos descrevendo, é capaz de adicionar algo essencial ao esboço simplificado da constituição tribal, suplementando-o com todos os detalhes referentes ao comportamento, ao meio ambiente e aos pequenos inci- dentes comuns. Ele é capaz, em cada caso, de estabelecer a diferença entre os atos públicos e privados; de saber como os nativos se comportam em suas reuniões ou assembléias públicas e que aparência elas têm; de distinguir entre um fato corriqueiro e uma ocorrência singular ou extraordinária; de saber se os nativos agem em determinada ocorrência com sinceridade e pureza de aima, ou se a consideram apenas como uma brincadeira; se dela participam com total desinte- resse, ou com dedicação e fervor.

Em outras palavras, uma série de fenômenos de suma importância que de forma alguma podem ser registrados apenas com o auxílio de questionários ou documentos estatísticos, mas devem ser observados em sua plena realidade. A esses fenômenos podemos dar o nome de os imponderáveis da vida real. Perten- cem a essa classe de fenômenos: a rotina do trabalho diário do nativo; os detalhes de seus cuidados corporais; o modo como prepara a comida e se alimenta, o tom das conversas e da vida social ao redor das fogueiras; a existência de hostili- dade ou de fortes laços de amizade, as simpatias ou aversões momentâneas entre as pessoas; a maneira sutil, porém inconfundível, como a vaidade e a ambição pessoal se refletem no comportamento de um indivíduo e nas reações emocionais daqueles que o cercam. Todos esses fatos podem e devem ser formulados cienti- ficamente e registrados; entretanto, é preciso que isso não se transforme numa simples anotação superficial de detalhes, como usualmente é feito por observa- dores comuns, mas seja acompanhado de um esforço para atingir a atitude men-

34 MALINOWSKI

tal que neles se expressa. É esse o motivo por que o trabalho de observadores cientificamente treinados, aplicado ao estudo consciencioso dessa categoria de fatos, poderá, acredito, trazer resultados de inestimável valor. Até o presente, esse tipo de trabalho vem sendo feito apenas por amadores e de maneira geral, portanto, com resultados medíocres.

Com efeito, se nos lembrarmos de que esses fatos imponderáveis, porém importantíssimos, da vida real são parte integrante da essência da vida grupal, se nos lembrarmos de que neles estão entrelaçados os numerosos fios que vin- culam a família, o clã, a aldeia e a tribo, sua importância se torna evidente. Os vínculos mais cristalizados dos agrupamentos sociais tais como rituais especí- ficos, deveres legais e econômicos, obrigações mútuas, presentes cerimonais, demonstrações formais de respeito, embora igualmente importantes para o pes- quisador, não são todavia sentidos tão intensamente pelo indivíduo que os tem de pôr em prática. O mesmo ocorre conosco: sabemos todos que a “vida em famí- lia” significa para nós, antes de mais nada, o ambiente do lar, todos os numerosos pequenos atos e atenções através dos quais expressamos afeição e interesse mútuo, as pequenas preferências e antipatias que constituem a “intimidade doméstica”. O fato de que talvez venhamos a receber uma herança de um parente, ou o fato de que temos a obrigação de acompanhar o funeral de um outro, embora sociolo- gicamente façam parte da definição de família e de vida familiar, geralmente são relegados a um último plano em nossa perspectiva pessoal do que a família realmente significa para nós.

Exatamente o mesmo se aplica à comunidade nativa. Portanto, se o etnó- grafo quer realmente trazer a seus leitores uma imagem vívida da vida nativa, não poderá, de forma alguma, negligenciar esses aspectos. Nenhum aspecto seja o íntimo, seja o legal deve ser menosprezado. Aos relatos etnográficos, entretanto, via de regra, tem faltado um ou outro aspecto e, até o presente mo- mento, poucos relatos se fizeram em que adeguadamente se discutiu o aspecto intimo da vida nativa. Não no relacionamento pessoal familiar, mas em todo relacionamento social seja ele entre os nativos de uma tribo ou entre os mem- bros amistosos ou hostis de tribos diferentes —, existe esse lado íntimo, que se expressa nos detalhes do trato ou relacionamento pessoal, no tom do compor- tamento do indivíduo frente a outro. Esse aspecto é bem diverso do quadro legal

e cristalizado das relações sociais e, como tal, precisa ser estudado e apre- sentado separadamente.

De igual forma, ao estudarmos os atos conspícuos da vida tribal tais como as cerimônias, rituais e festividades —, devemos apresentar também os

detalhes e o tom do comportamento, e não exclusivamente o simples esboço dos acontecimentos. Estudemos um exemplo específico para ilustrar a importância desse método: muito se falou e escreveu sobre a questão da sobrevivência de traços culturais. O aspecto de sobrevivência de um ato não pode, entretanto, expressar-se em nada, a não ser no comportamento que o acompanha e no modo como ele se verifica. Temos muitos exemplos disso em nossa própria cultura: a simples descrição dos aspectos exteriores, seja da pompa e do aparato de uma solenidade de Estado, seja de um costume pitoresco dos garotos de rua, não é suficiente para demonstrar se o rito ainda floresce com total vigor nos corações daqueles que dele participam, ou se o consideram como coisa ultra- passada e quase morta, conservada apenas por amor à tradição. Se, porém, obser- varmos e registrarmos as particularidades do comportamento das pessoas, imedia- tamente poderemos determinar o grau de vitalidade do costume. Não resta dúvida de que, tanto na análise sociológica quanto na psicológica, bem como em quais quer questões teóricas, são de extrema importância o modo e o tipo do compor-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 35

tamento observado na realização de um ato. O comportamento é, indubitavel- mente, um fato, e um fato relevante passível de análise e registro. Tolo e míope é o cientista que, ao deparar com todo um tipo de fenômenos prontos a serem coletados, permite que eles se percam, mesmo se, no momento, não visse a que fins teóricos poderiam servir!

Em relação ao método adequado para observar e registrar estes aspectos imponderáveis da vida real e do comportamento típico, não resta dúvida de que a subjetividade do observador interfere de modo mais marcante do que na coleta dos dados etnográficos cristalizados. Porém, mesmo nesse particular, devemos em- penhar-nos no sentido de deixar que os fatos falem por si mesmos. Se, ao fazermos nossa ronda diária da aldeia, observamos que certos pequenos incidentes, o modo característico como os nativos se alimentam, falam, conversam e trabalham (veja, por exemplo, a fig. 3), ocorrem repetidamente, devemos registrá-los o quanto antes. E importante também que esse trabalho de coleta e registro de impressões seja feito desde o início, ou seja, desde os nossos primeiros contatos com os nativos de um determinado distrito e isso porque certos fatos, que impressionam en- quanto constituem novidade, deixam de ser notados à medida que se tornam familiares. Outros fatos podem ser percebidos depois de algum tempo, quando então conhecemos bem as condições locais. O diário etnográfico, feito siste- maticamente no curso dos trabalhos num distrito, é o instrumento ideal para este tipo de estudo. E se, paralelamente ao registro de fatos normais e típicos, fizermos também o registro dos fatos que representam ligeiros ou acentuados desvios da norma, estaremos perfeitamente habilitados a determinar os dois extre- mos da escala da normalidade.

Ao observarmos cerimônias ou quaisquer outras ocorrências tribais, tais como a da fig. 4, devemos não anotar os acontecimentos e detalhes ditados pelos costumes e pela tradição como pertencentes à própria essência do ato, mas também registrar, de maneira cuidadosa e exata, as atitudes de atores e espectadores, umas após as outras. Esquecendo-se por alguns momentos de que conhece e entende a estrutura da cerimônia, bem como os dogmas que a funda- mentam, o etnógrafo deve tentar colocar-se como parte de uma assembléia de seres humanos que se comportam com seriedade ou alegria, com fervorosa con- centração ou frivolidade e tédio; que estão com a mesma disposição de espírito em que ele os encontra todos os dias, ou então em atitude de grande tensão ou excitabilidade —, e assim por diante. Com a atenção constantemente voltada para esse aspecto da vida tribal, e com o empenho persistente de o registrar e expres- sar em termos de fatos reais, o etnógrafo irá acumular uma quantidade enorme de material informativo autêntico e expressivo. Estará, assim, habilitado a dar ao ato o seu devido lugar na esfera da vida nativa i. e., saberá dizer se é normal ou excepcional, se nele os nativos se comportam como de costume, ou se acar- reta mudanças em seu comportamento. Estará, por fim, capacitado a trazer tudo isso, de maneira clara e convincente, a seus leitores.

Por outro lado, nesse tipo de pesquisa, recomenda-se ao etnógrafo que de vez em quando deixe de lado máquina fotográfica, lápis e caderno, e participe pessoalmente do que está acontecendo. Ele pode tomar parte nos jogos dos nativos, acompanhá-los em suas visitas e passeios, ou sentar-se com eles, ouvindo e participando das conversas. Não acredito que todas as pessoas possam fazer isso tudo com igual facilidade talvez a natureza do eslavo seja mais flexível e mais espontaneamente selvagem que a do europeu ocidental mas, embora o grau de sucesso seja variável, a tentativa é possível para todos. Esses mergulhos na vida nativa que pratiquei frequentemente não apenas por amor à minha profissão, mas também porque precisava, como homem, da companhia de seres humanos sempre me deram a impressão de permitir uma compreensão mais

36 MALINOWSKI

fácil e transparente do comportamento nativo e de sua maneira de ser em todos os tipos de transações sociais. O leitor encontrará, ilustradas nos capítulos que se seguem, todas essas observações metodológicas.

VIII

Passemos, finalmente, ao terceiro e último objetivo da pesquisa de campo científica, ao último tipo de fenômeno a ser registrado, com o qual se completa adequadamente o quadro da cultura nativa. Além do esboço firme da constituição tribal e dos atos culturais cristalizados que formam o esqueleto, além dos dados referentes à vida cotidiana e ao comportamento habitual que são, por assim dizer, sua carne e seu sangue, ainda a registrar-se-lhe o espírito os pontos de vista, as opiniões, as palavras dos nativos: pois em todo ato da vida tribal existe, pri- meiro, a rotina estabelecida pela tradição e pelos costumes; em seguida, a maneira como se desenvolve essa rotina; e, finalmente, o comentário a respeito dela, con- tido na mente dos nativos. O homem que se submete a várias obrigações habituais, que segue uma linha tradicional de ação, o faz impulsionado por certos motivos, movido por determinados sentimentos, guiado por certas idéias. Tais idéias, senti- mentos e impulsos são moldados e condicionados pela cultura em que os encon- tramos e são, portanto, uma peculiaridade étnica da sociedade em questão. Deve- se, portanto, empenhar em seu estudo e registro.

Mas é isso possível? Todos esses estados subjetivos não serão demasiada- mente elusivos e informes? Apesar do fato de que as pessoas em geral sentem ou pensam ou experimentam certos estados psicológicos em associação à execução de seus atos habituais, a maioria das pessoas não é capaz de formulá-los, ou seja, expressá-los em palavras. Esse ponto, que por certo temos de admitir como verda- deiro, é talvez o górdio no estudo dos fatos da psicologia social. Sem desamar- rá-lo ou cortá-lo, ou seja, sem tentar dar ao problema uma solução teórica, e sem aprofundar-me no campo da metodologia geral, entrarei diretamente na questão de como resolver, de maneira prática, algumas das dificuldades relacionadas à questão.

Em primeiro lugar, devemos partir do fato de que o objeto de nosso estudo são os modos estereotipados de pensar e sentir. Enquanto sociólogos, não nos in- teressamos pelo que A ou B possam sentir como indivíduos no curso acidental de suas próprias experiências, interessamo-nos, sim, apenas por aquilo que eles sentem e pensam enquanto membros de uma dada comunidade. Sob esse ponto de vista, seus estados mentais recebem um certo timbre, formam-se estereotipados pelas instituições em que vivem, pela influência da tradição e do folclore, pelo próprio veículo do pensamento, ou seja, pela língua. O ambiente social e cultural em que se movem força-os a pensar e a sentir de maneira específica. Assim, por exemplo, o homem que pertence a uma comunidade poliândrica não pode conhe- cer ou experimentar o mesmo tipo de ciúme comum no indivíduo de uma comu- nidade estritamente monogâmica, muito embora possa ter em si todos os elemen- tos para isso. O indivíduo que vive no âmbito do Kula não se pode prender afetiva ou permanentemente a certos bens que possui, mesmo que os preze acima de qualquer coisa. Esses exemplos são toscos; exemplos melhores serão encontrados no texto deste livro.

O terceiro mandamento da pesquisa de campo é, pois, descobrir os modos de pensar e sentir típicos, correspondentes às instituições e à cultura de determi- nada comunidade, e formular os resultados de maneira vívida e convincente. Que método utilizar para isso? Os melhores etnógrafos mais uma vez, a escola de Cambridge, com Haddon, Rivers e Seligman figurando em primeiro lugar entre os etnógrafos ingleses sempre procuram citar literalmente asserções de impor-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 37

tância crucial. Aduzem também termos de classificações nativas; termos técnicos de psicologia e indústria; e nos apresentam, com a maior exatidão possível, um contorno verbal do pensamento nativo. Ao etnógrafo, que aprende a língua nativa e pode usá-la como instrumento de sua investigação, é possível dar um passo adiante nessa linha de ação. Ao trabalhar com a língua Kiriwina encontrei certa dificuldade em anotar o que os nativos diziam, por meio da tradução direta método que, no início, havia adotado. Com a tradução, o texto muitas vezes ficava destituído de todas as suas características importantes desintegravam-se, por assim dizer, os seus pontos essenciais. Assim sendo, aos poucos fui forçado a anotar certas sentenças importantes exatamente como os nativos as proferiam, na língua tribal. À medida que os meus conhecimentos da língua foram aumen- tando, fui fazendo minhas anotações cada vez mais em Kiriwina, até que, por fim, passei a escrever exclusivamente nessa língua, registrando com rapidez cada frase, palavra por palavra. Ao atingir esse ponto, reconheci também que estava assim adquirindo, paralelamente, abundante material lingiístico, bem como uma série de documentos etnográficos que deveriam ser reproduzidos como eu os havia re- gistrado, além de utilizados nos registros finais da minha pesquisa." Este corpus inscriptionum kiriwiniensium pode ser utilizado não por mim, mas por todos aqueles que, através de seus conhecimentos mais profundos e habilidade de in- terpretá-lo, poderão encontrar pontos que escaparam à minha atenção, da mesma forma que outros corpora constituem a base de várias interpretações dadas à civi- lizações antigas e pré-históricas; que essas inscrições etnográficas são todas claras e decifráveis, foram quase todas traduzidas integralmente, e foram enri- quecidas de comentários ou scholia obtidos de fontes vivas.

Não precisamos nos alongar aqui sobre esse assunto, pois mais adiante de- votaremos a ele todo um capítulo (capítulo XVIII), abundantemente exemplifi- cado com textos nativos. O corpus, é claro, será publicado na íntegra, separada- mente, em data futura.

IX

Nossas considerações indicam que os objetivos da pesquisa de campo etno- gráfica podem, pois, ser alcançados através de três diferentes caminhos:

1. A organização da tribo e a anatomia de sua cultura devem ser delineadas de modo claro e preciso. O método de documentação concreta e estatística for- nece os meios com que podemos obtê-las.

2. Este quadro precisa ser completado pelos fatos imponderáveis da vida real, bem como pelos tipos de comportamento, coletados através de observações detalhadas e minuciosas que são possíveis através do contato íntimo com a vida nativa e que devem ser registradas nalgum tipo de diário etnográfico.

3. O corpus inscriptionum uma coleção de asserções, narrativas típicas, palavras características, elementos folclóricos e fórmulas mágicas deve ser apresentado como documento da mentalidade nativa.

Essas três abordagens conduzem ao objetivo final da pesquisa, que o etnó- grafo jamais deve perder de vista. Em breves palavras, esse objetivo é o de apre- ender o ponto de vista dos nativos, seu relacionamento com a vida, sua visão de

3 Pouco depois de adotar essa medida, recebi uma carta do Dr. A. H. Gardiner, conhecido egiptólogo, urgindo-me a isso. Como arqueólogo. ele naturalmente via as grandes possibilida- mos moldes daqueles que foram preservados das antigas civilizações além da possibilidade des que se abriam ao etnógrafo, no sentido de obter um corpus de fontes escritas nos mes- de elucidá-los através do conhecimento pessoal sobre a vida e os costumes de determinada civilização.

38 MALINOWSKI

seu mundo. É nossa tarefa estudar o homem e devemos, portanto, estudar tudo aquilo que mais intimamente lhe diz respeito, ou seja, o domínio que a vida exer- ce sobre ele. Cada cultura possui seus próprios valores; as pessoas têm suas próprias ambições, seguem a seus próprios impulsos, desejam diferentes formas de felicidade. Em cada cultura encontramos instituições diferentes, nas quais o homem busca seu próprio interesse vital; costumes diferentes através dos quais -ele satisfaz às suas aspirações; diferentes códigos de lei e moralidade que pre- miam suas virtudes ou punem seus defeitos. Estudar as instituições, costumes e códigos, ou estudar o comportamento e mentalidade do homem, sem atingir os desejos e sentimentos subjetivos pelos quais ele vive, e sem o intuito de com- preender o que é, para ele, a essência de sua felicidade, é, em minha opinião, perder a maior recompensa que se possa esperar do estudo do homem.

Todas essas regras gerais o leitor as encontrará ilustradas nos capítulos que se seguem. Neles veremos o selvagem lutando para satisfazer certos anseios, para atingir certos valores, em sua linha de ambição social. Nós o veremos forçado por uma tradição de proezas heróicas e mágicas, a perigosos e difíceis empreen- dimentos, atraído por seu romance. Talvez, ao lermos o relato desses costumes primitivos, possamos sentir um sentimento de solidariedade pelos esforços e am- bições desses nativos. Talvez a mentalidade humana se revele a nós através de caminhos nunca dantes trilhados. Talvez, pela compreensão de uma forma tão distante e estranha da natureza humana, possamos entender nossa própria natu- reza. Nesse caso e somente nesse caso estaremos justificados ao sentirmos que valeu a pena entender esses nativos, suas instituições e costumes, e que pude- mos auferir algum proveito através de nosso estudo sobre o Kula.

CAPITULO i

A região e os habitantes do distrito do Kula

Com exceção, talvez, dos nativos da ilha de Rossel, a respeito dos quais quase nada se conhece, as tribos que vivem no âmbito do sistema comercial do Kula pertencem todas ao mesmo grupo racial. Essas tribos vivem no extremo leste do continente da Nova Guiné e em todas as ilhas que, dispostas na forma de um alongado arquipélago, representam como que um prolongamento da faixa sudeste do continente, ligando, como uma ponte, a Nova Guiné às ilhas Salomão.

A Nova Guiné é uma ilha-continente montanhosa, de acesso muito difícil em seu interior e em certas porções de seu litoral, onde recifes, pantanais e ro- chedos constituem verdadeira barreira à entrada e mesmo à aproximação de em- barcações nativas. Obviamente, tal região não oferece as mesmas oportunidades em todas as partes de influxo aos imigrantes que, provavelmente, são responsáveis pela atual constituição demográfica do Pacífico Sul. As regiões de fácil acesso no litoral, bem como as ilhas vizinhas, certamente ofereceriam recepção hospita- leira aos imigrantes de estirpes mais altas; por outro lado, entretanto, as altas montanhas, as inexpugnáveis fortalezas representadas pelos baixios pantanosos e por praias onde o desembarque era difícil e perigoso, forneceriam proteção natu- ral aos aborígines, desfavorecendo o influxo de imigrantes.

A própria distribuição racial na Nova Guiné justifica plenamente essas hi- póteses. O mapa II mostra a porção oriental do continente da Nova Guiné e seus arquipélagos, bem como a distribuição racial dos nativos. O interior do conti- nente, os baixios pantanosos onde cresce a palmeira do sagu e os deltas do golfo Papua e também, provavelmente, a maior parte dos litorais norte e sudoeste da Nova Guiné são habitados por uma raça de “indivíduos relativamente altos, de pele escura e cabelos crespos” designados pelo Dr. Seligman como papua. Na região montanhosa, especialmente, o território é habitado por tribos de pigmeus. Pouco se sabe a respeito dessas tribos tanto as dos pântanos quanto as das elevações que são, provavelmente, autóctones dessa região da Terra.'! Como não iremos incluí-las no relato que se segue, será melhor, agora, passarmos às tribos que habitam as regiões de fácil acesso na Nova Guiné. “Os papuas orien-

4 Entre os melhores relatos de que dispomos a respeito das tribos continentais estão os de W. F. Williamson, The Mafulu, 1912 e de C. Keysser, “Aus dem Leben der Kaileute”, em R. Neuhaus, Deutsch Neu Guinea, vol. III, Berlim, 1911. As publicações preliminares de G. Landtmann sobre os nativos de Kiwai, “Papuan Magic in the Building of Houses”, “Acta Arboenses, Humanora”. I. Abo, 1920, e “The Folk-tales of the Kiwai Papuans”, Helsingfors, 1917, prometem-nos que o relato completo irá dissipar alguns dos mistérios existentes no golfo Papua. Entrementes, podemos encontrar um bom relato semipopular sobre esses nati- vos na obra de W. N. Beaver, Unexplored New Guinea, 1920. Pessoalmente, duvido que as tribos das colinas e as dos pântanos pertençam à mesma raça ou tenham a mesma cultura. Cf. também a mais recente contribuição à questão: “Migrations of Cultures in British New Guinea”, de autoria de A. €C. Haddon (Huxley Memorial Lecture, 1921), publi- cado pelo Royal Anthropological Institute.

40 MALINOWSKI

tais ou seja, as raças que, de maneira geral, têm menor estatura, cor mais clara e cabelos crespos, habitando a porção oriental da península da Nova Guiné e seus arquipélagos precisam ter um nome; e que o elemento verdadeira- mente melanésio é neles predominante, podemos chamá-los de papua-melanésios. Em relação a esses papuasianos orientais, o Dr. A. C. Haddon foi o primeiro a admitir a hipótese de que eles se infiltraram na região em consegiiência de uma “imigração melanésia na Nova Guiné”, e que, além disso, 'uma simples travessia não seria suficiente para explicar certos fatos enigmáticos'.”' Os papua-mela- nésios, por sua vez, dividem-se em dois grupos, um ocidental, outro oriental, aos quais, segundo a terminologia do Dr. Seligman, chamaremos de papua-melanésios e massim, respectivamente. É com estes últimos que travaremos contato nas pá- ginas que se seguem.

Se examinarmos um mapa, seguindo as características orográficas da porção oriental da Nova Guiné e seu litoral, verificaremos imediatamente que a principal cadeia de montanhas altas se interrompe entre os meridianos 149 e 150, e tam- bém que a orla de recifes desaparece na mesma latitude, ou seja, no extremo ocidental da baía de Orangerie. Isso significa que a porção oriental mais extrema da Nova Guiné, com seus arquipélagos em outras palavras, a região massim é a região de mais fácil acesso, podendo-se esperar que nela habite uma popu- lação racialmente homogênea, constituída de imigrantes quase não miscigenados com os autóctones (cf. mapa ID. “De fato, a situação existente na região massim demonstra que não houve miscigenação lenta dos invasores com a estirpe ante- rior; as características geográficas do território papua-melanésio ocidental, com suas montanhas, colinas e pântanos, são tais que os invasores não poderiam ja- mais ter invadido rapidamente a região, e nem mesmo escapado à influência de seus primeiros habitantes. . .!º

Tenho em conta que o leitor esteja familiarizado com a obra, citada, do Dr. Seligman, que nos apresenta um relato minucioso de todos os tipos de cul- tura e sociologia papua-melanésia, uns após outros. Entretanto, as tribos da região papua-melanésia ou massim devem aqui ser descritas com maiores detalhes, pois é nessa região relativamente homogênea que se processa o Kula. Com efeito, a es- fera de influência do Kula e a região etnográfica das tribos massim são quase in- distintas uma da outra daí podermos falar do tipo de cultura kula e de cultura massim como praticamente sinônimos.

H

No mapa III aparece o distrito do Kula, ou seja: o extremo oriental da Nova Guiné e os arquipélagos situados ao leste e nordeste. Diz o professor C. G. Se- ligman. “Essa região pode ser dividida em duas zonas: uma pequena, ao norte, abrangendo as ilhas Trobriand, as ilhas Marshall Bennett, as ilhas Woodlark (Murua), e também uma série de ilhas menores, tais como as ilhas Laughlan (Nada); e uma zona bem maior, abrangendo o restante do domínio massim.” (Op. Cit. Po 7.)

Essa divisão está representada no mapa III pela linha espessa que isola, ao norte, as ilhas Amphlett, as ilhas Trobriand, o pequeno grupo Marshall Bennett, a ilha de Woodlark e o grupo Laughlan. Quanto à zona sulina, achei conveniente subdividi-la em duas partes, através de uma linha vertical, deixando ao leste as ilhas de Misima, Sud-Est e Rossel. Sendo escasso o material informativo de que dis- pomos sobre essa região, preferi excluí-la da região massim meridional. De todos

5 Veja C. G. Seligman, The Melanesians of British New Guinea, Cambridge, 1910. Cf. C. G. Seligman, op. cit., p. 5.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 41

os nativos que nela habitam, somente os de Misima participam dc Kula e além disso, no presente relato, sua participação ocupa lugar de muito pouca importân- cia. À zona ocidental à qual convencionamos chamar de “distrito dos massim meridionais” abrange primeiro o extremo leste da Nova Guiné e as poucas ilhas adjacentes (Sariba, Roge'a, Side'a e Basilaki); ao sul, a ilha de Wari; ao leste, o pequeno mas importante arquipélago de Tubetube (grupo Engineer); e au norte, o grande arquipélago d'Entrecasteaux. Deste último, apenas o distrito de Dobu é que nos interessa de modo especial. As tribos culturalmente homo- gêneas dos massim do sul estão identificadas, no mapa, como “distrito V”. As de Dobu, como “distrito IV”.

Voltemos às duas divisões principais, às zonas norte e sul. Esta segunda é habitada por uma população muito homogênea, não em seu aspecto lingiúístico, mas também no aspecto cultural e no franco reconhecimento de sua própria uni- dade étnica. Mais uma vez citando o Professor Seligman, devemos salientar que essa população “caracteriza-se pela ausência de canibalismo, o qual, até sua proi- bição pelo governo, existia na porção restante do distrito; outra peculiaridade dos

massim do norte é o fato de que reconhecem” -— em certos distritos, mas não em todos a autoridade de chefes dotados de extensos poderes (op. cit., p. 7). Os nativos dessa zona norte costumavam praticar e digo costumavam porque

as guerras pertencem agora ao passado uma técnica de guerra aberta e cava- lheirescas, bem diferente das incursões praticadas pelos massim do sul. Suas al- deias são construídas em blocos grandes e compactos, e possuem paióis erguidos sobre estacas, onde os nativos armazenam suas provisões, bem diferentes de suas paupérrimas habitações, construídas ao rés do chão, sem estacas. Como se pode verificar no mapa, foi necessário subdividir a região massim do norte em três grupos: primeiro, o dos habitantes das ilhas Trobriand, ou Boyowa (ramificação ocidentai); segundo, o dos nativos da ilha de Woodlark e das ilhas Marshall Ben- nett (ramificação oriental); e, terceiro, o pequeno grupo de nativos das ilhas Amphlett.

A outra grande subdivisão das tribos do Kula é composta pelos massim do sul. Destes, como tivemos a oportunidade de dizer, a ramificação ocidental é a que mais nos interessa. São nativos de menor estatura e, de maneira geral, de aparência bem menos atraente que os do norte. Vivem em comunidade muito dispersas, cada casa ou grupo de casas cercada por um pequeno bosque de pal- meiras e árvores frutíferas, afastado dos demais. Antigamente, esses nativos eram canibais e caçadores de cabeças e costumavam atacar de surpresa seus adversá- rios. Não possuem chefes; a autoridade é exercida pelos membros mais idosos de cada comunidade. Suas casas, erguidas sobre estacas, são de construção ela- borada e lindamente ornamentadas.

Julguei necessário, para o presente estudo, retirar da seção ocidental da porção sul dos massim as duas áreas identificadas como “distritos IV e V” no mapa IIl que são de importância especial no sistema do Kula. Devemos, no en- tanto, ter em mente que o presente relato não margem a uma classificação definitiva dos massim do sul.

Tais são, respectivamente, as características gerais dos massim do norte e do sul, descritas em poucas palavras. Antes de continuarmos nosso assunto, po- rém, será útil fazer um esboço rápido, embora mais detalhado, de cada uma dessas tribos. Comecemos com a zona do extremo sul, seguindo a ordem geográ-

7 No valioso livro do Reverendo H. Newton, In Far New Guinea (1914), e no livreto Savage Life in New Guinea (sem data), escrito de maneira agradável, porém superficial e por vezes incorreta pelo Reverendo C. W. Abel (da London Missionary Society), podemos en- contrar um bom número de descrições bem feitas a respeito do tipo nativo massim do sul.

42 MALINOWSKI

fica em que um viajante proveniente de Port Moresby iria entrando em contato com esses distritos ou seja, da mesma maneira que eu fui registrando minhas impressões sobre eles. Meu conhecimento pessoal das várias tribos é, no entanto, bem irregular; baseia-se em prolongada residência entre os ilhéus de Trobriand (distrito D); em um mês de estudos sobre os nativos das ilhas Ampnhlett (distrito HJ); em algumas semanas que passei na ilha de Woodlark ou Murua “distrito ID): nas circunvizinhanças de Samarai (distrito V) e no litoral sul da Nova Guiné (também distrito V); finalmente em três pequenas visitas a Dobu (distrito IV). Meu conhecimento sobre algumas das demais localidades pertencentes ao sistema do Kula resume-se apenas a algumas conversas que travei com os nativos desse distrito e a informações de segunda mão que pude obter de alguns moradores brancos. A obra do Professor C. G. Seligman, entretanto, suplementa meus es- tudos no que se refere aos distritos de Tubetube, ilha de Woodlark, ilhas Marshal! Bennett, e vários outros.

Meu relato sobre o Kula será, portanto, dado sob a perspectiva, por assim dizer, do distrito de Trobriand, ao qual neste livro freqiientemente daremos o noms nativo Boyowa. À língua desses nativos daremos o nome de kiriwina, visto ser Kiriwina a província principal do distrito, e a língua falada considerada como língua-padrão pelos nativos. Devo imediatamente salientar, todavia, que ao estu- dar o Kula nessa região, estudei ipso facto seus ramos adjacentes existentes entre as ilhas Trobriand e as ilhas Amphlett, entre Trobriand e Kitava, e entre Tro- briand e Dobu. Testemunhei não os preparativos e partidas de Boyowa, mas também a chegada dos nativos de outros distritos e, com efeito, acompanhei pes- soalmente uma ou duas dessas expedições. Além disso, sendo o Kula uma atividade intercomunitária, os nativos de uma tribo conhecem mais sobre os cos- tumes de outra tribo relativos ao Kula do que sobre qualquer outro assunto. No que o Kula tem de essencial, os costumes e regras das transações são os mesmos em quaisquer pontos da região onde se processa.

HI

Vamos imaginar que estamos navegando ao longo do litoral sul da Nova Guiné, em direção a seu extremo oriental. Ao chegarmos aproximadamente ao meio da baía de Orangerie, teremos atingido o limite da região massim, que se es- tende a noroeste até o litoral norte, próximo do cabo Nelson (veja mapa II). Como foi dito anteriormente, o limite do distrito habitado pelos massim cor- responde a uma situação geográfica bem definida, ou seja, à ausência de obstá- culos naturais, no interior, ou à ausência de quaisquer impecilhos ao desembar- que. Com efeito, é nessa região que a grande barreira de recifes finalmente sub- merge, ao mesmo tempo que termina a cadeia montanhosa principal que, sepa- rada das praias através de pequenas serras, se estende até este ponto.

A baía de Orangerie é limitada, ao leste, por um promontório, primeira de uma série de elevações que se erguem diretamente do mar. À medida que nos aproximamos do continente, podemos perceber as escarpas íngremes e enrugadas, cobertas de mata densa e luxuriante, interrompida aqui e ali por clareiras onde viceja o capim lalang. O litoral é recortado primeiro por uma série de peque- nas baías ou lagunas; a seguir, tendo deixado para trás a baía de Fife, podemos ver uma ou duas baías maiores, de praias aluviais planas. Daí para a frente, partir de cabo Sul, o litoral se estende por várias milhas numa linha quase reta, até à ponta do continente.

8 Veja p. 32. Lista cronológica de acontecimentos referentes ao KULA testemunhados pelo autor. Cf. também os capítulos XVI e XX.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 43

O extremo oriental da Nova Guiné é região de clima tropical, onde quase não se pode perceber a diferença entre as épocas da seca e as das chuvas. Na ver- dade, quase não estação seca e a terra está sempre coberta de um verde in- tenso e brilhante, em contraste marcante com o azul do mar. Os topos das ele- vações ficam frequentemente encobertos por uma névoa espessa, ao passo que nuvens brancas se aninham ou se movem sobre o mar, quebrando a monotonia do verde e do azul excessivos. As pessoas que não estão acostumadas às pai- sagens do. Pacífico Sul é bem difícil dar uma idéia dessa festa de cores, da brancura tentadora das praias, de um lado cingidas pelas árvores da selva e pal- meiras e, de outro, pela escuma branca e pelo azul do mar. Acima das praias, alteiam as colinas, em grandes sulcos de verde claro e escuro, ensombradas no topo por uma névoa esgarçada e tropical.

Quando, pela primeira vez, viajei ao longo desse litoral, havia vivido e feito pesquisas durante alguns meses no vizinho distrito de Mailu. Da ilha de Toulon, um dos centros principais e mais importantes dos mailu, costumava olhar para a ponta oriental da baía de Orangerie, e, em dias claros, podia vislumbrar as eleva- ções em forma de pirâmide de Bonabona e Gadogado'a, que se erguiam a distância como enormes silhuetas azuis. Sob a influência do meu trabalho, passei a encarar essa região, dentro dos estreitos horizontes nativos, como uma terra distante à qual em certas temporadas se empreendiam viagens perigosas, e da qual eram im- portados certos objetos cestas, esculturas decoradas, armas, ornamentos todos bem trabalhados e superiores aos de fabricação local; terra para a qual os nativos apontavam com desconfiança e temor, quando se referiam a formas de fei- tiçaria particularmente malignas e virulentas; terra que os nativos temerosamente diziam ser habitadas por canibais. Qualquer toque de gosto realmente artístico existente nos objetos esculpidos pelos mailu é sempre diretamente importado do oriente ou dele copiado. Descobri também que as canções mais suaves e melo- diosas, bem como as danças mais bonitas, vinham dos massim. Muitos dos seus costumes e instituições me eram mencionados como estranhos e esquisitos. Tra- balhando como etnógrato nas fronteiras de duas culturas, despertou-se em mim, então, enorme curiosidade e interesse. Parecia-me que as populações orientais, comparadas aos nativos de Mailu, homens de pouca inteligência e aparência pros- seira, eram bem mais complexas: de um lado, selvagens cruéis e canibalescos; do outro, nativos de talento refinado, poetas e senhores dos mares e das selvas pri- mitivas. Não é de admirar, portanto, que ao me aproximar do seu litoral, eu gue naquela ocasião viajava numa pequena lancha sentisse profundo interesse e examinasse cuidadosamente a paisagem, a fim de vislumbrar, pela primeira vez, os nativos, ou deles encontrar vestígios.

Os primeiros sinais claramente visíveis da existência de seres humanos nessa região são as faixas de terra da lavoura. Essas grandes clareiras de forma trian- gular têm o seu vértice voltado para o topo das colinas e estão como que enxer- tadas nos íngremes declives. De agosto a novembro, época em que os nativos cortam e queimam o matagal, essas clareiras podem ser vistas à noite, iluminadas pela luz dos lenhos em brasa; durante o dia, a fumaça da queimada paira sobre elas e vagarosamente se espraia por sobre os outeiros. Mais para o fim do ano, quando a plantação começa a vicejar, essas clareiras assumem novo brilho, desta feita devido ao verde claro de sua folhagem nova.

As aldeias desse distrito se encontram somente ao rés da praia ou ao das colinas, escondidas por pequenos bosques; aqui e acolá, em meio ao verde escuro das árvores, despontam os traços dourados ou purpúreos dos seus telha- dos de folhas de palmeira. Se o tempo está calmo, podem-se ver no mar as ca- noas de pesca, não muito distantes do litoral. O visitante que tem a sorte de por ali passar na época das festas, ou das expedições comerciais ou de quaisquer

44 MALINOWSKI

grandes reuniões das tribos, pode ver muitas das grandes canoas maritimas em demanda às praias, e ouvir o som melodioso dos búzios soprados pelos nativos. Para visitar um dos grandes aldeamentos típicos da região digamos, na baía de Fife, no litoral sul, ou nas ilhas Sariba ou Roge'a o mais indicado é de- sembarcar em alguma baía grande e bem protegida, ou então numa das amplas praias das ilhas montanhosas. Penetramos então num bosque imponente de pal- meiras, árvores de fruta-pão, mangueiras e outras árvores frutíferas, de solo quase sempre arenoso e bem cuidado, livre de ervas daninhas, onde florescem: arbustos ornamentais, como o hibisco de flores vermelhas e o cróton, ou ervas aromáticas. Ali encontramos a aldeia. Nem as habitações dos motu, erguidas scbre estacas, no meio de uma laguna, nem as ruas bem traçadas de uma colônia aroma ou mailu, nem ainda as irregulares aldeias de pequenas choupanas no litoral das ilhas Trobriand, apesar de seu encanto, podem competir em beleza e originalidade com as aldeias dos massim do sul. Quando, num dia quente, penetramos nas som- bras das palmeiras e das árvores frutíferas e nos encontramos em meio a casas maravilhosamente bem projetadas e ornamentadas, escondidas aqui e acolá em grupos irregulares, em meio ao verdor de árvores e plantas, rodeadas por peque- nos jardins decorativos de conchas e flores, com entradas ladeadas de pedrinhas e círculos com calçamento de pedras onde se pode sentar é como se repenti- namente surgisse diante dos nossos olhos a breve visão de um mundo primitivo, selvagem e feliz. Canoas enormes, cobertas de folhas de palmeira, estão atracadas na areia, bem longe do mar; redes de pescar, a secar ao sol, estendidas sobre armações especiais; sentados nas plataformas, que se erguem frente às casas. ho- mens e mulheres se entretêm nalgum trabalho doméstico, fumando e conversando.

Seguindo as trilhas que por vezes se estendem a perder de vista, deparamos. a cada cem ou duzentos metros, com novas aldeiazinhas de poucas casas. Algu- mas destas são novas e recém-ornamentadas; outras, velhas, ostentam à frente uma pilha de objetos caseiros quebrados, indicando com isso que a morte de um dos velhos da aldeia ocasionou o abandono do local. Ao aproximar-se o anoite- cer, a vida da aldeia torna-se mais ativa. Acendem-se as fogueiras, e os nativos se mantêm ocupados, cozinhando ou comendo. Na época das danças, ao cair da tarde, grupos de homens e mulheres reúnem-se para cantar e dançar ao som dos tambores.

Ao aproximar-nos dos nativos e examinarmos sua aparência, verificamos com surpresa se os compararmos a seus vizinhos ocidentais que são extre- mamente claros de pele, de pequena estatura, atarracados; sua aparência física produz uma certa impressão de suavidade, é quase lânguida. O rosto largo e gor- do, o nariz achatado e os olhos amendoados os fazem parecer grotescos e estra- nhos, em vez de impressivamente selvagens. O cabelo crespo, embora não tanto guanto o dos verdadeiros papua, forma um tufo no alto da cabeça e é aparado dos lados para dar ao crânio uma conformação alongada, diferente da grande auréola exibida pelos motu. Esses nativos têm um ar tímido e desconfiado, mas não hostil são sorridentes e quase servis, nisso diferindo bastante dos papua, que são morosos, e dos mailu ou aroma do litoral sul, que são retraídos e pouco amistosos. De maneira geral, à primeira vista, eles nos dão a impressão não de selvagens bravios, mas de burgueses asseados e satisfeitos com a vida que levam.

Seus ornamentos são menos rebuscados e menos vívidos que os de seus vizinhos ocidentais. Seus únicos enfeites permanentes e diários são os cintos e braceletes trançados feitos com a haste marrom-escuro da samambaia-trepadeira, os pequenos discos de conchas vermelhas, e as argolas feitas de casco de tartaru- ga, usadas como brincos. Como todos os melanésios da Nova Guiné oriental, esses nativos são muito cuidadosos em sua higiene pessoal; sua aproximação não ofen-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 45

de nenhum dos nossos sentidos. Gostam muito de usar as flores vermelhas do hibisco, espetadas no cabelo; usam também grinaldas de flores perfumadas na cabeça e, enfiadas nos cintos e braceletes, folhas de plantas aromáticas. Seus grandes cocares de festa são extremamente simples, comparados às enormes construções de penas usadas pelas tribos ocidentais e consistem, em geral, de uma auréola feita com as penas das cacatuas-brancas, presa ao cabelo (veja fig. 5 e 6).

Em épocas passadas, antes do advento do homem branco, esses nativos de aparência agradável e langorosa eram inveterados canibais e caçadores de cabe- ças; em suas canoas de guerra, costumavam fazer incursões traiçoeiras e cruéis, invadindo aldeias adormecidas, matando homens, mulheres e crianças, e ban- queteando-se com seus cadáveres. Os atraentes círculos de pedra em suas aldeias estão associados às festas antropofágicas de outrora.!?

O viajante que se estabelecer numa dessas aldeias e ali permanecer durante um bom período de tempo, a fim de estudar-lhes os costumes e participar da vida da tribo, desde logo percebe, com certa surpresa, que entre esses nativos não existe uma autoridade geral conhecida por todos. Nesse aspecto, eles se assemelham não aos nativos ocidentais da Nova Guiné, mas também aos do arquipélago melanésio. Entre os massim do sul, assim como em muitas outras tribos, a autoridade está investida nos nativos mais velhos de cada aldeia. Em cada vilarejo, o homem mais idoso ocupa uma posição de influência pessoal e poder. Coletivamente, os velhos representam a tribo em quaisquer acontecimen- tos, pondo em prática suas decisões e assegurando-se de que elas estejam rigo- rosamente de acordo com as tradições tribais.

Estudos sociológicos mais minuciosos revelariam o totemismo que caracte- riza esses nativos, bem como a estrutura matrilinear de sua sociedade. Descen- dência, herança e posição social seguem a linha feminina: o indivíduo sempre pertence à divisão totêmica e ao grupo social de sua mãe, e é do irmão dela que recebe sua herança. As mulheres gozam também de muita independência; são extremamente bem tratadas, e exercem papel importante nas transações e fes- tejos tribais (veja fig. 5 e 6). Algumas delas graças aos seus poderes mágicos possuem mesmo considerável influência.”

A vida sexual desses nativos caracteriza-se pela extrema liberdade. Mesmo quando nos lembramos de que a moral sexual das tribos melanésias da Nova Guiné tais como os motu e mailu segue padrões de grande liberalidade, ainda assim consideramos os massim dc sul demasiadamente livres nesse par- ticular. Não mantêm certas aparências e reservas comuns entre os nativos de outras tribos; por outro lado, como provavelmente acontece em muitas comu- nidades onde a moral sexual é livre, verifica-se entre eles uma completa ausência de práticas anormais ou de perversão sexual. O casamento, para eles, é o remate natural de um concubinato longo e duradouro.?!

Esses nativos são eficientes e laboriosos artesãos e grandes comerciantes. Possuem grandes canoas para navegação marítima, as quais, no entanto, não fabricam, mas sim importam do distrito dos massim setentrionais ou de Panayati. Uma outra faceta de sua cultura, sobre a qual voltaremos a falar oportunamente, consiste nas grandes festas, chamadas So'i (veja fig. 5 e 6), associadas a ceri- mônias funerárias e a um tabu mortuário chamado gwara. Tais festas desempe-

nham papel de considerável importância nas grandes transações intertribais do Kula.

19 Cf. Professor C. G. Seligman, op. cit., capítulos XL e XLII. 20 Cf. Professor C. G. Seligman, op. cit., capítulos XXXV, XXXVI e XXXVI. 21 Cf. Professor €. G. Seligman, capítulos XXXVII e XXXVIII.

46 MALINOWSKI

Esta descrição, feita em moldes gerais e necessariamente um pouco super- ficiais, não tem a intenção de fornecer ao leitor um relato complexo da consti- tuição tribal, mas de dar uma idéia definida a respeito dessas tribos de modo que elas passem a ter, por assim dizer, uma “fisionomia”. Aqueles que se inte- ressam por maiores detalhes, indicamos o tratado escrito pelo professor C. G. Seligman, principal fonte de nossos conhecimentos quanto aos melanésios da Nova Guiné. O esboço acima refere-se aos nativos que o Professor Seligman chama de massim do sul ou, mais precisamente, aqueles que habitam a zona identificada no mapa etnográfico número III como “V Massim do Sul” habitantes do extremo oriental do continente e do arquipélago vizinho.

IV

Rumemos agora ao norte, navegando em direção ao distrito que no mapa se identifica como “IV Dobu”, um dos elos mais importantes no circuito do Kula e centro de grande influência cultural. A medida que rumamos para o norte, passando o cabo Leste, que se localiza no extremo oriental da Nova Guiné um longo promontório plano coberto de palmeiras e grandes áreas de árvores frutíferas, onde vive uma população muito densa um novo mundo, não geográfica mas também etnograficamente diferente abre-se aos nossos olhos. A princípio, não passa de uma silhueta azulada e suave, como a de uma serra distante pairando ao norte por sobre o horizonte. À medida que nos apro- ximamos, as colinas da ilha de Normanby, a mais próxima das três que formam o arquipélago d'Entrecasteaux, tornam-se mais visíveis, assumindo forma e subs- tância mais definidas. Os topos mais altos se sobressaem nitidamente entre as névoas tropicais. Entre eles, desponta Bwebweso, a montanha de cumes duplos onde, segundo as lendas nativas, vivem os espíritos dos mortos a sua última existência. O litoral sul de Normanby e o interior são habitados por uma tribo ou tribos sobre as quais nada sabemos etnograficamente, a não ser o fato de que, em cultura, são bem diferentes das demais tribos vizinhas e não participam diretamente do Kula.

O extremo norte de Normanby, os dois flancos dos estreitos Dawson, que separam as ilhas de Normanby e Ferguson e, finalmente, a ponta sudeste de Ferguson, são habitados por uma tribo muito importante a tribo dobu. O centro de seu distrito é o pequeno vulcão extinto que forma uma ilha à entrada oriental dos estreitos Dawson a ilha de Dobu, da qual a tribo recebe seu no- me. Para alcançá-la, temos de navegar ao longo desse estreito extremamente pitoresco. De ambos os lados do sinuoso canal, alteiam colinas verdes que o cercam de modo a fazê-lo parecer um lago entre montanhas. Em certos pontos, as colinas se afastam e uma laguna se abre; ou, de novo, comprimem o canal, elevando-se em escarpas bastante íngremes onde se vêem claramente roças trian- gulares, casas nativas construídas sobre estacas, grandes extensões de selva fe- chada e faixas de capim. A medida que prosseguimos viagem, os estreitos canais se alargam; à margem direita, pode-se então avistar um dos enormes flancos do monte Sulomona'i, na ilha de Normanby. A esquerda, uma baía de águas rasas e, atrás dela, uma grande planície que se estende para o interior da ilha de Fer- guson; por sobre ela, podemos ver extensos vales e, a distância, numerosas ser- ras. Passando uma nova curva, entramos numa baía grande, ladeada de praias muito planas; ao centro dessa baía ergue-se, em meio a um cinturão de árvores tropicais, o cone enrugado de um vulcão: é a ilha de Dobu.

Estamos agora no centro de um distrito densamente povoado e de grande importância etnográfica. Dessa ilha, em épocas passadas, partiam expedições periódicas de ferozes e ousados canibais e caçadores de cabeças, temidos das

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 47

tribos vizinhas. Os nativos dos distritos imediatamente adjacentes, das praias planas em ambas as margens dos estreitos, e das grandes ilhas próximas eram todos aliados; mas os distritos mais distantes, a mais de 100 milhas de barco, nunca se sentiram livres do perigo representado pela tribo dobu. Uma vez mais devemos lembrar-nos de que os dobus eram, e ainda são, um dos elos principais no sistema do Kula, e que seu território é centro de influência comercial, indus- trial e cultural. O fato de que a língua dobu é usada como língua franca em todas as partes do arquipélago d'Entrecasteaux, nas ilhas Amphlet e na região que se estende ao norte até às ilhas Trobriand, constitui prova conclusiva da impor- tância dos dobu. Na zona sul destas duas últimas ilhas, quase todos os nativos falam a língua dobu, ao passo que em Dobu quase ninguém fala a língua dos nativos de Trobriand ou de Kiriwina. Esse é um fato realmente notável que não se pode explicar em termos da atual situação nativa, pois que os habitantes das ilhas Trobriand estão em nível de desenvolvimento cultural mais alto que o dos dobu, são mais numerosos que eles e desfrutam do mesmo prestígio geral. ??

Outro fato notável sobre o distrito de Dobu é que nele se encontram nume- rosos locais de especial interesse mitológico. Sua paisagem encantadora, de cones vulcânicos, de baías amplas e lagunas cercadas de montanhas altas e verdejantes e, ao norte, o oceano, salpicado de recifes e ilhas tudo isso tem profundo significado lendário para o nativo. Essa é a terra e o mar onde navegadores e heróis de um passado distante, inspirados pela magia, realizaram façanhas extra- ordinárias e ousadas. Ao nos afastarmos da entrada aos estreitos Dawson, pas- sando Dobu e as ilhas Amphlett rumo a Boyowa, quase todas as regiões que atravessamos foram cenário de alguma proeza lendária. Aqui uma estreita gar- ganta foi aberta por uma canoa mágica, voando pelos ares. Ali os dois rochedos que se erguem do mar são os corpos petrificados de dois heróis mito- lógicos que encalharam depois de uma contenda. Mais adiante, uma laguna escondida entre montanhas constituiu porto de refúgio de uma tripulação mítica. Pondo de parte as lendas, a paisagem toda ao nosso redor, bela como é, assume ainda maior encanto pelo fato de que é e sempre foi um longínquo Eldorado, terra de promessas e esperanças para muitas gerações de ousados navegadores nativos vindos das ilhas do norte. No passado, essas terras e mares devem, ter sido o cenário de migrações e lutas, de invasões tribais, da infiltração gradativa de povos e culturas.

Os dobu têm aparência física bem diferente da dos massim do sul e dos nativos das ilhas Trobriand; de pequena estatura, pele muito escura, cabeça grande e ombros arredondados nos dão, à primeira vista, a estranha impressão de gnomos. Há, todavia, algo definidamente agradável, honesto e aberto em sua atitude e em seu caráter social, impressão essa que, com o convívio, se fortalece e confirma. Em geral, os dobu são os nativos preferidos do homem branco, for- necendo os criados melhores e mais dignos de confiança. Os negociantes que com eles têm convivido durante longo tempo dão sempre preferência aos dobu ao compará-los com outros nativos.

Suas aldeias, como as dos massim do sul, que pouco mencionamos, estão espalhadas em territórios muito vastos. As praias planas e fertéis onde vivem são salpicadas de pequenos vilarejos compactos, de dez a doze casas no máximo, escondidos no meio de fileiras contínuas de árvores frutíferas, palmeiras, bana-

22 Meu conhecimento sobre os dobu é fragmentário, obtido durante três breves visitas a seu distrito, através de conversas com vários nativos dobu que estavam a meu serviço e através de alusões e paralelos feitos pelos ilhéus de Trobriand sobre os costumes dobu, quando reali- zei minha pesquisa de campo. Nos arquivos da Australasian Association for the Advance- ment of Science, que também consultei, existe um breve esboço de determinados costumes e crenças dobu, de autoria do Reverendo W. E. Bromilow.

48 MALINOWSKI

neiras e plantações de inhame. As casas são construídas sobre estacas, mas de arquitetura mais tosca que as dos massim do sul e quase não são ornamentadas, embora antigamente, na época da caça de cabeças, os nativos as enfeitassem com crânios.

Quanto à sua constituição social, essas tribos são totêmicas, dividindo-se em determinado número de clãs exógamos, cada um com uma série de totens asso- ciados. Não chefia regular instituída, nem um sistema hierárquico ou de castas como o que iremos encontrar entre os nativos de Trobriand. A autoridade é investida nos membros mais velhos da tribo. Em cada pequena aldeia sem- pre um homem que exerce maior influência local e atua como representante de seu grupo nos conselhos tribais organizados em função de cerimônias e ex- pedições.

Seu sistema de parentesco é matrilinear. As mulheres têm posição de des- taque e exercem grande influência. Parecem, inclusive, exercer funções mais proeminentes e duradouras na vida comunitária do que as mulheres de outras tribos vizinhas. Esta é uma das características mais notáveis da sociedade dobu que parece bastante peculiar aos olhos dos nativos de Trobriand; sempre nos chamavam a atenção para este aspecto ao fornecerem informações, muito em- bora em sua sociedade as mulheres destrutem também de posição social razoa- velmente boa. Em Dobu, as mulheres exercem funções importantes na horti- cultura. tomando inclusive parte ativa nos rituais mágicos a ela associados, o que em si lhes proporciona um status elevado. A feitiçaria, instrumento principal! com que se exerce poder e infligem castigos nessas regiões, está em grande parte em mãos das mulheres. As bruxas voadoras, ficção tão característica do tipo de cultura que se encontra na Nova Guiné oriental, têm entre os dobu uma de suas cidadelas. Voltaremos a esse assunto com maiores detalhes ao discutirmos os naufrágios e os perigos da navegação. Além disso, as mulheres praticam a fei- tiçaria comum, que em outras tribos constitue privilégio exclusivo dos homens.

A alta posição das mulheres, regra geral entre as sociedades nativas, está associada a uma grande liberdade sexual. Os dobu, entretanto, constituem uma exceção nesse particular. Esperam que mulheres casadas permaneçam fiéis aos maridos; consideram o adultério um crime; e, em severo contraste com o que se pratica em todas as tribos vizinhas, as mulheres solteiras da tribo dobu man- têm-se rigorosamente castas. Não existem formas cerimoniais nem costumeiras de libertinagem, e qualquer intriga amorosa é considerada uma ofensa.

Devemos aqui dizer mais algumas palavras a respeito da feitiçaria, pois que esse é assunto de grande importância em todas as relações intertribais. O medo à feitiçaria é enorme, e quando os nativos visitam regiões distantes esse temor assume proporções ainda maiores em virtude do medo adicional ao que é desconhecido e estranho. entre os dobu, além das bruxas voadoras, homens e mulheres que, conhecedores de feitiços e rituais mágicos, podem infligir doen- ças e causar a morte. Os métodos empregados por esses feiticeiros, assim como todas as crenças relacionadas a este assunto, são praticamente os mesmos que se encontram entre as tribos das ilhas Trobriand, como veremos mais tarde. Esses métodos caracterizam-se por sua natureza muito racional e direta, e neles quase não entram elementos sobrenaturais. O feiticeiro profere algumas palavras mágicas sobre alguma substância que tem de ser ingerida pela vítima, ou então queimada sobre o fogo da sua cabana. Em determinados rituais, os feiticeiros usam também paus aguçados que apontam em direção à vítima.

Se compararmos esses métodos aos usados pelas bruxas voadoras que co- mem o coração e os pulmões, bebem o sangue e quebram os ossos de seus ini- migos e vítimas, e possuem, além de tudo, o poder de se tornarem invisíveis e voarem, verificamos que o feiticeiro dobu tem a seu dispor recursos aparente-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 49

mente muito simples e toscos. Está também muito atrasado em relação aos seus xarás mailu ou motu e digo xarás porque todos os feiticeiros da região mas- sim são chamados Bara'u, e essa palavra é a mesma usada entre os mailu, ao passo que os motu usam a forma reduplicada Babara'u. Os feiticeiros dessa última região usam métodos poderosos tais como matar a vítima primeiro, abrir-ihe o corpo, remover, dilacerar ou enfeitiçar-lhe as entranhas e, por fim, restituir-lhe a vida, para que a vítima adoeça e eventualmente morra.”

Segundo a crença dobu, os espíritos dos mortos vão para o topo do monte Bwebweso, situado na ilha de Normanby. Nesse pequeno espaço refugiam-se as almas de praticamente todos os nativos do arquipélago d'Entrecasteaux, com ex- ceção dos da parte setentrional da ilhas Goodenough, os quais segundo me foi relatado por alguns dos informantes locais vão, depois de sua morte, para a terra dos espíritos dos nativos de Trobriand.” Os dobu crêem também na existência de uma alma dupla uma, obscura e impessoal, que sobrevive à morte física por apenas alguns dias, permanecendo nas redondezas do túmulo; a outra, o espírito verdadeiro, que vai para o monte Bwebweso.

É interessante observar como os nativos, vivendo nos limites de duas cul- turas e entre dois tipos de crença, explicam as diferenças observáveis. O nativo, digamos, de Boyowa do sul, não dificuldades em solucionar questões do tipo: “como é que os dobu acreditam ser Bwebweso a terra dos espíritos, enquanto eles, os nativos de Trobriand, creem-na em Tuma?” Ele não a diferença como como se fosse devida a um conflito dogmático de doutrinas; simplesmente res- ponde: “Os espíritos deles vão para Bwebweso e os nossos para Tuma”. As leis metafísicas da existência ainda não são consideradas como sujeitas a uma única verdade invariável. Da mesma forma que o destino dos homens varia segundo as diferenças existentes entre os costumes tribais, assim variam também as ações do espírito! Uma teoria bem interessante foi desenvolvida para harmonizar as duas crenças num caso misto. Existe a crença de que, se um nativo Trobriand vier a morrer em Dobu em meio a uma das expedições do Kula, sua alma irá para Bwebweso por algum tempo. Em época apropriada os espíritos dos nativos de Trobiand navegam de Tuma, terra dos espíritos, para Bwebweso, num Kula espiritual; ao voltarem para Tuma, essa comitiva espiritual traz consigo a alma do recém-finado nativo de Trobriand.

Partindo de Dobu, navegamos em mar aberto um mar repleto de bancos de areia e coral, recortado de longos recifes, onde marés traiçoeiras, que por vezes atingem a velocidade de cinco nós, tornam realmente perigosa a navegação, especialmente para as frágeis embarcações nativas. Este é o mar do Kula, cenário das expedições intertribais e das aventuras que constituirão o tema de nossos futuros relatos.

A praia oriental da ilha de Ferguson, próxima de Dobu, ao longo da qual va- mos navegando, consiste principalmente de uma série de cabos e cones vulcâni- cos que dão à região o aspecto de algo inacabado e grotescamente montado. Ao das elevações estende-se, por várias milhas além de Dobu, uma extensa planície aluvial, onde se encontram numerosas aldeias Deide'i, Tu'utauna, Bwayow, todas elas importantes centros comerciais e onde residem os sócios dire- tos dos nativos de Trobriand no sistema do Kula. Grandes rolos de fumaça pai- ram por sobre a selva, provenientes dos gêiseres ferventes de Deide'i, que a cada poucos minutos se convulsionam em altos jatos de água.

Em breve deparamos com dois rochedos escuros e de forma bastante peculiar,

23 Cf. Professor €C. G. Seligman, op. cit. pp. 170 e 171; 187 e 188 a respeito dos nativos koita e motu; e B. Malinowski. The Mailu. pp. 647-652. 24 Cf. D. Jenness e A. Ballantyne, The Northern d'Entrecasteux, Oxford, 1920, capitulo XII

50 MALINOWSKI

um deles semi-oculto na vegetação da praia, o outro erguendo-se rente ao mar, na extremidade de um areal que o separa do primeiro. São eles Atu'a'ine e Aturamo'a, homens que, segundo a tradição mítica, foram transformados em pedra. Nesse local fazem parada as grandes expedições marítimas não as provenientes de Dobu, em demanda ao norte, mas também as que vêm do norte. Seguindo um costume que se vem realizando muitos séculos e observando diversos tabus, os nativos ali fazem oferendas sacrificais aos rochedos, com invo- cações rituais para um comércio bem sucedido.

A sotavento destas duas rochas estende-se uma pequena baía de praias lim- pas e arenosas, chamada Sarubwoyna. Tendo a sorte de passar por esse local na época certa do ano, o viajante poderá presenciar uma cena pitoresca e inte- ressante. À sua frente, irá ver uma enorme frota de “cinguenta a cem canoas, todas ancoradas nas águas pouco profundas da baía, com uma multidão de nati- vos a ocupar-se em tarefas estranhas e misteriosas. Alguns deles, inclinados sobre montes de ervas, murmuram encantamentos; outros, pintam e enfeitam o corpo. O espectador de duas gerações, ao presenciar a mesma cena, sem dúvida seria levado a suspeitar serem esses os preparativos para alguma luta trágica entre as tribos, um dos grandes assaltos que exterminavam tribos e aldeias inteiras. Ao observar o comportamento dos nativos, o espectador encontraria dificuldade em dizer se eles estão temerosos ou agressivos, pois que ambas as paixões estão presentes com igual intensidade em sua atitude e movimentos. Dificilmente iria o espectador acreditar no fato de que o que se passa diante de seus olhos não são preparativos de guerra; que esses nativos, empenhados numa visita bem organizada, chegaram ao local após uma longa jornada marítima de mais de cem milhas numa visita intertribal preestabelecida; e que ali estão para ultimar seus preparativos mais importantes. Hoje em dia -— pois todo esse ritual ainda hoje se realiza e com a mesma pompa de outrora o espetáculo seria igualmente pitoresco apesar de abrandado pelo fato de que não mais existe na vida nativa a paixão pelo perigo. No curso de nossa narrativa, à medida que formos apren- dendo a conhecer melhor esses nativos, seu comportamento geral e costumes e, de maneira especial, o ciclo de crenças, idéias e sentimentos relacionados ao Kula, iremos também entender a cena que ora temos diante dos olhos esta mescla de temor e impetuosidade quase violenta, esse comportamento que nos parece ao mesmo tempo, amedrontado e agressivo.

V

Partindo de Sarubwoyna e contornando o promontório dos dois rochedos, avistamos imediatamente Sanaroa, uma enorme ilha de coral, plana e espaçosa que ostenta, em seu flanco ocidental, uma cadeia de colinas de formação vul- cânica. Numa ampla laguna a leste dessa ilha estão as zonas de pesca onde, ano após ano, os nativos de Trobriand, retornando de Dobu, vão procurar o spon- dylus, valiosa concha com a qual, ao voltarem à sua terra, fabricam os discos vermelhos que constituem uma das principais fontes da riqueza nativa. Ao norte de Sanaroa existe num dos canais uma pedra chamada Sinatemubadiye'i, outrora uma mulher que, ao chegar ali com seus irmãos Atu'a'ine e Aturamo'a, foi trans- formada em pedra antes da etapa final de sua jornada. A ela os nativos em expedições do Kula fazem também oferendas.

Prosseguindo nossa viagem, encontramos à esquerda, uma belíssima paisa- gem: a serra alta fica agora próxima da praia, e pequenas baías, vales extensos e escarpas forradas de árvores sucedem-se uns aos outros. Examinando minu- ciosamente as escarpas, podemos ver pequenos grupos de três a seis choupanas muito pobres: são elas as habitações de nativos de cultura visivelmente mais

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 51

baixa que a dos dobu. Esses nativos não participam do Kula e, em épocas pas- sadas, eram vítimas amedrontadas e infelizes das tribos vizinhas.

À nossa direita, através de Sanaroa, emergem as ilhas de Uwama e Tewara, esta última habitada por nativos da tribo dobu. A ilha de Tewara nos é de grande interesse, visto que um dos mitos de que trataremos mais adiante faz dela o berço do sistema do Kula. Continuando nossa viagem, contornamos, uns após os outros, os promontórios orientais da ilha de Ferguson e, a seguir, vamos encon- trar um grupo de perfis monumentais, fortemente delineados no horizonte dis- tante, por trás das elevações que se afastam: são as ilhas Amphlett, elo geográ- fico e cultural entre as tribos costeiras da região vulcânica de Dobu e as dos habitantes de Trobriand, arquipélago de ilhas planas de coral. Essa porção do mar é muito pitoresca e tem encanto particular nesta terra de paisagens belíssi- mas e variadas. Na ilha principal de Ferguson, e dominando o arquipélago Amphlett mais ao norte, localiza-se Koyatabu, sua montanha mais alta, que se ergue diretamente do mar como uma pirâmide delgada e elegante. A imensa superfície da montanha é recortada pela faixa branca de um curso de água que se inicia a meia altura e desce para o mar. Sob o vulto enorme de Koyatabu encontram-se as numerosas ilhas Amphlett, pequenas e grandes, de colinas íngre- mes e rochosas em forma de pirâmides, esfinges e cúpulas, formando um con- junto pitoresco de formas estranhas.

Com o forte vento sudeste que aqui sopra durante três quartos do ano, aproximamo-nos rapidamente das ilhas e as duas mais importantes, Gumawana e Ome'a, parecem arremessar-se para fora do nevoeiro. Ao ancorarmos em frente da aldeia de Gumawana, situada no extremo sudeste da ilha, o panorama que se abre à nossa frente é impressionante. Construída numa faixa estreita da praia e quase à mercê das ondas, espremida à beira-mar por uma selva gigantesca que se ergue por trás dela, a aldeia está protegida das águas por muros de pedras construídos ao redor das casas e diques que formam pequenas enseadas artifi- ciais ao longo da orla do mar. As choupanas, construídas sobre estacas, muito pobres e sem quaisquer enfeites, parecem muito pitorescas nesses arredores (veja fig. 7 e 43).

Os habitantes dessa aldeia e das outras quatro existentes no arquipélago são um povo estranho. Formam uma tribo pouco numerosa que está à mercê dos ataques de outras tribos vindas do mar; dispõem de pouco alimento, devido à natureza rochosa de suas ilhas. Apesar de tudo, graças à sua singular habili- dade de fabricar objetos de cerâmica, à sua coragem e eficiência como navega- dores e à sua localização entre Dobu e as ilhas Trobriand, esses nativos consegui- ram tornar-se, em muitos aspectos, os monopolistas dessa região do mundo. Têm mesmo as características de monopolistas: são ávidos e mesquinhos, insaciáveis e pouco hospitaleiros; insistem em tomar para si as rédeas das trocas e do co- mércio mas não se dispõem a fazer quaisquer sacrifícios no sentido de melhorá- lo; são retraídos, mas de atitude arrogante para com todas as pessoas que com eles têm algum negócio a tratar. Contrastam, portanto, muito desfavoravelmente com os seus vizinhos do norte e do sul e isso não é a opinião apenas do homem branco;* os nativos das ilhas Amphlett gozam, com efeito, de péssima reputação entre os dobu e os habitantes das ilhas Trobriand, que os consideram desprovidos de um verdadeiro senso de generosidade e hospitalidade, mesquinhos e injustos em todas as negociações do Kula.

25 Passei cerca de um mês nessas ilhas e achei os nativos surpreendentemente intratáveis e foi muito difícil realizar entre eles o trabalho etnográfico. Os “boys” de Amphlett tem exce- Jente reputação como marujos, mas de maneira geral não são trabalhadores tão capazes e diligentes quanto os dobu.

52 MALINOWSKI

Quando ancoramos nosso barco, os nativos logo se aproximam em suas canoas, oferecendo à venda potes de barro mas, se descemos à praia para dar uma olhadela em sua aldeia, a agitação é grande, e todas as mulheres desapare- cem do local: as mais jovens correm a esconder-se na selva atrás da aldeia, e até mesmo as velhas feias desaparecem de vista, refugiando-se nas choupanas. Assim, se quisermos ver como são fabricados os objetos de barro feitos quase que exclusivamente pelas mulheres temos de atrair alguma velha para fora de seu esconderijo, oferecendo-lhe generosas porções de tabaco e procurando convencê-la de que nossas intenções são honradas.

Mencionamos todos esses fatos, de interesse etnográfico, porque não é o homem branco que provoca esse retraimento; se outros nativos, vindos de suas terras para negociar com eles, permanecem por algum tempo nas ilhas Amphlett, as mulheres também desaparecem deste modo. Essa timidez ostensiva não é, entretanto, fingida;, nessas ilhas, muito mais que em Dobu, a mulher solteira ou casada se caracteriza por estrita obediência às leis de castidade e fidelidade. As mulheres também aqui possuem muita influência e tomam parte ativa nos tra- balhos da lavoura e na execução da magia agrícola. Em suas instituições e cos- tumes, esses nativos apresentam uma mistura característica dos massim do norte e do sul. Não chefes, mas os membros mais velhos da tribo possuem autori- dade, existindo em cada aldeia um líder que a representa nas cerimônias e em outros assuntos importantes. Seus clãs totêmicos são idênticos aos de Murua (distrito II). Seu precário suprimento alimentar provém, em parte, de uma la- voura pobre e, em parte, da pesca, feita com pipas e armadilhas, a qual entre- tanto raramente pode ser levada a cabo, e em geral não rende muito. Esses na- tivos não são auto-suficientes; recebem, na forma de presentes ou através do comércio, produtos agrícolas e porcos procedentes do continente, de Dobu ou de Trobriand. Sua aparência física lembra muito a dos nativos das ilhas Tro- briand, isto é, são mais altos, de pele mais clara e traços mais delicados que os dobu.

Vamos agora partir das ilhas Amphlett rumo ao arquipélago de Trobriand, cenário de quase todos os acontecimentos descritos neste volume e região sobre a qual possuo o maior número de dados etnográficos.

CAPÍTULO II

Os nativos das ilhas Trobriand

I

Deixando de lado os rochedos bronzeados e a selva escura das ilhas Amph- lett pois teremos de voltar a visitá-las no decorrer dos nossos estudos, a fim de melhor conhecer seus habitantes vamos navegar agora em direção ao norte, rumo a um mundo completamente diferente, o das ilhas planas de coral; um distrito etnográfico que, por um sem-número de modos e costumes peculiares, se distingue muito do resto do território papua-melanésio. Até agora, navegamos por mares profundamente azuis e transparentes; nos lugares em que a água é pouco profunda, pode-se ver o leito de coral, com sua imensa variedade de co- res e formas, com suas plantas e peixes, constituindo em si fascinante espetáculo um mar moldado pelos esplendores da selva tropical, de cenários vulcânicos e montanhosos, de rápidos cursos de água e cachoeiras, de nuvens vaporosas que pairam sobre os planaltos. De tudo isso nos despedimos ao navegarmos para O norte. Os contornos das ilhas Amphlett logo desaparecem de vista, envoltos na bruma tropical; por fim, a única coisa que permanece no horizonte é o vulto piramidal e adelgaçado do monte Koyatabu que nos vai seguindo até alcançarmos a laguna de Kiriwina.

Entramos, agora, num mar de águas opacas e esverdeadas, monótono, onde se vêem, quando muito, uns poucos bancos de areia, alguns estéreis e varridos pelas águas, outros com uma ou outra árvore do pandano, trepadas em suas raízes aéreas, erguendo-se acima da areia. Nesses bancos de areia, cenários de muitos incidentes míticos do Kula primevo, os nativos de Amphlett passam se- manas a fio, pescando tartarugas e peixes-boij. Mais adiante, em meio à cerração do mar, se adensam os primeiros traços do horizonte como os riscos de um lápis. Aos poucos, eles vão ganhando formas: um se encomprida e alarga, outros vão assumindo a forma de pequenas ilhas e assim, finalmente, nos encontra- mos na grande laguna -das ilhas Trobriand, com Boyowa, a maior delas, à nossa direita, e muitas outras habitadas ou não ao norte e noroeste.

A medida que nosso barco penetra na laguna, seguindo passagens intrica- das por entre os bancos de areia e aproximando-se lentamente da ilha principal, a selva baixa, espessa e emaranhada se abre aqui e acolá numa praia, deixando entrever um bosque de palmeiras, como um grande espaço oco cheio de pilares. Isso é sinal de que ali se localiza uma aldeia. Descemos à praia, onde, via de regra, a água é lamacenta e coberta de escória flutuante. Na oria da praia encontram-se as canvas, a secar ao sol. Atravessando o bosque de palmeiras deparamos finalmente com a aldeia (veja fig. 8).

Em breve estaremos sentados numa das plataformas construídas em frente dos celeiros de inhame, à sombra da projeção do telhado. Os troncos roliços e gastos pelo contato de pés descalços e corpos nus, o chão pisado da rua da

54 MALINOWSKI

aldeia, a pele marrom dos nativos, que imediatamente se reúnem em grandes grupos ao redor do visitante, tudo isso forma um esquema de cor cinza e bronze, inesquecível a qualquer pessoa que, como eu, viveu em meio a essa gente.

É difícil descrever as sensações de suspense e extremo interesse que o etnógrafo experimenta ao entrar pela primeira vez no distrito que em breve será o campo de sua pesquisa. Certas características do lugar imediatamente lhe saltam aos olhos, enchendo-o de esperanças e apreensões. A aparência dos nati- vos, seus gestos, e seu tipo de comportamento podem constituir bom ou mau presságio para a esperança de uma pesquisa fácil e rápida. Prevendo a existência de muitos mistérios etnográficos, ocultos sob o aspecto trivial de tudo que vê, o etnógrafo fica à espreita de fatos sociológicos significativos. O nativo à minha frente que parece bastante inteligente e tem um aspecto estranho talvez seja um feiticeiro famoso. Entre estes dois grupos de homens talvez haja uma relação de rivalidade ou vingança que poderá vir a esclarecer algum fato referente aos cos- tumes e ao caráter dessa gente. Pelo menos eram esses os meus pensamentos, quando, no mesmo dia em que cheguei a Boyowa, sentei-me próximo a um grupo de nativos observando-os cuidadosamente enquanto conversavam.

Um dos primeiros fatos que nos chamaram a atenção em Boyowa é a grande variedade de tipos físicos.” homens e mulheres de grande estatura, de porte elegante e traços delicados, de perfil aquilino e bem delineado, de testa alta, nariz e queixo bem formados e uma expressão aberta e inteligente (veja fig. 9, 15 e 17). A par desses, os de rosto negróide e prognata, boca grande e lábios grossos, testa curta e expressão grosseira (veja fig. 10, 11 e 12). Os de traços mais suaves têm também pele de cor mais clara. O cabelo também varia, indo do liso-anelado ao crespo característico do tipo melanésio puro. Usam os mesmos enfeites que os outros massim: braceletes e cintos de fibra trançada, brincos de casco de tartaruga e de discos feitos do spondylus; gostam muito também de enfeitar-se com ervas aromáticas e flores. Sua atitude é bem mais livre, espon- tânea e confiante que a dos nativos que até agora encontramos. Quando algum visitante desconhecido chega ao local, metade da aldeia se reúne ao redor dele falando alto e tecendo comentários em geral pouco lisonjeiros a respeito do visitante, e assumindo em geral um tom de jocosa intimidade.

A existência de classes e diferenciação social é uma das primeiras caracte- rísticas sociológicas que chama a atenção do observador atento. Alguns nativos muito frequentemente os de melhor aparência são tratados com o máximo respeito pelos demais; estes chefes e pessoas de posição, por sua vez, se com- portam de modo bastante diferente para com os estranhos e, com efeito, de- monstram possuir maneiras excelentes, no sentido pleno da palavra.

Na presença do chefe, nenhum dos plebeus ousa permanecer em posição física mais alta que a dele: precisa curvar ou agachar-se. De igual forma, quando o chefe se senta, ninguém ousa ficar de pé. A instituição definida da chefia, à qual se demonstram tais extremos de respeito através de um cerimonial de uma realeza rudimentar e de insígnias de posição social e autoridade, é de tal forma estranha ao temperamento das tribos melanésias que, à primeira vista, chega a transportar o etnógrafo para um mundo bem diferente. No curso de nossa pesquisa, amiúde iremos encontrar tais manifestações da autoridade do chefe

% O Dr. €C. G. Seligman nos chamou a atenção para o fato de que entre os massim do norte nativos de extraordinária beleza física. Os habitantes das ilhas Trobriand pertencem à seção ocidental desses massim do norte, e são “de modo geral mais altos (fregiientemente bem mais altos) que os nativos de rosto curto e nariz chato, nos quais o osso do nariz é bem comprido e baixo”. Op. cit., p. 8.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 55

kiriwina; e nesse particular, iremos perceber claramente a diferença entre os nativos de Trobriand e os das demais tribos, bem como as adaptações resultan- tes do relacionamento tribal.

HN

Outra característica sociológica importante que se impõe à observação do visitante é a posição social das mulheres. Depois da atitude fria e esquiva das mulheres de Dobu e do comportamento pouco convidativo das mulheres das ilhas Amphlett, a familiaridade amistosa das nativas de Boyowa é quase cho- cante. Há, naturalmente, diferenças de conduta entre as mulheres das classes mais altas e as das classes inferiores; de modo gerai, porém, nenhuma delas se mostra retraída e todas elas, sem distinção, se revelam amistosas e agradáveis. Muitas são mesmo muito bonitas (veja fig. 11 e 12). Sua maneira de vestir é também bastante diferente da que observamos até agora. Todas as mulheres me- lanésias da Nova Guiné usam saiotes feitos de fibra. Entre as massim do sul essas fibras são longas, chegando até o joelho ou mesmo até a canela. Nas ilhas Trobriand os saiotes das mulheres são bem mais curtos e amplos, com várias ca- madas de fibras formando ao redor do corpo uma espécie de franzido (comparem- se as mulheres dos massim do sul, nas fig.5 e 6, com as das ilhas Trobriand, na fig. 4). O efeito decorativo dessas saias é ainda mais realçado pelos enfeites artísticos feitos em três cores nas várias fileiras de fibra que formam o saiote de cima. De modo geral, essas saias ornam bem às jovens bonitas e dão às me- ninas pequenas e esguias uma aparência graciosa e travessa.

Entre esses nativos, a castidade é uma virtude desconhecida. Eles são intro- duzidos à vida sexual em idade incrivelmente precoce; muitos dos seus jogos infantis, de aparente inocência, não são na realidade tão inócuos como podería- mos crer. Com o tempo, os jovens passam a uma vida de promiscuidade e amor livre; gradualmente, porém, se vão envolvendo em casos mais sérios e dura- douros, um dos quais termina em casamento. Antes que isso aconteça, entre- tanto, as jovens solteiras são livres para fazer o que quiserem; existem, inclusive, arranjos cerimoniais em que as jovens de uma aldeia vão em grupos a outros locais. Ali se pôem em fila para inspeção e cada uma delas é então escolhida por um rapaz, com o qual passa a noite. Esse ritual é denominado katuyiausi (veja fig. 12). Quando um grupo de visitantes chega à aldeia, vindos de outro distrito, cabe também às jovens solteiras servir-lhes alimento e satisfazer-lhes as necessidades sexuais. Por ocasião das grandes vigílias mortuárias, quando a aldeia. inteira se reúne ao redor da pessoa recém-falecida, grandes comitivas vêm das aldeias vizinhas para participar das lamentações e cantos fúnebres. As jovens dessas comitivas devem então, por praxe, confortar os rapazes da aldeia enluta- da, deixando muito enciumados seus amantes oficiais. um outro tipo, bas- tante notável, de ritual licencioso em que, com efeito, as mulheres abertamente tomam todas as iniciativas. Durante os trabalhos agrícolas, na época em que as ervas daninhas são arrancadas dos campos, as mulheres perfazem esta tarefa co- munitariamente. Está sujeito a grandes riscos o estranho que nessa época se aventura a passar pelo distrito: as mulheres o perseguem, o agarram, arrancam- lhe a tanga e o tratam de maneira ignominiosa e orgiástica. Paralelamente a estas formas de licenciosidade sexual cerimonial existem as constantes intrigas individuais, que são mais intensas por ocasião dos festejos e menos proeminentes nas épocas em que a lavoura, as expedições comerciais ou a colheita absorvem as energias e a atenção da tribo.

O casamento não está associado a quase nenhum ato cerimonial público ou privado. A mulher simplesmente se muda para a casa do marido, e mais tarde é que se realiza a troca de uma série de presentes. Isso, entretanto, não

56 MALINOWSKI

pode ser interpretado como compra da mulher pelo marido. Com efeito, uma das características mais importantes do casamento entre os habitantes de Tro- briand é o fato de que a família da esposa tem por obrigação contribuir subs- tancialmente para a economia do novo lar, ao mesmo tempo em que presta vários serviços ao marido. Espera-se que a esposa se mantenha fiel ao marido mas esta regra não é estritamente observada. O homem deve tratar a esposa com muita consideração, pois caso contrário ela, que ainda conserva um grande quinhão de independência, simplesmente o abandona e volta à casa paterna. O marido que é financeiramente prejudicado com a deserção da mulher deve, então, esforçar-se para consegui-la de volta, persuadindo-a por meio de presen- tes. A esposa pode abandoná-lo para sempre, se assim o desejar, pois tem liber- dade total de procurar novo marido.

As mulheres ocupam também posição de prestígio na vida tribal. Regra geral, não podem participar dos conselhos dos homens; todavia, em muitos as- suntos elas gozam de considerável influência pessoal, podendo dessa forma con- trolar muitos aspectos da vida comunitária. Boa parte dos trabalhos de horti- cultura cabe à mulher e isso é considerado não apenas um dever, mas um privilégio. A ela cabe também cuidar de certos estágios das grandes cerimônias de distribuição de alimentos, cerimônias essas que se relacionam ao sofisticado e elaborado ritual funerário dos boyowa (veja fig. 4). Certos tipos de magia como, por exemplo, a que se usa por ocasião do nascimento do primeiro filho, a magia da beleza usada nas cerimônias tribais e certos tipos de feitiços são também monopólio das mulheres. As mulheres de posição desfrutam, como os homens, de todos os privilégios inerentes à hierarquia e os homens das castas mais baixas devem curvar-se diante delas, observando todas as formalidades e tabus devidos aos chefes. Mesmo estando casada com um plebeu, a mulher da classe dos chefes conserva todos os direitos relativos à sua posição, mesmo no que diz respeito ao marido, e deve, portanto, ser tratada com todas as honras e a consideração inerentes a seu título.

Os habitantes das ilhas Trobriand são matrilineares, ou seja, em questões de descendência e herança seguem a linha materna. Toda criança pertence auto- maticamente ao clã e à comunidade da aldeia da mãe. Tanto os bens materiais como a própria posição social são legados por herança, não de pai para filho, mas de tio materno para sobrinho. Essa regra admite exceções importantes e interessantes, a que voltaremos oportunamente no curso de nossos estudos.

HI

a

Voltemos à nossa primeira visita imaginária à aldeia. Depois de termos observado os modos e a aparência física dos nativos, a próxima coisa a fazer é darmos uma volta pela aldeia. Isso nos permite testemunhar muitos fatos que, aos olhos das pessoas bem treinadas, imediatamente revelam aspectos socioló- gicos mais profundos. Nas ilhas Trobriand, entretanto, é melhor que nossas pri- meiras observações sejam feitas numa das grandes aldeias do interior, situada em terreno plano, uniforme e espaçoso, pois é em locais assim que as aldeias seguem seus padrões mais típicos de construção. Nas aldeias do litoral, locali- zadas em terrenos pantanosos e afloramentos de coral, a irregularidade do solo e a limitação de espaço obliteram o desenho e essas aldeias têm, desse modo, uma aparência bastante caótica. As grandes aldeias dos distritos centrais, por outro lado, seguem todas padrões quase geométricos.

No centro da aldeia um grande terreno de forma circular e, a seu redor, uma fileira de choupanas onde se armazena o inhame. Esses celeiros são cons- truídos sobre estacas e apresentam belas fachadas decoradas. As paredes são

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 57

feitas de troncos grandes e arredondados, apoiados uns sobre os outros, trans- versalmente, de maneira a formar largos interstícios através dos quais se pode enxergar o inhame armazenado (veja fig. 15, 32 e 33). Alguns deles são maio- res, mais altos e mais bem construídos que os demais; ostentam no frontão gran- des tábuas ornamentais. São esses os celeiros em que se armazena o inhame pertencente ao chefe ou às pessoas de alta posição social. Via de regra, uma pequena plataforma à frente de cada um deles, onde os nativos podem sentar-se à noite para conversar e onde os visitantes podem descansar.

Concentricamente ao círculo dos celeiros, corre uma fileira de cabanas que servem de habitação, e entre os dois círculos, portanto, forma-se uma rua que contorna a aldeia em toda a sua extensão (veja fig. 3, 4 e 8). As habitações são construídas diretamente no chão, sem estacas e são mais baixas que os celeiros. Seu interior é escuro e abafado a única abertura que possuem é a da porta, que geralmente é mantida fechada. Em cada cabana mora uma família (veja fig. 15), isto é, marido, mulher e crianças pequenas; os meninos e meninas crescidos e os adolescentes moram em pequenas casas de solteiros, em grupos de dois a seis ocupantes, separados dos pais. Os chefes e pessoas de posição têm suas próprias casas especiais, além das que pertencem às suas esposas. A casa do chefe geralmente se ergue em meio à fileira central dos celeiros, em frente da praça principal.

A inspeção geral da aldeia revelou-nos, portanto, a função dos enfeites e ornamentos como insígnias da posição social, a existência de habitações especiais para jovens solteiros, a grande importância que se à colheita do inhame. Tudo isto constitui indícics que nos levam aos problemas mais profundos da sociolo- gia nativa. Tal inspeção nos leva, além disso, a formular questões referentes à função das diversas divisões da aldeia na vida tribal. Vamos aprender que o baku, o terreno de forma circular existente no centro da aldeia, é o local onde se reaixzam as cerimônias e festejos públicos, tais como as danças (veja fig. 8 e 14), a distribuição de alimentos, as festas tribais, os velórios em suma, todes os acontecimentos que representam a aldeia como um todo. Na rua circular que passa entre as habitações e os celeiros tem lugar a vida cotidiana, o preparo dos alimentos, a realização das refeições, a troca usual de mexericos e de amenidades sociais costumeiras. O interior das habitações é utilizado somente à noite, ou em dias de chuva é mais quarto do que sala. O fundo das casas e os bosques próximos são o local onde as crianças brincam e as mulheres realizam suas tarefas. Mais adiante, lugares afastados do bosque são reservados às necessi- dades sanitárias dos nativos um para os homens, outro para as mulheres.

O baku (praça central da aldeia) é a parte mais pitoresca; nele, o esquema um pouco monótono do cinza e marrom é quebrado pela folhagem pendente do bosque, que se pode avistar acima dos telhados, pela ornamentação vistosa dos celeiros e, na época das danças e cerimônias, pelo colorido dos ornamentos usa- dos peles nativos. As danças realizam-se apenas numa época do ano (veja fig. I3 e 23) e estão associadas às festividades da colheita, que recebem o nome de milamala. É também nessa época que os espíritos dos mortos, provenientes de Tuma, o mundo do além, regressam às aldeias a que pertencem. Por vezes a época das danças dura apenas algumas semanas, ou até mesmo alguns dias; outras vezes, prolonga-se num período especial chamado usigola. Nessa época de festas, os habitantes da aldeia dançam dia após dia, durante um mês inteiro, e às vezes até mais. O período é inaugurado com uma grande festa e partilhado por várias outras. Culmina sempre com uma grande representação, da qual na- tivos de outras aldeias participam como espectadores, e na qual sempre se rea- lizam distribuições de alimento. Durante o usigola, os nativos usam o traje de dança completo, que inclui pintura facial, enfeites de flores, adornos de valor

58 MALINOWSKI

e cocares feitos com as penas da cacatua-branca (veja fig. 13 e 14). A repre- sentação consiste sempre de danças executadas em círculo, ao som de cantos e tambores, ambos executados por um grupo de homens que fica de no centro do círculo. Algumas são executadas com escudos de dança feitos de madeira entalhada.

Sociologicamente a aldeia é uma unidade importante nas ilhas Trobriand. Os chefes até mesmo os de maior poder exercem autoridade primaria- mente sobre a sua própria aldeia, e apenas secundariamente sobre o distrito. A comunidade da aldeia explora coletivamente suas próprias terras de cultivo, rea- liza cerimônias, faz a guerra, empreende expedições comerciais e navega na mesma canoa ou na mesma frota como um grupo.

Depois de nossa primeira inspeção na aldeia, estaremos naturalmente inte- ressados em conhecer melhor o território em que ela se localiza. Devemos, então, fazer um passeio pela mata. Se, no entanto, esperarmos ver paisagens pitorescas e variadas, nossa decepção será enorme. A grande ilha consiste apenas de uma planície fértil, com uma barreira de coral não muito alta contornando certas porções da costa. Em quase toda a sua extensão a terra é cultivada periodica- mente. A mata, que é cortada em intervalos de poucos anos, não chega a ficar muito alta. A selva baixa e densa cresce num emaranhado de plantas entrela- çadas; onde quer que estejamos, nosso caminho é sempre ladeado por duas paredes verdes, que não apresentam variedade alguma, nem permitem que se tenham vistas mais amplas da ilha. A monotonia é quebrada por um ou outro grupo de árvores que os nativos deixaram crescer geralmente em locais con- siderados sagrados ou proibidos ou, então, por uma das numerosas aldeias que encontramos a cada uma ou duas milhas nesta região tão densamente po- voada. Os campos da lavoura constituem ali um dos principais elementos de interesse etnográfico e são mesmo bastante pitorescos. Cada ano, aproximada- mente um quarto ou um quinto de área total da ilha se encontra sob cultivo. Os campos são bem cuidados e constituem uma mudança agradável à vista, naquela monotonia toda de mato. Em seu estágio inicial, esses campos de cul- tivo são apenas terrenos limpos e vazios; permitem, assim, uma visão mais ampla da barreira de coral ao leste, e dos bosques altos que, espalhados aqui e ali no horizonte, indicam a existência de aldeias ou de grupos de árvores consideradas tabu. Mais tarde, quando as plantações de inhame, de taro e de cana-de-açúcar começam a vicejar e florescer, o solo vazio e marrom fica coberto pelo verde novo da plantação. Depois de mais algum tempo, os nativos colocam estacas junto a cada de inhame; as trepadeiras agarram-se então a essas estacas, crescendo até transformar-se em grinaldas de folhas que produzem boa sombra; dão, em conjunto, a impressão de uma imensa é exuberante plantação de lúpulo.

IV

O nativo dedica à lavoura metade de sua vida de trabalho, pois é na la- voura que se centraliza grande parte de seus interesses e ambições. Devemos, a estas alturas, fazer uma pausa para analisar e tentar compreender sua atitude com relação a este assunto, pois que ela tipifica nitidamente o modo como ele realiza qualquer trabalho. Se ficarmos na ilusão de que o nativo é o filho folga- zão e preguiçoso da natureza, que evita na medida do possível qualquer trabalho ou esforço e que não faz outra coisa senão esperar que as frutas maduras lhe caiam na boca, de modo algum poderemos compreender seus propósitos e os motivos que o levam a executar o Kula ou qualquer outro tipo de empreendi- mento. Muito pelo contrário: a verdade é que o nativo pode trabalhar e, em dadas circunstâncias, realmente trabalha bastante, com objetivos bem definidos

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 59

e de maneira sistemática e persistente. Tampouco fica ele à espera de que suas necessidades imediatas o forcem ao trabalho.

Na lavoura, por exemplo, os nativos produzem muito mais do que realmente necessitam e, em média, no decorrer de um ano normal, chegam a colher o dobro do que precisam para alimentar-se. Nos dias atuais, esse excedente de alimentos é exportado por europeus para o consumo de trabalhadores agrícolas em outras regiões da Nova Guiné. Antigamente, simplesmente apodrecia. Além do mais, os nativos conseguem esse excedente por meio de um trabalho muito maior do que o estritamente necessário à obtenção de uma boa colheita: des- pendem muito tempo e energia em questões estéticas, conservando seus campos de cultivo sempre arrumados, limpos e desobstruídos de todos os detritos, cons- truindo cercas bem feitas e sólidas, colocando estacas especialmente fortes e grandes junto aos pés de inhame. Até certo ponto, tudo isso é mesmo necessário ao bom desenvolvimento das plantas; mas não dúvida de que os nativos levam sua meticulosidade bem além dos limites do estritamente necessário. O elemento não utilitário do seu trabalho agrícola torna-se ainda mais evidente se analisar- mos as diversas tarefas a que eles se dedicam exclusivamente com fins orna- mentais, em conexão com cerimônias de magia e em obediência aos costumes da tribo. Assim, depois da meticulosa limpeza e preparo dos campos para o plantio, os nativos dividem cada um deles em pequenos lotes quadrados, de apenas alguns metros de modo que os campos pareçam bonitos e bem cuidados o que é feito apenas em obediência a antigos costumes da tribo. Nenhum nativo com uma certa dose de amor-próprio sonharia sequer em omitir-se a esse traba- lho. Nos campos especialmente bem quarnecidos, longas vigas horizontais são amarradas às estacas de apoio aos pés de inhame, de maneira a embelezá-los. Outro exemplo talvez o mais interessante de trabalho não utilitário são as grandes estruturas construídas em forma de prismas: são denominadas kam- kokola e servem apenas a finalidades de ornamentação e magia; nada têm a ver com o crescimento das plantas (veja fig. 59).

De todas as forças que se relacionam ao trabalho agrícola e o regulam, a magia é talvez a mais importante. Constitui, por assim dizer, um departamento independente, e está sob a responsabilidade do feiticeiro agrícola que, depois do chefe e do médico feiticeiro, é uma das personagens mais importantes da aldeia nativa. A posição é hereditária e, em cada aldeia, um sistema especial de magia, passado matrilinearmente de geração para geração. Dou a isso o nome de sistema porque o feiticeiro tem de executar uma série de ritos e encantamentos no campo, paralelamente ao trabalho do cultivo e, de fato, início a cada fase do trabalho da lavoura e marca cada novo estágio de desenvolvimento da plan- tação. Antes de se iniciar qualquer trabalho referente ao cultivo, o feiticeiro tem de consagrar o local através de uma grande cerimônia na qual todos os homens da aldeia tomam parte. Com essa cerimônia abre-se oficialmente a época do culti- vo; somente depois dela é que os nativos da aldeia começam a cortar o mato dos seus lotes. A seguir, executando uma série de ritos, o feiticeiro agrícola inaugura sucessivamente cada um dos diversos estágios do trabalho da lavoura a quei- mada do mato, a limpeza do solo, o plantio, a capina e a colheita. Paralelamente, através de uma outra série de rituais mágicos e encantamentos ele auxilia as plantas para que germinem, produzam suas primeiras folhas, cresçam, subam pelas estacas, formem abundante folhagem e, finalmente, produzam os tubérculos co- mestíveis.

Segundo o pensamento nativo, o feiticeiro agrícola controla, dessa forma, não apenas o trabalho do homem, mas também as forças da natureza. Age tam- bém diretamente como supervisor dos trabalhos agrícolas, cuidando para que os

£

nativos realizem seus trabalhos com perfeição e rapidez. A magia é, portanto,

60 MALINOWSKI

uma influência que regula, sistematiza e controla o trabalho da lavoura. Ao exe- cutar os diversos ritos, O feiticeiro agrícola determina a marcha dos trabalhos forçando os nativos a se devotarem a certas tarefas e a executá-las de maneira adequada e com a devida pontualidade. A propósito, a magia também impõe à tribo muito trabalho extra e estabelece regras e tabus que são aparentemente des- necessários e dificultosos. No fim das contas, porém, não resta dúvida de que, por sua influência no sentido de ordenar, sistematizar e regular o trabalho, a magia constitui elemento de inestimável valor econômico para os nativos.”

Outra noção que precisa ser destruída de uma vez por todas é a do “Homem Econômico Primitivo”, encontrada em alguns textos de ciências econômicas. Essa criatura fictícia, de existência persistente na literatura econômica popular e semipo- pular, cuja sombra penetra até mesmo na mente de certos antropólogos competen- tes esterilizando-lhes a visão através de idéias preconcebidas, é um homem primiti- vo ou selvagem imaginário, movido em todas as suas ações por uma concepção ra- cionalista do interesse pessoal, atingindo seus objetivos de maneira direta e com o mínimo de esforços. Um único exemplo bem analisado será suficiente para mos- trar quão absurda é a suposição de que o homem e, de modo especial, o homem de baixo nível cultural seja movido por interesses particularistas pura- mente econômicos. Esse exemplo, que nos é fornecido pelo primitivo habitante das ilhas Trobriand, lança por terra toda essa falsa teoria. O nativo de Trobriand trabalha movido por razões de natureza social e tradicional altamente complexas; seus objetivos certamente não se referem ao simples atendimento de necessidades imediatas nem a propósitos utilitaristas. Assim, antes de mais nada, como vimos, o trabalho nativo não é executado segundo a lei do menor esforço. Muito pelo contrário, em sua realização são despendidas grandes parcelas de tempo e energia que, do ponto de vista utilitário, são inteiramente desnecessárias. O trabalho e o esforço não constituem apenas meios para atingir certos fins, mas sob certo ponto de vista, um fim em si mesmo. Nas ilhas Trobriand, o prestígio de um bom agricultor é diretamente proporcional à sua capacidade de trabalho e à quanti- dade de terra que consegue lavrar. O título de tokwaybagula, que significa “bom (ou eficiente) lavrador” é conferido após judiciosa escolha e sempre ostentado com orgulho. Vários dos meus amigos, conhecidos como rokwaybagula, gaba- vam-se do quanto haviam trabalhado, de quanta terra haviam lavrado, e compa- ravam seus próprios esforços com os dos nativos menos capazes ou pouco traba- lhadores. A medida que se processa o trabalho da lavoura, parte do qual é rea- lizado comunitariamente, pode-se observar um grande espírito de competição. disputa para saber quem trabalha mais rapidamente, quem faz o trabalho mais completo, quem consegue carregar mais peso ao trazer para o campo as gran- des estacas ou ao levar para a aldeia o produto da colheita.

Uma das facetas mais importantes deste assunto, entretanto, é o fato de que todo ou quase todo o produto da colheita e certamente tudo aquilo que o nativo conseguir através de trabalho extra não é destinado ao próprio nativo, mas sim à família de sua irmã. Sem entrar em detalhes sobre o sistema de dis- tribuição dos produtos da lavoura cuja sociologia é muito complexa e exigiria um estudo preliminar sobre o sistema de parentesco nas ilhas Trobriand, podemos dizer que o nativo distribui aproximadamente três quartos de sua colheita; uma parte é entregue obrigatoriamente ao marido de sua irmã (ou ao marido de sua mãe) e à família dele, outra parte vai para o chefe, como tributo.

Muito embora, num sentido utilitário, o nativo seja pouco beneficiado com

2 Num artigo intitulado “The Primitive Economics of the Trobriand Islanders”, publicado no The Economic Journal, em março de 1921, faço uma descrição mais detalhada sobre o trabalho agricola e sua importância econômica nas ilhas Trobriand.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 61

o trabalho de sua lavoura, são grandes os elogios e o renome que ele recebe de maneira direta ou casual pelo tamanho e qualidade de sua colheita. Cuidadosamente empilhado em montes em forma de cone resguardados sob um abrigo feito com a folhagem do inhame, todos os produtos da colheita ficam expostos no próprio campo durante um certo período de tempo. Cada agricultor exibe assim os seus produtos em seu próprio lote de terra. Os nativos, em gru- pos, vão andando de lote em lote, admirando, comparando e elogiando os melho- res resultados. A importância dessa exibição dos alimentos pode ser melhor ava- liada se levarmos em conta o fato de que, em épocas passadas, quando os chefes possufam poderes consideravelmente maiores que agora, era arriscado para um nativo de baixa posição social (ou que não estivesse trabalhando para alguém de posição elevada) exibir colheitas que superassem em beleza e qualidade às do chefe.

Nos anos em que a colheita promete ser abundante, o chefe proclama o kayasa, isto é, uma exibição cerimonial e competitiva de alimentos. O interesse e o esforço no sentido de obterem maiores e melhores resultados na lavoura são então ainda maiores. Mais adiante em nossa narrativa iremos encontrar empreen- dimentos cerimoniais do tipo kayasa e descobrir que eles desempenham papel de considerável importância no Kula. Tudo isso nos vem demonstrar que o verda- deiro nativo, o nativo de carne e osso, é muito diferente do pretenso Homem Econômico Primitivo, em cujo comportamento se baseiam tantas das deduções escolásticas da teoria econômica abstrata.? O nativo de Trobriand trabalha de maneira irregular, preocupa-se muito em dar remate estético ao preparo e à apa- rência geral do seu lote de terra e o trabalho aparece frequentemente como um fim em si mesmo. É guiado primariamente não pelo desejo de satisfazer suas necessidades vitais, mas sim por um complexo sistema de deveres e obrigações, de forças tradicionais, de crenças mágicas, ambições sociais e vaidade. Enquanto homem, ele deseja alcançar prestígio social como um bom lavrador e, de ma- neira geral, como bom trabalhador.

Visto que nos capítulos que se seguem iremos estudar as atividades econô- micas, resolvi demorar-me nesta análise dos objetivos e motivos do trobriandês no que se refere ao trabalho da lavoura, de maneira a fornecer ao leitor vários exemplos através dos quais ele poderá compreender melhor a atitude dos nati- vos. Tudo o que até agora afirmamos sobre os habitantes das ilhas Trobriand aplica-se de igual forma às tribos vizinhas.

V

Com as novas noções que acabamos de adquirir sobre a mentalidade nativa e sobre o esquema social que regula a distribuição dos produtos da colheita, será mais fácil descrevermos o caráter da autoridade exercida pelo chefe. Nas ilhas Trobriand, a posição de chefe combina em si duas instituições: primeiro, a da liderança ou autoridade da aldeia; segundo, a da chefia dos clãs totêmicos, ou seja, a divisão da comunidade em classes ou castas, cada uma delas com certa posição social hierárquica mais ou menos bem definida.

2 Isto não significa que as conclusões gerais das ciências econômicas estejam incorretas. A natuneza econômica do homem é, via de regra, ilustrada através de selvagens imaginários, e tem apenas finalidade didática; as conclusões dos autores, na realidade, estão baseadas em seus estudos dos fatos referentes à economia desenvolvida. Contudo, deixando de lado o fato de que é pedagogicamente errado fazer com que os assuntos pareçam mais simples através de uma visão falsa, o etnógrafo tem por dever e direito de protestar contra a inserção de dados falsos em seu próprio campo de pesquisa.

62 MALINOWSKI

Em cada uma das comunidades existentes nas ilhas Trobriand sempre um homem que exerce a autoridade máxima, muito embora esta não chegue, com freqiiência, a significar muito. Na maioria dos casos, ele nada mais é do que o primus inter pares entre os nativos mais velhos da aldeia, aos quais cabe fazer deliberações em conjunto sobre todos os assuntos importantes da tribo e chegar a decisões finais em comum acordo. Não nos devemos esquecer de que raramente surgem ocasiões de dúvida ou oportunidades para grandes delibera- ções, pois os nativos quer comunitária, quer individualmente agem em linhas ditadas pelas tradições e convenções tribais. Portanto, o líder da aldeia é, em geral, pouco mais que um mestre-de-cerimônias, o orador ou porta-voz de sua comunidade, dentro ou fora dos limites da aldeia, quando a ocasião assim o exige.

A posição do líder da aldeia, entretanto, torna-se muito mais do que isto no caso do líder possuir uma posição social elevada, o que nem sempre ocorre. Existem nas ilhas Trobriand quatro clãs totêmicos, cada um deles dividido em de- terminado número de subclãs, os quais poderíamos chamar de famílias ou cas- tas, visto que cada um deles reivindica descendência comum de uma única ances- tral de sexo feminino e ocupa uma posição hierárquica específica e determinada. Estes subclãs têm também caráter local, porque a ancestral original emergiu de uma cova no chão geralmente em local situado nas vizinhanças da aldeia. Não existe nenhum subclã cujos membros não saibam indicar seu local de ori- gem ou seja, aquele em que seu grupo, na pessoa da encestral primitiva, viu pela primeira vez a luz do dia. Os afloramentos de coral, as nascentes, as peque- nas cavernas ou grutas são em geral apontados pelos nativos como os “buracos” ou “casas” de origem, como são chamados. Fregiientemente são rodeados por grupos de árvores consideradas tabu, a que nos referimos alguns estão próximos da aldeia, outros nas praias, mas nenhum deles em terreno cultivável. To'uluwa, que reside na aldeia de Omarakana (veja fig. 2 e frontispício) e é o chefe

O subctã mais elevado é o Tabalu, que faz parte do clã totêmico Malasi. principal de Kiriwina, pertence a este subclã. Ele é, antes de mais nada, o líder de sua própria aldeia e, em contraste com os líderes de baixa posição social, possui poderes consideráveis. O fato de que To'uluwa possui uma posição hierarquica- mente mais elevada faz com que todos os nativos à sua volta o tenham na mais alta consideração e a ele demonstrem genuíno temor reverente. Seus poderes são ainda agora surpreendentemente grandes, apesar da pressão das autoridades bran- cas que tolamente e com resultados desastrosos procuram a todo custo sabotar seu prestígio e influência.

O chefe (palavra com que me refiro ao líder da aldeia pertencente à ca- tegoria mais elevada) não possui grande autoridade em sua própria aldeia, mas sua esfera de influência se estende bem além desses limites. Várias aldeias são suas tributárias e em diversos aspectos estão sujeitas à sua autoridade. Em casos de guerra, são elas suas aliadas, tendo então de reunir-se em sua aldcia. Se o chefe precisa de homens para executar determinada tarefa, pode solicitar a contribuição das aldeias subordinadas que o suprirão de trabalhadores. As aldeias do seu distrito participam de todos os grandes festejos onde o chefe age como mestre-de-cerimônias. Ele deve, não obstante, pagar todos os serviços que lhe são prestados. Tem de pagar até mesmo pelos tributos que recebe, recorrendo a seus próprios depósitos de riqueza. Nas ilhas Trobriand, a riqueza constitui o sinal visível e a substância do poder, bem como o instrumento através do qual ele se exerce. De que maneira, entretanto, pode o chefe adquirir sua riqueza? Através do cumprimento da principal obrigação das aldeias tributárias para com o chefe. De cada uma delas ele toma uma esposa cuja família, segundo a lei trobrian- desa, deve fornecer a ele uma grande porção de produtos agrícolas. Esta esposa é sempre irmã ou parente próxima do líder da aldeia tributária: dessa forma,

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 63

praticamente toda a aldeia tem de trabalhar para ele. Em épocas passadas, o chefe de Omarakana chegava a ter até quarenta esposas e recebia de trinta a cin- quenta por cento de todo o produto da lavoura em Kiriwina. Mesmo na época atual, em que o chefe tem apenas dezesseis esposas, ele possui enormes celeiros que na época da colheita, se enchem até o teto com inhame.

Com esse suprimento, o chefe paga os muitos serviços a ele prestados, for- nece alimento aos participantes dos grandes festejos, reuniões tribais e expedições a locais distantes. Parte do alimento é destinado à aquisição de objetos de valor ou às despesas com sua produção. Em suma, é através do privilégio da poliga- mia que o chefe acumula abundante riqueza em alimentos e objetos de valor que utiliza para preservar sua posição social, organizar as festas e empreendimentos da tribo e pagar, segundo a tradição, os diversos serviços pessoais que lhe são prestados por direito.

Um dos aspectos referentes à autoridade do chefe merece aqui atenção espe- cial: o poder não implica na possibilidade de premiar, mas também de punir. Nas ilhas Trobriand o castigo é, em geral, aplicado indiretamente, através da feitiçaria. O chefe tem sempre a seu dispor os melhores feiticeiros do distrito, aos quais ele obviamente também tem de recompensar quando lhe prestam algum serviço. Se alguém o ofende ou comete alguma infração à sua autoridade, o chefe convoca o feiticeiro e ordena que o ofensor seja morto por magia negra. Para alcançar seu objetivo num caso desse tipo, o chefe é poderosamente auxiliado pelo fato de que pode fazê-lo abertamente, de maneira a que todos, inclusive o próprio ofensor, fiquem cientes de que o feiticeiro está ao encalço do culpado. Como os nativos possuem um temor profundo e genuíno pela feitiçaria, a sen- sação de estar sendo perseguido e o fato de se imaginar condenado consti- tuem em si força suficiente para arruiná-lo de vez. É apenas em casos extremos que o chefe aplica diretamente o castigo ao infrator. Ele possui um ou dois ajudantes, cuja posição é hereditária e cuja função é matar aqueles que causaram uma ofensa tão irreparável que a morte é o único castigo suficiente. Na verdade, muito poucos casos desse tipo foram registrados e obviamente o costume está inteiramente suspenso hoje em dia.

A posição do chefe, portanto, pode ser entendida se apreendermos a im- portância enorme da riqueza, a necessidade de pagar por tudo, mesmo por ser- viços que lhe são devidos por direito e que não lhe poderiam ser negados. Mais uma vez, essa riqueza toda lhe vem às mãos através dos parentes de suas espo- sas, e é através de seu direito de praticar a poligamia que ele efetivamente atinge a posição de chefe e exerce o poder.

Paralelamente a este complexo mecanismo de autoridade, o prestígio que lhe é conferido por sua posição hierárquica e o reconhecimento de sua superio- ridade pessoal lhe dão imenso poder, mesmo fora do seu distrito. Com exceção daqueles poucos que estão no mesmo nível hierárquico, nenhum dos nativos de Trobriand mantém-se em posição ereta ao aproximar-se dele o chefe de Oma- rakana. Isso acontece até mesmo nos dias atuais, embora as tribos se encon- trem em fase de desintegração. Onde quer que o chefe se encontre, todos os nativos o consideram como pessoa da mais alta importância, tratam-no com ex- trema consideração e o fazem sentar-se numa plataforma elevada. Naturalmente, o fato de ser o chefe alvo de tantas atenções e tratado como se fosse o déspota supremo, não implica na inexistência de uma perfeita camaradagem e sociabili- dade em suas relações pessoais com seus companheiros e vassalos. Não existe diferença de interesses entre o chefe e seus súditos. Sentam-se todos juntos para conversar e discutir as últimas novidades da aldeia; a única diferença, no caso, é que o chefe se caracteriza sempre por uma atitude de reserva e é sempre mais reticente e diplomático que seus companheiros, embora não menos interessado. A

64 MALINOWSKI

menos que esteja em idade bastante avançada, o chefe participa das danças e até mesmo dos jogos e, de fato, assume a primazia em ambos por direito.

Em nossa tentativa de compreender as condições sociais predominantes entre os trobriandeses e seus vizinhos, devemos sempre ter em mente que sua organização social é, em certos aspectos, altamente complexa e por vezes não bem definida. Além das leis bem definidas, às quais o nativo obedece rigoro- samente, inúmeros costumes estranhos e graduações bastante imprecisas na aplicação de regras, algumas das quais possuem tantas exceções que se tornam obliteradas em vez de confirmadas. A estreita perspectiva social do nativo, que não além do seu próprio distrito, o predomínio de fatos singulares e casos excepcionais, constituem características marcantes da sociologia nativa carac- terísticas essas que, por diversos motivos, não têm sido suficientemente reco- nhecidas. As características principais da chefia às quais nos referimos acima, são, no entanto, suficientes para que tenhamos uma idéia mais ou menos exata da perspectiva social do nativo e do sabor de suas instituições pelo menos o suficiente para que possamos entender o papel desempenhado pelo chefe no Kula. Devemos, porém, até certo ponto complementar essas noções por meio de dados concretos relativos às divisões políticas existentes nas ilhas Trobriand.

O chefe mais importante, como dissemos, é o que reside em Omarakana e governa Kiriwina, o distrito agriculturalmente mais rico e mais importante. Sua família ou subclã (os tabalu) é reconhecida como pertencente à mais alta cate- goria hierárquica do arquipélago. Sua fama se estende por todo o distrito do Kula; a província de Kiriwina inteira adquire prestígio através de seu chefe e seus habitantes observam todos os seus tabus pessoais, o que constitui não dever, mas também uma honra. Próximo ao grande chefe existe um personagem que, embora sob vários pontos de vista seu vassalo, é também seu maior inimigo e rival: o chefe de Kabwaku e governante da província de Tilataula, que reside numa aldeia a aproximadamente duas milhas de distância de Kiriwina. O atual titular de Kabwabu é um velho patife chamado Moliasi. Em épocas passadas costumava haver, de tempos em tempos, guerras entre as duas províncias e cada uma delas podia reunir umas doze aldeias para a luta. Essas guerras não eram nunca muito sangrentas e tinham curta duração; eram, sob vários aspectos, guer- ras de caráter competitivo e desportivo: em contraste com os dobu e os massim do sul, os nativos de Boyowa não praticavam o canibalismo nem a caça de ca- beças. A derrota, porém, era assunto muito série: significava destruição tempo- rária das aldeias do distrito perdedor e exílio de um ou dois anos. Depois disso, realizava-se uma cerimônia de reconciliação, e os dois distritos ajudavam-se mu- tuamente na reconstrução das aldeias. ? O chefe de Tilataula pertence a uma cate- goria hierárquica intermediária e não desfruta de muito prestígio, a não ser dentro de seu próprio distrito, onde possui considerável poder e muita riqueza, sob a forma de alimentos armazenados e objetos cerimonais de valor. Cada uma das aldeias sob a sua jurisdição tem, é claro, seu próprio líder independente que, per- tencendo a uma categoria social inferior, tem apenas poderes locais limitados.

A oeste da grande metade setentrional de Boyowa (ou seja, da ilha principal do grupo Trobriand) localizam-se mais dois distritos que, em épocas anteriores, viviam em fregiientes guerras entre si. Um deles, Kuboma, sob a jurisdição do chefe de Gumilababa, nativo de alta posição social (porém inferior ao chefe de Kiriwina), consiste de umas dez aldeias situadas no interior e é muito importante como centro industrial. Entre suas aldeias destacam-se as de Yalaka, Buduway- laka e Kudukwaykela, onde se prepara a cal utilizada para mascar bétel e onde

» Cf. Professor C. G. Seligman, op. cit., p. 663-668; cf. também o artigo de Malinowski, B., “War and Weapons among the Trobriand Islanders”. publicado em Man, janeiro de 1918.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 65

também são fabricados os potes nos quais os nativos guardam esse material. Os desenhos altamente artísticos, característicos desse potes são especialidade dos nativos dessas aldeias; infelizmente, porém, essa indústria se acha em rápida decadência. Os habitantes de Luya são bastante famosos pela sua fabricação de cestas as melhores da região. Mas, de todas essas aldeias, a mais notável é a de Bwoytalu, cujos habitantes são ao mesmo tempo os mais desprezíveis párias, os mais temidos feiticeiros e os mais hábeis e laboriosos artífices da ilha. Per- tencem a vários subclãs, todos eles originários de localidades vizinhas à sua pró- pria aldeia, próxima da qual, segundo a tradição, o primeiro feiticeiro emergiu do solo na forma de um caranguejo. Esses nativos alimentam-se da carne dos porcos do mato, apanham e comem as arratas, ambos objetos de estritos tabus e verdadeira repugância aos demais habitantes da parte setentrional de Boyowa. Por esse motivo são considerados impuros e desprezados pelos outros. Em épo- cas passadas, eles eram obrigados a curvar-se mais e de maneira mais humilde que qualquer outro nativo diante de uma autoridade. Nenhum homem ou mu- lher associar-se-ia a eles pelo casamento nem manteria com eles uma intriga amorosa. Não obstante, os nativos de Bwoytalu são muito mais habilidosos que quaisquer outros e reconhecidos como tal na arte de gravação em madeira, espe- cialmente na fabricação das maravilhosas travessas redondas, na manufatura de objetos de fibra trançada, na produção de pentes. Fabricam todos esses objetos por atacado, para exportação; seu trabalho não encontra rivais em nenhuma outra aldeia.

As cinco aldeias situadas na costa ocidental da metade setentrional de Boyowa, nas praias da laguna, formam o distrito de Kulamata. Seus habitantes são todos pescadores, mas seus métodos de pesca diferem de aldeia para aldeia. Cada aldeia tem suas próprias áreas de pesca e as explora com métodos pró- prios.” O distrito de Kulumata é bem menos homogêneo que os distritos até agora mencionados. Não possui um chefe supremo e, até mesmo nas guerras, seus habitantes não lutavam do mesmo lado. É impossível, no entanto, entrar- mos aqui em todas essas nuanças e singularidades da organização política.

Na porção meridional de Boyowa, em primeiro lugar a província de Luba, que ocupa, por assim dizer, a cintura da ilha ou seja, o local onde a ilha se torna estreita, formando um longo istmo. Esta parte é governada por um chefe de alta posição social residente em Olivilevi e pertencente à mesma família que o chefe de Omarakana. Esta província sulina surgiu em conseqgiiência de um desmembramento ocorrido mais ou menos três gerações, após uma guerra mal sucedida, quando a tribo inteira de Kiriwina fugiu para o sul (ou seja, para Luba) e viveu durante dois anos numa aldeia provisória. Grande parte dos nativos retornou a Kiriwina mais tarde; mais muitos permaneceram em Luba com o irmão do chefe, fundando então a aldeia de Olivilevi. A aldeia de Wawela, outrora muito grande, conta agora com pouco mais de vinte choupanas. É a única aldeia existente na praia oriental e fica bem próxima do mar e está situada num local muito pitoresco, do qual se pode avistar uma ampla baía de praias muito limpas. Tem grande importância como centro tradicional da astronomia nativa. O calen- dário dos nativos vem sendo organizado em Wawela muitas gerações. Isso significa que algumas das datas mais importantes do ano nativo são fixadas especialmente a do Milamala, o grande festejo anual que sempre se realiza na lua cheia. Walela é também uma das aldeias onde uma outra forma de feitiçaria a das bruxas voadoras encontra seu berço mais importante nas ilhas Trobriand. Com efeito, segundo a crença nativa, esse tipo de feitiçaria tem

30 Cf. o artigo do autor, “Fishing and Fishing Magic in the Trobriands”, publicado em Man, junho de 1918 e também C. G. Selegam, op. cit., pp. 663-668.

06 MALINOWSKI

sede unicamente na porção meridional de Boyowa. É desconhecida entre as mu- lheres nativas do norte, muito embora o campo de operação dessas bruxas do sul abranja Boyowa inteira. Walela faz frente para o leste e está sempre em estreito contato com as aldeias de Kitava e as demais ilhas do grupo Marshall Bennett, com as quais participa da fama de ter muitas mulheres que voam e ma- tam por magia, que se alimentam da carne dos cadáveres e constituem especial ameaça aos navegadores em perigo no mar.

Mais para o sul, na costa oriental da laguna, encontra-se a grande colônia de Sinaketa, que se compõe de aproximadamente seis aldeias, distantes uns cem metros umas das outras, cada uma das quais com seu próprio líder e caracterís- ticas peculiares. Essas aldeias formam, no entanto, uma única comunidade em casos de guerra e para o Kula. Alguns dos líderes de Sinaketa são de alta posi- ção social, outros são plebeus; de maneira geral, porém, tanto o princípio hierár- quico quanto o poder da chefia vão desaparecendo à medida que nos dirigimos para o sul. Além de Sinaketa, mais algumas aldeias, as quais praticam um tipo local do Kula; a elas voltaremos oportunamente. Sinaketa tem destaque especial na descrição que faremos a seguir. A porção sulina é por vezes chamada Kayb- wagina; não constitui, porém, uma unidade política tão bem delimitada quanto os distritos do norte.

Finalmente, ao sul da ilha principal, e dela separada por um estreito canal, encontra-se a ilha de Vakuta, que tem a forma de uma meia-lua e à qual pertencem quatro aldeias pequenas e uma grande. Em época mais ou menos re- cente talvez quatro a seis gerações para ali se dirigiu e ali se esta- beleceu um ramo dos tabalu reais, a família dos chefes de elevada posição social. Seus poderes, no entanto, nunca assumiram em Vakuta nem sequer as propor- ções dos pequenos chefes de Sinaketa. Em Vakuta acha-se em pleno vigor um sistema de governo tipicamente papua-melanésio. Suas aldeias estão sob a juris- dição dos nativos mais velhos da tribo, entre os quais sempre um que conse- gue maior destaque, embora não chegue a exercer poder supremo.

As duas grandes colônias de Sinaketa e Vakuta desempenham papel de enor- me importância no Kula. De todas as comunidades existentes nas ilhas Trobriand, são as duas únicas onde se fabricam os discos de conchas vermelhas. Essa indús- tria, como veremos, está intimamente associada ao Kula. Politicamente, Sinaketa e Vakuta são rivais e, em épocas anteriores, estavam periodicamente em guerra entre si.

Outro distrito que forma uma unidade político-cultural bem delimitada é o da ilha Kayleula, no oeste. Seus habitantes são pescadores, fabricantes de canoas e negociantes, e empreendem grandes expedições as ilhas d'Entrecasteaux oci- dentais. Obtêm nozes do bétel, sagu, artigos de barro e cascos de tartaruga em troca de seus próprios produtos industriais.

Fizemos aqui esta descrição mais ou menos detalhada sobre a chefia e divi- sões políticas a fim de que o leitor possa entender bem as principais instituições políticas nativas, que por sua vez são essenciais ao entendimento do Kula. Todos os aspectos da vida nativa, a religião, a magia, a economia estão inter-relacionadas, mas é realmente a organização social que os fundamenta a todos. Assim sendo, devemos sempre ter em mente o fato de que as ilhas Trobriand formam uma unidade cultural e linguística, têm as mesmas instituições, obedecem às mesmas leis e regulamentos, estão sob a influência das mesmas crenças e convenções. Os distritos em que se subdivide o território Trobriand, enumerados acima, dis- tinguem-se uns dos outros apenas do ponto de vista político, e não do ponto de vista cultural. Em outras palavras, cada um deles possui o mesmo tipo de nativos, embora obedeça ou, pelo menos, reconheça ao seu próprio chefe, tenha

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 67

seus próprios interesses e objetivos, e em caso de guerra cada um se empenhe em sua própria luta.

As diversas comunidades existentes no âmbito de cada distrito são bastante independentes umas das outras. Cada aldeia tem um líder que a representa, seus membros realizam o trabalho da lavoura em conjunto, orientados por seu próprio feiticeiro agrícola; organizam suas próprias festas e cerimônias, pran- teiam seus mortos em comum e realizam, em memória deles, uma série inter- minável de distribuições de alimentos. Em todos os assuntos importantes da tribo ou do distrito, os membros de cada comunidade se mantêm unidos e atuam como um grupo independente dos demais.

VI

Cortando através das divisões políticas e territoriais também a divisão em clãs totêmicos, cada um deles com uma série de totens inter-relacionados, dos quais o principal é um pássaro. *' Os membros destes quatro clãs estão espa- lhados por toda a tribo de Boyowa; em cada comunidade podem-se encontrar representantes dos quatro grupos. Mesmo em cada casa pelo menos dois grupos totêmicos diferentes, visto que o marido precisa pertencer a um grupo diferente do de sua mulher e filhos. Existe uma certa solidariedade entre os membros do mesmo clã baseada num sentimento muito vago de afinidade comu- nal com os pássaros e animais totêmicos, mas principalmente nos diversos deveres sociais, tais como a execução de determinadas cerimônias, especialmente as funerárias, que mantêm unidos os membros de cada clã. A verdadeira solida- riedade, no entanto, existe apenas entre os membros de cada subclã. O subclã é uma divisão local do clã; seus membros reivindicam ascendência comum e, por- tanto, verdadeira identidade de substância corpórea, estando também ligados ao local de onde emergiram seus antepassados. É a esses subclãs que se aplica a noção de categoria hierárquica. Um dos clãs totêmicos, o dos malasi inclui não o subclã mais aristocrático o dos tabalu mas também o de mais baixa posição social a divisão local dos malasi em Bwoytalu. Embora pertença ao mesmo clã dos nativos de Bwoytalu, um chefe tabalu ficará seriamente ofendido se alguém insinuar que os comedores-de-arraia da aldeia impura são seus paren- tes. O princípio da posição hierárquica associada a divisões totêmicas existe apenas na sociologia trobriandesa; é inteiramente desconhecida das demais tribos papua-melanésias.

No que diz respeito ao parentesco, o principal fato que devemos manter em mente é que os nativos são matrilineares e que tanto a sucessão na hierarquia como a participação nos grupos sociais e a herança dos bens materiais são trans- mitidos em linha materna. O tio materno de um menino é considerado seu ver- dadeiro guardião; há, entre tio e sobrinho, uma série de mútuos deveres e obri- gações que estabelece um relacionamento muito estreito e importante entre am- bos. O verdadeiro parentesco, a verdadeira identidade de substância, supõe-se que exista apenas entre o indivíduo e os parentes de sua mãe. Dos parentes de primeira linha, irmãos e irmãs são considerados os mais próximos. No momento em que sua irmã ou irmãs se tornam adultas e se casam, o homem passa a trabalhar para elas. Apesar disso, porém, entre eles existe o tabu mais rigoroso que tem início na infância. Nenhum homem pode gracejar ou falar livremente quando na presença da irmã; nem mesmo lhe é permitido olhar para ela. A menor alusão a assuntos sexuais, ilícitos ou matrimoniais, referentes a um irmão

31 A descoberta da existência de totens “interligados”, bem como a concepção e introdução desse termo, se deve ao Professor C. G. Seligman. Op. cit. pp. 9 e 11; veja também o índice.

68 MALINOWSKI

ou irmã, feita em presença do outro, constitui grave insulto e motivo de grande mortificação. Quando um homem se aproxima de um grupo com os quais sua irmã está conversando, ou a irmã se retira ou ele deve imediatamente afastar-se.

O relacionamento entre pai e filhos é notável. A paternidade fisiológica é desconhecida: não se supõe existir nenhum laço de parentesco entre pai e filho, a não ser aquele entre o marido da mãe e o filho da esposa. Apesar disso, o pai é o amigo mais próximo e afetuoso de seus filhos. Em muitas ocasiões, pude claramente observar que, quando a criança menino ou menina estava doente ou em apuros, ou ainda quando era necessário que alguém se expusesse a algum perigo ou se desse a algum trabalho em benefício da criança, era sem- pre o pai que se preocupava e tomava as devidas providências, nunca o tio materno. Essa regra é claramente reconhecida pelos nativos, que a expõem de maneira explícita. Em questões de herança e transmissão de bens materiais, um homem sempre demonstra tendência a fazer o máximo que pode pelos filhos, levando em consideração seus deveres para com a família de sua irmã.

É muito difícil resumir em apenas uma ou duas sentenças as diferenças existentes entre os dois tipos de relacionamento de um lado, as relações entre pai e filhos; de outro, as relações entre a criança e o seu tio materno. O melhor modo de resumi-las é dizer que o estreito relacionamento entre a criança e seu tio materno é considerado válido por lei e por tradição, enquanto que o inte- resse e afeição do pai pelos filhos são devidos a questões afetivas e ao relacio- namento pessoal mais íntimo existente entre eles. É o pai que os crescer, é ele que auxilia a mulher em muitos dos pequenos e carinhosos cuidados dispen- sados à criança, é ele que carrega os filhos pela aldeia, é ele que lhes proporciona a instrução que obtêm observando os mais velhos no trabalho e aos poucos jun- tando-se a eles. Em questões de herança, o pai aos filhos tudo o que pode e isso ele faz espontaneamente e com prazer. O tio materno sob a compulsão do costume, ao sobrinho aquilo que não lhe é permitido reservar para os seus próprios filhos.

VII

Mais algumas palavras devem ser ditas a respeito de algumas das idéias mágico-religioses dos nativos de Trobriand. De todos os fatos relativos à sua crença no espírito dos mortos, o que mais me impressionou foi o de que esses nativos quase não têm nenhum medo de fantasmas e não experimentam as sen- sações de apreensão que nos são características ao pensarmos numa possível volta dos mortos. Os nativos canalizam todos os seus temores e apreensões à magia negra, às bruxas voadoras, aos seres malévolos causadores de doenças mas, acima de tudo isso, aos feiticeiros e bruxas. Depois da morte, os espí- ritos migram imediatamente para Tuma, ilha situada a noroeste de Boyowa, permanecendo por um novo período de tempo segundo alguns, debaixo do solo, segundo outros, na própria superfície da terra mas sempre invisíveis. Esses espíritos voltam para visitar suas aldeias uma vez por ano e participam, então, do milamala, a grande festa anual em que recebem oferendas. Por vezes, nessa ocasião, eles aparecem aos vivos mas estes não se deixam alarmar por isso. De maneira geral, os espiritos não influem muito nos seres humanos, quer

32 Cf. o artigo do autor: “Baloma, Spirits of the Dead”, parte VII, J.R.A.L., 1917, onde esta afirmação foi substanciada através de ampla evidência. Novas informações obtidas durante outra expedição às ilhas Trobriand estabeleram, com grande riqueza de detalhes, o fato de que entre os nativos existe completa ignorância quanto à paternidade fisiológica.

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 69

para o bem, quer para o mal. * Os espíritos são invocados em inúmeras fórmulas mágicas e recebem oferendas em diversas cerimônias rituais. Mas, em seu meio, nada existe que lembre a mútua colaboração entre o homem e o espírito, caracte- rística essencial do culto religioso em outras culturas.

Por outro lado, a magia, tentativa de controle direto sobre as forças da natureza através de conhecimentos especiais, é fator fundamental que permeia na vida dos nativos das ilhas Trobriand. * Os encantamentos e a magia da lavoura foram mencionados; aqui será suficiente acrescentar que todas as coisas que vitalmente afetam o nativo estão de um modo ou de outro associadas à magia. Todas as atividades econômicas têm sua magia; o amor, o bem-estar dos bebês, o talento, a capacidade do artesão, a beleza e a agilidade, tudo isso pode ser incrementado ou destruído pela magia. Ao analisarmos o Kula empreendi- mento que é de grande importância para os nativos e afeta quase todas as suas paixões sociais e ambições entraremos em contato com um outro sistema mágico; será necessário, então, fornecermos maiores detalhes a respeito desse tema em geral.

Saúde, doença e morte são também resultado da magia ou contramagia. Os habitantes das ilhas Trobriand possuem uma série de pontos de vista teóricos muito complexos e definidos sobre este assunto. A boa saúde, é claro, constitui o estado normal ou natural. Pequenas enfermidades podem ser contraídas por exposição aos elementos, excesso de comida, desgaste de energias físicas, alimentação e outras causas comuns. Tais enfermidades nunca duram muito, não trazem consequências desastrosas e nem chegam a constituir ameaça imediata. Se uma pessoa, porém, adoece por mais tempo e suas forças realmente parecem estar minadas, então forças malignas estão agindo. O tipo mais comum de magia negra é o praticado pelo bwaga'u, o feiticeiro negro, dos quais em cada distrito existem vários. Geralmente até mesmo em cada aldeia uma ou duas pessoas mais ou menos temidas como bwaga'u. Para se tornar bwaga'u, não é preciso nenhuma iniciação especial, a não ser o conhecimento de alguns feitiços. Para aprendê-los isto é, para aprendê-los de modo a ser reconhecido como bwaga'u é necessário um pagamento muito alto ou circunstâncias excepcionais. Dessa maneira, um pai pode “dar” sua feitiçaria a seu filho e, neste caso, nunca exige pagamento; pode acontecer também que esses conhecimentos sejam passados de um plebeu a um homem de alta posição social, ou ainda de um nativo ao filho de sua irmã. Nestes dois últimos casos é que se torna obrigatório um pagamento elevado. É uma característica interessante das condições de parentesco deste povo que uma pessoa receba gratuitamente estes conhecimentos de feitiçaria de seu pai, com o qual, de acordo com o sistema tradicional de parentesco, não tem nenhuma relação de consanguinidade, mas tem que pagar por eles quando os recebe do tio materno, de quem é herdeiro natural.

Quando um nativo aprende a arte da magia negra, sua primeira vítima deve ser sempre um membro de sua própria família. Todos os nativos crêem firme- mente que os feitiços para serem verdadeiramente bons, devem ser praticados primeiro na mãe ou irmã, ou em qualquer um dos parentes maternos. Esse ato de matricídio faz de um homem um autêntico bwaga'u. Sua arte então pode ser praticada em outras pessoas e se torna, inclusive, uma organizada fonte de renda.

33 Cf. o artigo do autor: “Baloma, Spirits of the Dead”, mencionado.

2 Uso as palavras relígião e magia segundo a definição de Sir James Frazer (veja Golden Bough, vol. 1). De todas as definições dadas a essas palavras, a de Frazer é a que melhor se adapta aos fatos relativos a Kiriwina. Embora ao começar minha pesquisa de campo eu estivesse convicto de que as teorias sobre religião e magia expostas no livro Golden Bough eram inadequadas, minha observação dos fatos na Nova Guiné forçou-me a adotar o ponto de vista de Frazer.

10 MALINOWSKI

As crenças relativas à feitiçaria são bastante complexas e variam conforme sejam obtidas de um autêntico feiticeiro, ou de uma pessoa qualquer. Evidente- mente, também diferenças nos tipos de crenças, devidas a diferenças locais, ou à sobreposição de interpretações. Para o presente estudo, um pequeno resumo será o bastante.

Quando um feiticeiro deseja atacar alguém, primeiro lança um feitiço sobre os lugares habitualmente freguentados pela vítima. O feitiço afeta a vítima de modo a causar-lhe uma ligeira indisposição, forçando-a a ficar de cama, em sua própria casa. O doente procura curar-se, acendendo uma pequena fogueira sob sua cama e mantendo o corpo aquecido. Essas primeiras indisposições, que rece- bem o nome de kaynagola, consistem em dores pelo corpo dores como as que, do nosso ponto de vista, são causadas por reumatismo, resfriado, gripe, ou qualquer enfermidade incipiente. Quando a vítima está de cama, com o fogo a aquecê-lo (em geral, também uma outra fogueira acesa no centro da cabana), o bwaga'u aproxima-se furtivamente da casa. Vem acompanhado de pássaros no- turnos, corujas e gaviões que lhe mantêm guarda, está envolto numa auréola de terrores legendários que fazem tremer aos nativos todos ao pensarem que poderão ver-se face a face com um feiticeiro numa dessas visitas noturnas. O feiticeiro, então, enfia pelas paredes de sapé um punhado de ervas atadas à extremidade de uma vara e impregnadas de algum feitiço mortal; tenta, com isso, alcançar a pequena fogueira que se acha sob a cama da vítima. Se ele conse- guir que as ervas atinjam o fogo, a fumaça que então irá produzir-se será ina- lada pela vítima, cujo nome o feiticeiro proferiu sobre o feitiço. A vítima então contrai uma ou outra das muitas doenças fatais catalogadas pelos nativos, cada uma delas caracterizada por uma sintomatologia própria e uma etiologia mágica. O feitiço preliminar é necessário para forçar a vítima a recolher-se à sua própria cabana, único lugar onde a magia mortal pode ser executada.

Logicamente, o doente também se conserva na defensiva. Antes de mais nada, seus amigos e parentes mantêm vigília constante, sentando-se ao redor da cabana e em todos os caminhos de acesso a ela, empunhando lanças. Isto, a propósito, é uma das principais obrigações dos irmãos da esposa da vítima. An- dando tarde da noite pela aldeia, várias vezes eu pude observar os nativos em tais vigílias. Os parentes e amigos da vítima recorrem também aos serviços de um bwaga'u rival pois as artes de matar e curar são praticadas pelas mesmas pessoas. O novo bwaga'u profere contrafeitiços, conseguindo assim, às vezes, anular os efeitos do feitiço lançado pelo outro, mesmo que este tenha queimado as ervas através do temido ritual conhecido pelo nome de toginivayu.

Se a contramagia certo e o doente apresenta melhora, o primeiro bwaga'u, então, lança mão de seu último e mais fatal feitiço o apontar do osso. Profe- rindo feitiços poderosos, ele e mais um ou dois cúmplices fervem óleo de coco num pequeno pote, longe da aldeia, nalgum lugar mais denso da selva. As folhas de determinadas ervas são postas de molho no óleo e, em seguida, amarradas em volta da espinha de uma arraia ou qualquer outro objeto pontiagudo. O feiticeiro então profere sobre isso o encanto mais mortal. Voltando à aldeia às escondidas, ele procura localizar a vítima e, oculto atrás de uma casa ou arbusto, aponta em sua direção o osso encantado, esfaqueando o ar, com maldade, como se esti- vesse apunhalando a vítima e forçando o punhal de um lado para outro na ferida supostamente produzida. Se for executado adequadamente e não houver anulação de seus efeitos por um feiticeiro ainda mais poderoso, esse feitiço nunca falha.

Aqui temos, então, um resumo superficial da magia negra no que se refere a sua aplicação como força geradora de doença e morte, segundo a crença tanto dos feiticeiros quanto dos demais nativos. Não dúvida de que atos de magia

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 71

negra são efetivamente executados por homens que acreditam possuir poderes para isso. Não restam dúvidas, também, de que o medo e o nervosismo do nativo que sua vida ameaçada por um bwaga'u são incontroláveis; e ainda piores quando ele sabe que o feiticeiro está sendo apoiado pelo poder do chefe. A força da sugestão contribui eficazmente para o êxito da magia negra. Por outro lado, quando a vítima é o próprio chefe, muitos nativos para manter guarda e o proteger; os feiticeiros mais poderosos são também chamados para ajudá-lo. O chefe, além disso, tem autoridade suficiente para tratar diretamente com a pessoa sobre a qual recaem todas as suspeitas de conspiração contra ele. Dessa maneira a feitiçaria, que constitui um dos meios utilizados para manter a ordem estabelecida, é também por ela reforçada.

Se nos lembrarmos de que, como em toda a crença no sobrenatural, também aqui a possibilidade de se aplicarem forças antídotas; se nos lembrarmos de que também casos em que a feitiçaria é aplicada de maneira ineficaz ou incorreta ou, então, inutilizada pela não-observação de certos tabus ou por fór- mulas mal pronunciadas; se nos lembrarmos de que a auto-sugestão é uma força de extraordinária influência sobre a vítima, cuja resistência natural fica reduzida a nada; e se nos lembrarmos ainda de que, segundo a crença nativa, toda e qual- quer enfermidade está, em origem, ligada aos atos de algum feiticeiro, que fre- guentemente admite sua própria responsabilidade no caso, de modo a reafirmar sua reputação como agente de forças malignas não teremos, então, dificuldade de entender os motivos pelos quais floresce a crença na magia negra, porque nenhuma evidência empírica pode dissipá-la e porque o feiticeiro tem, como a vítima, plena confiança em seus próprios poderes. A dificuldade é pelo menos a mesma que existe quando tentamos explicar os resultados de curas e milagres que, através da fé, da oração e devoção, se verificam até nos dias atuais, como por exemplo os da Ciência Cristã e os de Lourdes.

Dentre os seres que podem ocasionar doenças e mortes, o bwaga'u é evi- dentemente o mais importante, mas não o único. As bruxas voadoras, a que nos referimos várias vezes e que, segundo a crença nativa, são sempre prove- nientes da porção meridional da ilha ou, então, do leste (i. e., das ilhas de Kitava, Iwa, Gava e Murua) são ainda mais fatídicas. Todas as enfermidades rápidas e violentas especialmente aquelas que não apresentam sintomas diretos ou facilmente perceptíveis são atribuídas às bruxas voadoras, que recebem o nome de mulukwausi. Invisíveis, elas voam através dos ares e pousam em árvores, nos telhados das choupanas e em outros lugares elevados. Do alto elas se lançam sobre sua vítima homem ou mulher -—— e removem os pulmões, o coração e as entranhas ou, então, o cérebro e a língua, escondendo-os. A vítima de uma bruxa morre no espaço de um ou dois dias, a menos que outra bruxa, chamada para essa finalidade e bem paga, saia à procura das vísceras e as restitua ao dono. Muitas vezes um auxílio desse tipo não chega a tempo, pois nesse ínterim as vísceras foram totalmente devoradas! A vítima, então, deve necessaria- mente morrer.

Outros poderosos agentes da morte são os tauva'u, seres antropomórficos mas não humanos, causadores de doenças epidêmicas. Quando, no fim da esta- ção das chuvas, o inhame verde ou não maduro é ingerido pelos nativos e a disenteria assola aldeias inteiras, exterminando-as; ou quando, nas épocas de intenso calor e umidade uma doença infecciosa devasta os distritos causando inúmeras mortes as doenças e a morte são então atribuídas ao tauva'u. Pro- venientes do sul, os tauva'u marcham pelas aldeias, chocalhando suas cabaças, atacando suas vítimas com porretes e varas e fazendo com que adoeçam imedia- tamente e morram. Os tauva'u podem assumir a forma humana, ou então a de um réptil cobra, caranguejo ou lagarto. Na forma desses répteis, os tauva'u

n2 MALINOWSKI

podem ser reconhecidos facilmente, pois não fogem ante a aproximação humana e geralmente têm, além disso, alguma marca de cores vivas na pele. Seria fatal matar quaisquer desses répteis; ao contrário deven: ser apanhados cautelosamente e tratados como um chefe: devem ser colocados sobre uma plataforma elevada; à sua frente são depositadas, como oferendas, objetos valiosos tais como lâminas de pedra verde polida, pares de braceletes de concha ou colares de pequenos discos feitos da concha do spondylus.

Um fato interessante e digno de nota: segundo a crença nativa, os tauva'u são provenientes do litoral norte da ilha de Normanby, do distrito de Du'a'u e es- pecialmente de uma localidade chamada Sewatupa. Ora, este é o exato local onde, de acordo com a crença e os mitos dobu, sua feitiçaria se originou. Dessa forma, aquilo que para as tribos locais não passa de uma feitiçaria corriqueira, prati- cada por homens, transforma-se em algo sobrenatural para as outras tribos algo com poderes sobre-humanos, capaz de mudar de forma, tornar-se invisível] e infligir a morte de maneira direta e infalível.

Os tauva'u têm, por vezes, relações sexuais com as mulheres. Vários casos assim se têm registrado nas aldeias. A mulher que entra em relações sexuais com um tauva'u torna-se também perigosa feiticeira; os nativos, porém, não sabem explicar de que maneira elas praticam seus feitiços.

Um ser bem menos perigoso é o tokway, duende da selva que vive nas árvores e rochedos e rouba plantas da lavoura, penetra nos celeiros para furtar os inhames e causa pequenas enfermidades nas pessoas. Alguns nativos apren- deram no passado a fazer todas essas coisas com os tokway e passaram seus conhecimentos a seus descendentes.

Vemos então que, com exceção das pequenas enfermidades que se curam com facilidade e rapidez, toda e qualquer doença é atribuída à ação da feitiçaria. Segundo os nativos, a ela se devem até mesmo os acidentes. É o caso, por exemplo, dos afogamentos; mas iremos entrar em maiores detalhes desse assunto quando tratarmos das viagens marítimas empreendidas pelos habitantes das ilhas Trobriand. A morte natural por velhice é considerada possível; quando, porém, em vários casos concretos cuja causa era obviamente a senilidade, indaguei dos nativos por que determinada pessoa havia morrido, eles sempre me responderam que, por trás disso, havia um bwaga'u. Apenas o suicídio e a morte em batalha ocupam posição diferente no pensamento dos nativos e isso se confirma também pela sua crença de que o espírito daqueles que cometem suicídio, dos que são mortos em batalha e o daqueles que morrem por ação de feitiços, têm, cada um, seu próprio caminho para o mundo do além.

É suficiente este esboço da vida nativa em Trobriand, das crenças e costu- mes ali existentes. Oportunamente faremos novas considerações sobre os tópicos de maior interesse para nosso presente estudo.

VII

a mencionar ainda dois distritos pertencentes ao circuito do Kula e os quais devemos percorrer antes de voltar ao nosso ponto de partida. Um deles é a porção oriental dos massim setentrionais, que abrange as ilhas Marshall Bennett (Kitava, Iwa, Gawa e Kwayawata) e a ilha de Woodlark (Murua) com o pequeno grupo de ilhas conhecidas pelo nome de Nada. O outro distrito é o da ilha de San- to Aignan, a que os nativos chamam de Masima ou Misima, com a ilha menor chamada Panayati.

Da porção mais estreita das praias rochosas de Boyowa podemos avistar, por sobre as ondas brancas que se quebram na orla de recifes e por sobre o mar (que nessa região é sempre muito azul e límpido), a silhueta de um rochedo acha-

ARGONAUTAS DO PACÍFICO OCIDENTAL 73

tado e baixo, apontando diretamente para o leste. É a ilha de Kitava. Para os nativos dos distritos orientais de Trobriand, essa ilha, bem como as ilhas situa- das atrás dela, são a terra prometida do Kula, assim como Dobu é a terra pro- metida do Kula para os nativos de Boyowa do sul. Mas, ao contrário do que ocorre com os nativos do sul, os de Kitava falam a mesma língua que os tro- briandeses, com apenas diferenciações dialetais. Suas instituições e costumes tam- bém são os mesmos. Com efeito, Kitava, a ilha mais próxima, pouco difere das ilhas Trobriand. Sua organização social é também muito parecida com a da pro- víncia ocidental, embora nas ilhas mais afastadas especialmente em Murua —., exista uma forma ligeiramente diferente de totemismo: a noção de hierar- quia não está associada aos subclãs e, em conseqiência disso, não chefia no sentido trobriandês. * Conheço os nativos de Kitava apenas de vista; vi-os várias vezes nas ilhas Trobriand e em grande número; iam áquelas paragens em suas expedições kula. Em Murua, entretanto, passei um pequeno período de tempo, realizando pesquisas de campo na aldeia de Dikoyas. Na aparência física, no modo de se comportarem, vestirem e enfeitarem, esses nativos são idênticos aos de Trobriand. Suas idéias e costumes referentes a sexo, casamento e questões de parentesco são as mesmas que encontramos em Boyowa, com apenas algumas diferenças de detalhe. Em questões de mitologia e nas crenças, os nativos de Kitava e de Trobriand também pertencem à mesma cultura.

Para os nativos de Trobriand, as ilhas do leste são também sede principal e fortaleza das temíveis mulukwasi, as bruxas voadoras. São a terra de onde pro- vém a magia do amor, especificamente originária da ilha de Iwa. São a terra longínqua para onde o herói mítico Tudava navegou realizando numerosos feitos, e por fim desapareceu, ninguém sabe exatamente onde. A versão mais recente é a de que ele provavelmente encerrou sua jornada em terras do homem branco. Segundo a crença, é para essas ilhas do leste que os espíritos dos nativos mortos por feitiçaria se dirigem; permanecem, no entanto, apenas por um curto espaço de tempo, flutuando no ar, como nuvens, antes de se dirigirem para o noroeste ou seja, para Tuma.

Muitos produtos importantes são transportados dessas ilhas para Boyowa (ilhas Trobriand). Desses produtos, o de maior importância é a pedra verde, dura e homogênea da qual outrora se faziam todos os seus implementos e da qual, no presente, se fazem ainda os machados cerimoniais. Algumas dessas loca- lidades são famosas pelas suas roças de inhame especialmente Kitava. Reco- nhece-se, também, que de provêm as melhores esculturas feitas em ébano. A diferença mais importante entre esses nativos e os de Trobriand é a que se refere às distribuições realizadas por ocasião das cerimônias mortuárias. Essas distribuições são importantes e estão intimamente associadas ao Kula; a elas deve- remos voltar oportunamente.

De Murua (ilha de Woodlark), o itinerário das expedições do Kula se volta para o sul, ramificando-se em dois um voltado diretamente para Tubetube, o outro para Misima e daí para Tubetube e Wari. Quase não conheço o distrito de Misima conversei com os nativos dessa ilha apenas uma ou duas vezes; não também, que seja do meu conhecimento, nenhuma publicação digna de a respeito desse distrito. Portanto, pouco podemos dizer sobre ele. Isso, no entanto, não chega a constituir grave defeito, pois, apesar do pouco que co- nheço sobre esses nativos, posso afirmar com certeza que, em essência, eles têm as mesmas características que os outros massim. São totêmicos e matrilineares;

35 Cf. Professor C. G. Seligman, op. cit. que apresenta uma descrição paralela das institui- ções sociais existentes nas ilhas Trobriand, Marshall Bennett, Loughland e Woodlark. capí- tulos XLIX-LV.

74 MALINOWSKI

não possuem chefe, e a autoridade é exercida de forma idêntica a dos massim do sul. Seus feiticeiros e bruxas são semelhantes aos dos massim do sul e nativos de Dobu. Especializam-se na construção de canoas e na pequena ilha de Panayati constroem o mesmo tipo de embarcações que os nativos de Gawa e da ilha de Woodlark, ligeiramente diferentes das canoas fabricadas pelos nativos de Tro- briand. Na ilha de Misima enormes suprimentos de nozes de areca ou bétel que, por tradição e costume, são plantadas em grandes quantidades por ocasião da morte dos membros da tribo.

As pequenas ilhas de Tubetube e Wari, que constituem o último elo do Kula, estão localizadas no âmbito territorial do distrito massim do sul. Com efeito, a ilha de Tubetube é uma das localidades minuciosamente estudadas pelo Pro- fessor Seligman. Seus estudos sobre essa ilha formam uma das três monografias etnográficas que, na sua obra tão freqiientemente citada, abrangem a zona massim do sul.

Desejo, por fim, salientar mais uma vez o fato de que as descrições que fizemos no presente capítulo e no capítulo anterior, embora exatas em todos os seus detalhes, não são de forma alguma exaustivas como esboço etnográfico. Eu as apresentei aqui de modo a fornecer ao leitor uma impressão vívida e, por assim dizer, pessoal, a respeito dos vários tipos nativos, sua terra e suas culturas. Se fui bem sucedido em dotar cada uma das tribos a das ilhas Trobriand, a das ilhas Amphlett, de Dobu e os massim do sul com uma fisionomia própria, e se com isso pude despertar o interesse do leitor, está alcançado meu objetivo principal nestes dois capítulos e lançado o necessário background etnográfico para os nossos estudos sobre o Kula.

CAPÍTULO III

Características essenciais do Kula

Feita a descrição do cenário e dos atores, passemos ao espetáculo em si. O Kula é uma forma de troca e tem caráter intertribal bastante amplo; é praticado por comunidades localizadas num extenso círculo de ilhas que formam um cir- cuito fechado. Esse circuito aparece no mapa V, representado pelas linhas que unem uma ilha à outra ao norte e ao leste do extremo oriental